LITERATURA
por Luiz Horácio

Ensaio
Conto

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20/Outubro/2000

A TORRE DE BABEL - QUASE 600 PÁGINAS INVISÍVEIS
"Sempre perseguido / o grilo fica tranqüilo / cantando escondido. (O poeta)"
Luiz Bacellar

Poesia é um paciente em estado desesperador, esperanças mínimas de uma sobrevida mais ou menos digna, enquanto a quimioterapia salvadora luta incessantemente na tentativa de salvar o paciente que tão nobres serviços prestou mundo afora, traiçoeiros vermes agem entrincheirados em constrangedores encontros poéticos. O sangue não se renova na proporção exigida pelos vermes que se multiplicam como vermes.

O que ocorre aqui no Rio não deve ser exceção num país que despreza a literatura e não faz distinção entre poesia e rima. Editoras que se locupletam avalisando livros de bobos alegres sem talento que acreditam na estultice que alardeia que todo homem deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Aconselho a seguir apostólicamente apenas a primeira sugestão. Infelizmente em muitos casos essa é a única saída mas no caso da poesia tal saída tem que ser lacrada. É uma ofensa a falta de qualidade. E esse pessoal geralmente brota e se multiplica em encontros poéticos do nível( baixo) de um Casarão Hermê, do Sarau João do Rio, do Panorama da Palavra, Ver o Verso, Ponte de Versos e tantos outros. Alguns conseguem chegar ao programa do Jô e pronto. Estão recompensados. Tem de tudo, menos poesia.Em tais reuniões quanto menos talentoso mais performático é o "poeta" condenando o poema a mero coadjuvante do macaquinho sub-letrado.A sobrevivência literária de tais tipos passa pela leitura obrigatória de um singelo e "imprescindível" livrinho: "coleção como funciona- A POESIA- Antônio Paulo Graça - ed.VALER - Manaus - AM - 1999.

Um exemplo de constrangedora falta de talento: "ninguém pergunta/o nome da minha dor. / Quem sabe a diferença / do vento que me reinventa / Quem sabe o rio / que entrou no meu corpo / e nunca mais me deixou?" ou "eu sou um apóstolo da emoção / e amei como quem compra carros."

É ou não é caso para transplante? De cérebro.

Infelizmente a unidade onde tais vermes se propagam é a menos fiscalizada, não há rigor e a temperatura alta resultante da combinação das luzes da superficialidade com um suspeito bom relacionamento com a mídia desprestigiada e órfã de critérios condena à penumbra bálsamos como Luíz Augusto Cassas, César Leal, Florisvaldo Matos, Luís Bacellar, Aníbal Beça, Rachel Naveira, Gabriel Nascente e outros, uma meia dúzia no máximo.

Gabriel Nascente é um goiano de 50 anos com 30 livros de poesia publicados, uma novela, um de entrevistas literárias, um romance e uma seleção de estudos poéticos sobre sua obra organizada pelo Prof. Manuel de Jesus Oliveira. Seu livro mais recente " A TORRE DE BABEL"- editora Kelps- Goiânia 2000 um denso volume de quase 600 páginas não inclui a "superficialidade" exigida para merecer a atenção da crítica.De excelente qualidade , não maculou as páginas dos nossos grandes jornais. Em compensação....

A TORRE DE BABEL traz 4 livros: "Livro I - Fardos, Livro II - As Almas na Vitrine, Livro III - Dardos, Livro IV-O Cálice Oculto (poemas bíblicos) e os Excertos do Paraíso Perdido. Gabriel apresenta uma poética diversificada, consegue ser doce sem ser piegas e vigoroso, por vezes agressivo sem deixar de ser brando, complexo e ao mesmo tempo límpido. O que para muitos constitui problemas para o poeta goiano acaba acentuando suas qualidades.

Gabriel exercita a realidade em seus versos em detrimento dos devaneios alienantes, provoca a reflexão não pelo que poderia ser, o mundo idealizado dos maus poetas, mas pela análise do presente.

ORAÇÃO AO VENTO
Ajuda-me, Vento,
a varrer a iniqüidade.
Valho-me de ti, senhor Vento,
para dragarmos juntos os furúnculos
da miséria que enfermizam a terra.
Raios fúmeos
aniquilam a ternura.
Vento, limpa a tristeza deste mundo,
limpa!

