11/Novembro/2000
|
UM ESTRANHO OLHAR
"O desespero é verdadeiramente a marca deste mundo. E o cinema é um dos sintomas mais graves
do desespero universal" - (R. Rossellini, cineasta)
Em 1695 surgia na Holanda a lanterna mágica, possibilitando a projeção de imagens pintadas
em placas de vidro, bem mais tarde-1894 os irmãos Lumiére filmavam a saída de operários
de sua fábrica em Lyon e no dia 28 de dezembro de 1895 acontecia a primeira exibição com ingresso
pago. Nasciam os gêmeos: o cinema como indústria cultural e o sofá psicanalítico mais
acessível ao homem do povo. Um século depois os gêmeos continuam fortes cada um em sua cruzada.
Sem esquecer os excessos de ambos.
De 1910 a 1920 os alemães tiveram suas artes dominadas pelo expressionismo e o cinema adaptava obras dos
autores românticos como Goethe por exemplo. O expressionismo era anti-realista exatamente para enfatizar
a complexidade psíquica. O expressionismo alemão apresentava uma queda pela abordagem dos duplos,
as facetas do eu. O Gabinete do Dr. Caligari é uma expressão do movimento já radiografando
alguns tormentos incipientes que mais tarde assombrariam a humanidade.
No mesmo ano da primeira exibição paga nascia também a psicanálise, esta bem mais pretenciosa
que o cinema mas no campo dos sonhos, creio, com muito menos exito que o cinema. Mesmo assim mantém seus
tentáculos sempre próximos quando não enroscados ao corpo do cinema. Todo filme é matéria
prima para um psicanalista de plantão teorizar, do alto da sua verborragia o doutor delira. Páginas
de jornais se transformam em campo de batalha dos eruditos doutores. O mais recente foi por ocasião do filme
"De Olhos bem Fechados" do Stanley Kubrick, aqui com o agravante do autor Arthur Schnitzler ter sido
contemporâneo e amigo de Freud.
A editora Imago lançou recentemente "Psicanálise, Cinema e Estéticas de Subjetivação"
organização da psicanalista Giovanna Bartucci apresentando ensaios de dois professores de cinema
sete psicanalistas e um doutor em ciências sociais. A abordagem para o cinéfilo é muito mais
atraente quando parte dos professores de cinema, Jean- Claude Bernardet e Fernão Pessoa Ramos, que sem descuidar
do enfoque psicanalítico dão mostras do conhecimento da causa "cinema".Infelizmente Jean
-Claude justifica seu ponto de vista tendo como argumentos seus próprios filmes, o que reduz em muito o
universo de sua análise. E cá pra nós: filmes que uma meia dúzia, ou no máximo
umas sete pessoas, supostamente assistiram. Na contra mão surgem os psicanalistas com seus textos prolixos
e destinados aos seus pares.
TRECHO
"Teoria do Cinema e Psicanálise: Inteseções". Fernão Pessoa Ramos
"Paradigmático deste encontro "narrativo" entre psicanálise e cinema é o
filme "Psicose" (Psycho, EUA, 1960), de Alfred Hitchcock. Em sua simplificação do método
psicanalítico, evidencia para o que serve a psicanálise na ficção cinematográfica.
O próprio Freud acabou envolvido numa trama similar na feitura de "O segredo de uma alma" (Geheimnisse
Einer Seele, Alemanha, 1926), de George Wilhelm Pabst. O diretor trabalha em colaboração estreita
com dois assistentes de Freud, Karl Abraham e Hans Sachs, na composição de um enredo recheado de
passagens oníricas. A psicanálise aqui também exerce função explicativa (como
motivação dramática), embora com um pouco mais de sutilezas que no padrão hollywoodiano.
Freud depois iria desautorizar o filme. Em um mapeamento amplo das zonas de intersecção entre cinema
e psicanálise, creio ser este um primeiro ponto a ser realçado: "o motivo psicanálitico
pensado a partir de uma estrutura causal linear (como motivação verossímil para a ação),
dentro da estrutura narrativa que caracteriza o classicismo cinematográfico."
Os textos permitem a observação de mais uma das infinitas utilidades do cinema, cinema como instrumento
da política por ex. Tal aspecto poderia ser objeto de pelo menos um dos psicanalistas, enquanto isso Maria
Rita Kehl ocupa seu tempo, e o do leitor, com mais uma interpretação de "O Piano".
Por que não um olhar sobre "O Nascimento de uma Nação" que David W. Griffith cometeu
em 1915, sua estúpida versão da Guerra Civil apresentando os negros como selvagens e louvando a Ku-Klux-Klan.
