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João Cruz e Sousa



  • Invulnerável
  • Lírio lutuoso
  • A Grande Sede
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  • Um Ser
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  • Condenação fatal
  • [Alma ferida]
  • Alma solitária
  • Visionários
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    Invulnerável

    Quando dos carnavais da raça humana
    Forem caindo as máscaras grotescas
    E as atitudes mais funambulescas
    Se desfizerem no feroz Nirvana;

    Quando tudo ruir na febre insana,
    Nas vertigens bizarras, pitorescas
    De um mundo de emoções carnavalescas
    Que ri da Fé profunda e soberana,

    Vendo passar a lúgubre, funérea
    Galeria sinistra da Miséria,
    Com as máscaras do rosto descoladas,

    Tu que és o deus, o deus invulnerável,
    Reseiste a tudo e fica formidável,
    No Silêncio das nooites estreladas!

    Índice de "Últimos Sonetos"


    Lírio lutuoso

    Essência das essências delicadas,
    Meu perfumoso e tenebroso lírio,
    Oh! dá-me a glória de celeste Empíreo
    Da tu'alma nas sombras encantadas.

    Subindo lento escadas por escadas,
    Nas espirais nervosas do Martírio,
    Das Ânsias, da Vertigem, do Delírio,
    Vou em busca de mágicas estradas.

    Acompanha-me sempre o teu perfume,
    Lírio da Dor que o Mal e o Bem resumem,
    Estrela negra, tenebroso fruto.

    Oh! dá-me a glória do teu ser nevoento
    para que eu possa haurir o sentimento
    Das lágrimas acerbas do teu luto!.

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    A Grande Sede

    Se tesn sede de Paz e d'Esperança,
    Se estás cego de Dor e de Pecado,
    Valha-te o Amor, ó grande abandonado,
    Sacia a sede com amor, descansa.

    Ah! volta-te a esta zona fresca e mansa
    Do Amor e ficarás desafogado,
    Hás de ver tudo claro, iluminado
    Da luz que uma alma que tem fé alcança.

    O coração que é puro e que é contrito,
    Se sabe ter doçura e ter dolência
    Revive nas estrelas do Infinito.

    Revive, sim, fica imortal, na essência
    Dos Anjos paira, não desprende um grito
    E fica, como os Anjos, na Existência.

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    Domus aurea

    De bom amor e de bom fogo claro
    Uma casa feliz se acaricia...
    Basta-lhe luz e basta-lhe harmonia
    Para ela não ficar ao desamparo.

    O Sentimento, quando é nobre e raro,
    Veste tudo de cândida poesia...
    Um bem celestial dele irradia,
    Um doce bem, que não é parco e avaro.

    Um doce bem que se derrama em tudo,
    Um segredo imortal, risonho e mudo,
    Que nos leva debaixo da sua asa.

    E os nossos olhos ficam rasos d'água
    Quando, rebentos de uma oculta mágoa,
    São nossos filhos todo o céu da casa.

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    Um Ser

    Um ser na placidez da Luz habita,
    Entre os mistérios inefáveis mora.
    Sente florir nas lágrimas que chora
    A alma serena, celestial, bendita.

    Um ser pertence à música infinita
    Das Esferas, pertence à luz sonora
    Das estrelas do Azul e hora por hora
    Na Natureza virginal palpita.

    Um ser sesdenha das fatais poeiras,
    Dos miseráveis ouropéis mundanos
    E de todas as frívolas cegueiras...

    Ele passa, atravessa entre os humanos,
    Como a vida das vidas forasteiras
    Fecundada nos próprios desenganos.

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    O Grande Sonho

    Sonho profundo, ó Sonho doloroso,
    Doloroso e profundo Sentimento!
    Vai, vai nas harpas trêmula do vento
    Chorar o teu mistério tenebroso.

    Sobe dos astros ao clarão radioso,
    Aos leves fluidos do luar nevoento,
    Às urnas de cristal do firmamento,
    Ó velho Sonho amargo e majestoso!

    Sobe às estrelas rútilas e frias,
    Brancas e virginais eucaristias
    De onde uma luz de eterna paz escorre.

    Nessa Amplidão das Amplidões austeras
    Chora o Sonho profundo das Esferas
    Que nas azuis Melancolias morre...

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    Condenação fatal

    Ó mundo, que és o exílio dos exílios,
    Um monturo de fezes putrefato,
    Onde seres vis circula nos concílios.

    Onde de almas em pálidos idílios
    O lânguido pefume mais ingrato
    Magoa tudo e é triste como o tato
    De um cego embalde levantando os cílios.

    Mundo de peste, de sangrenta fúria
    E de flores leprosas da luxúria,
    De flores negras, infernais, medonhas.

    Oh! como são sinistramente feios
    Teus aspectos de fera, os teus meneios
    Pantéricos, ó Mundo, qu não sonhas!

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    [Alma ferida]

    Alma ferida pelas negra lanças
    Da Desgraça, ferida do Destino,
    Alma,[a] que as amarguras tecem o hino
    Sombrio das cruéis desesperanças,

    Não desças, Alma feita de heranças
    Da Dor, não desças do teu céu divino.
    Cintila como o espelho cristalino
    Das sagradas, serenas esperanças.

