Dar Adeus ao Proibido

Para Gardencia Fimon

 Teoria? Pode. Com prática? Não. Subjetividade? Pode. Com radicalismo Não. Vida? Pode. Com insurgências? Não. Individualidade? Pode. Com coletividade? Não. Conhecimento? Pode. Totalitário? Não. Cursar história? Pode. Fazer a história? Não!

Somos escravos da cultura-opressão, do trabalho-opressão, do saber opressivo, da hierarquia opressiva. Acreditei fielmente que ao sair de casa e ir à universidade gozaria de liberdade, de autonomia. Falso sonho social. Não gozei. Sinceramente não conheço este que obteve a concretização deste meu sonho. Cada vez que nos distanciamos dos pais, nos aproximamos da escravidão assalariada que é o trabalho. Saímos do lar, nos descríamos na universidade e nos desumanizamos no mercado de trabalho. Oito horas de reprodução mercadológica no trabalho, mais oito de reprodução social e mais oito para ter pesadelos com a vida. A realidade é ainda pior. Sim, mas onde se encontra o “pode” e o “não”? Ah, eles estão em todas as horas do dia que mal controlamos. Estão no cotidiano no qual temos pouco poder.

O que é teoria sem prática? No mínimo um pensamento vazio de funções para a humanidade revolucionária. O contrário é uma medíocre ação. Tantas críticas, estudos, análises, planos, e tão pouca implementação destas no dia-a-dia. Temos a liberdade para pensar o que quisermos, para falar o que pudermos e para fazer o que quiserem. Praticar nossas teorias e teorizar nossas práticas. De qualquer sorte, ou existe as duas em consonância ou o vazio se instaura. Nada muda.

O poder da subjetividade está no poder de ser radical. A poesia não revolucionária, fora do cotidiano, não tem vida, não é vivível. O radical deve residir nos nossos devaneios, sonhos, pensamentos, planos e etc. Realizar a vida como se realiza uma arte. Diferente de tudo que temos, a subjetividade é ainda nosso bem inalienável, não passível de roubo, de desvio. A subjetividade é a maior arma humana, quando radical.

Uma vida de insurgência é possível. Não podemos optar pela vida ou insurgência. São as duas, ou nada. Se o cotidiano muitas vezes (de vez em sempre) nos “obriga” a não rebelar contra o sistema, é verdade também que está no cotidiano à resistência total, à superação plena de nossas correntes. Em todos os aspectos e espaços sociais de nossa vida cabe nossa parcela de contribuição para a criação (insurgência). Casa, trabalho, escola, rua, onde quer que estejamos somos contribuintes para a nova vida. Criticar essa vida de mesquinhez é criar uma nova de fartura.

Individualidade e coletividade? Sim. Ora, se pensamos num projeto de sociedade é, antes, por inserir-nos, enquanto indivíduo, neste. Semelhante, não podemos fazer opções individuais que excluam o coletivo, pois reside neste ultimo nosso meio de manutenção da vida e da felicidade de viver.Nossos anseios e lutas devem partir de nossa individualidade sem nunca perder de vista o horizonte coletivo a nossa volta.

Só o conhecimento totalitário desfragmentará o cotidiano. Uma arma onde todo saber será radical, pois tem o homem como raiz. Todas as áreas de conhecimento terão como princípio e fim a humanidade. Rejuntando todos os cacos, a vida se tornará a mais bela arte, todo prazer será fruto duma felicidade autêntica e não fragmentada. O conhecimento será toda subjetividade revolucionária.

Para que cursar história, se não para fazer a história? Para reproduzir míseros acontecimentos, através de um medíocre conhecimento para implementar num pífio de presente? A necessidade de conhecer a história é, sim, por necessidade de construí-la, não sob o vazio escárnio dos fracassos passados, mas sob um ímpeto criativo nunca antes visto na história. A “adaptação-melhoramento” do passado é, antes, uma medíocre vontade de não criar situações novas, do que uma tentativa sem sucesso. A era em que saber história é muito findou-se. Agora é hora de criar a história.

Será sem o consentimento da burguesia, sem o sermão dos padres partidário, sem o apoio dos falsos proletário que iremos acabar com está história de impossibilidade revolucionária. O amor pela criação é carregado por um desejo puro de destruir tudo que nos oprime e nos impõe a reprodução. É na destruição do que nos proíbem, que tudo se torna permitido. A insurgência está em todas as horas que nós controlarmos.

Ralidjha Isabeli

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Ver também: Se é que vai, quem vai? e A Profecia.

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