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A conversão do adjectivo em advérbio
em perspectiva sincrónica e diacrónica

 
Martin Hummel
(Universidade de Graz, Austria),

A conversão do adjectivo em advérbio é um processo conhecido em todas as línguas românicas. No caso do português, frases do tipo Ela corre rápido são bem mais frequentes no português do Brasil do que no português de Portugal. O advérbio em –mente como em Ela corre rapidamente pertence à linguagem culta formal, sobretudo escrita, enquanto que o adjectivo adverbializado faz parte da linguagem informal (coloquial), sobretudo falada (v. Hummel, 2000b). Psicologicamente, esta repartição complementar é a consequência de os falantes considerarem o advérbio em –mente como mais correcto do que o adjectivo adverbializado. A frequência do advérbio em –mente aumenta portanto com o grau de formalidade que o falante quer dar ao seu discurso/texto. Em Portugal, a influência da norma culta é mais forte do que no Brasil, provavelmente por causa do maior impacto histórico da escolaridade sobre o comportamento linguístico dos falantes. No caso do Brasil, o adjectivo adverbializado é empregado com muita naturalidade, tanto na linguagem de falantes incultos como também na linguagem informal de falantes cultos. São estes os resultados de uma investigação que apresentei em Hummel, 2000b.

Pretendo mostrar, no presente trabalho, que o processo da conversão do adjectivo em advérbio não surgiu em época moderna, como se pretende por vezes. A conversão é, pelo contrário, o tipo de formação mais comum e mais tradicional de todas as línguas românicas.

1. Terminologia

Existem vários tipos de advérbios: advérbios de tempo, de lugar, de modo, etc. O tipo de advérbio de que acabamos de falar corresponde aos advérbios de modo que funcionam como atributo de um verbo, isto é como entidade linguística que caracteriza o decorrer de um evento (cf. Perini, 1998, 339-40). Este evento é designado por um verbo do qual o advérbio de modo depende sintacticamente. A função atributiva constitui o traço funcional comum da classe dos adjectivos e da classe dos advérbios (de modo):

O adjectivo funciona como atributo de um substantivo e o advérbio como atributo de um verbo1. Nesta perspectiva, o sistema das classes (categorias) de palavras funcionaria, basicamente, a partir de classes principais (substantivo e verbo) e de classes subordinadas atributivas (adjectivo e advérbio). Convém acrescentar que a categoria dos atributos admite também a função de atributo de um atributo como em altamente importante ou em muito rapidamente, onde altamente e muito são atributos de um adjectivo ou de um advérbio respectivamente. Também não é excluido o emprego dos atributos como atributos de unidades frásticas. É nomeadamente o caso dos chamados advérbios de frase do tipo naturalmente, curiosamente, etc. em frases como Naturalmente veio. São atributos da frase, ou de uma parte dela, que muitas vezes exprimem a opinião do falante sobre o evento descrito pela frase. Parece passar desapercebido que também os adjectivos podem funcionar como atributos da frase ou de uma parte dela. Os chamados adjectivos destacados são atributos que se referem a um substantivo como participante do evento descrito na frase: Cansada, a menina se foi embora. Parece-me portanto haver algumas características funcionais que justificam o tratamento comum do adjectivo e do advérbio como subcategorias da categoria dos atributos. Não diria que é a única maneira de classificar as classes de palavras que nos interessam aqui. Trata-se porém de uma perspectiva possível que promete alguns resultados interessantes.

2. Os atributos do verbo (advérbios) do português na sincronia actual

Na língua portuguesa podemos distinguir três tipos de advérbio que funcionam como atributos de um verbo:

Advérbio em -mente:       bater fortemente, comer rapidamente        Sufixação

Adjectivo adverbializado: comer rápido                                           Conversão2

Advérbio curto:              comer bem, comer mal                             Forma própria

Os processos da sufixação e da conversão são produtivos. Temos, além disso, uma série limitada de advérbios curtos lexicalizados como bem, mal, depressa, devagar, etc. De um ponto de vista sincrónico, o advérbio forte poderia pertencer ao segundo ou ao terceiro grupo (bater forte). Proponho no entanto classificá-lo com o advérbio curto tradicional, não só por motivos históricos como também pela sua usualidade actual que não permite afirmar que os locutores ainda tenham consciência de ter convertido um adjectivo em advérbio quando utilizam forte como advérbio. Seja como for, as duas interpretações são possíveis, e não há motivo para excluir esta duplicidade, como também não há motivo para admitir só uma das variantes forte e fortemente ou rápido e rapidamente.

