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Boletim Mensal * Ano VII * Janeiro de 2009 * Nº 66 |
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FADO TAMBÉM É CULTURA (24)
Alfredo Antunes |
Amigos e Compadres! Faz hoje dois anos que iniciamos nossa viagem ao fundo do
Fado – que o mesmo é dizer, ao fundo da alma portuguesa. Viagem longa! Longa,
mas cheia de cuidados e carinho! Viagem feita com a reverência de quem mexe em
coisa sagrada!Mas hoje estamos chegando, de volta! Temos agora, na mão, um Fado
que, embora tão antigo como a Raça - “uma doença muito nossa”, no dizer bonito
de Cunha Leão – recebeu, no Séc.XIX, uma gestualidade nova e novos modos de
cantar-se. Permitam-me que acrescente ainda pequenos elementos para,
definitivamente, deixá-los no Séc. XX - o século da Maria Alice,do Marceneiro,
da Hermínia Silva,da Teresa de Noronha, da Amália Rodrigues...
Subira o Fado da viela aos salões e teatros, para descer,
depois, à mesma viela, já “limpo” , feito arte e beleza. Fácil de dizer. Mas
doloroso no caminhar. Foram séculos e séculos de “escutas” culturais. Séculos de
atenção e mistura de almas. Hoje, o Fado é assim. Amanhã será diferente, porque,
como disse, o Fado não é “uma música” - é um jogo de alma e de raízes. É o jogo
da expressão ôntica de um Povo. Um processo que não parará jamais; seguirá
adiante, sempre igual e sempre diferente, como iguais e diferentes serão as
almas e seus modos de expressar-se. E se o Fado é “o plano inclinado da Saudade”
(C. Leão), jamais deixará de ouvir-se enquanto houver Saudade na alma
portuguesa.Creiam!
E que mais poderia eu dizer-lhes, hoje, caros Compadres?
Muito. Muito mesmo! Mas vou terminar a crônica, explicando apenas alguns termos
ou gírias fadistas, e mencionar os dois grandes grupos musicais e rítmicos que o
Fado atual ganhou do Séc.XIX.
Terminologia fadista. Já vimos como o termo “fadista” deixou
de significar o boêmio violento, o “rufia” que, como “leão romântico”, dominava
terreiros, tabernas e prostitutas (que o sustentavam). Era um personagem que
usava a navalha e a guitarra como armas, vestia exoticamente, acompanhava as
cantadeiras e era muitas vezes o autor das letras (com freqüência, de baixo
nível, quer temático quer estético). “Fadista”, repito, significava (na época da
Severa, e até, mais ou menos, 1870) o mesmo que canalha, escroque, cafetão e, no
mínimo, mau poeta e mau guitarrista! Com a “elevação” e “dignificação” do Fado,
nas três últimas décadas do século, dignificou-se, paralelamente, o “fadista”
(que passou agora a significar o cantador de fados, o poeta e o artista
popular). Passou a confundir-se com o “faia” que (daquele sujeito que “aparava”
as umbigadas e pernadas nas orgias dançantes de outrora) passou a significar,
agora, o janota elegante, poeta popular e, muitas vezes, exímio guitarrista.
Este “ novo” fadista passa a imitar, na forma de vestir, os fidalgos e toureiros
do fim de século; e tão de perto o faz que um fidalgote da época (J. Machado)
barafustava enciumado: “Desde que os fidalgos e janotas gostam de ser fadistas,
estão os fadistas a querer ser janotas”!. E Ramalho Ortigão vai mais longe:
“Hoje quase todos são fidalgos: jovens burgueses, honestos logistas ou pacientes
alfaiates”!
Outros termos, que valeria a pena mencionar, referem-se aos
gêneros musicais do atual Fado. Já o fomos fazendo, ao longo de nossas conversas
anteriores. Mas, não é demais relembrar, pelo menos dois deles: a)“Fado
corrido”- gênero de fado que não admite “paradas” ou “variações” por parte dos
guitarristas. Mantém-se, do começo ao fim, num esquema musical e rítmico, sempre
uniforme, ligeiro e muito simples. Este “Fado corrido” teve seu ancestral no
“Fado batido”(de triste memória!) que abarcava no seu bojo tanto os “cantos a
atirar” como os “cantos ao desafio”. Em geral, este “Fado corrido” é narrativo,
conta uma história, e facilita o improviso. Pertencem à família do “Corrido”
todas aquelas toadas que caracterizam o chamado fado “ castiço”: o “ rigoroso”,
o “gingão”, o “mouraria”, o “ maior” e, em geral, os “improvisos” e
“desgarradas”. Evidentemente que o Fado genuíno não cabe em espartilhos e
esquemas rígidos. Limito-me, apenas, a apontar gêneros. b) “Fado canção”-
derivou dos antigos e improvisados “cantos à desgraça” que irrompiam das danças
fadistas, como lamentos sentimentais, chamados, também de “lunduns
chorados”.(Fez furor, entre as damas da aristocracia lisboeta, já no Séc. XVIII,
um mulato angolano – o Triste Lereno – que, acompanhando-se à guitarra,
improvisava, com voz langorosa, alguns destes “ doces lunduns chorados”: (“Ai de
mim, que triste vida!Que cruel fado é o meu/) sobre a temática do Amor!). Não
nos detemos mais nos cantos à “desgarrada” e ao “desafio” porque me parecem
auto-explicativos. A desgarrada faz-se sobre temas líricos, e em harmonia de
cantadores; o desafio sugere torneios provocativos entre as partes. Ambos estes
gêneros costumam valer-se do “Corrido”.
Mas, meus Amigos, não importa explicar o inexplicável. Se o
Fado é Fado, pode ter o nome que quisermos. Quando o nosso Camões diz: “A
Saudade escreve e eu traslado...”(Elegia II), é como se me emprestasse palavras
quase divinas para eu próprio
poder dizer:“ A Saudade escreve e eu canto” E este canto com que canto a Saudade chama-se: FADO! - o Fado Português!