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A seguir, entrevista da Marina Lima, onde ela mostra toda força de seu pensamento (Rádio Nova FM-Dez/96)
Então, quando eu comecei a tocar melhor o violão, tirar as canções, eu tirava Beatles e Bossa Nova. Então a Bossa Nova foi o grande referencial. O que eu fiz foi adaptar outros acordes a uma sequência de acordes de harmonia assim meio Bossa Nova e também outro ritmo, porque é levado o ritmo que a minha vida leva e é outro, não é o ritmo da Bossa Nova. São outras levadas, mas têm vários acordes de Bossa Nova.
No seu disco de 95, Abrigo, Marina optou por não compor e apenas interpretar músicas de outros compositores. Ela explica melhor essa opção pela interpretação.
Então eu achei que era importante também eu entrar em contato com outras composições e me apossar dessas canções, tirar no violão, tocar e cantar prá poder ver se essas canções, se esses novos caminhos de outros compositores me inspiravam e me ensinavam alguma coisa prá eu compor de uma forma melhor. Eu acho que o Abrigo me deu um pouco isso. Foi bom, porque a convivência com essas canções novas foi bom prá mim. Me deu vontade de voltar a compor e me inspirou também para algumas novas canções.
Marina é muito crítica com relação ao seu trabalho. Ela comenta agora sobre seu difícil começo de carreira e sua inexperiência em estúdio.
Então o segundo disco por culpa [risos ] de eu ter me metido no primeiro, eu achei melhor eu não me meter mais, entreguei pro Lincoln. Aí, eu gostei, mas achei que ficou um pouco despersonalizado, tinha um padrão dele, que tudo acaba ficando parecido com ele demais, perde um pouco da personalidade, entendeu. Então acho que o interessante era ter pedido prá ele arranjar uma, duas ou três canções, mas o disco inteiro, o disco ficou muito homogêneo demais. Mas por causa desse disco, no terceiro disco, eu quis voltar a participar dos arranjos. Aí eu comecei a partir de certos acordes a querer fazer arranjos junto com o músico, trabalhar mais junto com o músico, numa espécie de pré-produção. Foi aí que começou a mudar isso.
Marina é acima de tudo, autêntica. Diferente da maioria dos artistas que procuram transmitir alegria em todas as situações, Marina faz questão de deixar claro, principalmente através de seus discos que não é uma super-mulher e como todo ser humano tem alegrias e tristezas.
Mas eu acho que, impressionante por exemplo, a repercussão que eu obtive com o disco O Chamado, por exemplo, que era um disco mais triste, um disco melancólico na realidade, que lidava com perdas, falava sobre perdas. Porque o ser humano, o ouvinte, não a pessoa que canta, mas a pessoa que ouve, quer um disco prá te fazer companhia, prá você colocar e não se sentir tão só, e nem sempre a gente tá alegre. Então as vezes um disco mais melancólico, um disco um pouco mais introspectivo ajuda a quem tá ouvindo a sobreviver um pouco mais à solidão, faz companhia à pessoa. Então eu acho que tem um disco certo prá várias coisas, ou prá deixar você alegre, prá compartilhar da tua alegria com você que está ouvindo, prá te explicar, prá te fazer companhia na tristeza, diversas coisas, entende. Como na vida, uma obra é assim também.
Agora Marina fala de seu amigo Renato Russo
Agora, ele, eu não conseguia entender ele muito, porque ele era tão, os sinais, os códigos eram tão inesperados prá mim, eu não sabia que ele estava doente. Estou falando da pessoa dele, o trabalho sempre foi muito claro, que era maravilhoso. Então, quando o Renato faleceu, o quebra-cabeças fez sentido, porque o Renato vinha se despedindo já algum tempo, sem dizer prá ninguém. Ele não queria piedade, ele queria deixar uma imagem bonita, o melhor dele. Então, um ano e pouco que eu convivia com ele, que ele me dizia coisas no telefone generosas, ele me dava dicas, eu não conseguia entender, o que tá acontecendo ? ele desligava, eu ficava assim dois dias pensando, eu não entendia o que ele estava fazendo. Ele estava se despedindo, de uma forma muito elegante, muito discreta, porque ele era um homem muito discreto, o que isso tem de mais nobre, né, ser um homem discreto, mas ele foi deixando o melhor dele em pequenas partículas, entende, bonita a trajetória dele, fora o talento dele, que era enorme. Eu fiz um grupo de estudo com ele prá estudar Nietzsche, prá conhecer ele melhor, então chamei ele pro grupo de estudo. O grupo de estudo virou um clube, porque o Renato armou tanto, eu acabei saindo do grupo, parecia um time de futebol. Era impossível estudar naquele grupo, porque era o jeito deles, muita gente. Era difícil ter intimidade com ele. Eu pelo menos sentia isso.
Marina explica agora seu novo disco Registros À Meia-Voz
É um disco que foi difícil eu fazer, tem a ver com despedida. Agora, o disco musicalmente é muito bonito, tem canções muito bonitas, os arranjos são geniais da banda, acho que tem essa trajetória, um disco meio azul, sabe, um disco meio a meia voz mesmo, a meia luz, a meia voz, né, um disco meio assim com o coração na boca, entendeu, tem muita emoção, fico com vontade de chorar naquele disco.
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