LITERATURA
por Luiz Horácio

Ensaio, Eventos
Conto, Poesia
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28/Outubro/2000

AS MÍNIMAS VERDADES DE ALAIN DE BOTTON

"Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem" - Millôr Fernandes

O que é uma biografia? Literatura ou fuxico? Nenhum nem outro, quem sabe um mapa de origem duvidosa apresentando enigmas onde se esperava soluções. A sexualidade geralmente predomina em tais livros. O cara era gay, fulano tinha uma penca de amantes e por aí seguem as revelações que tanto interesse despertam. Só isso? Geralmente. E as biografias mais fiés não passam de ficção.

Sendo assim também o oposto se torna possível. Necessário até, para desmistificar o gênero.

Alain de Botton ergue seu labirinto iluminado com NOS MÍNIMOS DETALHES - ed. Rocco - Rio - 2000 por onde será esboçada a obscura biografia de Isabel, uma pessoa comum. Como todos, embora alguns inventem exceções.

O narrador estava folheando um livro numa livraria em Londres quando desastradamente derrubou um livro danificando levemente sua capa. Percebeu que se tratava de uma, das várias, biografias do filósofo Ludwig Wittegenstein.

"Apesar das reclamações, apesar dos obstáculos, alguma coisa a respeito da missão do biógrafo seduziu minha imaginação: a idéia de compreender um ser humano tão completamente como uma pessoa poderia esperar compreender outra, de afundar-me numa vida que não a minha, de ver o mundo por meio de olhos novos, de seuir alguém pela infância e por seus sonhos, trilhando a variedade de seus gostos, dos pré-rafaelistas aos sorvetes com sabor de fruta. Por que não tentar eu mesmo uma biografia?"

Geralmente os biógrafos se ocupam das pessoas brilhantes não havendo relação alguma entre eles pois no mais das vezes o ilustre personagem já está morto. NOS MÍNIMOS DETALHES é totalmente o oposto do óbvio. Alain de Botton criou Isabel - moça simples que se envolve com o narrador, possui um emprego simples e uma família comum - e a usou com pretexto para escrever uma irônica tese sobre a metodologia usada para escrever biografias. E fazendo uso de uma protagonista comum que ele magistralmente discorre sobre relacionamentos amorosos e suas implicações tais como: egocentrismo, ciúme, narcisimo, falta de autoconhecimento, etc..Ironicamente de Botton não apresenta fatos em ordem cronológica, como uma história: os mais antigos antecedendo os mais recentes. Ele permite que a memória comande o espetáculo, trazendo à cena os acontecimentos despertados pelas associações. E assim, uma música, (Dylan, Abba, Leonard Cohen, Mozart) ou simplesmete um cheiro pode reviver um acontecimento significativo.Alain de Bottom apresenta sua salada bem temperada onde erudição e cultura pop são exóticos ingredientes temperados pela incomum capacidade narrativa do autor.A atenção deve ser total no momento em que o autor discorre sobre intimidade e sudução. O importante significado do jogo de aparências fundamentais à sedução e insignificantes após a instituição da intimidade.

" - Mas por que cortar as unhas é mais íntimo do que fazer sexo?
- É só que a pessoa com quem você faz sexo deve também ser alguém diante de quem você não ficaria embaraçado de cortar as unhas do pé."


Proust é uma referência e quase uma constante na obra deste suíço residente em Londres e, como Proust, de Botton examina as minúcias dos sentimentos, seja ele ciúme ou amor.Curiosamente a palavra AMOR talvez seja a mais utilizada por Proust no seu EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. Para de Botton assim como para Proust ambos são patológicos. Alguém discorda?

"Exigir que alguém se lembre do passado é o mesmo que forçá-lo a espirrar sob a mira de uma arma. Os resultados são fadados a decepcionar, pois a verdadeira lembrança, como o espirro, não é coisa que se possa conseguir quando se quer."

O narrador, o biógrafo, talvez não tenha sucesso em sua empreitada; escrever a biografia de Isabel. No entanto Alain de Botton surge triunfante à saída de seu labirinto. No caminho ele jogara displicentemente um mapa falso pois não era sua intenção apresentar uma biografia e sim realizar uma obra de fino humor e profundo significado para a tentativa impossível de definir um ser humano e seus anseios. O autor apresenta um resumo das possibilidades, das dissimulações, dos artifícios, das personas e das trapaças que um ser humano é capaz no afã cruel de se compreender.

