O Destino dos Solitários

Capítulo 1
SONHOS ESTRANHOS

         Ele andava em passos largos pelos corredores de Hogwarts, deixando transparecer a inquietação que estava sentindo. Podia ser ouvido à distancia o baque que seus sapatos faziam no assoalho, enquanto continuava determinado em seu caminho. Não parou nem diminuiu sua velocidade até chegar em uma grande gárgula, murmurar uma senha e subir as escadas em caracol.

         Assim que a subida acabou, encontrava-se na sala em que mais estivera nos últimos dias, e que parecia nunca mudar de aparência. A mesma sensação de paz e relaxamento que sempre deixou transparecer continuava lá, e se não tivesse se habituado tanto àquela sensação, poderia sentir um alívio ao pisar ali. Mas não ele... Nem precisou chamar por quem esperava, ele já parecia saber do que acontecera e fitava-o por seus óculos de meia-lua.

         - Já esperava sua visita, Severo, mas não achei que seria a essa hora da madrugada – disse o diretor, oferecendo uma cadeira para sentar-se.

         - O que está acontecendo, Alvo? – perguntou o professor, com um olhar cansado.

         - A questão não é o que está acontecendo, mas sim por que está acontecendo.

         Aquela não parecia ser a resposta que Snape esperava, pois franziu as sobrancelhas no mesmo segundo.

         - Já é a terceira noite, não consigo tirá-la de meu pensamento.

         Sua voz soou mais carrancuda do que esperava, mas Dumbledore sorriu simpaticamente, como se já soubesse o que o outro falaria.

         - Como foi o sonho desta vez? – perguntou o diretor.

         - O mesmo de sempre, só que a cada dia que passa consigo entender menos – respondeu-lhe pensativo, forçando sua mente a maiores informações.

         - Desconfio que estes sonhos não sejam apenas distúrbio de sua mente, Severo – disse Dumbledore. – Tem certeza de que isto não já lhe aconteceu?

         - Já disse que não me lembro – sua voz agora saíra um pouco brava. – Sei que quando estava no primeiro ano adentrei a floresta proibida, mas não lembro de mais nada.

         - Se ainda estivesse na escola te daria uma detenção por quebrar regras – disse com um sorriso divertido. Snape o encarou com incredulidade. – Mas como não é... Temos que pensar em uma solução.

         - Precisamos desta solução o mais rápido possível, Alvo. Quase não consigo dormir, somente imaginando se vou sonhar com isso novamente.

         O professor parecia realmente perturbado com aquela história; eram visíveis as olheiras que começavam a se formar sob seus olhos. Dumbledore não sorriu desta vez, mas sua voz soou zombeteira nos ouvidos de Snape.

         - Não tenha medo do sonho, e tente fazer algo inesperado pela garota, algo que ela nunca imaginasse que fosse acontecer. Pela manhã ficaremos sabendo do resultado.

         Snape assentiu com a cabeça, duvidando redondamente que aquilo fosse dar certo, já que era apenas uma lembrança, e não alguma coisa que poderia ser mudada... Só não aceitava repetir o sonho por várias vezes, mas em nenhuma delas conseguir enxergar o rosto da pequena garota.

         Saiu do escritório de Dumbledore, pensamentos confusos martelando em sua cabeça.

§§§§§

         Aquela noite parecia mais sombria do que o normal; apenas a lua cheia servia de iluminação para os viajantes e aqueles em que pareciam estar acordados.

         A Floresta Proibida parecia particularmente assustadora. Suas grandes árvores impediam os raios lunares de ultrapassarem suas grandes folhas e iluminarem o caminho por entre ramos e galhos. Um pequeno garoto aventurava-se por dentro da floresta, apenas uma fraca iluminação produzida por sua varinha era o que tinha de companhia.

         Parecia não saber ao certo o que fazia naquele lugar; sabia apenas que deveria continuar seguindo seu caminho, embora não conseguisse ver muito além de dois palmos à frente.

         O silêncio que o rondava passava a ser incômodo, e nem os barulhos de galhos quebrados pareciam ser ouvidos. Sabia que não era bom estar num silêncio total, com certeza alguma coisa ruim estava para acontecer.

         E não estava errado.

         Após dar mais alguns passos, chegou em uma clareira, em que pequenos feixes de luz conseguiam atravessar os ramos das árvores e iluminava o solo. Ouviu um silvo atrás de si, e um arrepio percorreu sua espinha. Não teve tempo de virar o rosto completamente, foi surpreendido por um enorme quadrúpede, que saltou sobre si, derrubando-o no chão com um baque surdo.