A tradição gramatical apresenta a formação do advérbio pelo sufixo –mente como única regra produtiva do sistema da língua actual. Admite, além disso, e por motivos históricos, uma série bastante limitada de advérbios curtos. Na sua nova gramática, Evanildo Bechara admite a existência do mecanismo da conversão: «Muitos adjectivos, permanecendo imóveis na sua flexão de gênero e número, podem passar a funcionar como advérbio (Bechara, 1999, 294)». Seria importante, no entanto, indicar também as características diafásicas dos advérbios que podemos resumir da seguinte maneira:

Advérbio em -mente:       Linguagem culta formal        Tendência mais forte em Portugal

Adjectivo adverbializado: Linguagem informal              Tendência mais forte no Brasil

Advérbio curto:               Todos os registos                Brasil e Portugal

O facto de forte ser um advérbio relativamente bem aceite em todos os registos, não só em português como também em outras línguas românicas, é mais um motivo para o classificar preferencialmente como advérbio curto.

3. A produtividade do processo da conversão

No caso do Brasil, a produtividade da conversão do adjectivo em advérbio na linguagem informal não deixa dúvida. Consideremos os seguintes exemplos que observei e anotei em poucas semanas em discursos orais de locutores brasileiros. Podemos distinguir quatro grupos de adjectivos adverbializados, embora seja difícil delimitá-los rigorosamente:

A. Sintagmas lexicalizados

passar batido
dormir picado

B. Série de advérbios em oposição paradigmática ligados a um verbo determinado

jogar aberto/duro/pesado/sujo, etc.
falar claro/gozado/errado/grave/suave/esquisito, etc.

C. Advérbios usuais empregados com qualquer verbo

engordar fácil
preciso contar direitinho
entrou direto
trabalhar duro
parar rápido
comparecer urgente
Pega leve, pelo amor de Deus!
deslizar legal
preciso de pessoas que pensam diferente
ela tem medo de cobrar errado

D. Adverbialização produtiva de adjectivos

penso negativo [falante feminino]
resolvi bem espontâneo
[falante feminino]
faz mal comer nervoso
o rim funciona acelerado
comer escondido

O grupo A contém expressões lexicalizadas cujo significado lexical é ligado ao sintagma na sua totalidade: passar batido 'passar muito rapidamente', dormir picado 'dormir de uma vez, sem despertar'. Sintagmas deste tipo aparecem também no segundo grupo (jugar sujo). Preferi no entanto incluir estes sintagmas no grupo B. Este grupo é caracterizado por verbos que funcionam como base de séries não limitadas de advérbios que se encontram em oposição lexical paradigmática. Os exemplos dos grupos A e B deveriam aparecer nos dicionários de língua com duas entradas: uma no verbo e a outra no advérbio. Os advérbios do grupo C funcionam praticamente como advérbios curtos do tipo bem, mal, depressa, forte, etc. São empregados livremente com qualquer verbo. É possível que os falantes já não tenham consciência de que se trata de adjectivos adverbializados. O último grupo mostra, a meu ver, que os falantes brasileiros utilizam a conversão como mecanismo produtivo para formar advérbios a partir de adjectivos. Dada a baixa frequência ou quasi-ausência dos advérbios em –mente com função de atributos de um verbo na linguagem informal (Hummel, 2000b), podemos até afirmar que se trata do mecanismo produtivo dominante na comunicação informal. Lembramos que os únicos advérbios em –mente com função de atributo de um verbo mencionados na Gramática do português falado3 são calmamente, precocemente, completamente, rapidamente, globalmente, pausadamente, brabamente, permanentemente, exageradamente, seriamente, inteiramente, exclusivamente, diretamente, terminantemente, exatamente e categoricamente. A maioria destes advérbios pertence ao vocabulário culto ou cuidado. Outros funcionam como intensificadores ou juntam esta função à função atributiva propriamente dita. Poderíamos então avançar a hipótese de que a conversão constitui, na linguagem de falantes incultos, praticamente o único mecanismo de adverbialização utilizado. Os falantes cultos optariam na fala formal pelo advérbio em -mente e na fala informal pelo adjectivo adverbializado. Em termos estruturalistas, e lembrando o esquema no parágrafo 1, poderíamos dizer que a oposição paradigmática das duas categorias «advérbio» e «adjectivo» é neutralizada no registo informal coloquial de falantes cultos e na fala de falantes incultos. Esta neutralização só se produz quando o advérbio funciona como atributo de um verbo, isto é, dentro do sintagma verbal. Seria uma hipótese a verificar nos vários corpora de linguagem falada, culta e inculta, actualmente preparados em várias universidades do Brasil. O triângulo acima desenhado reduzir-se-ia a uma categoria só: a arqui-categoria dos atributos. Teríamos, ao mesmo tempo, um argumento importante a favor do sistema de classificação das categorias de palavras proposto no triângulo. É evidente, no entanto, que só uma verificação empírica, baseada em corpora da fala culta e da fala inculta, permitirá dar uma resposta definitiva.

