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HISTÓRICO
Julho • 2000

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ALEGORIA

ALEGORIA - Sucessão de metáforas e/ou comparações através das quais realidades abstractas são concretizadas. Por meio desta figura, uma realidade abstracta, e por isso de mais difícil apreensão, é substituída por, ou comparada com, uma realidade mais concreta e, portanto, mais compreensível.

Por esse motivo, a alegoria é uma figura de estilo com uma dimensão textual invulgarmente extensa; por vezes abrange a totalidade de uma obra literária: é o que acontece, por exemplo, no Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.

Nesse auto vicentino, a passagem da vida terrena à vida depois da morte é alegoricamente representada pela passagem de um rio, para a qual estão disponíveis duas barcas, a barca do paraíso e a barca do inferno. As almas são metaforicamente representadas por passageiros; o interrogatório a que são submetidas representa o julgamento das almas subsequente à morte; o destino de cada uma das barcas prefigura a salvação ou a condenação eternas. Embarcar numa ou noutra depende do comportamento das almas na vida terrena, e esse comportamento determina, portanto, o destino das almas depois da morte.

Releia agora a alegoria da árvore utilizada pelo P. António Vieira num dos seus sermões.

(...) Uma árvore tem raízes, tem troncos, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão; há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão-de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos não hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta árvore varas, que são a repressão dos vícios; há-de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo isto, há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de ordenar o sermão (...).

P. António Vieira

Este excerto é bem elucidativo da natureza da alegoria. Para mostrar de forma mais expressiva como deve ser o sermão, o autor compara-o, nos seus diversos elementos, com uma árvore e as suas partes constituintes.

Começa por estabelecer uma comparação genérica entre o sermão e a árvore: "Uma árvore tem raízes, tem troncos, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão (...)". Um confronto do tipo "O sermão é como uma árvore" não alcançaria a expressividade que Vieira pretende. E, ao desdobrar a árvore nos seus constituintes (raízes, troncos, ramos...), abre o caminho à alegoria, estabelecendo o paralelo entre cada deles e os elementos do sermão: [o sermão] "há-de ter raízes (...); há-de ter um tronco (...); deste tronco hão-de nascer diversos ramos (...).

O valor expressivo da alegoria resulta, principalmente, do facto de tornar mais perceptíveis certas características das realidades abstractas, relacionando-as com outras, concretas. Neste caso, a natureza do discurso oratório (sermão) torna-se mais visível pela comparação com uma realidade concreta, de todos conhecida, a árvore.

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