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João Cruz e Sousa



  • Sempre o Sonho
  • Aspiração suprema
  • Inefável!
  • Ser dos Seres
  • Sexta-Feira Santa
  • Sentimento esquisito
  • Clamor supremo
  • Ansiedade
  • Grande Amor
  • Silêncios
  • A Morte
  • Só!
  • Fruto envelhecido
  • Êxtase búdico
  • Triunfo supremo
  • Assim seja!
  • Renascimento
  • Pacto das Almas:Para Sempre
  • Pacto das Almas: Longe de Tudo
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    Sempre o Sonho

    Para encantar os círculos da Vida
    Ë sre tranqüilo, sonhador, confiante,
    Sempre trazer o coração radiante
    Como um rio e rosais junto de ermida.

    Beber na vinha celestial, garrida
    Das estrelas o vinho flamejante
    E caminhar vitorioso e ovante
    Como um deus, com a cabeça enflorescida.

    Sorrir, amar para alargar os mundoe
    Do Sentimento e para ter profundos
    Momentos de momentos soberanos.

    Para sentir em torno à terra ondeando
    Um sonho, sempre um sonho além rolando
    Vagas e vagas de imortais oceanos.

    Índice de "Últimos Sonetos"


    Aspiração suprema

    Como os cegos e os nus pede um abrigo
    A alma que vive a tiritar de frio.
    Lembra um arbusto frágil e sombrio
    Que necessita do bom sol amigo.

    Tem ais de dor de trêmulo mendigo
    Oscilante, sonâmbulo, erradio.
    É como um tênue, cristalino fio
    D'estrelas, como etéreo e louro trigo.

    E a alma aspira o celestial orvalho,
    Aspira o céu, o límpido agasalho,
    sonha, deseja e anseia a luz do Oriente...

    Tudo ela inflama de um estranho beijo.
    E este Anseio, este Sonho, este Desejo
    Enche as Esferas soluçantemente.

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    Inefável!

    Nada há que me domine e que me vença
    Quando a minh'alma mudamente acorda...
    Ela rebenta em flor, ela transborda
    Nos alvoroços da emoção imensa.

    Sou como um Réu de celestial Sentença,
    Condenado do Amor, que se recorda
    Do Amor e sempre no Silêncio borda
    D'estrelas todo o céu em que erra e pensa.

    Claros, meus olhos tornam-se mais claros
    E tudo vejo dos encantos raros
    E de outra mais serenas madrugadas!

    todas as vozes que procuro e chamo
    Ouço-as dentro de mim, porque eu as amo
    Na minh'alma volteando arrebatadas!

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    Ser dos Seres

    No teu ser de silêncio e d'esperança
    A doce luz das Amplidões flameja.
    Ele sente, ele aspira, ele deseja
    A grande zona da imortal Bonança.

    Pelos largos espaços se balança
    Como a estrela infinita que dardeja,
    Sempre isento da Treva que troveja
    O clamor inflamado da Vingança.

    Por entre enlevos e deslumbramentos
    Entra na Força astral dos Sentimentos
    E do Poder nos mágicos poderes.

    E traz, embora os íntimos cansaços,
    Ânsias secretas para abrir os braços
    Na generosa comunhão dos Seres!

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    Sexta-Feira Santa

    Lua absíntica, verde, feiticeira,
    Pasmada como um vício mosntruoso...
    Um cão estranho fuça na esterqueira,
    Uivando para o espaç fabuloso.

    É esta a negra e santa Sexta-Feira!
    Cristo está morto, como um vil leproso,
    Chagado e frio, na feroz cegueira
    Da morte, o sangue roxo e tenebroso.

    A serpente do mal e do pecado
    Um sinistro veneno esverdeado
    Verte do Morto na mudez serena.

    Mas da sagrada Redenção do Cristo,
    Em vez do grande Amor, puro, imprevisto,
    Brotam fosforescências de gangrena!

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    Sentimento esquisito

    Ó céu estéril dos desesperados,
    Forma impassível de cristas sidéreo,
    Dos cemitérios velho cemitério
    Onde dormem os astros delicados.

    Pátria d'estrelas dos abandonados,
    Casulo azul do anseio vago, aéreo,
    Formidável muralha de mistério
    Que deixa os corações desconsolados.

    Céu imóvel milênios e milênios,
    Tu que iluminas a visão dos Gênios
    E ergues das almas o sagrado acorde.

    Céu estéril, absurdo, céu imoto,
    Faz dormir no teu seio o Sonho ignoto,
    Esta serpente que alucina e morde...

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    Clamor supremo

    Vem comigo por estas cordilheiras!
    Põe teu manto e bordão e vem comigo,
    Atravessa as montanhas sobranceiras
    E nada temas do mortal Perigo!