4. O carácter pan-românico da conversão

4.1. O francês

O francês costuma ser considerado, hoje em dia, como a língua românica mais marcada pelo processo de estandardização e normalização como idioma nacional através de esforços seculares de gramáticos, de políticos e sobretudo da escolarização que atingiu praticamente a totalidade dos franceses a partir de finais do século XIX. Os próprios falantes têm um forte «sentiment du correct». Costumam referir-se, sempre que surge um problema linguístico, às normas propostas pelas autoridades. No páragrafo seguinte, vou resumir os resultados de um estudo que dediquei ao adjectivo adverbializado francês (Hummel, no prelo).

Na linguagem culta predomina o advérbio em –ment junto com um série limitada de advérbios curtos como bien, mal, vite, etc., em parte de origem idêntica à dos advérbios correspondentes do português. O advérbio em –ment predomina tanto no registo culto formal como no registo culto informal. O emprego do advérbio em –ment caracteriza-se portanto por uma maior extensão que no caso do português do Brasil. Existe, além disso, o adjectivo convertido em advérbio, em frases como J'y vais rapide. Os falantes cultos têm uma consciência aguda de mudarem não somente de registo como também de nível de expressão quando recorrem a estes adjectivos adverbializados. Só fazem parte do discurso de falantes cultos, na medida em que muitos destes gostam do jogo linguístico que permite a alternância de registos pertencentes a diferentes níveis de expressão. O registo que usam, quando recorrem ao adjectivo adverbializado, é o do francês popular, hoje em dia considerado como «argot», isto é, um conjunto de gírias populares ou marginais. São utilizados e voluntariamente preferidos aos advérbios em –ment na linguagem «jovem» (o chamado «parler jeune») e no estilo de autores da «littérature d'argot». Nos dois casos, os falantes têm uma atitude rebelde em relação às normas linguísticas propostas pela escola, pelos pais ou pelos bons autores. Utilizam o adjectivo adverbializado por anti-conformismo e para chocar.

A conversão do adjectivo em advérbio ocorre também nos dialectos do francês (Deutschmann, 1959, 6-21). Dada a avançada marginalização dos dialectos franceses hoje em dia, podemos dizer que o processo da conversão existe, no caso do francês, somente em sectores bastante marginais da língua francesa: o argot e os dialectos. O denominador comum destes sectores é a sua exclusiva dependência histórica da tradição oral e o seu afastamento da norma culta imposta pelas autoridades. Podemos concluir que o adjectivo adverbializado francês é típico em todos os registos de tradição oral, incluindo os dialectos, enquanto que o advérbio em –ment predomina nos registos onde a influência da norma culta foi preponderante.

O caso da Louisiana

O caso da Louisiana, colonizada pelos franceses a partir de finais do século XVII, é particularmente interessante por dois motivos. Os colonizadores eram camponeses que transportaram à Louisiana o uso oral rural das províncias de origem5. Depois de instalados na nova colónia, passaram a viver completamente isolados da França e portanto das normas linguísticas aí transmitidas pelas escolas (Bollée, 1990, 760). Podemos portanto presumir que o francês de Louisiana conservou uma tradição oral rural dialectal com origem no século XVII. No que diz respeito aos advérbios, Deutschmann menciona os seguintes exemplos, no francês de Louisiana (Deutschmann, 1959, 19):

an ll'a éspéré patient          'a gente esperou-o paciente'

i nous a oubliés complet     'esqueceu-se completo de nós'

Conwell / Juilland escrevem na sua Louisiana French Grammar:

"Many LaF [Louisiana French] adjectives may function adverbially, e.g. [...] ça halait lourd [...,] les autres les fait différent [...,] il guettait content [...] (Conwell / Juilland, 1963, vol. I; 180)."


Encontram-se, além disso, frases do tipo ma femme est jaloux, aliás também atestadas no francês popular nos finais do século XIX e início do século XX (Bauche, 1920, 93, n.1).