Aqui os psicanalistas poderiam se demorar na abordagem. Mas alguém sabe de algum exemplo onde a psicanálise
tenha se posicionado ao lado das minorias?
Pois cito dois filmes para os psicanalistas "ensaiarem" sobre psicanálise , cinema e estéticas
de subjetivação: Sargento York de Howard Hawks-1941 e Rosa da Esperança de Willam Wyler-1942
apenas dois exemplos do mais abjeto cinema de propaganda. Esqueçam O Piano. O cinema merece mais.
Piano é um rascunho se comparado com "Os Mistérios do Organismo" de Makavejev, já
que o caso é para terapeutas, uma mistura de trechos de documentários sobre a vida de Wilhelm Reich
("não pode haver revolução política sem revolução sexual"),
revolta nas ruas de Nova York e uma história que se passa na Iugoslávia onde uma mulher tenta difundir
o amor livre e acaba com a cabeça decepada pelos patins de um patinador soviético. A censura militar
destinou ao limbo por dez anos "Os Mistérios do Organismo".
Psicanálise, cinema e estéticas de subjetivação é um livro para psicanalistas
que cinéfilos podem ler desde que não levem "os doutores", muito a sério.
|
TAPUIAÇU - Desejos Velados
Tapuiaçu de Creso Balduíno da Silva, mineiro, morando em Brasília há 30 anos, faz-nos
recordar belos livros. Temos uma bem contada história dum rico dono de terras do interior de Minas que possuía,
para alegria da vida, o sexo com belas mulheres, donzelas e casadas. O destino o leva à cadeira de rodas,
ainda novo, esposa mais nova ainda. Começa então a história que escapa ao estilo de Jorge
Amado apesar do título ser quase uma citação à Tocaia Grande [tapuaiçu: tapuia
grande]. Escapa porque Creso traz psicologismo como marca. Mais que relatar regionalismos, abre-nos seus personagens
e nos escancara contradições, intenções, medos, ações interditas, ao
estilo de Machado de Assis (Quincas Borba).
Amante das obras do colombiano Gabriel García Márquez, há de se notar uma pontinha deste escritor
logo no início do livro, uma ponta de Cem Anos de Solidão. É quando se nos apresenta um esqueleto
enorme, majestoso, alvejado, montado e pregado à porta duma mercearia. O esqueleto dum índio, um
tapuio. Tal cena lembra o deserto de almas de Macondo. Mas esta semelhança é deveras breve, um cartão
de visitas aos leitores.
Quanto a Jorge Amado, preciso é dizer que aparências enganam muito. Em Tocaia Grande uma cidade é
construída, em Tapuiaçu também. Tapuiaçu significa Tapuia Grande, tapuio ou tapuia:
índio bravio. A diferença está no fato de que a cidade mandada construir pelo protagonista
foi uma forma de lhe distrair na vida, enquanto Tocaia Grande vai surgindo conforme os acontecimentos e nenhuma
fantasia, senão a das prostitutas, é maior do que a aridez da necessidade.
| Em Tapuiaçu falará alto e claro o desejo. Desejo pelas e das mulheres. A nova mulher de Creso, posto
que a outra o abandona, quer fazê-lo "reviver", acredita que haverá no companheiro uma fantasia,
mistério a ser desvendado. Literalmente, fantasia-se a cada noite buscando-lhe o desejo. Este não
aparece. Excitam-se olhos, pele, reflexos frouxos. O verdadeiro desejo, velado. Por que não falarmos da
exaltação do sexo nos meios de comunicação que visam ao prazer imediato do olhar, do
toque sem levar em conta o desejo, a identidade do sujeito? Assim, o livro vale muito. Lembrará, ainda,
ao leitor o livro sublime de Assis Brasil, Beira Rio Beira Vida devido à narrativa. O trabalho de Creso
é o de flashback inesperado, sem aviso. Em Assis Brasil isso vai mais trabalhado, verdadeira obra de arte
dando ao texto o aspecto da circularidade, do inferno de Dante, da repetição. Em Creso o vaivém
inesperado que enriquece a obra e demonstra o domínio técnico do autor neste primeiro livro. |
TAPUIAÇU
Creso Balduíno da Silva
Editora: Revan
192 páginas
Preço: 20,00
|
|
Elaine Pauvolid
é poeta, autora de Brindei com Mão Serenata o Sonho que Tive durante minha Noite-Estrela...
