As Sete Fábulas
A grande árvore perdia suas folhas, levadas no sussurro do vento. Seus ninhos estavam vazios. Até mesmo as aves brancas, que se reuniam em seus galhos numa gritante despedida a claridade do dia, já haviam migrado, deixando aquela sensação de que a vida se esvaia.
Por entre os troncos semi despidos, Iriín caminhava próximo a lagoa. O círculo iluminado deitava-se lentamente tingindo as plácidas águas. Ele gostava das épocas quentes e do fervilhante encontro dos pássaros ao anoitecer. Mas hoje o sol parara no horizonte. Com a pedra azul entre as mãos, recordava a primeira vez em que acompanhara a indecisão do grande círculo iluminado a estancar para depois retroceder em seu caminho no horizonte.
Uma lembrança passeava com ele... ...com passadas largas, a afastar as dúvidas de Iriín, a imagem do mestre do dia aproximava-se da margem da lagoa e apontando as montanhas, descrevia-lhe coisas nunca antes pensadas... A aproximação do tempo frio remexia o passado de Iriín, aflorando recordações de sua vida. Uma longa jornada exclusivamente dedicada a observação dos movimentos.
Tocou com dedos comovidos a grande semente dos troncos nodosos, que gotejava seu sumo cristalino e denso por uma lua. Lembrava-se de quando seu mestre e ele puseram-se a recolher as gotas em tigelas, podendo, assim, comparar o passar do tempo pela quantidade do líquido. O artifício possibilitou-lhes marcar diferenças entre períodos que se assemelhavam iguais, como a duração do dia e da noite. Estar com Quirín era vasculhar o mundo.
Após a iniciação de Iriín como discípulo de Qüirín, os mais velhos da tribo decidiram que não só os garotos vigilantes seriam reunidos para o conhecimento da mata. A aprendizagem abrangeria a todos, meninos e meninas, numa preocupação de que fossem guardadas a memória das novas observações. Com a constância do aprendizado, o primeiro dia passou a contar com demonstrações das habilidades dos novos discípulos, numa festiva comemoração ao começo da puberdade.
Iriín era o mestre da noite, seus passos já não possuíam a pressa dos adolescentes, mas encaminhava-os para a compreensão da passagem da Vida. Tivera muitos discípulos. Alguns deles lembravam-lhe a sua própria figura, a perguntar sobre tudo com olhos arregalados e agitação na voz. Poucos desejaram, como ele, dedicar-se as observações integralmente. Entretanto, nada era igual a frágil fêmea que, isolada, parecia não ouvir nem participar.
Aluan nascera com estranhas manchas por todo corpo. Ao tornar-se adolescente passara a ocultá-las cobrindo-se com tiras de palha que, atadas a um fio , desciam-lhe do pescoço até abaixo dos joelhos, tendo conchas brancas presas às pontas. A estranha veste tiritava a cada passo criando um som peculiar que anunciava sua aproximação.
Ela deixava-se ir pelos caminhos, suas mãos leves tocavam as folhas como a acariciá-las, aproximando-as das narinas e da língua, bebendo as gotas de orvalho que se acumulavam sobre as pétalas. Nas noites sem lua, colhia folhas de cheiro e banhava-se com seu sumo diluído em água. Aluan assemelhava-se a uma miragem, sempre a guiar-se pelas fases da esfera prateada.
Em um dia, ao final de época fria, ela volvera o solo com gravetos e afofara seus torrões, parecia brincar. No surgir da primeira lua, ocultara sementes sob a terra, como faziam os pequenos animais de cauda peluda. Após a chuva, os brotos cresceram rapidamente e logo, estavam propícios para uma colheita. Aluan alimentava-se com eles, transformando seu corpo. Forte e altiva, aos poucos foi nascendo a mestra da mata. Pronta para ensinar a tribo como cultivar suas plantas.
Desatando as fitas de couro que lhe protegiam os pés, Iriín mergulhou nas águas escuras deixando-se boiar sob as estrelas. Fora, assim, que descobrira as pequenas errantes, luzes, que como a Bela, percorriam o céu na mesma faixa descrita pelo círculo luminoso.
Elas eram tantas quantos os dedos de uma mão e se comportavam de modo diferente das demais. Estudava-as por longos períodos, comparando-as com o ritmo do sol. Insistia em conhecer seus ciclos e igualá-los aos demais ciclos dos seres a sua volta. Ouvia, ainda, a voz de Qüirín a censura-lhe o hábito de deixar-se ficar boiando na escuridão, gelado até os ossos, a guardar o céu que deitava-se por inteiro sobre ele.Continuação Fábula 6 - A IMAGEM