         O solo estava gelado, o que ajudou em seu súbito desespero. A varinha voou a uns dois metros de sua mão, e era quase impossível alcançá-la, ainda que uma das patas do animal pressionava seu braço esquerdo. Olhou para o animal, seu rosto expressando medo e surpresa. O vento fez com que galhos das árvores se mexessem, e a lua iluminou brevemente o animal, mas tempo suficiente para o garoto perceber do que se tratava: um grande lobisomem, que mostrava seus afiados dentes para ele, rosnando.

         Saltou desesperado em busca de sua varinha, mas não conseguiu ser rápido o bastante. O lobisomem movera-se mais rápido, e suas patas fizeram um grande corte em suas vestes, e penetrou em sua pele, causando-lhe um grito de dor.

         “Falta pouco para ele me morder, e então tudo estará perdido” pensou desesperado, enquanto forçava sua mente para algum feitiço que ajudasse naquele momento – mas nada surgiu. Apontou sua varinha para o animal, que pareceu não se intimidar. Vendo que ser um bruxo não ajudaria em nada, conformou-se com sua única opção: correr o mais rápido que podia.

         Foi o que ele fez. Com movimentos desesperados, apoiou suas mãos no chão e impulsionou seu corpo, tentando levantar-se. Conseguiu ficar de pé, mas uma nova investida do lobisomem o derrubou de joelhos na grama fria. Desta vez encravara suas afiadas unhas na perna esquerda do garoto, que começara a sangrar. A dor que sentiu foi tão insuportável que a voz lhe faltou, e não conseguiu gritar. Segurou sua varinha com mais força, na tentativa de ajudá-lo.

         Uma grande luz verde irrompeu de sua varinha, que cegou ambos – o garoto e o lobisomem. Aquela luz pareceu ter algum poder além de iluminar o caminho, pois o animal desatou a correr para bem longe da iluminação, uivando melosamente.

         Deixou-se cair no chão, respirando rasamente. A primeira coisa que pensou foi o alívio de ainda estar vivo, e sem ter sido mordido pelo lobisomem. Em seguida foi tomado de uma grande dor vinda de sua perna, que sangrava incansavelmente.

         - Férula – murmurou, a varinha apontada para a perna machucada.

         A perna foi atada com talas e presa firmemente, mas apenas ajudou para aumentar a dor. Logo lembrou que aquele era um feitiço para membro quebrado, o que não era seu caso. Cancelou o feitiço no mesmo minuto, e com muita dificuldade, pôs-se de pé. A perna quase não agüentou com seu peso, e quase caiu novamente. Rasgou sua capa e amarrou o local da ferida, na tentativa de estancar o sangue.

         Sua única escolha foi começar a caminhar, tentando achar o caminho de volta ao castelo. No momento de dor e desespero tão grandes, nem lembrou-se do feitiço com a rosa dos ventos, para saber para onde ia – o que não adiantaria muito, pois não sabia em que direção ficava a escola.

         A cada passo que dava sentia sua perna latejar de dor, protestando contra o trabalho. Também adentrava cada vez mais na floresta, sem ter idéia do que estava fazendo. A fraca luz de sua varinha não ajudava muito, e a sensação de solidão aumentava cada vez mais.

         Depois do que pareceram horas, começou a ver que a floresta deixava de ser tão densa, e aos poucos a claridade voltava a aparecer. Bem ao longe, conseguiu ver uma casa simples, com uma das luzes acesas. Nem de longe aquilo seria Hogwarts, mas ao menos poderia pedir ajuda – coisa que sempre detestou fazer – e curar de seus ferimentos.

         As árvores já deixavam de ser tão juntas, e logo chegava ao fim da floresta. Uma garota corria em sua direção, com seus cabelos balançando enquanto se movia. Segurava um lampião em uma das mãos, e ia diretamente até a orla da floresta. Ele pareceu perceber finalmente o quão esgotado estava, e deixou-se cair na grama molhada pelo sereno, completamente sem forças.

         A garota chegou próximo a ele logo em seguida, preocupadíssima. Largou o lampião no chão e colocou a cabeça dele sobre suas pernas, com delicadeza.

         - Você está bem? Se machucou muito? – perguntou, quase eufórica. A voz daquela garotinha era meiga e doce, e ele sentiu-se um pouco relaxado com isso.

         Não conseguiu dizer muita coisa, porém. Apontou com dificuldade para sua perna, e desmaiou.

 

         Sentia uma estranha sensação de conforto, e suaves toques em sua testa, que parecia passar algum pano molhado sobre ela. Com dificuldade abriu os olhos, assustando a pequena garota. Ela tirou o pano rapidamente, puxando-o para si. Parecia aliviada por ter acordado, e logo pegou uma caneca de algum líquido fumegante.