A poesia de Gabriel se apresenta para o incauto como algo um tanto quanto ingênuo. Nem tanto, nem tanto! Em alguns poemas fica nítida a crença principal do poeta: no suposto poder que a poesia teria de transformação ou até salvação. Com o que discordo.

PINTANDO DE AMARELO OS LÁBIOS DO POENTE
O sol, a casa,
a poesia e a vida:
há uma hora no universo
em que tudo pede um verso.
Ó, lábios do poente,
tão inflados de amarelo!
A poesia te manda
um beijo.

Até em poemas menores como este acima fica evidente o talento do poeta pois consegue misturar de forma homogênea água e óleo, ou seja, arrogância e humildade. Gabriel é aparentado poético do Maranhense Luís Augusto Cassas, é comum a ironia refinada, maior em Cassas, e a religiosidade, Gabriel não chega a ser tão ecumêncio, para não dizer confuso, quanto Cassas. Ambos realizam a poesia do impasse, por trás das aparências simples o leitor é surpreendido pelo choque paralisante. Refeito ele acredita estar imunizado. Enganou-se mais uma vez.

Em TORRE DE BABEL predomina o lirismo, o romantismo beira o exagero, embora uma tristeza vaga paire sobre o volume.

AS NUVENS
As nuvens (espichadas
em cinza-remorso) se amontoavam
nas lonjuras do azul, para lá da
cabeça das montanhas:
o céu
inchava-se de chuvas.
A melancolia dá câncer.

A sonoridade dos poemas de Gabriel possui uma harmonia peculiar, beira a atonalidade, o ritmo quase ausente, conduz à um epílogo de sobressaltos. O final é uma tabuleta a provocar o choque inevitável:
CANÇÃO DO AMOR SECRETO - I
Aqui onde
"me dói uma mulher
por todo o corpo",
o latido da lua me
atravessa o peito
(e faz a poesia).

À noite, com seus ferros,
e ventos e coriscos -
acordo pedras
no meu sono.
O vai e vem da lua
me deixa bêbado.
Não sei falar
vou te amar,
O amor é surdo.
Meu coração viaja num
rio de alfinetes.


Do livro 2 em diante os poemas de Gabriel seguem uma temática. Neste homenageia escritores, no livro 3 predomina a mitologia envolta em filosofia e o 4 traz os poemas bíblicos. O poeta goiano canta a esperança em TORRE DE BABEL,esperança na poesia, por vezes tal otimismo também soa exagerado, talvez se justifique caso ele desconheça seus pretensos colegas cariocas. O otimismo e a esperança do poeta evitam a companhia de elementos escapistas:a religião, o mais nocivo representante da alienação, e o amor-armadura invulnerável..É justamente no delgado e fundamental livro 4 que o poeta exercita sua verve corrosiva.

O GRANDE BANQUETE I
Convidarei
Proust e Guevara,
Maiakóvski e Pound,
Rilke e Rimbaud,
materialistas e teólogos,
(corja de loucos, graças a Deus!)
para tomarem comigo
um porre de justiça.
Primeiro cairemos num duelo de metáforas.
Depois estrangularemos o pescoço da miséria.
Mas, atenção:
de arcabuzes ninguém entra!
Ouviremos o fragor das fráguas
neste bródio universal de homens.
E no fogo de nossas taças,
brindaremos o amor subversivo de Cristo,
nosso Senhor dos vagabundos.
Entrem logo, bardos meus,
para o banquete dos excluídos!
As basílicas do mundo estão falidas.
Deus está no húmus,
não precisa nascer.
Vamos chover crisântemos
nos hospitais, nas favelas,
nas marquises e nos sonhos.
Vamos saudar a humanidade
com este florido
chapéu de pássaros.

II
Dim dom bel! Dim dom bel!
Todo homem é de papel!

Gabriel ergueu sua TORRE DE BABEL com precisas palavras, emoções e imagens. Um pouco fora do prumo mas com grande destaque na paisagem poética e literária de um pobre país que ainda não aprendeu a separar o joio do trigo. E quando separam, como costuma fazer a imprensa despreparada, os encontros de poetas sem qualidade , certas editoras, aqui no Rio a Sette Letras, desprovidas de critérios, preferem o joio. Triste poesia! Ave Gabriel!