(Imprimatur/Sette Letras) sette@ism.com.br |
|
CONTO
SOCORRO
do espanhol José Maria Lopez
Seu rosto era um deserto. Os olhos, faróis apagados, sinais úmidos de pouca vida, praia depois da
chuva. Ele voltava no tempo, o desencanto do lobo solitário, o gelo e o vidro, tudo derretendo. Chapéu
de palha na mão direita, chinelos surrados nos pés cansados. Céu carregado, mulheres vestidas
de negro andam em direção ao cemitério. Ninguém morreu. Ele voltava ainda mais no tempo;
o filho e a puta sem batom, tudo morrendo. O luto nascendo velho. No final emerge a lembrança do começo
para aumentar o vazio, desprezar o caminho percorrido. Um avião risca o céu deixando um traço-
reto- sem -régua- de-fumaça-branca. Ele não olha, sempre disse que os pássaros não
costumam olhar pra cima durante o vôo: "Quando eu morrer serei obrigado a olhar para cima." Ele
se recusa a olhar. O vento chega de surpresa como todos os ventos, o chapéu não voa, poeira nos olhos,
lágrimas de incerteza tentam escorrer pelo rosto sulcado. A chuva chega e ele a recepciona ali mesmo, sentado
chapéu na mão. A solidão é um barco vazio e ele só queria atravessar aquele
riacho de sempre, agora de águas mornas. Queria chegar no outro lado. Precisava aprender a pedir socorro...
Tradução: Luíz Horácio
|
Poesia
Fausto Wolff é um dos melhores, irônico e apaixonado, corrosivo e terno, simples e erudito, justo
e cruel. Como ele consegue? Leiam seus livros . Quando sobrar tempo aproxime-se dele. Ele é um lobo enorme
e parecerá ainda maior, de alguma maneira ele rosnará carinhosamente e se encontrar um papel mesmo
que vagabundo, não importa que seu azarão perca novamente, que o uísque acabe; você
perceberá sinceridade em seu olhar e o papel vagabundo embrulhará um poema raro. Agora o lobo atrevido
oferece a todos "CEM POEMAS DE AMOR e uma canção despreocupada", seu mais recente livro
onde os poemas têm o tamanho exato de uma emoção, de um beijo, de um grito, de...
Com vocês um pouco do aparente descompromisso dos poemas de Fausto Wolff.
METAFÍSICA SUR MER
Só o Nada conhece a essência do Nada
E o Nada se desconhece.
Um cego num quarto escuro
enxerga mais do que Deus.
E um dos nomes de Deus
é Nada do princípio
ao fim de si mesmo.
A ausência que não se reconhece
imagina a própria forma.
ARTE
Este palhaço
sou eu.
Mas não foi fácil
tornar-me tão
imprestável. |
|
ANÁLISE
Está certo,
tudo é teatro.
Mas por que
dói de verdade?
ALTER ÁLCOOL
Quando lá no céu surgir
uma peregrina flor,
você está de porre.
POEMA MELHOR
Este é um poema
melhor do que aquele.
Você está
e eu não estou
nele. |

VERÍSSIMO
O jornalista brasileiro
não sabe se expressar,
e isso, ele expressa
muito bem.
Existem, é claro,
alguns velhos incorretos,
porém,
que pretendem explicar
como devemos ler.
Cegos, ilusos, coitados,
Millôres, jaguares,
carusos, ziraldos,
alienados.
Não entenderam
a Nova Ordem
de um sistema indeciso,
traidor, narciso
que diz quem vai morrer
e merce.
O resto
ou dá ou desce.
E a gente esquece.
|
|
|
Eventos
Lançamento de Poemas Cariocas em 27 de novembro de 2000 no Café do Beco
|
LANÇAMENTOS
A editora Mulheres anuncia a publicacao de
FLORA TRISTAN. Peregrinações de uma pária. 1ª ed. 1838. Tradução de Maria
Nilda Pessoa e Paula Berinson. Introdução por Roland Forgues. 540 p. R$
45,00. Co-edição Edunisc.
Flora Tristan, feminista francesa, nascida em Paris, era filha de um general
peruano, casado na Espanha com uma francesa, em cerimônia religiosa cuja
legitimidade não foi reconhecida quando da morte do general. Em 1833, Flora
viaja ao Peru para tentar reivindicar sua parte na herança da avó peruana. O
presente livro é relato de viagem mas também o relato das lutas de uma
mulher independente com uma sociedade em que tudo conspirava contra a
mulher.
A primeira edição deste livro apareceu em 1838, em Paris. A presente edição
é a primeira integral em português. As tradutoras e as editoras preferiram
tentar a aventura de uma edição integral, visando a dar ao leitor a
transcrição fidedigna das aventuras de Flora Tristan. É um livro que se lê
com prazer, como ficção, e que, ao mesmo tempo, representa um testemunho da
visão de uma européia sobre um país da América Latina, no século XIX.
