As Sete Fábulas
Por entre as águas, Iriín movia-se cauteloso, como se procurasse o próprio silêncio. Estacou num trecho um pouco mais fundo e aguardou com olhar fixo. Um corpo delgado e ligeiro vinha em sua direção. Num rápido gesto, mergulhou os braços e tomou o peixe nas mãos.
Qüirín ria da felicidade do garoto a gritar e pular à margem da lagoa pela vitória na caça. Iriín era ágil como um grilo a saltar no espaço. Ele fora preparado para a função de vigilante da tribo, instruindo nos segredos dos sons da mata e do movimento dos ventos. Qüirin escolhera-o como discípulo entre os demais, por vê-lo hábil e atento ao que fazia. Após comerem do pescado, estiraram o corpo sobre a areia ribeirinha para saborear um descanso.
Com tranqüilidade, Qüirin levantou-se e, sem nada dizer, caminhou em direção ao poente. O garoto seguiu seu silêncio e assim caminharam até próximo a grande árvore. Iriín ficou inquieto, além dela era um local reservado.
Altiva e despida devido a estiagem, a grande árvore sobressaia-se entre as demais, com que guardando um recanto somente freqüentado por Qüirín. Rodeando o tronco, o mestre retirou de uma fenda um longo fio com continhas arredondas e multicoloridas, divididas por quatro contas alongadas, duas amarelas e duas azuis. O olhar de Iriín percorreu o fio. Uma conta amarela intercalava-se a outra azul, dividindo as contas menores em quatro partes iguais. As mãos de Qüirín colocou o longo colar à volta do pescoço de Iriín.
-Agora você é o conhecedor da passagem do tempo. Os olhos travessos do quase menino brilharam a visão do objeto, ainda sem perceber o sentido da afirmação. Seus dedos rodearam as contas de barro, as primeiras que via arrumadas daquela forma, enquanto acompanhava as firmes passadas do mestre do dia. Na enseada que se formava nas curvas da margem, outra surpresa aguardava-o. Uma fileira de altas e delgadas estacas de pedra expunham-se enterradas na areia. Iriín sentou-se com a surpresa, nunca pensara que existisse nada igual.
- Aqui é o local de culto ao círculo iluminado, disse-lhe Qüirín.
Todos sabiam que deviam cultuar, estáticos, os movimentos dos outros corpos, para aprenderem com eles. Mas um local específico, com uma série de estacas alinhadas, era por demais estranho para Iriín. Quirín apontou o horizonte e retirando o colar do novo dono, colocou-o no chão de areia. Afastando as placas azuis, estendeu o fio fazendo as placas amarelas se encontrarem no meio do colar.
-Olhe o horizonte. Hoje pela manhã, o círculo iluminado nasceu naquele ponto, longe da montanha pontiaguda. Mas a cada amanhecer, ele surgirá mais próximo dela. Porém, dois dias após ultrapassá-la, ele para. Depois disto, a cada manhã você verá o círculo iluminado retornar pelo caminho que já percorreu até que um dia, ele irá parar de novo. Será fácil marcar o trajeto em seu colar. As placas azuis indicam as paradas, as amarelas os pontos centrais de cada percurso. Cada conta pequena é um amanhecer.
Iriín estava boquiaberto.
Muitas e muitas manhãs passaram-se até que os dois pudessem se entender. Os dedos nervosos de Iriín percorriam o colar na agonia de querer apreender seu significado. Contava os dias nas contas, o sol aproximava-se da pedra amarela ao centro. Quirín dissera-lhe que depois que ele a ultrapassasse, a grande árvore abriria-se em botões e a vida começaria outro ciclo, acordando do frio. Mas como ele podia dizer essas coisas?
Como num sonho onde as coisas acontecem ao sabor dos desejos, a grande árvore transformara-se num buque de botões esverdeados. Qüirín sabia o que dizia e o fato deixara o aprendiz extasiado. Quando o encantamento dissolveu-se ao ponto de permitir-lhe ouvir, as explicações sobre a contagem dos dias recomeçou.
-Sente-se neste local e repare as estacas de pedra. A ponta da mais alta, ao centro, demarca o meio do caminho que o círculo iluminado percorre, tal qual as contas amarelas. Quando ele passa por aqui, indo para a montanha pontiaguda, começa a época dos brotos. Quando ele para e volta, as flores se transformam em frutos. As duas estacas mais externas marcam os dois retornos. Numa, o ar começa a aquecer, na outra começa a esfriar. Esse é o percurso do mover da Vida. Durante um ciclo completo, a Vida acorda, amadurece, perde o viço e por fim parece adormecer. Esse é seu mover contínuo.
Com algum trabalho, o mestre conseguiu explicar ao rapazola que ele, apenas, observava o mundo, não o criava a sua vontade. Depois disso, Iriín tornou-se mais sério e atento, mais calado e contemplativo. Os dois passavam intermináveis períodos a observar os ciclos vitais dos pequenos animais e das plantas. Os dois registravam, nas contas, o romper dos ovos e a duração do crescimento das ninhadas, aprendendo a extensão de seus ciclos. Mesmo o acontecer das melhores caçadas e dos bons frutos eram marcados nas cotas e entre as estacas, que pareciam vigiar o horizonte.
A noite continuava a ser o maior desafio para a tribo. Na escuridão, o grande céu cobria-se de luzes brancas, a faiscar intensamente. Uma delas, a mais brilhante, fascinava a todos. Deram-lhe o nome de Bela.
Iriín passou a vigiá-la. Chamava a atenção do mestre do dia para suas aparições, ora no horizonte matutino, ora no vespertino, ora desaparecendo por longo tempo. Notava que esses períodos tinham relação com as estiagens, os dois observadores passaram a dedicar-lhe atenção especial. Em cada corpo observado, descobriam novos encadeamentos e encantamentos.
Além do mover do círculo iluminado e da ronda da mutante lua, os movimentos da terra entrelaçavam-se também com o mover das luzes longínquas da noite. Tudo pertencia a mesma tribo.Continuação Fábula 5 - A PLANTAÇÃO