    Mesmo na Dor espera com clemência
    E sobe à sideral resplandecência,
    Longe de um mundo que só tem peçonha.

    Das ruínas de tudo ergue-te pura
    E eternamente, na suprema Altura,
    Suspira, sofre, cisma, sente, sonha!

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    Alma solitária

    Ó alma doce e triste e palpitante!
    Que cítaras soluçam solitárias
    Pelas Regiões longínquas, visionárias
    Do teu Sonho secreto e fascinante!

    Quantas zonas de luz purificante,
    Quantos silêncios, quantas sombras várias
    De esferas imortais imaginárias
    Falam contigo, ó Alma cativante!

    Que chama acende os teus faróis noturnos
    E veste os teus mistériosa taciturnos
    Dos esplendores do arco de aliança?

    Por que és assim, melancolicamente,
    Como um arcanjo infante, adolescente,
    Esquecido nos vales da Esperança?!

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    Visionários

    Armam batalhas pelo mundo adiante
    Os que vagam no mundos visionários,
    Abrindo as áureas portas de sacrários
    Do Mistério soturno e palpitante.

    O coração flameja a cada instante
    Com brilho estranho, com fervores vários,
    Sente a febre dos bons missionários
    Da ardente catequese fecundante.

    Os visionários vão buscar frescura
    De água celeste na cisterna pura
    Da Esperança, por horas nebulosas...

    Buscam frescura, um outro novo encanto...
    E livres, belos através do pranto,
    Falam baixo com as almas misteriosas!

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    Demônios

    A língua vil, ignívoma, purpúrea
    Dos pecados mortais bava e braveja,
    Com os seres impoluídos mercadeja,
    Mordendo-os fundo injúria por injúria.

    É um grito infernal de atroz luxúria,
    Dor de danados, dor do Caos que almeja
    A toda alma serena que viceja,
    Só fúria, fúria, fúria, fúria, fúria!

    São pecados mortais feitos hirsutos
    Demônios maus que os venenosos frutos
    Morderam com volúpia de quem ama...

    Vermes da Inveja, a lesma verde e oleosa,
    Anões da Dor torcida e cancerosa,
    Abortos de almas a sangrar na lama!

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    Ódio sagrado

    Ó meu ódio, meu ódio majestoso,
    Meu ódio santo e puro e benfazejo,
    Unge-me a fronte com teu grande beijo,
    Torna-me humilde e torna-me orgulhoso.

    Humilde, com os humildes generoso,
    Orgulhoso com os seres sem Desejo,
    Sem Bondade, sem Fé e sem lampejo
    De sol fecundador e carinhoso.

    Ó meu ódio, meu lábaro bendito,
    Da minh'alma agitado no infinito,
    Através de outros lábaros sagrados.

    Ódio são, ódio bom! sê meu escudo
    Contra os vilões do Amor, que infamam tudo,
    Das sete torres dos mortais Pecados!

    Índice de "Últimos Sonetos"


    Exortação

    Corpo crivado de sangrentas chagas,
    Que atravessas o mundo soluçando,
    Que as carnes vais ferindo e vais rasgando
    Do fundo d'Ilusões velhas e vagas.

    Grande isolado das terrestres plagas,
    Que vives as Esferas contemplando,
    Braços erguidos, olhos no ar, olhando
    A etérea chama das Conquistas magas.

    Se é de silêncio e sombra passageira,
    De cinza, desengano e de poeira
    Este mundo feroz que te condena,

    Embora ansiosamente, amargamente
    Revela tudo o que tu'alma sente
    Para ela então poder ficar serena!

    Índice de "Últimos Sonetos"


    Bondade

    É a bondade que te faz formosa,
    Que a alma te diviniza e transfigura;
    É a bondade, a rosa da ternura,
    Que te perfuma com perfume à rosa.

    Teu ser angelical de luz bondosa
    Verte em meu ser a mais sutil doçura,
    Uma celeste, límpida frescura,
    Um encanto, uma paz maravilhosa.

    Eu afronto contigo os vampirismos,
    Os corruptos e mórbidos abismos
    Que em vão busquem tentar-me no Caminho.

    Na suave, na doce claridade,
    No consolo, de amor dessa bondade
    Bebo a tu'alma como etéreo vinho.

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    Na Luz

    De soluço em soluço a alma gravita,
    De soluço em soluço a alma estremece,
    Anseia, sonha, se recorda, esquece
    E no centro da Luz dorme contrita.

    Dorme na paz sacramental, bendita,
    Onde tudo mais puro resplandece,
    Onde a Imortalidade refloresce
    Em tudo, e tudo em cânticos palpita.

    Sereia celestial entre as sereias,
    Ela só quer despedaçar cadeias,
    De soluço em soluço, a alma nervosa.

    Ela só quer despedaçar algemas
    E respirar nas amplidões supremas,
    Respirar, respirar na Luz radiosa.

    Índice de "Últimos Sonetos"


    Cavador do Infinito

    Com a lâmpada do Sonho desce aflito
    E sobe aos mundos mais imponderáveis,
    Vai abafando as queixas implacáveis,
    Da alma o profundo e soluçado grito.

