As Sete Fábulas

As Sete Fábulas



O Nome

Segunda Fábula

A noite escurecia lentamente o céu, preparando o ambiente para o despontar da Lua Cheia. Um silvo longo rompeu a calma do acampamento. Em alvoroço as fêmeas passaram a reunir os frutos e as sementes próximos à fogueira. Outro silvo revelou a proximidade dos caçadores, e, em instantes, os machos surgiram de entre as folhagens da mata. Depositando a caça frente ao fogo, seus corpos elétricos soltaram-se em evoluções no ar.
Suspensa por paus sobre as chamas, logo a caça ardia entre as labaredas crepitantes aos pingos da gordura. A fumaça erguia-se, acompanhada de sons ritmados, gritos e danças no festejar do prazer pelo alimento conquistado. Em círculo a volta da fogueira, os anciãos esperavam o momento de iniciar a partilha. O uso do fogo fora descoberto por acaso, e se tornara um bom artifício para facilitar o consumo da carne por dentes propícios a mastigação de sementes.
Estes viajantes de agora formavam um grupo numeroso. Caminhar era um costume para eles, e seu porque, se existiu, perdera-se há muito da memória. Expostos aos rigores das contínuas mudanças, constituíam um bando em muito diferente de seus antepassados. Eram bem mais altos, mesmo as fêmeas. A musculatura dos membros inferiores desenvolvera-se adaptando-se ao ininterrupto exercício, e com passo firme venciam longas distâncias. O forçado andar ereto alinhara-lhes a coluna na posição vertical, alongando-lhes o pescoço e redesenhando as cordas vocais, o que facilitava a emissão de sons.
O uso do alimento cozido e não mais rasgado com a força dos dentes produziu outra lenta mutação que resultou na modificação da face, com a diminuição da boca e a formação de lábios. Essas transformações favoreciam a ampla modulação dos sons, permitindo-lhes uma perfeita imitação das vozes dos outros habitantes da mata. Com a postura esguia, a visão passou a preponderar sobre os demais sentidos, tornando imprescindível o uso da luz.
Os confrontos diários resultara na produção de peritos artesãos e exímios atiradores na confecção e no manuseio de armas. A desvantagem em não possuírem dentes e garras potentes foi sanada com a criação dos apetrechos de luta, igualando-os às feras com as quais aprenderam a caçar. Na busca pela sobrevivência, o incessante exercício das mãos e da voz modulada especializou esses comandos cerebrais e, com eles, a facilidade de raciocinar.
Os festejos pelo alimento continuavam, mesmo após o termino da refeição. Entre os jovens, Maín era o mais efusivo nessas ocasiões. Agitava os braços dobrados sobre o tronco e batendo os pés no chão, ele gritava: _ Maín, maín. Tal qual as aves pernaltas que habitavam às margens dos rios. Esse hábito fizera nascer seu nome. Fora ele o primeiro a ser designado por um som. Mas, logo, cada um escolhia algo que representasse sua imagem para a comunidade.
Com a banalização do emprego de sons para marcar os integrantes do bando, uma linguagem falada começou a se desenvolver. Pouco a pouco, cada seres do mundo a volta deles passou a ter um nome. Os mais presentes na vida de todos ganharam, contudo, várias designações, dependendo de sua aparência momentânea.
A grande estrela solar, ao amanhecer, tinha um som a nomeá-la que assemelhava-se a sensação de sua tênue iluminação. Quando no meio do céu, assumia um som grave, que lembrava o ardor do fogo. No horizonte poente, sua luz a esvair-se transformava-a em algo próximo a uma corrente que arrastava, em seu rastro, um punhado de pequenas luzes para brincar na noite.
As diversas aparências e nomes do Sol, da fascinante Lua e das águas serviam, também, para qualificar as demais coisas, identificando seus aspectos e estados. Linguagem versátil a dos viajantes, assim como eles próprios.
As vivências nas extensas jornadas produziam necessidades cada vez mais complexas. Como a proteção do corpo em épocas de frio intenso, com abrigos de pele. Um uso periódico que reduzira-lhes o pêlo e a resistência da própria pele, convertendo-se, assim, em hábito indispensável.
Cada obstáculo a ser vencido avolumava a carga. Mas paravam somente na época das flores, quando as fêmeas procriavam e recuperavam-se dos partos, fortalecendo as crias. Nessas ocasiões, por vezes, alguns elementos do bando fixavam-se nas terras, sem desejo de ir adiante. Com isso, pequenos grupamentos formavam-se ao longo do caminho, que os levava ao encontro do horizonte.
Continuação

Fábula 3 - O VIGILANTE


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