LITERATURA
por Luiz Horácio

Ensaio, Eventos
Conto, Poesia, Lançamentos
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04/Novembro/2000

BREVE HISTÓRIA DO DESEJO

"O pior casamento é o que dá certo" - Millôr Fernandes

Viena, final de século, noite. Um casal conversa sobre os acontecimentos do baile de máscaras do dia anteriror. Tais eventos eram comuns na fervilhante capital da modernidade cultural. Tem início o diálogo, ou jogo, entre o casal. A mulher, irônica, relata uma fantasia sexual que teve no passado. Tal confissão, o adultério imaginado perturba o marido, um jovem médico, que logo recebe um chamado e suspende a conversa para atender um paciente à beira da morte. Começa a peregrinação do médico com paradas repletas de morbidez, erotismo, terror e sobretudo, dúvida. Qual seria a intenção da mulher ao propor tal brincadeira? Provocar ciúmes, seduzir o marido, arrancar dele igual confissão? O que em parte consegue. Qual seria afinal o motivo?

BREVE ROMANCE DE SONHO- Arthur Schnitzler-Ed. Cia das Letras-São Paulo-2000 invade o leitor pelo flanco mais frágil do ser humano, o que lhe obriga a duvidar: duvidar do seu papel no mundo, duvidar da sua masculinidade, duvidar da sua mulher, duvidar do recente passo dado. Enfim, BREVE ROMANCE DE SONHO apresenta o homem (o gênero macho) em permanente crise, oprimido pela angústia, refém da própria obsessão pelo sexo,orgias, poder e o brilho ofuscante do desconhecido, e o desconhecido geralmente é mulher.Schnitzler retrata o homem como um ser insignificante destituído de atrativos, no entanto ao enaltecer a mulher destaca justamente a sua inocência e subserviência evitando assim de se tornar tão perversa quanto o homem principalmente na luta pelo poder. E é justamente na luta pelo poder que ele, através dos outros, encontra a sua fragilidade. Assustado por não se sentir correspondido pela própria esposa o médico, utilizando como artífice de sua vingança a libido, sai em busca de novas conquistas extraconjugais sem calcular os riscos. A dúvida porém não permite que ele se decida por a ou b. A indefinida e sedimentada situação com a filha do paciente que acabara de morrer, o orgulho ferido que o impele a buscar consolo na conversa com a prostituta, a certeza da incerteza que o faz retornar e não encontrar a mesma prostituta, a necessidade de preencher o vazio que o leva a mergulhar no universo erótico da nudez mascarada, são artérias alimentando sua frustração e seu medo. BREVE ROMANCE DE SONHO é o retrato do insucesso de Fridolin, o médico, onde todas suas tentativas são inglórias, a forra sexual com a prostituta e com as enigmáticas mulheres mascaradas, a consequente morte da prostitua mascarada que o encantara, o paciente que morre antes da sua chegada, sua impotência diante da prostituição infantil explorada pelo próprio pai, o proprietário da loja de fantasias.

Todas atitudes de Fridolin são comandadas pela obsessão sexual, Schnitzler acena com o potencial da mulher para comandar, porém dá mostras de arrependimento e apresenta as mulherers como coadjuvantes, sem rosto, sem nome ou sem profissão.

Albertine, que escreve a primeria linha da história e também colocará o ponto final é a expressão da submissão e inocência. Congela o desejo em prol de uma suposta satisfação advinda do status e da vida sexual convencional. Em contrapartida o desejo move Fridolin, desejo de mudança e necessidade de desvendar mistérios. Para tanto um componente invisível se faz imprescindível: o sonho. E tanto. Fridolin quanto Albertine já não sabem se querem o sonho ou a realidade, esquecendo que tanto um pode se transformar na outra e vice-versa.

TRECHO

Albertine calou-se. Fridolin tinha a garganta seca; no escuro do quarto, notou como ela cobria o rosto com as mãos, escondendo-o, por assim dizer.

