| LITERATURA por Luiz Horácio |
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| A TORRE DE BABEL - QUASE 600 PÁGINAS INVISÍVEIS "Sempre perseguido / o grilo fica tranqüilo / cantando escondido. (O poeta)" Luiz Bacellar Poesia é um paciente em estado desesperador, esperanças mínimas de uma sobrevida mais ou menos digna, enquanto a quimioterapia salvadora luta incessantemente na tentativa de salvar o paciente que tão nobres serviços prestou mundo afora, traiçoeiros vermes agem entrincheirados em constrangedores encontros poéticos. O sangue não se renova na proporção exigida pelos vermes que se multiplicam como vermes. O que ocorre aqui no Rio não deve ser exceção num país que despreza a literatura e não faz distinção entre poesia e rima. Editoras que se locupletam avalisando livros de bobos alegres sem talento que acreditam na estultice que alardeia que todo homem deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Aconselho a seguir apostólicamente apenas a primeira sugestão. Infelizmente em muitos casos essa é a única saída mas no caso da poesia tal saída tem que ser lacrada. É uma ofensa a falta de qualidade. E esse pessoal geralmente brota e se multiplica em encontros poéticos do nível( baixo) de um Casarão Hermê, do Sarau João do Rio, do Panorama da Palavra, Ver o Verso, Ponte de Versos e tantos outros. Alguns conseguem chegar ao programa do Jô e pronto. Estão recompensados. Tem de tudo, menos poesia.Em tais reuniões quanto menos talentoso mais performático é o "poeta" condenando o poema a mero coadjuvante do macaquinho sub-letrado.A sobrevivência literária de tais tipos passa pela leitura obrigatória de um singelo e "imprescindível" livrinho: "coleção como funciona- A POESIA- Antônio Paulo Graça - ed.VALER - Manaus - AM - 1999. Um exemplo de constrangedora falta de talento: "ninguém pergunta/o nome da minha dor. / Quem sabe a diferença / do vento que me reinventa / Quem sabe o rio / que entrou no meu corpo / e nunca mais me deixou?" ou "eu sou um apóstolo da emoção / e amei como quem compra carros." É ou não é caso para transplante? De cérebro. Infelizmente a unidade onde tais vermes se propagam é a menos fiscalizada, não há rigor e a temperatura alta resultante da combinação das luzes da superficialidade com um suspeito bom relacionamento com a mídia desprestigiada e órfã de critérios condena à penumbra bálsamos como Luíz Augusto Cassas, César Leal, Florisvaldo Matos, Luís Bacellar, Aníbal Beça, Rachel Naveira, Gabriel Nascente e outros, uma meia dúzia no máximo. Gabriel Nascente é um goiano de 50 anos com 30 livros de poesia publicados, uma novela, um de entrevistas literárias, um romance e uma seleção de estudos poéticos sobre sua obra organizada pelo Prof. Manuel de Jesus Oliveira. Seu livro mais recente " A TORRE DE BABEL"- editora Kelps- Goiânia 2000 um denso volume de quase 600 páginas não inclui a "superficialidade" exigida para merecer a atenção da crítica.De excelente qualidade , não maculou as páginas dos nossos grandes jornais. Em compensação.... A TORRE DE BABEL traz 4 livros: "Livro I - Fardos, Livro II - As Almas na Vitrine, Livro III - Dardos, Livro IV-O Cálice Oculto (poemas bíblicos) e os Excertos do Paraíso Perdido. Gabriel apresenta uma poética diversificada, consegue ser doce sem ser piegas e vigoroso, por vezes agressivo sem deixar de ser brando, complexo e ao mesmo tempo límpido. O que para muitos constitui problemas para o poeta goiano acaba acentuando suas qualidades. Gabriel exercita a realidade em seus versos em detrimento dos devaneios alienantes, provoca a reflexão não pelo que poderia ser, o mundo idealizado dos maus poetas, mas pela análise do presente. ORAÇÃO AO VENTO Ajuda-me, Vento, a varrer a iniqüidade. Valho-me de ti, senhor Vento, para dragarmos juntos os furúnculos da miséria que enfermizam a