         - Que bom que acordou – disse suavemente, entregando-lhe a caneca. – Se machucou muito ontem à noite, foi uma sorte ter conseguido sair da floresta.

         - O que é...?

         Enquanto fazia a pergunta, tentava levantar-se da confortável cama em que estava, mas não teve muito sucesso. Sua perna doeu, e desistiu de levantar-se.

         - É um chá de ervas medicinais. Vai aliviar sua dor, mas não totalmente. Achei que fosse ajudar em sua travessia de volta – respondeu dando de ombros.

         - O que aconteceu realmente? – perguntou enquanto bebericava um gole.

         - Você saiu da floresta, super esgotado. Vi uma luz na floresta, e fui averiguar. Quando percebi, já estava estirado no chão. Levei-o para casa e fiz o que pude, mas não consegui curar seu machucado completamente.

         - O que fez com minha perna, exatamente?

         - Limpei a ferida, que estava um pouco infectada. Depois usei algumas ervas e imobilizei a perna. É algo provisório, quando voltar para sua casa vai se cuidar melhor – a voz da garota parecia um pouco distante, quase triste.

         - Não quero incomodar. Onde estão seus pais?

         - Não tenho pais.

         O garoto ficou em silêncio, incomodado por ter tocado em um ponto tão sensível. Sentiu um pequeno alívio na dor, e conseguiu se levantar, ainda cambaleando um pouco.

         - É melhor esperar o nascer do sol; a floresta é menos perigosa de dia – sugeriu, olhando distraidamente para a janela, que mostrava um céu que começava a clarear com os primeiros raios do sol.

         Ele permaneceu em silêncio; terminava de beber o chá.

         A garota virou-se de repente, um brilho estranho em seus olhos cor de mel.

         - Posso saber seu nome?

         - Severo. Meu nome é Severo Snape – respondeu, analisando a menina calmamente.

         Ela parou por um momento, como se analisasse o nome do garoto. Em seguida deu um breve sorriso, caminhando até fora do quarto. Voltou minutos depois, trazendo um pequeno embrulho em suas mãos.

         - Fiz um pequeno lanche – disse enquanto entregava o embrulho. – Achei que fosse ter fome no meio do caminho, não deve ter comido nada há horas.

         - Obrigado – balbuciou, colocando-o em um dos bolsos que restaram de sua capa.

         A garota ficou calada depois disso. Abriu a porta do quarto e caminhou até o lado de fora da casa. Snape a seguiu, se perguntando o que aconteceria a seguir.

         - Bem... acho que pode ir. O sol logo acaba de nascer, talvez chegue antes do almoço – disse sem olhar para ele, mantendo seu olhar fixo na floresta.

         - Obrigado por tudo – murmurou sem jeito, caminhando na frente dela.

         Não conseguiu dar mais de dois passos. A garota abraçou-o por trás, fazendo-o parar imediatamente. Ela tinha os olhos marejados, e não estava certa se queria que ele fosse embora.

         - Voltará para me visitar, Severo? – sua voz saiu em um sussurro.

         Ele sentiu um arrepio percorrer sua espinha, ninguém nunca o chamou pelo primeiro nome de maneira mais doce e sincera. Não conseguiu responder nada, pois não sabia se voltaria para vê-la novamente.

         Ela pareceu entender o silêncio dele como resposta, então voltou a dizer, a voz começando a se afetar com a vontade de chorar.

         - Sei que se sente sozinho, assim como sempre me senti. Achei que pudéssemos suprir essa necessidade de carinho.

         Não esperou resposta, soltou-o lentamente, juntando suas mãos. Snape voltou a caminhar, incerto se deveria olhar para trás. Não queria vê-la chorando, sabia que ela choraria, e não queria amolecer mais, já estava envolvido mais do que desejaria. Continuou caminhando, segurando sua varinha com força, lutando contra uma lágrima que cismava em se formar em seu olho direito.

§§§§§

         Acordou assustado, quase dando um pulo de sua cama. Passou a mão pela testa, e notou que suava frio. Levantou-se rapidamente, e vestiu seu robe. Ainda estava assustado com o sonho que tivera, desta vez mais nítido do que nunca. Caminhou até o banheiro, e resolveu observar-se no espelho. Ficou realmente surpreso com sua expressão, mais cansada e preocupada do que nunca. Jogou água em seu rosto, na tentativa de acordar melhor e começar a raciocinar direito.

         Aquele fora o sonho mais longo que tivera até o momento; nunca tinha passado da parte em que desmaiava. Ficou mais intrigado ainda, e sentiu-se estúpido por não ter perguntado o nome da menina. Sim, era uma menina, era notável que era mais nova do que seu eu do sonho.