Enquanto isso: Os grilos fulminam a noite com seus eclipses de amor

TORRE DE BABEL
autor: Gabriel Nascente
593 páginas
Editora KELPS
Rua 19 número 100 Setor Marechal Rondon
Fones: 62 211-1616 - Fax: 62 211-1075
Goiânia - Goiás

Para os sub-poetas que se reproduzem em constragedores encontros poéticos:

Coleção Como Funciona
A POESIA
Autor: Antônio Paulo Graça
Editora Valer
Rua Ramos Ferreira ,1195
cep: 69010-120, Manaus-AM
Fone: 92 633-6565

CONTO

Elepê por Luiz Paulo

Recordações, histórias de vida, vivências e momentos de passado, de infância e do dia-a-dia dos comuns mortais. É disso que trata Elepê, o livro de estréia do bancário, músico, compositor e gatófilo caxiense Luiz Paulo Faccioli. A noite de autógrafos ocorre em 19 de setembro, às 19h, no restaurante Birra & Pasta. O livro, editado pela WS Editor, estará à venda no local por R$ 14.
A obra é uma mescla de sensações. São 15 contos musicais, que andam na trilha do afeto e seguem as pegadas dos sagrados gatos da Birmânia, os preferidos do autor. Em síntese: economia e concisão, textos enxutos, oníricos e ao mesmo tempo realistas. Fantasia abertamente inspirada em Jorge Luis Borges e recomendada na apresentação pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil.
A inspiração para a escrita, realizada nas noites porto-alegrenses, entre novembro de 99 e junho de 2000, veio da Oficina de Leitura de Contos (coordenada pela mulher de Luiz Paulo, a escritora Cíntia Moscovich) ocorrida na Feira do Livro do ano passado. Antes disso, o autor apenas transformara as adolescentes divagações das descobertas do amor em poemas. Agora é a hora de mostrar que o adolescente amadureceu.
Intimidade

Filinto matutava sobre a redondeza do globo e ficou subitamente confuso. Um nó cego parecia amarrar as pontas soltas dos seus pensamentos, tirando-lhes a fluidez e o bom sentido. Rosa elaborava um bordado caprichoso, atrapalhando-se com os novos bifocais, mas com grande e criativa habilidade. Clóvis era apenas o gato, dormindo enrodilhado no capacho da porta. Cena urbana, pois que não havia um fogão à lenha, e o televisor tocava de fundo o Programa Sílvio Santos.

Tarde de domingo, fria e ensolarada. De resto, era tudo muito bem organizado e velho, móveis, eletrodomésticos, trilhos de mesa, rendas e memórias. As gavetas talvez guardassem algumas fotografias, talvez em álbuns, as mais recentes tiradas vinte anos atrás.

O sol atravessava os vidros, mas Rosa encolhia os ombros e tinha as mãos geladas, pés em pantufas e um cobertor nas pernas. Filinto vestia um suéter tricotado à mão, meias grossas e um chinelo com forro de lã. Clóvis se enroscava mais um pouco, e protegia o focinho com as patas.

Nada perturbaria a paz e a inutilidade daquele domingo naquela casa, nada, não fosse a estridência da campainha. Havia muito não tocava, e os três estranharam o sonido. As idéias de Filinto se recompuseram instantaneamente com o susto. Rosa livrou-se dos incômodos óculos, como se eles fossem culpados também pelo sobressalto. Clóvis já se preparava para hostilizar o intruso que lhe havia perturbado o sono.

Os três mudos, parados, as vozes e os aplausos do programa, o som do motor da geladeira ligando automaticamente.

Novo toque, e o televisor parece mais distante, talvez até fale de outra casa. Uma ruidosa mosca-varejeira debate-se contra o vidro da janela, e o sol finalmente traz um pouco de calor para dentro da casa.

Três batidas fortes, e Rosa já se põe acalorada, revivendo o climatério. Não tira os olhos da porta, baixando um pouco a cabeça e pronta para o ataque. Filinto observa tudo com ar de superioridade. Clóvis cochila, mal conseguindo manter a cabeça erguida.

Suspiro alto, a visita enfim desiste. Passos se afastam, vencidos.

A varejeira silencia, o motor da geladeira desliga, Clóvis desiste de segurar a cabeça e retorna ao sono solto. Filinto se põe a pensar sobre a visita, e agora já não compreende mais nada.

