Boletim Mensal * Ano VII * Maio de 2009 * Número 70

           

 

   

FADO TAMBÉM É CULTURA  (28) 

Alfredo Antunes 

    

 

    

         

Amigos emigrantes e compatriotas!

            Sobre o fado e seu mundo, pensei que seria hora de parar. Sim, vou fazê-lo, já, já!

            Permitam-me, no entanto, dar mais um gosto ao meu coração, e terminar com uma palavra, por breve que seja sobre aqueles que considero, os seis eternos ícones do fado em todos os tempos:

Maria Severa, Augusto Hilário, Alfredo Marceneiro, Hermínia Silva, D. Teresa de Noronha e Amália Rodrigues.

            Talvez corra o risco de repetir-me, em alguns momentos. Mas permitam-me este preito sentido a quem tanto o fado sentiu. Nestes seis ícones  venero os milhares e milhares de cantadores e cantadeiras que, desde que nascemos como Raça, vêm ensinando, de forma bonita, o jeito lusíada de cantar-se a saudade.

 

Casa da Severa

Rua do Capelão à época

Largo da Mouraria

onde Maria Severa viveu

Óleo de Maria Severa Honofriana  (1820-1846)

 

1. Maria Severa

            Não se trata, como disse, de um mito. Foi uma mulher real. Muito real, e símbolo emblemático daquilo que se podia definir como sendo a verdadeira “mulher desditada e romântica”.

             Nasceu em Lisboa, em 1820, e morreu, tuberculosa, com 26 anos de idade. Ana Gertrudes, sua mãe, era cigana, de Ovar, e tinha os apelidos de “Barbuda” (por ter muitos pêlos na cara) e de “Severa” (por ser mulher temível que “usava faca na liga”e mantinha sete tabernas na Mouraria).

            Com o tempo, o apelido “Severa” passou para a filha, que deixou de ser apenas a linda Rosa Maria, da Rua do Capelão, para tornar-se a grande Severa da História.

            Não é, portanto, lenda, mas história, o que dela ficou no imaginário popular, já que encarnou todos os ingredientes do fado da primeira metade do Séc. XIX. Jovem prostituta, explorada pela mãe, tocadora de guitarra, desditada por amores proibidos, voz inconfundível de mezzo-soprano, alta, morena e sensual, olhos de moura peninsular, a Severa tinha ares de mulher fatal e desafiadora. Topava qualquer duelo fadista, em qualquer recanto da velha Lisboa.   Batia o fado como ninguém, desde o escurecer até de manhã, quer fosse nas “frescatas das Hortas”, nos “descantes das esperas de touros no Campo de Santana”, nas “noitadas do Campo Grande” ou nos “Retiros fora de Portas”; além das suas “entradas” nos salões da fidalguia boémia.

            Juntava-se, com freqüência, aos “seus pares”, nas baiúcas sórdidas por onde vicejavam os “deserdados” da sorte: bebia vinho ruim e pagava rodadas a todos os presentes. Dava-se ao respeito e não tinha concorrente à sua altura.

            Rodeada sempre, quer pela escumalha da vadiagem, quer por fidalgos, toureiros, marialvas, guitarristas e cantadores, pelas noites de luar, esperas de touros, serenatas de fado e aventuras estúrdias, a bela Severa cantava a “poesia da desgraça”: com voz enternecida, umas vezes, com requebros brejeiros e irônicos, outras.

             Seus amores “proibidos” com o 13º. Conde de Vimioso, completaram sua aura de símbolo do fado e do romantismo. Adoeceu em sua casa da Rua do Capelão e foi morrer na enfermaria dum hospital. Morreu de tuberculose e de desgosto. Desgosto, porque, a essas alturas, já o seu Conde a havia deixado por outra (de nome Joana, e que, curiosamente, tinha a mesma alcunha de “Severa”; esta, sim, verdadeira cigana, que mais tarde foi viver para Évora).

             Com a morte da Severa, a Mouraria  e o fado ficaram de luto.

 

”Chorai fadistas, chorai

Que a Severa se finou

O gosto que tinha o fado,

Tudo com ela acabou”.

 

 E ao final de um ano, de novo se cantava pela Mouraria:

 

“Morreu, faz hoje um ano

Das fadistas a Rainha,

Com ela perdeu o fado

O gosto que o fado tinha”.

 

             Seus amigos gravaram, mais tarde, sobre sua campa rasa, no cemitério do Alto de São João, o seguinte epitáfio: “Aqui jaz quem era o Fado!”.

            Que Deus a tenha!  E que, lá no céu, repito, ela tenha concluído que, afinal,  o seu “Fado” não era ser “desditada”, mas feliz!

            À sua bela memória dedico um dos mais belos fados que já se cantaram: “Há festa na Mouraria”, de António Amargo. Tão belo que Fernando Pessoa e António Botto o incluíram numa seleta que organizaram com os melhores poemas da língua portuguesa:

 

 “Há festa na Mouraria

É dia da Procissão

Da Senhora da Saúde.

Até a Rosa Maria

Da Rua do Capelão

Parece que tem virtude”.

 

“Colchas ricas nas janelas

Pétalas soltas p’lo chão

Almas crentes, povo rude

Anda a fé pelas vielas

É dia da Procissão

Da Senhora da Saúde”.

 

Já viram coisa mais linda, Amigos, do que  andar a fé pelas vielas da Mouraria?! E agora vem a censura ao Fado-pecado:

 

”Naquele Bairro fadista

Calaram-se as guitarradas

Não se canta nesse dia

Velha tradição bairrista

Vibram no ar badaladas

Há festa na Mouraria

 

Após um curto rumor

Profundo silêncio pesa

Por sobre o Largo da Guia

Passa a Virgem no andor

Tudo se ajoelha e reza

Até a Rosa Maria!”

 

“Como que petreficada

Em fervorosa oração

É tal a sua atitude

Que a Rosa já ‘desfolhada’

Da Rua do Capelão

Parece que tem virtude!”.

 

             Meu Deus! Quanto preconceito!

Por que a Rosa Maria não poderia ter virtude?!...

Peçamos à Senhora da Saúde que perdoe aos nossos antepassados!

 

            Falarei, na próxima, sobre o Hilário. Até lá!

 

 


 

 

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