         E sentiu um estalo em sua mente. Finalmente lembrara-se, e chegou à conclusão que aquela era apenas uma lembrança de seu passado, algo insignificante para lembrar-se. Só achou incômodo que uma simples lembrança lhe causasse tanta preocupação. Com certeza aquilo significava algo, só não tinha certeza do quê.

         Saiu do banheiro, agora disposto a fazer alguma coisa de útil, para variar um pouco. Mal começou a mexer em seus papéis sobre a escrivaninha e ouviu uma batida na porta.

         “Quem poderia estar batendo a essa hora?” perguntou para si mesmo, caminhando até a porta.

         Abriu-a rapidamente, e surpreendeu-se com o rosto de Alvo Dumbledore, com um sorriso que lhe deixou emburrado.

         - Entre, Alvo – disse Snape, abrindo mais a porta. – Não esperava sua visita a essa hora da manhã.

         - Achei que já estivesse acordado – disse serenamente, entrando no local. – Queria saber se teve alguma melhora nos sonhos.

         - Desta vez aconteceram mais coisas. Normalmente não conseguia sair da parte em que desmaiava na grama, mas agora vi o que aconteceu. Estava mais nítido, era como se aquilo realmente estivesse acontecendo na minha frente, e eu apenas observando.

         - O que aconteceu depois de acordou?

         O diretor parecia curioso para saber, embora Snape achasse que ele provavelmente já saberia o que tinha acontecido.

         - Ela cuidara de mim a noite toda, parecia realmente preocupada comigo – disse pensativo, não conseguindo entender o porquê deste sentimento.

         - Naturalmente. Qualquer um ficaria preocupado se um garoto de onze anos caísse desmaiado na sua frente – disse Dumbledore.

         - Ela deu um chá para mim, e também preparou um lanche para a viagem. Perguntou meu nome, e só me deixou sair assim que o sol nasceu.

         - Só isso? – ele parecia um pouco desapontado.

         - Quando comecei a andar até a floresta, ela... – sua voz começava a ficar falha, ainda não acreditando no que acontecera – ela me abraçou, e perguntou se voltaria para vê-la. Não respondi nada, e disse que se sentia sozinha, assim como eu me sentia. Parti sem ter coragem de olhar para trás, mas ciente de que ela chorava.

         Dumbledore ficou sem fala por alguns segundos. Ficou surpreso – e talvez até emocionado – pela atitude da garota, tão sozinha no mundo. Quando falou, porém, foi com sua voz passiva.

         - Ela realmente anseia encontrá-lo novamente.

         - Como isso, Alvo? Ela não teria poder para manipular meus sonhos, nem ao menos parecia ser bruxa! – aquela informação causara um grande baque em Snape, que podia esperar qualquer coisa de Dumbledore, menos uma frase como aquela, totalmente sem sentido.

         - Bruxa acho que ela não é, ao menos não lembro de ter mandado uma carta a ela – disse levemente desconcertado. – Mas quer encontrar-te, Severo, e você não pode negar.

         - E como vou me encontrar com ela? – perguntou, ainda não aceitando aquela idéia.

         - Acha que ela ainda mora no mesmo lugar?

         - Pode ser, mas não consigo ter certeza de nada. Imagino que o outro lado da Floresta Proibida deva ser enorme, muito difícil de ter certeza.

         - Então você deverá procurá-la – finalizou o diretor.

         - Qual a utilidade disso? – perguntou Snape exasperado.

         - Além de parar com seus sonhos? – perguntou de volta, em tom brincalhão – Ela parece ser uma peça de grande importância para todos nós, e precisamos ver o que realmente está acontecendo antes que Voldemort o faça.

         - O que Voldemort tem a ver com isso agora?

         - Quando descobrir o que acho que sei, vai querer persuadi-la a ficar do lado das Trevas. E não podemos permitir isso.

         - Alvo, o que você sabe que eu não sei? – Snape perguntou, começando a se irritar com tantas informações em uma neblina, onde não conseguia ver nada.

         - Você logo saberá, Severo – disse misteriosamente. – Só precisa encontrá-la, e sugiro fazer isso imediatamente.

         - E minhas aulas?

         - Acho que nenhum aluno se importará de ficar sem aulas de Poções hoje, Severo – disse divertido, dando um tapinha nas costas do professor. – Só peço que não demore muito, e que não danifique a floresta enquanto a atravessa.

         - Só espero não topar com outro lobisomem – disse sombriamente.

         - Assim que voltar, me procure – disse Dumbledore, ignorando a última frase de Snape.

         Fez um cumprimento para Snape e saiu da sala, deixando-o com mais problemas em sua mente.

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