Rosa, por fim, se apruma. De volta os óculos, a agulha e o dedal. Ajeita o cobertor sobre as pernas, protegendo-se mais uma vez do vento frio. Ainda não descobriu como ele consegue entrar.








ENSAIO

Em um texto que tem por objetivo investigar a força da influência do texto literário, focalizando especificamente Shakespeare, sou obrigada a começar pela minha própria vida. Sou escritora e advogada, e nos dois casos acredito que a força de sugestão do bardo tenha ido além dos limites da minha vã filosofia. Recentemente, no programa de entrevistas de Jô Soares, contei a história da descoberta da minha vocação literária: aos oito anos, já irresistivelmente atraída pelos livros, eu abri "A Tempestade" e me apaixonei por Ariel, o espírito aéreo, doce e travesso que tinha o poder de assumir as mais variadas formas. Decidi-me ali pela carreira literária, o que também pressupõe a habilidade de assumir as mais variadas formas. Mais tarde, às vésperas do vestibular e em dúvida sobre a minha segunda carreira, reli "O Mercador de Veneza"; e ali estava Portia, legítima representante dessas jovens mulheres cheias de astúcia e determinação que fazem parte do universo shakespeariano, como Rosalind. Disfarçada de homem, Portia comparece a um tribunal e salva um homem de uma avença cruel apenas com o engenho de sua argumentação, em uma atuação memorável. Por esse e outros motivos, optei pelo direito.

A quantidade de filmes e peças baseados em obras de Shakespeare, ou até fantasiando sobre a sua vida pessoal, como "Shakespeare apaixonado", é extraordinária. "Sonhos de uma Noite de Verão" e "A Megera Domada" mereceram recentes versões para o cinema, sem contar a versão de "Romeu e Julieta" com Claire Danes e Leonardo di Caprio encarnando o jovem casal. Aguarda-se agora o novo Branagh, com uma versão em forma de musical de "Canseiras de Amor Inúteis" ao som de Cole Porter e Gershwin. Relembre-se igualmente a atual novela das seis, que claramente se inspira em "A megera domada". O manancial shakespeariano é inesgotável, como tudo o que pertence à grande literatura. Mas o que reveste a literatura desse magnetismo eterno, e Shakespeare em particular?
Que a grande literatura é "dulce et utile", como dizia Horácio, prazerosa e útil, disso não resta dúvida. Ela é indispensável por seu papel formador, aguçando o senso crítico, enriquecendo o imaginário e tornando-nos mais capazes de estruturar a experiência. Não se vê o mundo da mesma forma depois de uma iniciação na Recherche proustiana. A grande literatura nos conta quem somos de um modo clarividente, e o brilho desses pontos de revelação não deixa de ressoar com os séculos.

Que Shakespeare possui uma argúcia psicológica extraordinária já é de senso comum. Suas personagens são tão vivas quanto variadas, intensas, pródigas em perspectivas. E, como bem demonstrou Hegel, Shakespeare confere uma inteligência e uma imaginação às personagens "e por intermédio da imagem em que eles, com essa inteligência, contemplam-se como obra de arte, ele os torna livre artistas de si mesmos." Hamlet pode contemplar-se, e assim modificar-se; sua relação com a própria "psique" é especular, feita de auto-observação. A variedade de vozes em Shakespeare é extraordinária, todas absolutamente vivas; ele é capaz de criar mulheres como Rosalind e Cleópatra, vilões como Shylock ou o niilista Edmund, sempre inteiro em cada personagem, pleno, convincente. Além disso, vai em todas as direções. Sua obra é vasta demais, a experiência humana nela retratada é variada demais para que ele possa ser capturado em qualquer molde ou inclinação. Seu grande efeito é nos revelar para nós mesmos.

Esse caráter revelador prodigioso que só se encontra na grande literatura possui uma força de atração indestrutível. São textos que revelam e formam, que afinam nossa sensibilidade e senso crítico de modo que possamos compreender ou sentir como não sentiríamos nem compreenderíamos sem a iniciação proporcionada por eles, destilando assim uma sedução inigualável. À essa qualidade inequívoca de grande literatura, some-se aos textos de Shakespeare a vocação teatral, e temos então um manancial que está longe de se esgotar, eterno em sua força de revelação e encantamento.

Simone Ostrowski é escritora autora de "Mistério em Florença" Ed.Revan


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