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João Cruz e Sousa



  • Abrigo celeste
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    Abrigo celeste

    Estrela triste a refletir na lama,
    Raio de luz a cintilar na poeira,
    Tens a graça sutil e feiticeira,
    A doçura das curvas e da chama.

    Do teu olhar um fluido se derrama
    De tão suave, cândida maneira
    Que és a sagrada pomba alvissareira
    Que para o Amor toda aminh'alma chama.

    Meu ser anseia por teu doce apoio,
    Nos outros seres só encontra joio
    Mas só no teu todo o divino trigo.

    Sou como um cego sem bordão de arrimo
    Que do teu ser, tateando, me aproximo
    Como de um céu de carinhoso abrigo.

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    Mudez perversa

    Que mudez infernal teus lábios cerra
    Que ficas vago, para mim olhando,
    Na atitude de pedra, concentrando
    No entanto, n'alma, convulsões de guerra!

    A mim tal fel essa mudez encerra,
    Tais demônios revéis a estão forjando
    Que antes te visse morto, desabando
    Sobre o teu corpo grossas pás de terra.

    Não te quisera nesse atroz e sumo
    Mutismo horrível que não gera nada,
    Que não diz nada, não tem fundo e rumo.

    Mutismo de tal dor desesperada,
    Que quando o vou medir com o estranho prumo
    Da alma fico com a alma alucinada!

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    Coração confiante

    O coração que sente vai sozinho,
    Arrebatado, sem pavor, sem medo...
    Leva dentro de si raro segredo
    Que lhe serve de guia no Caminho.

    Vai no alvoroço, no celeste vinho
    Da luz os bosques acordando cedo,
    Quando de cada trêmulo arvoredo
    Parte o sonoro e matinal carinho.

    E o Coração vai nobre e vai confiante,
    Festivo como a flâmula radiante
    Agitada bizarra pelos ventos...

    Vai palpitando, ardente, emocionado
    O velho Coração arrebatado,
    Prerso por loucos arrebatamentos!

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    Espírito Imortal

    Espírito imortal que me fecundas
    Com a chama dos viris entusiasmos,
    Que transformas em gládios os sarcasmos
    Para punir as multidões profundas!

    Ó alma que transbordas, que me inundas
    De brilhos, de ecos, de emoções, de pasmos
    E fazes acordar de atros marasmos
    Minh'alma, em tédios por charnecas fundas.

    Força genial e sacrossanta e augusta,
    Divino Alerta para o Esquecimento,
    Voz companheira, carinhosa e justa.

    Tens minha Mão, num doce movimento,
    Sobre essa Mão angélica e robusta,
    Espírito imortal do Sentimento!

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    Crê!

    Vê como a Dor te transcendentaliza!
    Mas no fundo da Dor crê nobremente.
    Transfigura o teu ser na força crente
    Que tudo torna belo e diviniza.

    Que seja a Crença uma celeste brisa
    Inflando as velas dos batéis do Oriente
    Do teu Sonho supremo, onipotente,
    Que nos astros do céu se cristaliza.

    Tua alma e coração fiquem mais graves,
    Iluminados por carinhos suaves,
    Na doçura imortal sorrindo e crendo...

    Oh! Crê! Toda a alma humana necessita
    De uma Esfera de cânticos, bendita,
    Para andar crendo e para andar gemendo!

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    Alma fatigada

    Nem dormir nem morrer na fria Eternidade!
    Mas repousar um pouco e repousar um tanto,
    Os olhos enxugar das convulsões do pranto,
    Enxugar e sentir a ideal serenidade.

    A graça do consolo e da tranqüilidade
    De um céu de carinhoso e perfumado encanto,
    Mas sem nenhum carnal e mórbido quebranto,
    Sem o tédio senil da vã perpetuidade.

    Um sonho lirial d'estrelas desoladas
    Onde as almas febris, exaustas, fatigadas
    Possam se recordar e repousar tranqüilas!

    Um descanso de Amor, de celestes miragens,
    Onde eu goze outra luz de místicas paisagens
    E nunca mais pressinta o remexer de argilas!

