Ética e Cidadania
Crimes                                                                             

     Assim como nos grandes atentados de âmbito mundial, também em pequena escala observa-se um aumento generalizado da criminalidade.

     Nos vinte anos transcorridos entre 1973 e 1992, a população dos Estados Unidos cresceu 21%. Nesse mesmo período os crimes violentos aumentaram 121% no país. Os custos sociais desses crimes são estimados em 100 milhões de dólares... por dia. Em 1995, uma pesquisa demonstrou que um número cada vez maior de crianças e adolescentes entre 7 e 17 anos tinham medo de morrer jovens, ser esfaqueados ou receber um tiro quando ficassem mais velhos… Talvez porque antes de completar 13 anos de idade, uma criança americana já tenha assistido a cerca de 18 mil assassinatos na televisão...

     Não é à toa que os americanos ficam cada vez mais tempo em casa, as quais, por sua vez, assemelham-se mais e mais a bunkers, ao invés de moradias. A venda de roupa à prova de bala segue batendo recordes no país...

     Uma ação bastante eficiente da polícia da Nova York conseguiu reduzir consideravelmente o número de crimes violentos na cidade a partir de 1995. Não obstante esse sucesso localizado, os crimes violentos continuam a ocorrer em quantidade no país. O gráfico abaixo mostra o crescimento da população carcerária dos Estados Unidos que cumpre pena pela prática de crimes violentos:

     Em todo o mundo os dados disponíveis mostram o crescimento da violência. O mundo gasta hoje 500 bilhões de dólares por ano em assistência médica às vítimas de agressões, de acordo com cálculos do Banco Mundial.

     Nas cidades mexicanas todos os moradores já sofreram algum tipo de agressão ou conhecem alguém que tenha sofrido. De acordo com uma matéria jornalística sobre o assunto, publicada em novembro de 1997, "grande parte do México está mergulhada na maior onda de violência de que se tem lembrança."

     Na Colômbia, em fins de 1997, algumas empresas fabricantes de coletes à prova de bala estavam estudando a criação de modelos para crianças, depois de terem recebido alguns pedidos neste sentido.

    Na Rússia, uma enquete com jovens de 14 a 17 anos feita em outubro de 1997, sobre a profissão que eles achavam mais prestigiosa, colocou "assassino profissional e escroque" em 18º lugar numa lista de 36 ocupações.

     O Anuário Estatístico do Brasil de 1994, editado pelo IBGE, mostrou que o número de mortes por causas violentas cresceu 43,5% de 1982 a 1992. Em 1992, a cada dez mortes registradas uma teve causa violenta, sendo o homicídio o fator principa. Em dez anos, morreram mais pessoas assassinadas do que de câncer. Mais de 30 mil pessoas são mortas dessa forma todos os anos no país.

    Entre 1980 e 1995, os crimes violentos cresceram nada menos que 300% no eixo Rio-São Paulo. Em 1995, a cidade do Rio de Janeiro registrou um índice de 56 assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes, um aumento de 11,7% em relação ao ano anterior. De acordo com um estudo feito pelo CDC de Atlanta, Estados Unidos, a violência na cidade do Rio de Janeiro gera prejuízos da ordem de um bilhão de dólares por ano. Na cidade de São Paulo, as mortes violentas foram a 3ª causa de mortes em 1995. A taxa de homicídios por 100 mil habitantes na faixa etária de 15 a 19 anos passou de 49, em 1980, para 196, em 1991. No distrito de Santo Amaro esse índice chegou a 313. Em agosto de 1997, a prefeitura da cidade de São Paulo divulgou um levantamento mostrando que o homicídio já era a principal causa de morte de adolescentes do sexo masculino.

     Apesar de muitos estudos e conjecturas, a perplexidade ante esse aumento generalizado da criminalidade é patente. Referindo-se ao Anuário Estatístico do IBGE, um angustiado editorial jornalístico procurava respostas para o inexplicável aumento do número de homicídios: "Os dados do IBGE destinam-se não apenas a conhecimento acadêmico: existem para que o poder público se oriente por eles. Nesse caso, por que a violência cresceu tanto? Tudo é apenas uma questão de falência do aparelho policial por todo o país? Ou os três Poderes de Estado — o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, em doses iguais, não têm responsabilidade nesta ascensão vertiginosa da violência nossa de cada dia?"

     Uma professora do Departamento de Antropologia da UNICAMP tinha certeza de uma coisa: "Há uma tendência mundial de aumento de crimes violentos contra a vida", asseverou. A professora tem razão, embora a causa real desse aumento seja desconhecida. É a atuação da Lei da Reciprocidade, acelerada também pelos efeitos do Juízo, e que naturalmente não pode ser detida pelo esforço conjunto dos três Poderes de Estado.

     Observa-se que houve um aumento muito significativo, nas últimas décadas, do número de mortes de adultos jovens do sexo masculino, em relação ao sexo feminino. Na faixa etária de 20 a 24 anos morriam quase dois homens para cada mulher em 1970; em 1991, morriam mais de quatro homens para cada mulher da mesma faixa etária. A causa disso foi o aumento do número de mortes violentas, principalmente homicídios e suicídios… De acordo com o superintendente da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, Kaizo Iwakami, "essa tendência se repete em boa parte dos centros urbanos do mundo."

     Em escala global tampouco uma "campanha mundial anticrime", como recentemente sugeriu o presidente americano sua criação, poderia reduzir a criminalidade mundial. A única possibilidade de isto vir a acontecer, de maneira substancial e duradoura, seria uma mudança na sintonização do pensar e sentir intuitivo de uma parcela considerável da humanidade, que assim passaria a atuar de modo purificador também sobre os ânimos mais obscuros. Observando, porém, retrospectivamente o comportamento da humanidade como um todo, tal possibilidade pode ser evidentemente descartada.

     A criminalidade segue batendo recordes por toda a parte. Num único fim de semana, em junho de 1995, a cidade de São Paulo viveu "os três dias mais violentos da história", conforme noticiava uma matéria de jornal. Num período de 72 horas foram registrados 58 assassinatos, 39 tentativas de homicídio e 445 casos de lesões corporais, esses últimos equivalendo a um aumento de 100% em relação ao "recorde" anterior. Em fevereiro de 1998 o recorde foi novamente batido: 67 homicídios.

     No Rio de Janeiro, a violência criminal apresenta características já de uma guerra civil. Os traficantes de drogas ditam suas próprias leis, a que ficam submetidos os moradores das respectivas favelas. Os seqüestros, um tipo de crime que até a década de 70 era bastante raro, sendo levado a efeito sobretudo por motivos políticos, acontecem com freqüência cada vez maior (em fins de outubro de 95 foram seqüestrados no Rio três pessoas num único dia). Em várias ocasiões as famílias pagaram o resgate e mesmo assim a vítima do seqüestro foi morta. Os criminosos chegam a fechar túneis na cidade para assaltar mais comodamente os motoristas presos lá dentro, e a promover "arrastões" nas praias, onde um grupo de marginais andando um ao lado do outro vai roubando todas as pessoas que encontra pela frente.

     Apesar de hoje, indiscutivelmente, a cidade do Rio de Janeiro estar associada ao crime generalizado, ela ocupa apenas o oitavo lugar no ranking das cidade mais violentas do mundo (São Paulo é a décima). Há no mundo sete grandes cidades onde ainda se mata mais do que no Rio.

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André Carnevale - Pedro Paulo Ruiz