terra. Raios fúmeos aniquilam a ternura. Vento, limpa a tristeza deste mundo, limpa! A poesia de Gabriel se apresenta para o incauto como algo um tanto quanto ingênuo. Nem tanto, nem tanto! Em alguns poemas fica nítida a crença principal do poeta: no suposto poder que a poesia teria de transformação ou até salvação. Com o que discordo. PINTANDO DE AMARELO OS LÁBIOS DO POENTE O sol, a casa, a poesia e a vida: há uma hora no universo em que tudo pede um verso. Ó, lábios do poente, tão inflados de amarelo! A poesia te manda um beijo. Até em poemas menores como este acima fica evidente o talento do poeta pois consegue misturar de forma homogênea água e óleo, ou seja, arrogância e humildade. Gabriel é aparentado poético do Maranhense Luís Augusto Cassas, é comum a ironia refinada, maior em Cassas, e a religiosidade, Gabriel não chega a ser tão ecumêncio, para não dizer confuso, quanto Cassas. Ambos realizam a poesia do impasse, por trás das aparências simples o leitor é surpreendido pelo choque paralisante. Refeito ele acredita estar imunizado. Enganou-se mais uma vez. Em TORRE DE BABEL predomina o lirismo, o romantismo beira o exagero, embora uma tristeza vaga paire sobre o volume. AS NUVENS As nuvens (espichadas em cinza-remorso) se amontoavam nas lonjuras do azul, para lá da cabeça das montanhas: o céu inchava-se de chuvas. A melancolia dá câncer. A sonoridade dos poemas de Gabriel possui uma harmonia peculiar, beira a atonalidade, o ritmo quase ausente, conduz à um epílogo de sobressaltos. O final é uma tabuleta a provocar o choque inevitável:
Do livro 2 em diante os poemas de Gabriel seguem uma temática. Neste homenageia escritores, no livro 3 predomina a mitologia envolta em filosofia e o 4 traz os poemas bíblicos. O poeta goiano canta a esperança em TORRE DE BABEL,esperança na poesia, por vezes tal otimismo também soa exagerado, talvez se justifique caso ele desconheça seus pretensos colegas cariocas. O otimismo e a esperança do poeta evitam a companhia de elementos escapistas:a religião, o mais nocivo representante da alienação, e o amor-armadura invulnerável..É justamente no delgado e fundamental livro 4 que o poeta exercita sua verve corrosiva. O GRANDE BANQUETE I Convidarei Proust e Guevara, Maiakóvski e Pound, Rilke e Rimbaud, materialistas e teólogos, (corja de loucos, graças a Deus!) para tomarem comigo um porre de justiça. Primeiro cairemos num duelo de metáforas. Depois estrangularemos o pescoço da miséria. Mas, atenção: de arcabuzes ninguém entra! Ouviremos o fragor das fráguas neste bródio universal de homens. E no fogo de nossas taças, brindaremos o amor subversivo de Cristo, nosso Senhor dos vagabundos. Entrem logo, bardos meus, para o banquete dos excluídos! As basílicas do mundo estão falidas. Deus está no húmus, não precisa nascer. Vamos chover crisântemos nos hospitais, nas favelas, nas marquises e nos sonhos. Vamos saudar a humanidade com este florido chapéu de pássaros. II Dim dom bel! Dim dom bel! Todo homem é de papel! Gabriel ergueu sua TORRE DE BABEL com precisas palavras, emoções e imagens. Um pouco fora do prumo mas com grande destaque na paisagem poética e literária de um pobre país que ainda não aprendeu a separar o joio do trigo. E quando separam, como costuma fazer a imprensa despreparada, os encontros de poetas sem qualidade , certas editoras, aqui no Rio a Sette Letras, desprovidas de critérios, preferem o joio. Triste poesia! Ave Gabriel! Enquanto isso: Os grilos fulminam a noite com seus eclipses de amor TORRE DE BABEL autor: Gabriel Nascente 593 páginas Editora KELPS Rua 19 número 100 Setor Marechal Rondon Fones: 62 211-1616 - Fax: 62 211-1075 Goiânia - Goiás Para os sub-poetas que se reproduzem em constragedores encontros poéticos: Coleção Como Funciona A POESIA Autor: Antônio Paulo Graça Editora Valer Rua Ramos Ferreira ,1195 cep: 69010-120, Manaus-AM Fone: 92 633-6565 |