A hipótese do «abuso moderno»

Na opinião de muitos falantes e estudiosos da língua francesa, o mecanismo da conversão é um abuso de origem moderna. Acabamos de ver que não foi assim. A própria hipótese do «abuso moderno» é antiga. Os gramáticos reagiram da mesma maneira quando, no século XIX, o romance moderno de Émile Zola e outros começou a utilizar o francês popular como fonte literária (Robert, 1886, 109-111). E mais: nos textos medievais, portanto anteriores aos grandes esforços de normalização da língua, o adjectivo adverbializado abunda também (v. a colecção de exemplos de Heise, 1912). Trata-se, sem dúvida alguma, de um mecanismo tradicional da língua francesa. É portanto mais provável a hipótese de que a tradição oral antiga da conversão foi, no decorrer dos séculos, pouco a pouco marginalizada pela crescente influência da norma escolar (norma culta) que deu preferência ao advérbio em –ment.

4.2. O espanhol

No caso do espanhol, o facto mais importante é a alta frequência dos adjectivos adverbializados nos países hispanoamericanos em relação à Espanha. Kany resume a situação da seguinte maneira:

"By analogy with such real adverbs as alto, mucho, bajo, recio, quedo, claro, cierto, and infinito, etc., American Spanish has colloquially transformed other adjectives into adverbs, which, in many cases at least, would be considered incorrect in peninsular standard Spanish, though some of them may be heard in popular speech (Kany, 1969, 228-9; cf. de Mello, 1992, 228-9 e Hummel, 2000a, 364-416)."

A diferença é tal que os adjectivos adverbializados chegam a ser considerados como americanismos por hispanofalantes europeus (Salvador Plans, 1990, 574). Encontramos portanto uma situação mais ou menos idêntica à que caracteriza o Brasil em relação a Portugal.

A linguagem falada culta e a linguagem falada inculta na Cidade de México

Numa análise do corpus do «español culto hablado» em 10 cidades de Hispanoamérica e Espanha, de Mello observa uma maior frequência dos adjectivos adverbializados nas cidades americanas (16 por cento na América contra 11 por cento na Europa (de Mello, 1992, 229)6. Mas o que mais interessa aqui são os resultados obtidos na Cidade de México onde existem dois corpora, um corpus da linguagem falada culta e outro da linguagem falada inculta. Nesta cidade, a frequência dos adjectivos adverbializados é duas vezes mais alta na «habla inculta» do que na «habla culta». É significativo o caso do adjectivo adverbializado mais frequente rápido:

fala culta:    rápido (69 ocorrências)    rápidamente (60 ocorrências)
fala inculta: rápido (24 ocorrências)    rápidamente (1 ocorrência)

No corpus da fala culta, o adjectivo adverbializado rápido ocorre 69 vezes e a forma alternativa rápidamente 60 vezes. Na fala inculta a frequência absoluta de rápido é de 24 enquanto que rápidamente ocorre só uma vez (de Mello, 1992, 231). A frequência de rápidamente aumenta portanto com o grau de cultura atingido pelos falantes. Podemos até dizer que o falante culto escolhe entre dois tipos de advérbios, o adjectivo convertido e o advérbio em –mente, ao passo que o falante inculto conhece basicamente só o tipo da conversão. Existe portanto variação diafásica, no caso do falante culto, e limitação diastrática, no caso do falante inculto.

No parágrafo 3 mostrei que a conversão do adjectivo em advérbio é um processo produtivo no português do Brasil. Consideremos a este respeito o que diz Moreno de Alba sobre a situação linguística no México:

La adverbialización de adjetivos, aunque propia de toda la lengua española, se manifiesta con más frecuencia en el español americano («camina rápido» por «camina rápidamente»). En el caso de feo, además de este cambio, se da la modificación de significado: «huele feo» por «huele mal». Nótese que algo semejante sucede con el adjetivo bonito en el español de ciertos hablantes de la ciudad de México cuando dicen, por ejemplo, «que te vaya bonito». Evidentemente allí bonito no es adjetivo, pues no modifica a un sustantivo, sino adverbio que se refiere al verbo vaya, y, por otra parte, el significado de bonito ('lindo, agraciado') se modifica y adquiere el del adverbio bien: «que te vaya bonito (bien)».(Moreno de Alba, 1996, 166)."