"Um sonho curioso", disse ele. "Já acabou?" E, como ela negasse, emendou: "Então continue contando".

"Não é tão fácil", recomeçou Albertine. "Na verdade, essas coisas mal se deixam exprimir em palavras. Enfim...era como se eu estivesse vivendo os dias e noites inumeráveis, não existia tempo ou espaço, e eu não estava mais na clareira cercada de floresta e rocha, e sim numa ampla planície colorida por flores, estendendo-se infinitamente até perder-se no horizonte."

Arthur Schnitzler (1862- 1931), médico, dramaturgo, romancista, contista e ensaísta, foi um dos maiores expoentes da literatura austríaca da virada do século. Contemporâneo de seu compatriota Sigmund Freud discordava deste na abordagem dos sonhos. Enquanto Freud estava preocupado com o simbolismo Schnitzler centrava sua observação no instante nebuloso logo após acordar onde permanece a sensação de estar sonhando.

BREVE ROMANCE DE SONHO serviu de inspiração para Stanley Kubric realizar "De Olhos Bem Fechados", seu derradeiro filme.

As relações próximas entre sexo e morte, implicam também no correspondente sexo e vida, presentes em BREVE ROMANCE DE SONHO atestam o caráter imprescindível de tal leitura.

Sendo assim caro leitor que preserva sua vida à quatro paredes com sua "santa esposa" investigue sua conduta e responda se vocês estão vivendo ou apenas morrendo acompanhados? Pois a conclusão é inevitável embora inquietante: " O sexo se alimenta de mistério e a vida sobrevive da aventura."

BREVE ROMANCE DE SONHO
autor: Arthur Schnitzler
Tradução: Sérgio Tellaroli
R$ 18,00
Ed. Cia. Das Letras
tel: 11 3846-0801
fax: 11 3846-0814
www.companhiadasletras.com.br

CONTO

SOCORRO
do espanhol José Maria Lopez

Seu rosto era um deserto. Os olhos, faróis apagados, sinais úmidos de pouca vida, praia depois da chuva. Ele voltava no tempo, o desencanto do lobo solitário, o gelo e o vidro, tudo derretendo. Chapéu de palha na mão direita, chinelos surrados nos pés cansados. Céu carregado, mulheres vestidas de negro andam em direção ao cemitério. Ninguém morreu. Ele voltava ainda mais no tempo; o filho e a puta sem batom, tudo morrendo. O luto nascendo velho. No final emerge a lembrança do começo para aumentar o vazio, desprezar o caminho percorrido. Um avião risca o céu deixando um traço- reto- sem -régua- de-fumaça-branca. Ele não olha, sempre disse que os pássaros não costumam olhar pra cima durante o vôo: "Quando eu morrer serei obrigado a olhar para cima." Ele se recusa a olhar. O vento chega de surpresa como todos os ventos, o chapéu não voa, poeira nos olhos, lágrimas de incerteza tentam escorrer pelo rosto sulcado. A chuva chega e ele a recepciona ali mesmo, sentado chapéu na mão. A solidão é um barco vazio e ele só queria atravessar aquele riacho de sempre, agora de águas mornas. Queria chegar no outro lado. Precisava aprender a pedir socorro...

Tradução: Luíz Horácio

Poesia

Fausto Wolff é um dos melhores, irônico e apaixonado, corrosivo e terno, simples e erudito, justo e cruel. Como ele consegue? Leiam seus livros . Quando sobrar tempo aproxime-se dele. Ele é um lobo enorme e parecerá ainda maior, de alguma maneira ele rosnará carinhosamente e se encontrar um papel mesmo que vagabundo, não importa que seu azarão perca novamente, que o uísque acabe; você perceberá sinceridade em seu olhar e o papel vagabundo embrulhará um poema raro. Agora o lobo atrevido oferece a todos "CEM POEMAS DE AMOR e uma canção despreocupada", seu mais recente livro onde os poemas têm o tamanho exato de uma emoção, de um beijo, de um grito, de...