    Sigamos para as guerras condoreiras!
    Vem, resoluto, que eu irei contigo
    Dentre as Águias e as chamas feiticeiras,
    Só ttendo a Natureza por abrigo.

    Rasga florestas, bebe o sangue todo
    Da Terra e transfigura em astros lodo,
    O próprio lodo torna mais fecundo.

    Basta trazer um coração perfeito,
    Alma de eleito, Sentimento eleito
    Para abalar de lado a lado o mundo!

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    Ansiedade

    Esta ansiedade que nos enche o peito
    Enche o céu, enche o mar, fecunda a terra.
    Ela os germens puríssimos encerra
    Do Sentimento límpido, perfeito.

    Em jorros cristalinos o direito,
    A paz vencendo as convulsões da guerra,
    A liberdade que abre as asas e erra
    Pelos caminhos do Infinito eleito.

    Tudo na mesma ansiedade gira,
    Rola no Espaço, dentre a luz suspira
    E chora, chora, amargamente chora...

    Tudo nos turbilhões da Imensidade
    Se confunde na trágica ansiedade
    Que almas, estrelas, amplidões devora.

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    Grande Amor

    Grande amor, grande amor, grande mistério
    Que as nossas almas trêmulas enlaça...
    Céu que nos beija, céu que nos abraça
    Num abismo de luz profundo e sério.

    Eterno espasmo de um desejo etéreo
    E bálsamo dos bálsamos da graça,
    Chama secreta que nas almas passa
    E deixa nelas um clarão sidéreo.

    Cântico de anjos e de arcanjos vagos
    Junto às águas sonâmbulas de lagos,
    Sob as claras estrelas desprendido...

    Selo perpétuo, puro e peregrino
    Que prende as almas num igual destino,
    Num beijo fecundado num gemido.

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    Silêncios

    Largos Silêncios interpretativos,
    Adoçados por funda nostalgia,
    Balada de consolo e simpatia
    Que os sentimentos meus torna cativos.

    Harmonia de doces lenitivos,
    Sombra, segredo, lágrima, harmonia
    Da alma serena, da alma fugidia
    Nos seus vagos espasmos sugestivos.

    Ó Silêncios! ó cândidos desmaios,
    Vácuos fecundos de celestes raios
    De sonhos, no mais límpido cortejo...

    Eu vos sinto os mistérios insondáveis,
    Como de estranhos anjos inefáveis
    O glorioso esplendor de um grande beijo!

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    A Morte

    Oh! que doce tristeza e que ternura
    No olhar ansioso, aflito dos que morrem...
    De que âncoras profundas se socorrem
    Os que penetram nessa noite escura!

    Da vida aos frios véus da sepultura
    Vagos momentos trêmulos decorrem...
    E dos olhos as lágrimas escorrem
    Como faróis da humana Desventura.

    Descem então aos golfos congelados
    Os que na terra vagam suspirando,
    Com os velhos corações tantalizados.

    Tudo negro e sinistro vai rolando
    Báratro abaixo, aos ecos soluçados
    Do vendaval da Morte ondeando, uivando...

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    Só!

    Muito embora as estrelas do Infinito
    Lá de cima me acenem carinhosas
    E desça das esferas luminosas
    A doce graça de um clarão bendito;

    Embora o mar, como um revel proscrito,
    Chame por mim nas vagas ondulosas
    E o vento venha em cóleras medrosas
    O meu destino proclamar num grito,

    Neste mundo tão trágico, tamanho,
    Como eu me sinto fundamente estranho
    E o amor e tudo para mim avaro...

    Ah! como eu sinto compungidamente,
    Por entre tanto horror indiferente,
    Um frio sepulcral de desamparo!

    Índice de "Últimos Sonetos"


    Fruto envelhecido

    Do coração no envelhecido fruto
    É só desolação e é só tortura.
    O frio soluçante da amargura
    Envolve o coração num fundo luto.

    O fantasma da Dor pérfido e astuto
    Caminha junto a toda a criatura.
    A alma por mais feliz e por mais pura
    Tem de sofrer o esmagamento bruto.

    É preciso humildade, é necessário
    Fazer do coração branco sacrário
    E a hóstia elevar do Sentimento eterno.

    Em tudo derramar o amor profundo,
    Derramar o perdão no caos do mundo,
    Sorrir ao céu e bendizer o Inferno!

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    Êxtase búdico

    Abre-me os braços, Solidão profunda,
    Reverência do céu, solenidade
    Dos astros, tenebrosa majestade,
    Ó planetária comunhão fecunda!