Parece que a produtividade da conversão é tal que os adjectivos adverbializados chegam a substituir-se aos advérbios curtos tradicionais como mal e bien na fala de «ciertos hablantes». Podemos pelo menos afirmar que o processo da conversão chega a criar expressões alternativas para exprimir os significados 'bem' e 'mal'. Grundt menciona um emprego similar do fr. moche 'feio' no sentido de 'mal' no argot de Paris: Ça va moche (Grundt, 1972, 219).

4.3. O romeno

O caso do romeno é particularmente interessante porque a conversão constitui o único processo de formação de advérbios a partir de adjectivos nas falas culta e inculta:

scrisul frumos     'a letra bonita'       Adjectivo

el scrie frumos     'escreve bonito'    Advérbio (Engel, 1993, 860-1)

Os poucos advérbios em -mente existentes na língua romena são empréstimos do françês (completamente, realmente, totalmente; Engel, 1993, 866 e 873). Note-se que estes advérbios não costumam funcionar como atributos de um verbo mas sim como atributos de adjectivos ou como advérbios de frase.

4.4. O italiano

As gramáticas do italiano apenas mencionam os «aggettivi invariabili» (adjectivos adverbializados) (v. Hummel, 2000a, 434-40). Migliorini escreve:

"Si tratta, com'è noto, del tipo parlar chiaro, rappresentato da una serie abbastanza numerosa di esempi, in italiano come nelle altre lingue neolatine. Ma mentre per il francese abbiamo larghe raccolte di esempi e una minuta discussione del fenomeno, per l'italiano, dove pure il construtto era stato asservato dai grammatici del Cinquecento e del Seicento, no si hanno che brevi cenni delle grammatiche (Fornaciari, ecc.); mentre sarebbe desiderabile una monografia [...] (Migliorini, 1952, 113)."

Cita exemplos como risponder secco, risponder netto, scrivere fitto, colpir sodo, mangiar pesante, bere grosso, tagliar corto, etc.

Como no caso do francês, a conversão do adjectivo em advérbio é largamente usada em grandes zonas dialectais. Os dialectos do sul da Itália e a língua sarda utilizam o adjectivo onde o italiano padrão impõe o advérbio em –mente (Rohlfs, 1972, vol. III, 127 e Krenn, 1993, 311). O próprio do italiano é a generalização da flexão que muitas vezes inclui atributos nitidamente adverbiais, como no exemplo citado por Meyer-Lübke do romance I promessi sposi de Manzoni: «le sue lagrime corsero più facili» (Meyer-Lübke, 1974, vol. III: 448). É importante aqui observar que os dialectos do sul da Itália e o sardo restiram ao sufixo românico –mente porque já dispunham de um mecanismo funcional e porque não foram obrigados a utilizar este sufixo imposto pelas normas da língua padrão.

4.5. Conclusões

1. A conversão é o único mecanismo comum a todas as línguas românicas. Podemos portanto supor que este mecanismo já funcionou em latim vulgar, isto é no latim falado inculto. Não se trata portanto de um «abuso moderno».

2. A conversão é o mecanismo da tradição oral nas línguas românicas. Tornou-se evidente que a conversão é tanto mais frequente, hoje em dia, quanto menos forte foi a influência da norma escolar (norma escrita culta): dialectos, fala popular, fala inculta.

3. A conversão é o mecanismo que marcou fortemente as línguas românicas no Novo Mundo. Podemos supor que os colonizadores trouxeram este mecanismo ao Novo Mundo. É provável que o isolamento de muitas áreas linguísticas e as condições de contacto linguístico no Brasil tenham contribuído para favorecer a conversão como mecanismo mais simples de formação de advérbios.

4. A frequência dos advérbios em -mente depende historicamente da influência da norma linguística e nomeadamente do grau de escolaridade atingido num país. Esta influência foi bem mais forte na Europa do que no Novo Mundo. Na França, onde a norma mais influência teve, o mecanismo da conversão limita-se aos dialectos e ao argot, quer dizer a espaços linguísticos que a norma culta pouco atingiu.

5. O português arcaico e medieval

É evidente que os documentos escritos têm valor duvidoso num caso como o nosso em que a tradição escrita culta parece ser o principal responsável pela repressão do mecanismo da conversão. Por outro lado, os códigos oral e escrito não constituem sistemas fechadas. A norma oral aparece por vezes em textos escritos mesmo quando não é idêntica à norma da escrita culta. Em cartas entre amigos, as normas do código oral têm às vezes mais vigor que as do código escrito. Já mencionei que em textos franceses anteriores aos grandes esforços de normalização a conversão aparece com muita naturalidade. Podemos supor que se deveriam encontrar exemplos da conversão de adjectivos em advérbios em textos do português arcaico e medieval. Limitar-me-ei a citar as observações de alguns linguístas especializados.

