As Sete Fábulas

As Sete Fábulas



A Partida

Primeira Fábula

Como num encontro marcado, um a um, eles iam chegando. Eram muitos, mas nessa manhã nada assemelhava-se a irrequieta algazarra que sempre acontecia. Agrupavam-se quietos e atentos nos galhos das árvores circunvizinhas a enseada. Cada novo pouso parecia ampliar a sensação de expectativa reinante. E quando a reunião contava com todos os integrantes do bando, em silêncio, eles esperaram o momento acontecer.
De repente, as asas dos mais velhos abriram-se, e um deslizar moroso lançou seus corpos no espaço vazio. O movimento foi seguido pelos demais, iniciava-se a revoada de migração.
A retirada dos pássaros brancos, sempre, acontecia àquela mesma época, anunciando que mais um período de estiagem seguida de frio estava para acontecer.
Na folhagem sob as árvores ribeirinhas, um grupo de animais cessara a procura por sementes que lhes matassem a fome. Olhavam o céu temerosos, a imagem do bando era-lhes assustadora. Uma grande revoada em direção ao horizonte, que, por instantes, chegava a ocultar o sol e emudecer os demais sons com o rumor das centenas de asas a moverem-se em vôo.
A ânsia de partir com eles aflorou inesperadamente. E como impulsionados por um mesmo desejo, alguns deles afastaram-se rapidamente do local onde comiam. Caminhavam seguindo a sombra do bando em migração. Sentiam-se assustados com o ímpeto daquela resolução, mas o desejo pelo desconhecido atraia mais do que a tranqüilidade da segurança. Com andar oscilante e sem certezas ou metas determinadas, eles iniciaram a caminhada ao encontro do horizonte.
O círculo solar ia alto no céu. Seus raios ardiam nas costas encurvadas dos animais, obrigando-os a caminharem mais e mais eretos. Extensos dias haviam se passado. Com eles, a vegetação tornara-se estrangeira, dificultando o reconhecimento das sementes e dos frutos. O receio de comer tolhia-lhes a garganta e ampliava a fome. O universo conhecido de todos desaparecera na distância, e levara as certezas de como viver. Era inútil tentar prenderem-se aos costumes de antes da partida, eles tornavam-se inadequados ao mundo que se descortinava a cada passo.
Na ravina ondulante, um grande e cauteloso felino movia-se preocupado em manter-se contra o vento. Com rapidez, armou o bote. O salto alongou-se pelo espaço, a boca rodeou o pescoço da presa num golpe preciso.
Ocultos na folhagem baixa, o bando aproximou-se. E com o receio a unir os corpos, observaram a força e a avidez daquele que saciava seu apetite, após uma astuciosa caçada. Estranho aquele prazer, desconhecido para eles. Os grandes dentes penetravam na carne sem dificuldade, mostrando-se grandes conhecedores de suas entranhas. Com a fome a rosnar nas próprias entranhas, eles aguardaram o momento em que pudessem ver de perto os despojos do banquete, talvez tocá-los, ou mesmo prová-los.
A imagem da grande revoada em partida havia desaparecido no horizonte e na memória, mas deixara, em cada um, o desejo de ir pelo céu e não pelo chão, ao encontro do desconhecido. Os dias eram cansativos, mesmo assim, as noites mostravam-se longas. O medo fazia o sono leve, entrecortando os sonhos com os vultos e os ruídos da escuridão. Vultos que só a grande bola, que as vezes brilhava no céu, conseguia delinear.
O desassossego substituíra a calma dos tempos passados e já fazia parte do cotidiano, moldando seus organismos ao hábito da constante tensão. Aquele novo viver causava além de assombro, receio e curiosidade. As situações tinham, sempre, o rosto do inesperado e pediam, em resposta, atitudes que não constavam de suas memórias. Paulatinamente a vida nômade modificava-lhes o temperamento e as formas. Gerava-se uma nova espécie, forjada pelo imprevisto e estimulada ao máximo em seu potencial de vencer desafios.
A constante caminhada tornara-os ágeis, e as tarefas, antes inexistentes, agora ocupavam a todos. No zelo pela preservação do grupo em meio aos inumeráveis imprevistos, vigilantes foram escolhidos entre os mais jovens para acompanhar os sustos da noite.
Eles ocultavam-se nas sombras, tendo os silvos das aves noturna como sinais de alerta. Ao longo do tempo, passaram a entender seus sentidos e a usá-los como aviso entre eles.
O hábito da observação tornara-se um artifício precioso. Estáticos - num culto ao mover das outras formas - lentamente, iam tomando ciência de seus ritmos. Acompanhavam o desempenho dos corpos e a repetição dos ciclos. Era extremamente importante aprender com tudo, com todos. Pois, o mundo, a volta deles, parecia-lhes saber viver. Eles haviam perdido essa capacidade ao longo do caminho que percorriam, e ao tentar imitar as outras formas, esforçavam-se, agora, para sobreviver.
Continuação

Fábula 2 - O NOME

Esta fábula foi escrito por: Inês de Sá - Home Page


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