Com vocês um pouco do aparente descompromisso dos poemas de Fausto Wolff.
METAFÍSICA SUR MER
Só o Nada conhece a essência do Nada
E o Nada se desconhece.
Um cego num quarto escuro
enxerga mais do que Deus.
E um dos nomes de Deus
é Nada do princípio
ao fim de si mesmo.
A ausência que não se reconhece
imagina a própria forma.

ARTE
Este palhaço
sou eu.
Mas não foi fácil
tornar-me tão
imprestável.



ANÁLISE
Está certo,
tudo é teatro.
Mas por que
dói de verdade?

ALTER ÁLCOOL
Quando lá no céu surgir
uma peregrina flor,
você está de porre.

POEMA MELHOR
Este é um poema
melhor do que aquele.
Você está
e eu não estou
nele.


VERÍSSIMO
O jornalista brasileiro
não sabe se expressar,
e isso, ele expressa
muito bem.
Existem, é claro,
alguns velhos incorretos,
porém,
que pretendem explicar
como devemos ler.
Cegos, ilusos, coitados,
Millôres, jaguares,
carusos, ziraldos,
alienados.
Não entenderam
a Nova Ordem
de um sistema indeciso,
traidor, narciso
que diz quem vai morrer
e merce.
O resto
ou dá ou desce.
E a gente esquece.

Eventos

Saber de Verso

Saber de Verso é um evento que inaugura o debate da poesia com outras áreas do saber. Saber de Verso deseja suscitar a descoberta dos elos entre essas áreas de cultura.Burilar a estética do conhecimento, apontando ou revelando nas filosofias, nas ciências, no texto bíblico-religioso, na psicanálise, no cinema e no teatro, o poético.

Dia 6 de novembro, segunda-feira, o Saber de Verso terá como convidados especiais o poeta, crítico e ensaísta Marco Lucchesi e o cientista José Paulo Schiffini.Tentar-se-á desenvolver o tema Poesia e Ciência.Esperamos contar com a participação calorosa do público com este instigante tema.

O Saber de Verso, é coordenado pela poeta e psicanalista Rosália Milsztajn, acontece toda primeira segunda-feira do mês no Café da Livraria Ponte de Tábuas, rua Jardim Botânico, 585, 20:00horas.

A entrada é franca.
LANÇAMENTOS

A editora Mulheres anuncia a publicacao de

FLORA TRISTAN. Peregrinações de uma pária. 1ª ed. 1838. Tradução de Maria
Nilda Pessoa e Paula Berinson. Introdução por Roland Forgues. 540 p. R$
45,00. Co-edição Edunisc.

Flora Tristan, feminista francesa, nascida em Paris, era filha de um general
peruano, casado na Espanha com uma francesa, em cerimônia religiosa cuja
legitimidade não foi reconhecida quando da morte do general. Em 1833, Flora
viaja ao Peru para tentar reivindicar sua parte na herança da avó peruana. O
presente livro é relato de viagem mas também o relato das lutas de uma
mulher independente com uma sociedade em que tudo conspirava contra a
mulher.
A primeira edição deste livro apareceu em 1838, em Paris. A presente edição
é a primeira integral em português. As tradutoras e as editoras preferiram
tentar a aventura de uma edição integral, visando a dar ao leitor a
transcrição fidedigna das aventuras de Flora Tristan. É um livro que se lê
com prazer, como ficção, e que, ao mesmo tempo, representa um testemunho da
visão de uma européia sobre um país da América Latina, no século XIX.