Segundo José Joaquim Nunes a conversão já existiu na época imperial, chegando a pôr de lado os processos de sufixação por -iter, - , etc.:

"Estes processos de formação adverbial [conversão do adjectivo] herdou o português, com as demais línguas românicas, do latim, especialmente o falado na época imperial, segundo o testemunho dos gramáticos, que censuram algumas das expressões em uso no seu tempo, mas, afora eles, ainda este conhecia outros, dos quais muitos deviam ascender ao seu período mais arcaico; tais eram o emprego de velhos acusativos em -im, como sensim, pedetentim, passim, certim, etc. e a adjunção dos sufixos -tus, -ter e ainda o -e do antigo ablativo-instrumental a substantivos e adjectivos, como em radicitus, coelitus, constanter, firmiter, juste, probe, romanice, gallice, etc. Estas formações, porém, foram postas de parte pela língua popular, restando apenas da última alguns raros advérbios, como bem, mal, longe, tarde e poucos mais [...] (Nunes, 1960, 349)."

Parece que já na época imperial houve gramáticos que censuraram o tipo popular da conversão. É portanto possível que as críticas normativas dirigidas contra a conversão são tão antigas como o processo criticado. Isto leva-nos a crer que a conversão sempre foi um mecanismo coloquial (popular). Nunes menciona os seguintes sintagmas: comprar caro, comprar barato7, morar próximo/junto/distante, falar alto/baixo, ficar certo, andar ligeiro, vir privado ('depressa'), estar contino (arc. e pop.). (Nunes, 1960, 348).

O estudioso alemão Huber menciona toda uma série de adjectivos adverbializados:

"Manche Adjektiva bleiben auch in adverbieller Verwendung unverändert, d.h. im Mask.: z.B. muit'aficado CD. sehr inständig, aguisado passend, richtig, alegre (Euf. 360), aposto CA. passend, mit Anstand, certo CD. gewiß, dõado geschenkt, umsonst, festinho (CA., CV., CM.) eilig, fremoso CD. schön, nett, saboroso CD. angenehm, lieblich, sobejo CD. übermäßig, über alle Maßen (Huber, 1933, 147)."

Citemos também o que García de Diego dizia sobre o galego:

"De la misma manera que en los demás romances se han perdido en gallego los sufijos que el latín utilizaba para la formación de los adverbios de modo [...]. Para compensar esta pérdida nuestra lengua dispone de otros recursos: [...] b) Tomando como adverbio el mismo calificativo, de cualquier terminación que sea: rigidu [>] rijo = rejo, bassu [>] baijo, invitus ant. ambidos (a envidos en las Cánt., ant. cast. amidos [...]), 'contra su voluntad', quietu [>] quedo, festinu [>] festynno en las Cánt., 'rápidamente' (festino en Hita, 509), vivace [>] viaz en las Cántl, 'agilmente' bonu [>] bo [...] (García de Diego, 1909, 147)."

Segundo este autor, a conversão foi um dos mecanismos que permitiram compensar a perda dos antigos sufixos. Verifica-se portanto a existência do mecanismo da conversão no português que se utilizava quando começou a conquista do Novo Mundo. O Corpus do português medieval actualmente constituido por uma equipa de professores na Universidade Nova de Lisboa sob a direcção de Maria Bacelar do Nascimento permitirá sem dúvida maior clareza.

6. Do latim ao português: pistas para a investigação futura

Não pretendo, nesta pequena contribuição, descrever a história do sistema adverbial românico deste o latim até hoje (mais pormenores em Hummel, 2000a, 449-81). O meu objectivo limita-se a formular uma hipótese acerca da diacronia deste sistema adverbial, combinando dados diatópicos, diastráticos e diafásicos obtidos em épocas mais recentes. Queria mencionar, no entanto, que o mecanismo da conversão já existiu no latim.

Na norma culta do latim, o processo normal é o da sufixação por uma série de sufixos. Os sufixos mais frequentes são - e -iter:

Regras principais:

longus, longa, longum (adj.) ® long (adv.)

fortis (adj.) ® fortiter (adv.)

Em alguns casos existem duas formas:

firmus (adj.) ® firm (adv.) e firmiter (adv.)

humanus (adj.) ® human (adv.) e humaniter (adv.)