Aproveitando a oportunidade mostra a dificuldade de se levar em harmonia um relacionamento com alguém pois no fundo se está buscando uma relação consigo mesmo.

NOS MÍNIMOS DETALHES
autor: Alain de Botton
Tradução: Marta Shmidt
244 páginas
R$ 24,50
Editora Rocco
Tel: 21 507-200 / Fax: 21 507-2244
e-mail: rocco@editorarocco.com.br
www.rocco.com.br

CONTO

SOCORRO
do espanhol José Maria Lopez

Seu rosto era um deserto. Os olhos, faróis apagados, sinais úmidos de pouca vida, praia depois da chuva. Ele voltava no tempo, o desencanto do lobo solitário, o gelo e o vidro, tudo derretendo. Chapéu de palha na mão direita, chinelos surrados nos pés cansados. Céu carregado, mulheres vestidas de negro andam em direção ao cemitério. Ninguém morreu. Ele voltava ainda mais no tempo; o filho e a puta sem batom, tudo morrendo. O luto nascendo velho. No final emerge a lembrança do começo para aumentar o vazio, desprezar o caminho percorrido. Um avião risca o céu deixando um traço- reto- sem -régua- de-fumaça-branca. Ele não olha, sempre disse que os pássaros não costumam olhar pra cima durante o vôo: "Quando eu morrer serei obrigado a olhar para cima." Ele se recusa a olhar. O vento chega de surpresa como todos os ventos, o chapéu não voa, poeira nos olhos, lágrimas de incerteza tentam escorrer pelo rosto sulcado. A chuva chega e ele a recepciona ali mesmo, sentado chapéu na mão. A solidão é um barco vazio e ele só queria atravessar aquele riacho de sempre, agora de águas mornas. Queria chegar no outro lado. Precisava aprender a pedir socorro...

Tradução: Luíz Horácio

Poesia

Fausto Wolff é um dos melhores, irônico e apaixonado, corrosivo e terno, simples e erudito, justo e cruel. Como ele consegue? Leiam seus livros . Quando sobrar tempo aproxime-se dele. Ele é um lobo enorme e parecerá ainda maior, de alguma maneira ele rosnará carinhosamente e se encontrar um papel mesmo que vagabundo, não importa que seu azarão perca novamente, que o uísque acabe; você perceberá sinceridade em seu olhar e o papel vagabundo embrulhará um poema raro. Agora o lobo atrevido oferece a todos "CEM POEMAS DE AMOR e uma canção despreocupada", seu mais recente livro onde os poemas têm o tamanho exato de uma emoção, de um beijo, de um grito, de...

Com vocês um pouco do aparente descompromisso dos poemas de Fausto Wolff.
METAFÍSICA SUR MER
Só o Nada conhece a essência do Nada
E o Nada se desconhece.
Um cego num quarto escuro
enxerga mais do que Deus.
E um dos nomes de Deus
é Nada do princípio
ao fim de si mesmo.
A ausência que não se reconhece
imagina a própria forma.

ARTE
Este palhaço
sou eu.
Mas não foi fácil
tornar-me tão
imprestável.



ANÁLISE
Está certo,
tudo é teatro.
Mas por que
dói de verdade?

ALTER ÁLCOOL
Quando lá no céu surgir
uma peregrina flor,
você está de porre.

POEMA MELHOR
Este é um poema
melhor do que aquele.
Você está
e eu não estou
nele.


VERÍSSIMO
O jornalista brasileiro
não sabe se expressar,
e isso, ele expressa
muito bem.
Existem, é claro,
alguns velhos incorretos,
porém,
que pretendem explicar
como devemos ler.
Cegos, ilusos, coitados,
Millôres, jaguares,
carusos, ziraldos,
alienados.
Não entenderam
a Nova Ordem
de um sistema indeciso,
traidor, narciso
que diz quem vai morrer
e merce.
O resto
ou dá ou desce.
E a gente esquece.

Eventos

Novos Sentidos
...estão chegando e você não pode perder...

Acontece no dia 31 de outubro, 20h30min, restaurante Xalan, Rua Corrêa Dutra, 36, Catete. Entrada Franca. Performance poética de Elaine Pauvolid.

Convidados da noite: Vitor Colonna e Ricardo Ruiz.