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    Flor nirvanizadas

    Ó cegos corações, surdos ouvidos,
    Bocas inúteis, sem clamor, fechadas,
    Almas para os mistérios apagadas,
    Sem segredos, sem eco e sem gemidos.

    Consciências hirsutas de bandidos,
    Vesgas, nefandas e desmanteladas,
    Portas de ferro, com furor trancadas,
    Dos ócios maus histéricos Vencidos.

    Desenterrai-vos das sangrentas furnas
    Sinistras, cabalísticas, noturnas
    Onde ruge o Pecado caudaloso...

    Fazei da Dor, do triste Gozo humano,
    A Flor do Sentimento soberano,
    A Flor nirvanizada de outro Gozo!

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    Feliz!

    Ser de beleza, de melamcolia,
    Espírito de graça e de quebranto,
    Deus te bendiga o doloroso pranto,
    Enxugue as tuas lágrimas um dia.

    Se a tu'alma é d'estrela e d'harmonia,
    Se o que vem dela tem divino encanto,
    Deus a proteja no sagrado manto,
    No céu, que é o vale azul da Nostalgia.

    Deus a proteja na felicidade
    Do sonho, do mistério, da saudade,
    De cânticos, de aroma e luz ardente.

    E sê feliz e sê feliz subindo,
    Subindo, a Perfeição na alma sentindo
    Florir e alvorecer libertamente!

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    Cruzada nova

    Vamos saber das almas os segredos,
    Os círculos patéticos da Vida,
    Dar-lhes a luz do Amor compadecida
    E defendê-las dos secretos medos.

    Vamos fazer dos áridos rochedos
    Manar a água lustral e apetecida,
    Pelos ansiosos corações bebida
    No silêncio e na sombra d'arvoredos.

    Essas irmãs furtivas das estrelas,
    Se não formos depressa defendê-las,
    Morrerão sem encanto e sem carinho.

    Paladinos da límpida Cruzada!
    Conquistemos, sem lança e sem espada,
    As almas que encontrarmos no Caminho.

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    O Soneto

    Nas formas voluptuosas o soneto
    Tem fascinante, cálida fragrância
    E as leves, langues curvas de elegância
    De extravagante e mórbido esqueleto.

    A graça nobre e grave do quarteto
    Recebe a original intolerância,
    Toda a sutil, secreta extravagância
    Que transborda terceto por terceto.

    E como um singular polichinelo
    Ondula, ondeia, curioso e belo,
    O Soneto , nas formas caprichosas.

    As rimas dão-lhe a púrpura vetusta
    E nas mais rara procissão augusta
    Surge o Sonho das almas dolorosas...

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    Fogos-fátuos

    Há certas almas vãs, galvanizadas
    De emoção, de pureza, de bondade,
    Que como toda a azul imensidade
    Chegam a ser de súbito estreladas.

    E ficam como que transfiguradas
    Por momentos, na vaga suavidade
    De quem se eleva com serenidade
    Às risonhas, celestes madrugadas.

    Mas nada às vezes nelas corresponde
    Ao sonho e ninguém sabe mais por onde
    Anda essa falsa e fugitiva chama...

    É que no fundo, na secreta essência,
    Essas almas de triste decadência
    São lama sempre e sempre serão lama.

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    Mundo inaccessível

    Tu'alma lembra um mundo inaccessível
    Onde só astros e águias vão pairando,
    Onde só se escuta, trágica, cantando,
    A sinfonia da Amplidão terrível!

    Alma nenhuma, que não for sensível,
    Que asas não tenha para as ir vibrando,
    Essa região secreta desvendando,
    Falece, morre, num pavor incrível!

    É preciso ter asas e ter garras
    Para atingir aos ruídos de fanfarras
    Do mundo da tu'alma augusta e forte.

    É preciso subir ígneas montanhas
    E emudecer, entre visões estranhas,
    Num sentimento mais sutil que a Morte!

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    Consolo amargo

    Mortos e mortos, tudo vai passando,
    Tudo pelos abismos se sumindo...
    Enquanto sobre a Terra ficam rindo
    Uns, e já outros, pálidos, chorando...