PEDIDOS
Editora Mulheres
CNPJ 014 790 49/0001-31
Caixa Postal 5031
88040-970 Florianópolis, SC
Fone/Fax: (048) 233-2164
e-mail: editoramulheres@floripa.com.br |
|
ENSAIO
Em um texto que tem por objetivo investigar a força da influência do texto literário, focalizando
especificamente Shakespeare, sou obrigada a começar pela minha própria vida. Sou escritora e advogada,
e nos dois casos acredito que a força de sugestão do bardo tenha ido além dos limites da minha
vã filosofia. Recentemente, no programa de entrevistas de Jô Soares, contei a história da descoberta
da minha vocação literária: aos oito anos, já irresistivelmente atraída pelos
livros, eu abri "A Tempestade" e me apaixonei por Ariel, o espírito aéreo, doce e travesso
que tinha o poder de assumir as mais variadas formas. Decidi-me ali pela carreira literária, o que também
pressupõe a habilidade de assumir as mais variadas formas. Mais tarde, às vésperas do vestibular
e em dúvida sobre a minha segunda carreira, reli "O Mercador de Veneza"; e ali estava Portia,
legítima representante dessas jovens mulheres cheias de astúcia e determinação que
fazem parte do universo shakespeariano, como Rosalind. Disfarçada de homem, Portia comparece a um tribunal
e salva um homem de uma avença cruel apenas com o engenho de sua argumentação, em uma atuação
memorável. Por esse e outros motivos, optei pelo direito.
A quantidade de filmes e peças baseados em obras de Shakespeare, ou até fantasiando sobre a sua
vida pessoal, como "Shakespeare apaixonado", é extraordinária. "Sonhos de uma Noite
de Verão" e "A Megera Domada" mereceram recentes versões para o cinema, sem contar
a versão de "Romeu e Julieta" com Claire Danes e Leonardo di Caprio encarnando o jovem casal.
Aguarda-se agora o novo Branagh, com uma versão em forma de musical de "Canseiras de Amor Inúteis"
ao som de Cole Porter e Gershwin. Relembre-se igualmente a atual novela das seis, que claramente se inspira em
"A megera domada". O manancial shakespeariano é inesgotável, como tudo o que pertence à
grande literatura. Mas o que reveste a literatura desse magnetismo eterno, e Shakespeare em particular?
Que a grande literatura é "dulce et utile", como dizia Horácio, prazerosa e útil,
disso não resta dúvida. Ela é indispensável por seu papel formador, aguçando
o senso crítico, enriquecendo o imaginário e tornando-nos mais capazes de estruturar a experiência.
Não se vê o mundo da mesma forma depois de uma iniciação na Recherche proustiana. A
grande literatura nos conta quem somos de um modo clarividente, e o brilho desses pontos de revelação
não deixa de ressoar com os séculos.
Que Shakespeare possui uma argúcia psicológica extraordinária já é de senso
comum. Suas personagens são tão vivas quanto variadas, intensas, pródigas em perspectivas.
E, como bem demonstrou Hegel, Shakespeare confere uma inteligência e uma imaginação às
personagens "e por intermédio da imagem em que eles, com essa inteligência, contemplam-se como
obra de arte, ele os torna livre artistas de si mesmos." Hamlet pode contemplar-se, e assim modificar-se;
sua relação com a própria "psique" é especular, feita de auto-observação.
A variedade de vozes em Shakespeare é extraordinária, todas absolutamente vivas; ele é capaz
de criar mulheres como Rosalind e Cleópatra, vilões como Shylock ou o niilista Edmund, sempre inteiro
em cada personagem, pleno, convincente. Além disso, vai em todas as direções. Sua obra é
vasta demais, a experiência humana nela retratada é variada demais para que ele possa ser capturado
em qualquer molde ou inclinação. Seu grande efeito é nos revelar para nós mesmos.
Esse caráter revelador prodigioso que só se encontra na grande literatura possui uma força
de atração indestrutível. São textos que revelam e formam, que afinam nossa sensibilidade
e senso crítico de modo que possamos compreender ou sentir como não sentiríamos nem compreenderíamos
sem a iniciação proporcionada por eles, destilando assim uma sedução inigualável.
À essa qualidade inequívoca de grande literatura, some-se aos textos de Shakespeare a vocação
teatral, e temos então um manancial que está longe de se esgotar, eterno em sua força de revelação
e encantamento.
| Simone Ostrowski é escritora autora de "Mistério em Florença" Ed.Revan |
|
|