    Óleo da noite, sacrossanto, inunda
    Todo o meu ser, dá-me essa castidade,
    As azuis florescências da saudade,
    Graça das graças imortais oriunda!

    As estrelas cativas no teu seio
    Dão-me um tocante e fugitivo enleio,
    Embalam-me na luz consoladora!

    Abre-me os braços, Solidão radiante,
    Funda, fenomenal e soluçante,
    Larga e búdica Noite Redentora!

    Índice de "Últimos Sonetos"


    Triunfo supremo

    Quem anda pelas lágrimas perdido,
    Sonâmbulo dos trágicoa flagelos,
    É quem deixou para sempre esquecido
    O mundo e os fúteis ouropéis mais belos!

    É quem ficou no mundo redimido,
    Expurgado dos vícios mais singelos
    E disse a tudo o adeus indefinido
    E desprendeu-se dos carnais anelos!

    É quem entrou por todas as batalhas
    As mãos e os pés e o flanco ensangüentado,
    Amortalhado em todas as mortalhas.

    Quem florestas e mares foi rasgando
    E entre raios, pedradas e metralhas,
    Ficou gemendo mas ficou sonhando!

    Índice de "Últimos Sonetos"


    Assim seja!

    Fecha os olhos e morre calmamente!
    Morre sereno do Sever cumprido!
    Nem o mais leve, nem um só gemido
    Traia, sequer, o teu Sentir latente.

    Morre com alma leal, clarividente,
    Da crença errando no Vergel florido
    E o Pensamento pelos céus, brandido
    Como um gládio soberbo e refulgente.

    Vai abrindo sacrário por sacrário
    Do teu sonho no Templo imaginário,
    Na hora glacial da negra Morte imensa...

    Morre com o teu Dever! Na alta confiança
    De quem triunfou e sabe que descansa
    Desdenhando de toda a Recompensa!

    Índice de "Últimos Sonetos"


    Renascimento

    A Alma não fica inteiramente morta!
    Vagas Ressurreições do Sentimento
    Abrem já, devagar, porta por porta,
    Os palácios reais do Encantamento!

    Morrer! Findar! Desfalecer! que importa
    Para o secreto e fundo movimento
    Que a alma transporta, sublimiza e exorta,
    Ao grande Bem do grande Pensamento!

    Chamas novas e belas vão raiando,
    Vão se acendendo os límpidos altares
    E as almas vão sorrindo e vão orando...

    E pela curva dos longínquos ares
    Ei-las que vêm, como o imprevisto bando
    Dos albatrozes dos estranhos mares...

    Índice de "Últimos Sonetos"

    Pacto das Almas (A Nestor Vítor Por Devotamento e Admiração. Cruz e Sousa. 12/10/1897>

    (I) Para Sempre!

    Ah! para sempre! para sempre! Agora
    Não nos separaremos nem um dia...
    Nunca mais, nunca mais, nesta harmoia
    Das nossas almas de divina aurora.

    A voz do céu pode vibrar sonora
    Ou do Inferno a sinistra sinfonia,
    Que num fundo de astral melancolia
    Minh'alma com a tu'alma goza e chora.

    Para sempre está feito o augusto pacto!
    Cegos serenos do celeste tacto,
    Do Sonho envoltas na estrelada rede.

    E perdidas, perdidas no Infinito
    As nossas almas, no Clarão bendito,
    Hão de enfim saciar toda esta sede...

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    (II)Longe de tudo

    É livre, livre desta vã matéria,
    Longe, nos claros astros peregrinos
    Que havereemos de encontrar os dons divinos
    E a grande paz, a grande paz sidérea.

    Cá nesta humana e trágica miséria,
    Nestes surdos abismos assassinos
    Termos de colher de atros destinos
    A flor apodrecida e deletéria.

    O baixo mundo que troveja e brama
    Só nos mostra a caveira e só a lama,
    Ah! só a lama e movimentos lassos...

    Mas as almas irmãs, almas perfeitas,
    Hão de trocar, nas Regiões eleitas,
    Largos, profundos, imortais abraços!

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    (III) Alma da Almas

    Alma da almas, minha irmã gloriosa,
    Divina irradiação do Sentimento,
    Quando estarás no azul Deslumbramento,
    Perto de mim, na grande Paz radiosa?!

    Tu que és a lua da Mansão de rosa
    Da Graça e do supremo Encantamento,
    O círio astral do augusto Pensamento
    Velando eternamente a Fé chorosa,

    Alma das almas, meu consolo amigo,
    Seio celeste, sacrossanto abrigo,
    Serena e constelada imensidade,

    Entre os teus beijos de eteral carícia,
    Sorrindo e soluçando de delícia,
    Quando te abraçarei na Eternidade?!

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