CENTRAL
DE QUADRINHOS BRASILEIROS - ENTREVISTA 2
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4- E abaixo: "O
Verdadeiro Herói Nunca desiste!" Arte impressionante de Nel. Além da
semelhança entre o Gedeone do desenho com o da vida real, o quarto é igual,
e explica o fenômeno que muitos artistas sentiram recentemente: a sensação
de que o próprio Raio Negro estava por perto! |
Entrevista com Gedeone Malagola,
É com muito orgulho e prazer que a CQB apresenta uma
entrevista com a lenda-viva do Quadrinho Brasileiro, o mestre da arte e dos
roteiros Gedeone Malagola. O visitei em sua casa em Jundiaí, interior de São
Paulo em fevereiro de 2006. Com o seu inconfundível óculos de lentes e aros
grossos, o mesmo dos tempos do Capitão Op-Art, apesar do acidente que o
impossibilitou de andar, está com as idéias lúcidas e ainda faz planos quando o
assunto é quadrinhos! Sobre o acidente, foi provocado por uma cachorrinha sua de
estimação, que brincando o derrubou da escada. Essas e outras histórias me
contou o Gedeone na agradável tarde de sexta-feira que passei na sua casa.
(Rod Gonzalez)
R - Qual
a mais recente hq que desenhou?
G - A mais recente mesmo foi do Raio Negro. É inédita.
R
- Quantas páginas?
G - Umas 50 páginas.
R
- Por quantos anos conseguiu publicar periiodicamente o Raio Negro?
G - Aí fica complicado. Foram 16 números. Talvez 4 anos.
R
- Houve algum personagem que atingiu algo parecido em volumes de publicação?
G - O Homem-Lua. A turma gostava muito.
R
- Quais os materiais mais utilizadas pelo sr. pra confeccionar uma hq?
G - Uma surpresa agora! Não uso nem pincel nem tinta nanquim. Eu uso a caneta
paper-mate. Uma mais grossa, outra mais fina. A papermate tem um problema, é que
não pode molhar. Se molha, estraga. Então quando eu erro, colo em cima uma
etiqueta e acerto o desenho.
R
- Quantos personagens Gedeone Malagola têmm?
G - Ah, perdi a conta. Comecei a contar um dia desses, mas são 50 anos
desenhando. São muitos....
R
- Possui alguma hq do Raio Negro na qual ppoderíamos publicar na CQB ? Pode ser
de poucas páginas.
G - Eu tenho uma inédita aí, mas são 50 páginas. Só desenho. Tem um colega que
vai lançar aí. Se vocês fizerem uma...
R
- O que o sr. acha da Velta?>
G - Eu gosto muito!
R
- Quem são os filhos do Raio Negro, quandoo o sr. os criou?
G – Depois, na segunda fase do Raio Negro, eu já fiz ele casado com dois filhos,
um casal. Não foi publicada. É inédita. Provavelmente, vai ser publicada. Mas eu
vou dizer uma coisa, eu nem sei onde está essa história!
R
- Essa história tem que ser resgata urgenttemente.
G - Com o meu acidente, eu nem sei onde essa história foi parar. Não sei se está
lá por baixo...
R
- É verdade que antes do Batman ter uma hiistória aos 50 anos, o sr. já tinha
escrito uma história em que depois de se aposentar o Raio Negro voltava a
combater o crime?
G - Fiz isso, sim. É essa história. Ele esta aposentado e é dono de uma
companhia de táxi-aereo. O Raio Negro está na casa dele e vem um personagem do
futuro na sua casa, vestido de Raio Negro, e o leva para o futuro, para combater
um bandido que já tinha destruído o Brasil.
R - Na CQB divulgamos a existência das máfias editoriais. Os incrédulos ou
oportunistas nos chamam de loucos, para que não nos escutem. O sr. sabe alguma
informação sobre as máfias editoriais e de distribuidoras de revistas que
proíbem os quadrinhos brasileiros de chegarem as bancas?
G - A Máfia? Sei! A única distribuidora, e vou dizer única, é a da Abril, a
DINAP. Era do Chinaglia antes, e a Abril também comprou. Então, não há outra
editora. São só eles. O Chinaglia ainda pegava editoras pequenas, a Abril não,
quer só grandes tiragens. Se você fizer pequena, eles não distribuem, como
fizeram com Paulinho Hamasaki. Ele tinha feito uma revista, e aí eles chegaram
para o Hamasaki e disseram:
“Olha, isso não vai vender.
Faça 50 mil.”