    Ânsias, Desejos, tudo a fogo, escrito
    Sente, em redor, nos astros inefáveis.
    Cava nas fundas eras insondáveis
    O cavador do trágico Infinito.

    E quanto mais pelo Infinito cava
    mais o Infinito se transforma em lava
    E o cavador se perde nas distâncias...

    Alto levanta a lâmpada do Sonho.
    E como seu vulto pálido e tristonho
    Cava os abismos das eternas ânsias!

    Índice de "Últimos Sonetos"


    Santos óleos

    Com os santos óleos de que vens ungido
    Podes andar no mundo sem receio.
    Quem veio para a Luz, por certo veio
    Para ser valoroso e ser temido.

    Que tudo é embalde, tudo em vão, perdido
    Quando se traz esse divino anseio,
    Esse doce tranporte ou doce enleio
    Que deixa tudo e tudo confundido.

    A Alma que comop a vela chega ao porto
    Sente o melhor, consolador conforto
    E a asa nas asas dos Arcanjos toca...

    Os santos óleos são a luz guiadora
    Que vigia por ti na pecadora
    Terra e o teu mundo celestial evoca

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    Sorriso interior

    O ser que é ser e que jamais vacila
    Nas guerras imortais entra sem susto,
    Leva consigo esse brasão augusto
    Do grande amor, da nobre fé tranqüila.

    Os abismos carnais da triste argila
    Ele os vence sem ânsias e sem custo...
    Fica sereno, num sorriso justo,
    Enquanto tudo em derredor oscila.

    Ondas interiores de grandeza
    Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
    Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

    O ser que é ser tranforma tudo em flores...
    E para ironizar as próprias dores
    Canta por entre as águas do Dilúvio!

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    Mealheiro de almas

    Lá, das colheitas do celeste trigo,
    Deus ainda escolhe a mais louçã colheita:
    É a alma mais serena e mais perfeita
    Que ele destina conservar consigo.

    Fica lá, livre, isenta de perigo,
    Tranqüila, pura, límpida, direita
    A alma sagrada que resume a seita
    Dos que fazem do Amor eterno Abrigo.

    Ele quer essas almas, os pães alvos
    Das aras celestiais, claros e salvos
    Da Terra, em busca das Esferas calmas.

    Ele quer delas todo o amor primeiro
    Para formar o cândido mealheiro
    Que há de estrelar todo o Infinito de almas.

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    Espasmos...

    Alma das gerações, alma lendária
    Que tens tanto de Hamlet, tanto de Of';elia,
    A candidez da rórida camélia
    E as lágrimas da Sede hereditária.

    Alma dormente, tumultuosa, vária,
    Acorde de harpa misteriosa e célia,
    Virgindade selvagem de bromélia,
    Alma do Eleito, do Plebeu, do Pária.

    És a chama do Amor, negro-vermelha,
    De onde rompeu a fúlgida centelha
    Que a Flor de fogo fez gerar no Dante.

    Com teus espasmos e delicadezas,
    Nervosas e secretas sutilezas
    Enches todo este Abismo soluçante!

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    Evocação

    Oh Lua voluptuosa e tentadora,
    Ao mesmo tempo trágica e funesta,
    Lua em fundo revolto de floresta
    E de sonho de vaga embaladora.

    Langue visão mortal e sedutora,
    Dos Vergéis sederais pálida giesta,
    Divindade sutil da morna sesta
    Da lasciva paixão fascinadora.

    Flor fria, flor algente, flor gelada
    Do desconsolo e dos esquecimentos
    E do anseio, da febre atormentada.

    Tu que soluças pelos céus nevoentos
    Longo soluço mágico de fada,
    Dá-me os teus doces acalentamentos!

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    No seio da Terra

    Do pélago dos pélagos sombrios,
    Cá do seio da Terra, olhando as vidas,
    Escuto o murmurar de almas perdidas,
    Como o secreto murmurar dos rios.

    Trazem-me os ventos negros calafrios
    E os loluços das almas doloridas
    Que têm sede das terras prometidas
    E morrem como abutres erradios.

    As ânsias sobem, as tremendas ânsias!
    Velhices, mocidades e as infâncias
    Humansa entre a Dor se despedaçam...

    Mas, sobre tantos convulsivos gritos,
    Passam horas, espaços, infinitos,
    Esferas, gerações, sonhando, passam!

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    Anima mea

    Ó minh'alma, ó minh'alma, ó meu Abrigo,
    Meu sol e minha sombra peregrina,
    Luz imortal que os mundos ilumina
    Do velho Sonho, meu fiel Amigo!

    Estrada ideal de São Tiago, antigo
    Templo da minha fé casta e divina,
    De onde é que vem toda esta mágoa fina
    Que é, no entanto, consolo e que eu bendigo?

    De onde é que vem tanta esperança vaga,
    De onde vem tanto anseio que me alaga,
    Tanta diluída e sempiterna mágoa?

    Ah! de onde vem toda essa estranha essência
    De tanta misteriosa Transcendência
    Que estes olhos me dixam rasos de água?!

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