Periodicidade quinzenal, terças-feiras alternadas.
Informações 99511744
Não deixe de conhecer também o Sarau João do Rio, Rua do Catete, 144, toda quinta-feira útil.

ENSAIO

Em um texto que tem por objetivo investigar a força da influência do texto literário, focalizando especificamente Shakespeare, sou obrigada a começar pela minha própria vida. Sou escritora e advogada, e nos dois casos acredito que a força de sugestão do bardo tenha ido além dos limites da minha vã filosofia. Recentemente, no programa de entrevistas de Jô Soares, contei a história da descoberta da minha vocação literária: aos oito anos, já irresistivelmente atraída pelos livros, eu abri "A Tempestade" e me apaixonei por Ariel, o espírito aéreo, doce e travesso que tinha o poder de assumir as mais variadas formas. Decidi-me ali pela carreira literária, o que também pressupõe a habilidade de assumir as mais variadas formas. Mais tarde, às vésperas do vestibular e em dúvida sobre a minha segunda carreira, reli "O Mercador de Veneza"; e ali estava Portia, legítima representante dessas jovens mulheres cheias de astúcia e determinação que fazem parte do universo shakespeariano, como Rosalind. Disfarçada de homem, Portia comparece a um tribunal e salva um homem de uma avença cruel apenas com o engenho de sua argumentação, em uma atuação memorável. Por esse e outros motivos, optei pelo direito.

A quantidade de filmes e peças baseados em obras de Shakespeare, ou até fantasiando sobre a sua vida pessoal, como "Shakespeare apaixonado", é extraordinária. "Sonhos de uma Noite de Verão" e "A Megera Domada" mereceram recentes versões para o cinema, sem contar a versão de "Romeu e Julieta" com Claire Danes e Leonardo di Caprio encarnando o jovem casal. Aguarda-se agora o novo Branagh, com uma versão em forma de musical de "Canseiras de Amor Inúteis" ao som de Cole Porter e Gershwin. Relembre-se igualmente a atual novela das seis, que claramente se inspira em "A megera domada". O manancial shakespeariano é inesgotável, como tudo o que pertence à grande literatura. Mas o que reveste a literatura desse magnetismo eterno, e Shakespeare em particular?
Que a grande literatura é "dulce et utile", como dizia Horácio, prazerosa e útil, disso não resta dúvida. Ela é indispensável por seu papel formador, aguçando o senso crítico, enriquecendo o imaginário e tornando-nos mais capazes de estruturar a experiência. Não se vê o mundo da mesma forma depois de uma iniciação na Recherche proustiana. A grande literatura nos conta quem somos de um modo clarividente, e o brilho desses pontos de revelação não deixa de ressoar com os séculos.

Que Shakespeare possui uma argúcia psicológica extraordinária já é de senso comum. Suas personagens são tão vivas quanto variadas, intensas, pródigas em perspectivas. E, como bem demonstrou Hegel, Shakespeare confere uma inteligência e uma imaginação às personagens "e por intermédio da imagem em que eles, com essa inteligência, contemplam-se como obra de arte, ele os torna livre artistas de si mesmos." Hamlet pode contemplar-se, e assim modificar-se; sua relação com a própria "psique" é especular, feita de auto-observação. A variedade de vozes em Shakespeare é extraordinária, todas absolutamente vivas; ele é capaz de criar mulheres como Rosalind e Cleópatra, vilões como Shylock ou o niilista Edmund, sempre inteiro em cada personagem, pleno, convincente. Além disso, vai em todas as direções. Sua obra é vasta demais, a experiência humana nela retratada é variada demais para que ele possa ser capturado em qualquer molde ou inclinação. Seu grande efeito é nos revelar para nós mesmos.

Esse caráter revelador prodigioso que só se encontra na grande literatura possui uma força de atração indestrutível. São textos que revelam e formam, que afinam nossa sensibilidade e senso crítico de modo que possamos compreender ou sentir como não sentiríamos nem compreenderíamos sem a iniciação proporcionada por eles, destilando assim uma sedução inigualável. À essa qualidade inequívoca de grande literatura, some-se aos textos de Shakespeare a vocação teatral, e temos então um manancial que está longe de se esgotar, eterno em sua força de revelação e encantamento.

Simone Ostrowski é escritora autora de "Mistério em Florença" Ed.Revan


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