Uma parte dos sufixos, entre eles o sufixo - ,são antigos casos (instrumentalis) que já tinham perdido esta função na época do latim clásico. Esta observação poderia ser importante, na medida em que a concepção do advérbio como mero caso do adjectivo está bem mais perto de uma conversão que a concepção do advérbio como palavra formada a partir de adjectivos por sufixação.

A conversão parece existir a título de excepção, ou seja, aparece como tal quando se estudam textos escritos:

Excepção: facilis (adj.)® facile (adj. acc. sg. neutro) ® facile (adv.)

Encontram-se mais exemplos, já na época clásica:

dulce ridentem Lalagen amabo, dulce loquentem (Hor., Carm. 1, 22, 23-24). (Dias, 1959,66)

O modelo latim foi imitado no português:

Doce tanges, Pierio, doce cantas (Ferreira, egl. 2., ap. Moraes). (Dias, 1959, 65)

Karlsson menciona, além disso, os seguintes advérbios: brev , difficil, grav, celer, concord, dispar, dulc, fidel, grand , imman, immortal, impun, iug, lugubr, mit, perenn, perspicac , praecoqu, procliv, segn, sublim, vil (Karlsson, 1981, 17).

Lembramos que facil deu origem a adjectivos nas línguas românicas que fazem parte dos adjectivos frequentemente adverbializados e que mais penetração têm nos textos escritos. É o caso do pt. fácil, do esp. fácil y do fr. facile, para mencionar apenas as línguas românicas cujo uso conheço por experiência própria. É um caso curioso, na medida em que o esp. fácil não procede directamente da forma latina porque, neste caso, se teria perdido a f- inicial. Será que as propriedades semánticas deste adjectivo tiveram um papel decisivo para que a sua conversão em advérbio chegasse a generalizar-se nas línguas românicas?

Conclusão: Não cabe dúvida de que a conversão já existiu no latim, embora seja difícil pronunciar-se sobre a sua frequência na linguagem informal. Sabemos no entanto que não passou de ser um mecanismo ocasional e marginal na linguagem escrita culta. Não podemos afirmar nem rejeitar nenhuma das duas hipóteses seguintes: 1. A conversão como processo predominante já no latim informal de todas as épocas. 2. A origem da conversão como processo predominante durante a formação das línguas românicas a partir de um latim vulgar onde a conversão teria sido um processo entre vários. Temos algumas indicações da existência da conversão no latim clásico. Não é de excluir que se trate de elementos do código oral informal que aparecem por vezes no código escrito, como também acontence hoje. O mais provável é, a meu ver, a hipótese de que a conversão foi um mecanismo existente mas bastante limitado no latim clásico. No latim vulgar, este mecanismo económico conheceu uma expansão natural pela perda do código culto (escrito). A próprio perda da categoria funcional dos casos, que fez aparecer muitos advérbios como casos de um adjectivo, poderá ter contribuído para dinamizar o mecanismo da conversão.

7. O carácter universal da conversão e a explicação diacrónica

O carácter universal de um mecanismo linguístico não pode nunca explicar uma evolução histórica concreta. Se fosse esse o caso, todas as línguas conheceriam somente o mecanismo da conversão. O que pode acontecer, sim, é a favorização do mecanismo mais económico em determinadas contextos, como por exemplo o contacto linguístico permanente no Novo Mundo. O que tem a conversão de económico ou de universal? O carácter universal da conversão explica-se simplesmente pelo facto de cada falante saber que pode formar advérbios a partir de adjectivos, ou seja, que ambas as categorias são fundamentalmente a mesma. A marcação das categorias por sufixos ou casos é um recurso morfológico suplementar que serve para marcar o que já está plenamente justificado a partir da função de atributo. Daí possívelmente a relativa debilidade dos sufixos adverbiais na diacronia das línguas românicas, assim como a sua maior frequência na linguagem formal. A perda de influência da norma culta latina e as diversas circunstâncias de contacto linguístico no território conquistado pelos romanos poderiam ter favorecido o mecanismo económico da conversão, uma vez que não era desconhecido no latim.

Conclusão geral

Mostrei que o mecanismo da conversão do adjectivo em advérbio está longe de ser um abuso moderno. Trata-se, pelo contrário, do único mecanismo de formação de advérbios produtivo comum às línguas românicas examinadas aqui. É o mecanismo da tradição oral que aparece principalmente nos códigos orais pouco influenciados pelos esforços normativos (dialectos, argot, linguagem popular, linguagem informal, etc.). No código formal, que corresponde à norma culta (escrita), predomina o mecanismo da sufixação com -mente, com excepção do romeno que só conhece a conversão.

