As Sete Fábulas

As Sete Fábulas



A Imagem

Sexta Fábula

O imprevisto acontecera e os vigilantes haviam sido mobilizados na busca de respostas. Sobre as folhas secas, o rumor de muitos passos anunciou a aproximação de estranhos. Entre os galhos altos, Aaran observava o bando de machos deslocando-se a caminho do rio que desembocava na lagoa.
Identificou alguns elementos pelos enfeites que ornavam-lhes o peito. Eram, quase todos, integrantes da tribo das montanhas. Mas porque se comportavam como invasores a remexer as plantações, destruindo as demarcações limites?
Esperou que se distanciassem, vigiando-os de longe. Nas proximidades da margem, eles ocultaram-se entre as folhagens e levaram os longos tubos que portavam aos lábios, soprando neles em direção ao céu. Em seguida, algumas aves caíram inertes.
A surpresa era grande, os anciãos não conseguiam entender o comportamento do bando e muito menos como conseguiam caçar. Mas, o que realmente espantava-os fora o consumo da presa sem compartilhar com a tribo e sem manifestações de regozijo. Seriam desgarrados?
O povo das montanhas vivia somente da caça e jamais aproximara-se das terras da lagoa, preferindo os prados além do rio. Era inesperada a presença deles pelas terras ribeirinhas. E os outros machos, de onde viriam?
Aaran esforçava-se em repetir sua narrativa com detalhes, descrevendo o aspecto dos machos estrangeiros. Por fim satisfeitos, os mais velhos reuniram-se para resolver como agiriam.
Até que a situação fosse acalmada, as mulheres foram proibidas de afastarem-se da aldeia. A vida perdera o ritmo normal e o receio nos olhos dos mais velhos revelava a ameaça à ordem das coisas.
Em forma de círculo, as plantações estendiam-se na área mais baixa, não muito próximas a aldeia. Longas estacas de barro cozido delimitavam a área e estacas menores separavam as qualidades dos vegetais.
Na intenção de espantar os pássaros gatunos, as estacas foram ganhando formas humanoides. O novo feitio agradava ao engenho dos artesãos do barro, que, talvez na memória da primeira mestra da mata, idealizaram a grande imagem central do campo. Dela derivaram-se estatuetas que eram colocadas em lugares em que se cuidavam dos alimentos.
Para espanto de todos, há dois dias algumas estacas externas tinham sido deslocadas e as plantações remexidas. O fato causara muito reboliço. Entre perplexos e agitados, os anciãos mobilizaram os vigilantes na observação dos movimentos estranhos ao cotidiano.
O povo da lagoa escura ouvia falar de outros povos além do pico mais alto. Mas, estes eram invenções para eles, lendas contadas a beira das fogueiras do tempo em que os antepassados iam a busca de sementes. Com o cultivo do solo, os encontros entre as tribos passaram a ser coisa esquecida. Somente os anciãos e os vigilantes que iam para aquelas paragens, trazendo notícias, sabiam da real existência de outros povos.
Foram demorados os contatos com os desgarrados e requereu um grande esforço. A linguagem dos montanheses era compreensível somente para os vigilantes, mas nem estes conseguiam entender os demais estrangeiros. Haviam muitas dúvidas e receios. Os ribeirinhos temiam a misteriosa arma do bando. O bando temia a grande imagem da mestra da mata, por esse motivo haviam atacado as plantações.
Nas trocas para alcançar a tranqüilidade, os anciãos foram obrigados a receber alguns integrantes do bando que queriam permanecer na aldeia e deixar ir elementos da tribo, que ansiavam por conhecer os imprevistos das caminhadas.
Quando partiu, o bando levou consigo a história de uma tribo que possuía uma estranha imagem que comandava o crescimento das plantas. Os que desejaram ficar tentavam entender a lógica da nova vida, sua língua, seus costumes. Como não conseguiam-no totalmente, imitavam os modos dos aldeões.
Contudo, mesmo com o tempo o receio pela imagem da mestra da mata permaneceu entre eles. Um receio que começou a ser remediado com uma cerimônia onde eles ofereciam-lhe presentes e faziam pedidos. Talvez na crença de que, ao agradá-la, algum tipo de proteção faria as coisas acontecerem como eles desejavam.
Continuação

Fábula 7 - O HORIZONTE 


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