Hamasaki entregou as 50 mil, e voltaram 49 mil. Ele foi a falência!! Os
fiscais da Abril, da Dinap, chegam nas bancas de quadrinhos e falam:
"Tira
isso daí. Tira isso daí"!
O Aizen também
fazia isso:
"Tira o brasileiro. Põe o
meu, aí".
Eles são maiores, então o jornaleiro concorda! Houve um amigo meu que já
morreu do coração por causa desse tipo de coisa. Foi o Salvador Bentivegna. Um
editor muito camarada, muito bom, e o irmão dele – o João - detestava gibis,
então havia briga dos dois. E o Salvador era muito gozador, vivia fazendo piadas
com os outros. E ele fazia uma coisa mais, pagava do bolso dele quando não tinha
dinheiro na empresa. Ele tinha amor pelos quadrinhos mesmo. Uma coisa curiosa.
Um dia, numa tarde, encontrei o Salvador na distribuidora. Conversamos, batemos
um papo, e achei ele meio esquisito. Aí, ele foi para casa. No outro dia, me
telefonaram. Salvador havia morrido!
R - Porque as pessoas gostam tanto do Raio Negro ? Qual o segredo dele?
G - O segredo dele, segundo Franco de Rosa: é brasileiro, assunto brasileiro e
cenário brasileiro. É tudo nosso.
R - Porque o sr. não processou a Marvel quando ela plagiou o Homem-Lua?
G - Não adianta. Ia perder meu tempo.
R - Tem um amigo meu da CQB, o Bruno, que acha que o Raio Negro ganhou vida
própria, e disse que o personagem quer a voltar ação e ser visto e desenhado
novamente de qualquer jeito. Ele sente a presença dele. Eu também sinto, e
muitos andam desenhando ele. O sr. acredita nessa história?
G - (risos) Mais ou menos. Eu gostaria de desenhar o Raio Negro, mas a minha
situação está muito ruim. Não posso nem sentar mais. A minha quinta operação e a
sexta (que eu fiz em seguida), em setembro e outubro, acabaram comigo. Antes, eu
saia para cadeira de rodas e desenhava aqui (aponta a escrivaninha). Essa quinta
e sexta operações no prazo de um mês, me abateram demais. Emagreci, perdi peso,
não consigo mais sair da cama...
R - O sr, possui algum desenho original ? Pode ser rascunho ou exercício que o
sr. fazia num papel pra presentear a gente da CQB?
G - Eu tenho um pedaço de história que eu comecei e depois eu refiz pra revista
Heavy Metal. Tenho só uma página aqui. Essa história eu comecei e tinha 20
páginas. Eles só queriam 10, e eu refiz a história em 10. Nesse tempo eu
desenhava grande.
R - A Patrulha do Espaço, Capitão Astral, Radite... o sr. ainda tem alguma coisa
deles?
G - Não tem, e você nem vai achar. Saíam na revista "Ciência Ilustrada". O
pessoal mandava tudo pro ferro-velho... Aquilo foi meu começo nos quadrinhos.
Foram poucas histórias. Naquele tempo, nem tinha técnica de desenho. Nem sabia
direito como fazer os quadrinhos. Uma coisa curiosa, que nenhum desenhista
brasileiro sabia fazer quadrinhos, essa é a verdade. Alguns aprenderam na raça.
Álvaro de Moya, que é muito meu amigo até hoje, escreveu pro Milton Cannif
perguntando como fazia quadrinhos. E o Milton Cannif explicou pra ele. Aí depois
eu escrevi pro Milton Cannif perguntando como fazia quadrinhos, e ele me
explicou detalhadamente. Faz no tamanho grande. Tem a redução, a letra, isso,
aquilo... Uma coisa que ele me ensinou que eu faço até hoje, e ninguém aqui faz,
eu primeiro escrevo a história e vem depois os desenhos. E o Milton Cannif
também, fazia os balões e fechava. E o pessoal faz o contrário e estraga o
desenho. Pode ver que aqui não tem nenhum balão estragando o desenho.
G - Esse "R" sabe o que é (aponta o "R" no desenho do Raio Negro, reproduzido
aqui)? Retícula. Sabe como se coloca retícula?
R - Não sei.
G - Eu aprendi com o Emir Ribeiro. A gente recorta aqui, mas em branco e cola
atrás o papel pontilhado. Porque para você comprar aquela retícula de filme, em
libras, é muito caro, não dá para comprar. Então, se compra uma folha e faz
xeróx dela, e usa a xérox atrás. Recorta o papel, tira fora, e põe.
R - Com certeza, Isso é uma dica que o pessoal precisava saber. Tão Simples, e o
pessoal não sabe! E esse método alternativo foi criado pelo Emir Ribeiro.
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