NOITE  SEM  TI
(outra noite sem ti ...)


"Faz da tua dor um
Poema" – Goethe                          


Ando a esgatanhar a noite
com dedos gastos nas feridas
que supuram nas ruínas
desta procura de tudo ...

E em tudo isto misturo
teus olhos adormecidos
indiferentes ao conteúdo
que se esvai das minha mãos
e é toda a tragédia mole
de procurar por aí
em horas de gritos roucos
a coerente ternura
de possuir toda a gente
neste esqueleto dorido.

Gritos de ferir a noite,
de acusá-la do fracasso
que se enrola na garganta
como cancros já antigos.

Dedos sujos de fingir,
Gritos malditos de querer
tocar na pele dos sorrisos
e nos lábios inquietos
de tanta mulher dispersa.

É talvez tudo loucura
neste poema sem ti,
Por que não estás nesta noite
e a dor é demasiada ...

Eis um poema cruel
que dói o ódio de existir
em noites de blasfémia
contra sentimentos podres
de sexo, tédio, e a amargura
de estares do lado da ponte
que fecha no pôr-do-sol
e deixa a ranger na noite
a certeza de que dormes
esperanças e amanhãs.

E eu, só, me enrolo na noite
em túnicas absolutas
e capuzes cor de bruma;
rígida a boca no frio,
olhos a velar ausência
no desespero de saber
que já nunca terei olhos
para alcançar horizontes
que vão além destes versos.

Para ti ainda há caminho
e sangue vivo, consentindo
latitudes virginais,
desejos desconhecidos,
noites enormes sem horas.

Mas a mim o corpo dói-me
pecados
(nem sei quais são ... ),
torpes espasmos, cansadas garras
de agarrar seios como afogados,
tábuas fugidias de salvação,
portas abertas que se fecharam,
tudo me dói
como navalhas no coração,
visco, cabelos
de coisas mortas
em cada mão.

Ri-me velhice nos dentes
Escorbutos e dores esquisitas…

Nesta noite de sentença,
"Marginal" húmida,
luzes mortiças,
acenando prazer
no "Calhambeque",
bâton "Lancôme"…
e nenhuma daquelas túnicas
de seda vermelha é tua
frente ao Hotel Universo
- já são três da manhã ...

E tu distante,
comodamente quentinha
na madrugada de “cacimbo”
e eu  a gritar, rouco, com dedos gastos
esgatanhando a noite indiferente,
a noite sem ti!

                                          
LUANDA/1971

Do livro “MEMÓRIAS DO AMOR IMPOSSÍVEL”
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