    Todos vão trêmulos finalizando,
    Para os gelados túmulos partindo,
    Descendo ao tremedal eterno, infindo,
    Mortos e mortos, num sinistro bando.

    Tudo passa espectral e doloroso,
    Pulverulentamente nebuloso
    Como num sonho, num fatal letargo...

    Mas, de quem chora os mortos, entretanto,
    O Esquecimento vem e enxuga o pranto,
    E é esse apenas o consolo amargo!

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    Vinho negro

    O vinho negro do imortal pecado
    Envenenou nossas humanas veias
    Como fascinações de atras sereias
    E um inferno sinistro e perfumado.

    O sangue canta, o sol maravilhado
    Do nosso corpo, em ondas fartas, cheias.
    como que quer rasgar essas cadeias
    Em que a carne o retém acorrentado.

    E o sangue chama o vinho negro e quente
    Do pecado letal, impenitente,
    O vinho negro do pecado inquieto.

    E tudo nesse vinho mais se apura,
    Ganha outra graça, forma e formosura,
    Grave beleza d'esplendor secreto.

    Índice de "Últimos Sonetos"


    Eternos atalaias

    Os sentimentos servem de atalaias
    Para guiar as multidões errantes
    Que caminham tremendo, vacilantes
    Pelas desertas, infinitas praias...

    Abrangendo da Terra as fundas raias,
    Atingindo as esferas mais distantes,
    São como incensos, mirras odorantes,
    Miraculosas, fúlgidas alfaias.

    Tudo em que logo transfiguram,
    Encantam tudo,tudo em torno apuram,
    Penetram, sem cessar, por toda parte.

    Alma por alma em toda a parte enflamam.
    E grandes, largos, imortais, derramam
    As melancólicas estrelas d'Arte!

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    Perante a Morte

    Perante a Morte empalidece e treme,
    Treme perante a Morte, empalidece.
    Coroa-te de lágrimas, esquece
    O Mal cruel que nos abismos geme.

    Ah! longe o Inferno que flameja e freme,
    Longe a Paizão que só no horror florece...
    A alma precisa de silêncio e prece,
    Pois na prece e silêncio nada teme.

    Silêncio e prece no fatal segredo,
    Perante o pasmo do sombrio medo
    Da morte e os seus aspectos reverentes...

    Silêncio para o desespero insano,
    O furor gigantesco e sobre-humano,
    A dor sinistra de ranger os dentes!

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    O Assinalado

    Tu és o louco da imortal loucura,
    O louco da loucura mais suprema.
    A Terra é sempre a tua negra algema,
    Prende-te nela a extrema Desventura.

    Mas essa mesma algema de amargura,
    Mas essa mesma Desventura extrema
    Faz que tu'alma suplicando gema
    E rebente em estrelas de ternura.

    Tu és o Poeta, o grande Assinalado
    Que povoas o mundo despovoado,
    De belezas etrenas, pouco a pouco...

    Na Natureza prodigiosa e rica
    Toda a audácia dos nervos justifica
    Os teus espasmos imortais de louco!

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    Acima de tudo

    Da gota d'água de um carinho agreste
    Geram-se os oceanos da Bondade.
    O coração que é livre e bom reveste
    Tudo d'encanto e simples majestade.

    Ascender para a Luz é ser celeste,
    Novos astros sentir na imensidade
    Da alma e ficar nessa inconsútil veste
    Da divina e serena claridade.

    O que é consolador e o que é supremo
    Cada alma encontra no caminho extremo,
    Quando atinge às estrelas da pureza.

    É apenas trazer o Ser liberto
    De tudo e transformar cada deserto
    Num sonho virginal da Natureza!

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    Imortal Falerno

    Quando as Esferas da Ilusão transponho
    Vejo sempre tu'alma - essa galera
    Feita das rosas brancas da Quimera,
    Sempre a vagar no estranho mar do Sonho.

    Nem aspecto nublado nem tristonho!
    Sempre uma doce e constelada Esfera,
    Sempre uma voz clamando: - espera, espera,
    Lá do fundo de um céu sempre risonho.