Do ponto de vista da teoria dos registos de linguagem, parece portanto pertinente a distinção, pelo menos na sincronia actual das línguas românicas, entre código formal e código informal. Os diferentes registos pertenceriam a um destes códigos ou aos dois códigos (código neutral). Os termos de «Distanzsprache» (linguagem de distância) e de «Nähesprache» (linguagem da proximidade), propostos por Koch / Oesterreicher 1990, parecem exprimir antes efeitos possíveis daquilo que melhor seria chamado código formal e código informal. Esta abordagem explicaria, por exemplo, o frequente uso do adjectivo adverbializado na publicidade da televisão brasileira. Compare-se, a este respeito, a frase publicitária autêntica Até o ferro desliza mais suave!, utilizada na televisão brasileira para descrever os efeitos de um detergente amaciador, com a frase alternativa Até o ferro desliza mais suavemente! Podemos dizer, unindo a minha abordagem com a de Koch/Oestereicher e a de Bühler, que o adjectivo adverbializado pertence ao código informal que tem como função sintomática (Bühler, 1982, 28) a da proximidade e como função apelativa (Bühler), no caso da publicidade, a da persuasão. Até no caso do francês, conhecido pelo vigor das normas do código formal, observa-se um frequente uso do adjectivo adverbializado na linguagem publicitária, muitas vezes atribuído à influência do inglês e severamente criticado do ponto de vista da norma formal8.

Do ponto de vista da teoria das categorias ou classes de palavras tornou-se evidente a utilidade da arqui-categoria dos atributos que se subcategoriza, essencialmente no código formal, em adjectivos e advérbios. A utilidade desta abordagem confirmou-se tanto na perspectiva sincrónica como também na diacrónica, na medida em que a conversão apareceu como uma neutralização da oposição adjectivo/advérbio dentro do sintagma verbal que só podemos explicar pela existência de uma arqui-categoria: a dos atributos.

Na perspectiva diacrónica, parece evidente que tanto os colonizadores francófonos da Louisiana como os colonizadores do Novo Mundo luso-hispánico trouxeram o mecanismo da conversão do adjectivo em advérbio como processo produtivo quando chegaram ao novo continente. O contexto de contacto linguístico e a influência bastante limitada da norma culta (escolaridade) favoreceram provavelmente a maior divulgação do mecanismo económico da conversão no Novo Mundo, enquanto que na Europa a norma culta chegou a marginalizar a conversão, com excepção do romeno que ficou isolado do resto da România. No que diz respeito à origem deste processo, limitei-me a esboçar algumas pistas de investigação. Cabe à futura investigação esclarecer-nos com mais pormenor sobre a origem da conversão no caso da formação dos advérbios nas línguas românicas.


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Notas

1. Cf. Pottier, Lingüística moderna y filología hispánica: 220-1.

2. Não concordo com Perini que considera rápido como adjectivo: «[...] em (64) Ela escreve rápido. [,] rápido, que provavelmente deve ser considerado um adjectivo, está modificando um verbo (Perini, 1998, 342)». Chaves de Melo propõe o termo «palavras adverbiadas» (1978, 105).

3. Castilho 1991, 95-7 e Ilari, 1992: 299-303. Mais pormenores em Hummel, 2000b. Os autores não dão frequências exactas por categoria. Também não fornecem dados sobre o emprego de adjectivos adverbializados no corpus. Convém portanto analisar novamente o corpus sob estes aspectos.

4. Os acadianos do Canada que se refugiaram na Louisiana no século XVIII não se distinguem, a este respeito, dos francófonos que tinham vindo antes para a Louisiana.

5. Infelizmente, o autor inclui os adjectivos adverbais flexionados do tipo ela chega cansada no grupo dos adjectivos adverbializados. Trata-se no entanto de adjectivos e não de advérbios (v. Hummel, 2000b). Podemos, apesar deste problema, considerar os resultados de De Mello como tendências que caracterisam sobretudo os adjectivos adverbializados, na medida em que só 18 das 187 ocorrências correspondem a adjectivos flexionados.

6. Corominas indica para cast. barato a origem de bajo precio. Menciona ainda a forma comprar a barato. Poder-se-ia portanto explicar pela elisão da preposição a.

7. V. Wagner/Pinchon, 1987, 150; Moignet, 1963, 178; Schütz, 1968, 104-5.