PEDIDOS
Editora Mulheres
CNPJ 014 790 49/0001-31
Caixa Postal 5031
88040-970 Florianópolis, SC
Fone/Fax: (048) 233-2164
e-mail: editoramulheres@floripa.com.br

ENSAIO

Em um texto que tem por objetivo investigar a força da influência do texto literário, focalizando especificamente Shakespeare, sou obrigada a começar pela minha própria vida. Sou escritora e advogada, e nos dois casos acredito que a força de sugestão do bardo tenha ido além dos limites da minha vã filosofia. Recentemente, no programa de entrevistas de Jô Soares, contei a história da descoberta da minha vocação literária: aos oito anos, já irresistivelmente atraída pelos livros, eu abri "A Tempestade" e me apaixonei por Ariel, o espírito aéreo, doce e travesso que tinha o poder de assumir as mais variadas formas. Decidi-me ali pela carreira literária, o que também pressupõe a habilidade de assumir as mais variadas formas. Mais tarde, às vésperas do vestibular e em dúvida sobre a minha segunda carreira, reli "O Mercador de Veneza"; e ali estava Portia, legítima representante dessas jovens mulheres cheias de astúcia e determinação que fazem parte do universo shakespeariano, como Rosalind. Disfarçada de homem, Portia comparece a um tribunal e salva um homem de uma avença cruel apenas com o engenho de sua argumentação, em uma atuação memorável. Por esse e outros motivos, optei pelo direito.

A quantidade de filmes e peças baseados em obras de Shakespeare, ou até fantasiando sobre a sua vida pessoal, como "Shakespeare apaixonado", é extraordinária. "Sonhos de uma Noite de Verão" e "A Megera Domada" mereceram recentes versões para o cinema, sem contar a versão de "Romeu e Julieta" com Claire Danes e Leonardo di Caprio encarnando o jovem casal. Aguarda-se agora o novo Branagh, com uma versão em forma de musical de "Canseiras de Amor Inúteis" ao som de Cole Porter e Gershwin. Relembre-se igualmente a atual novela das seis, que claramente se inspira em "A megera domada". O manancial shakespeariano é inesgotável, como tudo o que pertence à grande literatura. Mas o que reveste a literatura desse magnetismo eterno, e Shakespeare em particular?
Que a grande literatura é "dulce et utile", como dizia Horácio, prazerosa e útil, disso não resta dúvida. Ela é indispensável por seu papel formador, aguçando o senso crítico, enriquecendo o imaginário e tornando-nos mais capazes de estruturar a experiência. Não se vê o mundo da mesma forma depois de uma iniciação na Recherche proustiana. A grande literatura nos conta quem somos de um modo clarividente, e o brilho desses pontos de revelação não deixa de ressoar com os séculos.

Que Shakespeare possui uma argúcia psicológica extraordinária já é de senso comum. Suas personagens são tão vivas quanto variadas, intensas, pródigas em perspectivas. E, como bem demonstrou Hegel, Shakespeare confere uma inteligência e uma imaginação às personagens "e por intermédio da imagem em que eles, com essa inteligência, contemplam-se como obra de arte, ele os torna livre artistas de si mesmos." Hamlet pode contemplar-se, e assim modificar-se; sua relação com a própria "psique" é especular, feita de auto-observação. A variedade de vozes em Shakespeare é extraordinária, todas absolutamente vivas; ele é capaz de criar mulheres como Rosalind e Cleópatra, vilões como Shylock ou o niilista Edmund, sempre inteiro em cada personagem, pleno, convincente. Além disso, vai em todas as direções. Sua obra é vasta demais, a experiência humana nela retratada é variada demais para que ele possa ser capturado em qualquer molde ou inclinação. Seu grande efeito é nos revelar para nós mesmos.

Esse caráter revelador prodigioso que só se encontra na grande literatura possui uma força de atração indestrutível. São textos que revelam e formam, que afinam nossa sensibilidade e senso crítico de modo que possamos compreender ou sentir como não sentiríamos nem compreenderíamos sem a iniciação proporcionada por eles, destilando assim uma sedução inigualável. À essa qualidade inequívoca de grande literatura, some-se aos textos de Shakespeare a vocação teatral, e temos então um manancial que está longe de se esgotar, eterno em sua força de revelação e encantamento.

Simone Ostrowski é escritora autora de "Mistério em Florença" Ed.Revan


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Luiz em meio à sua paixão

Luiz Horácio escreve ... e lê, lê, lê...