    Sempre uma voz dos Ermos, das Distâncias!
    Sempre as longínquas, mágicas fragrâncias
    De uma voz imortal, divina,pura...

    E tua boca, Sonhador eterno,
    Sempre sequiosa desse azul falerno
    Da Esperança do céu que te procura!

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    Luz da Natureza

    Luz que eu adoro, grande Luz que eu amo,
    Movimento vital da Natureza,
    Ensina-me os segredos da Beleza
    E de todas as vozes por quem chamo.

    Mostra-me a Raça, o peregrino Ramo
    Dos Fortes e dos Justos da Grandeza,
    Ilumina e suaviza esta rudeza
    Da vida humana, onde combato e clamo.

    Desta minh'alma a solidão de prantos
    Cerca com os teus leões de brava crença,
    Defende com so teus gládios sacrossantos.

    Dá-me enlevos, deslumbra-me, da imensa
    Porta esferal, dos constelados mantos
    Onde a Fé do meu Sonho se condensa!

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    Asas abertas

    As asas da minh'alma estão abertas!
    Podes te agasalhar no meu Carinho,
    Abrigar-te de frios no meu Ninho
    Com as tuas asas trêmulas, incertas.

    Tu'alma lembra vastidões desertas
    Onde tudo é gelado e é só espinho.
    Mas na minh'alma encontrarás o Vinho
    e as graças todas do Conforto certas.

    Vem! Há em mim o eterno Amor imenso
    Que vai tudo florindo e fecundando
    E sobe aos céus como sagrado incenso.

    Eis a minh'alma, as asas palpitando
    Com a saudade de agitado lenço
    o segredo dos longes procurando...

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    Velho

    Estás morto, estás velho, estás cansado!
    Como um sulco de lágrimas pungidas,
    Ei-las, as rugas, as indefinidas
    Noites do ser vencido e fatigado.

    Envolve-te o crepúsculo gelado
    Onde vai soturno amortalhando as vidas
    Ante o responso em músicas gemidas
    No fundo coração dilacerado.

    A cabeç pendida de fadiga,
    Sentes a morte taciturna e amiga
    Que os teus nervos círculos governa.

    Estás velho, estás morto! Ó dor, delírio,
    Alma despedaçada de martírio,
    Ó desespero da Desgraça eterna!

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    Eternidade retrospectiva

    Eu me recordo de já ter vivido,
    Mudo e só, por olímpicas Esferas,
    onde era tudo velhas primaveras
    E tudo um vago aroma indefinido.

    Fundas regiões do Pranto e do Gemido
    Onde as almas mais graves, mais austeras
    Erravam como trêmulas quimeras
    Num sentimento estranho e comovido.

    As estrelas, longínquas e veladas,
    Recordavam violáceas madrugadas,
    Um clarão muito leve de saudade.

    Eu me recordo d'imaginativos
    Luares liriais, contemplativos
    Por onde eu já vivi na Eternidade!

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    Alma mater

    Alma da Dor, do Amor e da Bondade,
    Alma purificada no Infinito,
    Perdão santo de tudo o que é maldito,
    Harpa consoladora da Saudade!

    Das estrelas serena virgindade,
    Alma sem um soluço e sem um grito,
    Da alta Resignação, da alta Piedade!

    Tu, que as profundas lágrimas estancas
    E sabes levantar Imagens brancas
    No silencio e na sombra mais velada...

    Derrama os lírios, os teus lírios castos,
    Em Jordões imortais, vastos e vastos,
    No fundo da minh'alma lacerada!

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    O Coração

    O coração é a sagrada pira
    Onde o mistério do sentir flameja.
    A vida da emoção ele a deseja
    como a harmonia as cordas de uma lira.

    Um anjo meigo e cândido suspira
    No coração e o purifica e beija...
    E o que ele, o coração, aspira, almeja
    É o sonho que de lágrimas delira.

    É sempre sonho e também é piedade,
    Doçura, compaizão e suavidade
    E graça e bem, misericórdia pura.

    Uma harmonia que dos anjos desce,
    Que como estrela e flor e som floresce
    Maravilhando toda criatura!

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