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Elepê por Luiz Paulo
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Em um texto que tem por objetivo investigar a força da influência do texto literário, focalizando especificamente Shakespeare, sou obrigada a começar pela minha própria vida. Sou escritora e advogada, e nos dois casos acredito que a força de sugestão do bardo tenha ido além dos limites da minha vã filosofia. Recentemente, no programa de entrevistas de Jô Soares, contei a história da descoberta da minha vocação literária: aos oito anos, já irresistivelmente atraída pelos livros, eu abri "A Tempestade" e me apaixonei por Ariel, o espírito aéreo, doce e travesso que tinha o poder de assumir as mais variadas formas. Decidi-me ali pela carreira literária, o que também pressupõe a habilidade de assumir as mais variadas formas. Mais tarde, às vésperas do vestibular e em dúvida sobre a minha segunda carreira, reli "O Mercador de Veneza"; e ali estava Portia, legítima representante dessas jovens mulheres cheias de astúcia e determinação que fazem parte do universo shakespeariano, como Rosalind. Disfarçada de homem, Portia comparece a um tribunal e salva um homem de uma avença cruel apenas com o engenho de sua argumentação, em uma atuação memorável. Por esse e outros motivos, optei pelo direito. A quantidade de filmes e peças baseados em obras de Shakespeare, ou até fantasiando sobre a sua
vida pessoal, como "Shakespeare apaixonado", é extraordinária. "Sonhos de uma Noite
de Verão" e "A Megera Domada" mereceram recentes versões para o cinema, sem contar
a versão de "Romeu e Julieta" com Claire Danes e Leonardo di Caprio encarnando o jovem casal.
Aguarda-se agora o novo Branagh, com uma versão em forma de musical de "Canseiras de Amor Inúteis"
ao som de Cole Porter e Gershwin. Relembre-se igualmente a atual novela das seis, que claramente se inspira em
"A megera domada". O manancial shakespeariano é inesgotável, como tudo o que pertence à
grande literatura. Mas o que reveste a literatura desse magnetismo eterno, e Shakespeare em particular? Que Shakespeare possui uma argúcia psicológica extraordinária já é de senso comum. Suas personagens são tão vivas quanto variadas, intensas, pródigas em perspectivas. E, como bem demonstrou Hegel, Shakespeare confere uma inteligência e uma imaginação às personagens "e por intermédio da imagem em que eles, com essa inteligência, contemplam-se como obra de arte, ele os torna livre artistas de si mesmos." Hamlet pode contemplar-se, e assim modificar-se; sua relação com a própria "psique" é especular, feita de auto-observação. A variedade de vozes em Shakespeare é extraordinária, todas absolutamente vivas; ele é capaz de criar mulheres como Rosalind e Cleópatra, vilões como Shylock ou o niilista Edmund, sempre inteiro em cada personagem, pleno, convincente. Além disso, vai em todas as direções. Sua obra é vasta demais, a experiência humana nela retratada é variada demais para que ele possa ser capturado em qualquer molde ou inclinação. Seu grande efeito é nos revelar para nós mesmos. Esse caráter revelador prodigioso que só se encontra na grande literatura possui uma força de atração indestrutível. São textos que revelam e formam, que afinam nossa sensibilidade e senso crítico de modo que possamos compreender ou sentir como não sentiríamos nem compreenderíamos sem a iniciação proporcionada por eles, destilando assim uma sedução inigualável. À essa qualidade inequívoca de grande literatura, some-se aos textos de Shakespeare a vocação teatral, e temos então um manancial que está longe de se esgotar, eterno em sua força de revelação e encantamento.
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Luiz Horácio escreve ... e lê, lê, lê... |