As Sete Fábulas
Ao redor da fogueira, o pequeno grupo dormia protegido por sua luminosidade. Com o olhar perdido na distância, o vigilante sentia o manto negro da noite a sussurra-lhe segredos. Um pio agudo soou distante. Ele ergueu-se lentamente e afastou-se de seu posto de observação, em busca da grande esfera prateada que se refletia nas águas escuras da lagoa.
Águas profundas aquelas, a mais extensa que já tinham encontrado. Por isso, eles haviam se animado a permanecer às suas margens sem prosseguir com o bando. Eram poucos e resguardavam-se do medo da escuridão com seus corpos unidos, próximos ao fogo.
Deitado sobre o capim ribeirinho, o vigilante olhava o reflexo da grande esfera que boiava sobre a água calma. O tocar de seus dedos, na superfície cristalina, enrugou a superfície espelhada em ondas concêntrica, que ampliaram-se até frisar a forma luminosa. Ao contrário dos demais, Qüirin gostava da noite, de seus sons, de seus perfumes penetrantes. Fascinava-o a movimentação das sombras a sobreporem-se sem contornos precisos, deixando a imaginação livre a criar devaneios ou pavores.
Tudo estava mergulhado na noite, mas o sol não tardaria a levantar-se de seu sono. Com ele mais um ciclo diário floresceria, alimentado pelo fulgor de sua luz. Um brilho que se ampliava até um ponto máximo, para então, gradativamente, esvair-se ao mergulhar no horizonte. E assim, a escuridão voltava, e sorrateiramente avolumava seu negrume como se quisesse competir com a grandeza da claridade do dia. Mas sempre desbotava com o retorno do círculo iluminado, e o ciclo recomeçava.
Observar a vida produzia em Qüirín aquela mesma sensação de ciclos a serem percorridos. Via as fêmeas a procriar e transportar seus filhotes. Eles cresciam acompanhando seus passos. Com o tempo, igualavam-se aos adultos, que enfraqueciam e desapareciam. Ciclos com durações diferentes, mas, em tudo a constância de acontecimentos que surgiam, formavam-se dentro de lógicas próprias e se desestruturavam, esvaindo-se em meio a acontecimentos que se iniciavam.
Ao acordar da manhã, pequenas aves azuladas arrumavam ramos delgados na construção de seu ninho, sobre o arvoredo que protegia o corpo adormecido de Qüirín. Aproveitar as folhas secas, tecer as emendas com fibras, trançar fios. Para o casal de pássaros, os preparativos para a futura ninhada tomava todo o dia e começava bem cedo.
O convívio do grupo com a mata e as águas era intenso. Com os pássaros, eles aprendeu a trabalhar em conjunto na construção de abrigos. Com as vespas negras aprenderam a moldar o barro macio das margens da lagoa, uma tarefa que passou a fazer parte do cotidiano. Nas mãos hábeis das fêmeas, placas avermelhadas e maleáveis ganhavam formas e dimensões diferentes, que tornavam-se rígidas e mudavam de cor quando esquecidas no calor da fogueira.
Das águas nasceu, progressivamente, a sensação de individualidade dos corpos, no reflexo a revelar suas imagens. Assim, os habitantes das terras da lagoa escura tornaram-se fortes e numerosos.
A tribo da lagoa escura não tinha sido a primeira a desgarrar-se dos caminhantes, haviam outro na região. E pela época dos frutos maduros, na busca por sementes diferentes, eles permitiam-se longas jornadas até o sopé das montanhas pontiagudas. Nessas ocasiões aconteciam os encontros.
O confronto revelava a diferença de costumes criados pela diversidade das circunstâncias vivenciais. Os caçadores das montanhas ostentavam, sobre o peito, fios trançados e atados a presas de felinos e pequenos ossos. Os ribeirinhos adornavam-se com peças roliças de barro, pedras brilhantes, conchas e penas.
Da diferença surgiu a graça das trocas, animando os encontros, divertindo a todos.
Entre os galhos da grande árvore, Qüirín trançava um delgado fio. A distância, uma longa fileira de varas alinhavam-se a margem da lagoa. Ele, ainda, lembrava de a chegada ao terreno das águas escuras, quando findara sua caminhada. Divertia-se, agora, em observar o mover do mundo a sua volta. Nas numerosas vigílias de guarda, ele percebera que o círculo iluminado nunca nascia no mesmo ponto, deslizando lentamente pelo horizonte.
Numa manhã após o período das chuvas, resolveu observar o surgir do dia sempre do mesmo local. Desde então, passara a marcar a posição do sol com varas, registrando as pequenas diferenças e contando os dias com contas de barro enfiada em um longo fio. O clarão no nascente fez Qüirin saltar para o chão e correr na direção de suas varas. Porém, algo estranho aconteceu. O sol parara de avançar, repetindo a posição do dia anterior. O que estaria acontecendo?
As manhãs seguintes revelaram o retorno do sol pelo caminho já percorrido no horizonte. Qüirín ria-se entre surpreso e satisfeito. Será que até mesmo o disco iluminado cumpria ciclos, indo e voltando no horizonte?
Após o dia do retorno, o ar passou a esfriar gradativamente, as árvores abandonavam suas folhas, as chuvas cessaram e o vigor da terra esvaia-se secando a vegetação. Qüirín perguntava-se o que estaria acontecendo. _ Será que quando o círculo iluminado chegasse no outro extremo, tudo aqueceria novamente? _ Será que de alguma maneira, aquele círculo, em suas idas e vindas, sabia como as coisas funcionavam?
Mas não era somente o círculo iluminado, a esfera prateada, também, conhecia os ritmos da vida. Qüirín observava o mutante comportamento da lua a cadenciar as atividades da tribo e o ciclo das fêmeas. Parecia-lhe que todas as coisas funcionavam em uníssono, interligando-se, como as ondas desenhadas sobre a superfície da lagoa. Talvez os movimentos do sol, da lua e da terra se encadeassem, formando um conjunto imenso.
Para essa sensação de totalidade, Qüirín criou um nome; natureza.Continuação Fábula 4 - O COLAR