O Destino dos Solitários

Capítulo 2
A VISITA E SUAS DISTORÇÕES

         Vendo que não conseguiria arrancar mais informações do diretor sem encontrar a tal moça, foi até seu quarto e pegou uma capa nova. Certificou-se de pegar sua varinha – um modelo um pouco antigo, mas que o acompanhara desde menino – e colocá-la bem segura em seu bolso.

         Trancou sua sala com um feitiço antigo, e caminhou o mais rápido que pôde até os jardins do castelo, que a essa hora estavam praticamente vazios. Enquanto caminhava até a floresta, nem percebeu que o observavam de uma das torres do castelo. A garota, muito conhecida por sua grande inteligência, observava o professor de Poções intrigada, imaginando o que ele fazia na orla da floresta proibida. Seu nome era Hermione Granger, que era ótima em problemas lógicos, e nenhum mistério continuava o mesmo com ela por perto.

         Foi correndo até o dormitório masculino, onde seus melhores amigos, Harry e Rony, dormiam profundamente em suas camas de colunas.

         - Harry, Rony, acordem! – disse em voz alta, abrindo as janelas com pressa.

         - O que há, Mione? Não vê que estamos dormindo? – resmungou Rony, virando para o outro lado.

         - Snape, meninos! – disse eufórica – Venham ver a atitude suspeita dele!

         Isso pareceu acordá-los mais rápido do que um balde d’água. Ambos pularam de suas camas, e foram observar a janela que Hermione mostrava, onde Snape já estava adentrando na floresta.

         - O que ele está fazendo na Floresta Proibida? – perguntou Harry curioso.

         - Provavelmente procurando animais venenosos para usar na próxima aula – comentou Rony sarcástico.

         - Não brinque com isso, Rony! – exclamou Hermione temerosa.

         - Será que uma cobra poderia pegá-lo e ficarmos sem aula hoje? – perguntou o ruivo esperançoso.

         - Rony! – repreendeu Hermione, nervosa – Gostaria de saber o que está acontecendo, sinceramente...

         - E mais um mistério insuperável para a destemida Hermione Granger – troçou Harry.

         - Harry! – exclamou, ofendida por ele também estar brincando com ela.

§§§§§

         Snape já estava na Floresta Proibida há uma meia hora. Estava sempre com sua varinha em punho, preparado para lançar um feitiço a qualquer sinal de movimento. Não cairia no mesmo erro de jovem, não agora que teria de rever a pequena garota de seu sonho, que não imaginava como deveria estar agora. Imaginava uma mulher adulta, com algum trabalho importante, e achava muito estranho que ainda morasse na mesma casa de estilo rural, na orla de uma floresta cheia de animais perigosos.

         Não teve muitos problemas nesta vez, apenas teve que deixar inconsciente um bando de aranhas asquerosas e despistar três centauros, que caminhavam em uma clareira e tentavam encontrar estrelas no céu nublado.

         Sentiu a floresta deixar de ser densa após quase duas horas caminhando, seu coração palpitando incomodamente a cada passo. Assim que conseguiu se livrar de um ramo de uma figueira extremamente rebelde, avistou um belo campo, sem nenhum obstáculo. Decepcionou-se ao ver que o local onde estivera a casa não mostrava mais a casa, mas sim um poço.

         Avistou uma mulher indo buscar água, e resolveu pisar em seu orgulho e pedir informações.

         - Com licença, eu procuro por uma moça que morava em uma casinha por aqui, mas não vejo mais a casa – disse em sua voz mais simpática possível.

         - Está falando de uma menina que vivia sozinha aqui? – a mulher quis confirmar, com uma voz rude.

         - Ela mesmo – confirmou Snape, uma sensação de aperto no coração crescendo em seu peito.

         - Já se mudou faz tempo, rapaz. Está morando em uma casa do outro lado da orla florestal, demora uns vinte minutos de caminhada.

         - Obrigado.

         Sua voz saiu cheia de amargura, e logo voltou a caminhar, suas mãos no bolso da capa. Sentia-se desolado por não ter encontrado-a logo de cara, e sua esperança diminuía a cada passo que dava. Já caminhava por quase quinze minutos quando estava prestes a desistir, visto que não encontrava a casa em lugar nenhum.

         Olhou para frente, em uma última tentativa. Avistou ao longe uma casa média, com uma chaminé saindo fumaça. Pensou se não seria a casa da garota tão procurada, que ele mal sabia o nome. Não conseguiu chegar à conclusão, pois uma figura que se aproximava o distraiu completamente.

         Era um cavalo que trotava em sua direção, montado por uma bela adolescente. Seus cabelos cacheados balançavam com o movimento e a brisa local, e vestia uma blusa branca, que estava enrolada até a altura do cotovelo, com uma calça preta que definia muito bem suas curvas. Ela aproximou-se e logo estava parada à frente de Snape, um olhar interrogativo em seu rosto jovial.

         - Procura alguma coisa, senhor?

         - Sim, eu... procuro uma moça, que morava numa casa onde agora localiza-se um poço, me disseram que morava por aqui – disse um pouco incerto, perdido naqueles olhos cor de mel, que o atraíram surpreendentemente.

         - Por suposto seria eu – disse a garota, franzindo uma sobrancelha. – Quem é o senhor?

         Ela continuava montada em seu cavalo, que era marrom escuro, e tinha uma longa crina preta, e olhos castanhos. Severo permitiu-se dar um suspiro de alívio.

         - Me chamo Severo Snape, e gostaria de conversar com a senhorita – disse um pouco incerto. Imaginava uma mulher adulta, e não uma garota adolescente. Será que não seriam a mesma moça? Mas deveria, pois ela disse morar na casa que procurava.

         Ficou tentando remoer estes pensamentos em busca de alguma resposta, mas a garota sorriu-lhe de maneira tão doce que acabou perdendo o fio do pensamento.

         - Estive te esperando por tanto tempo, Severo! – disse contente – Venha, vamos até minha casa.

         A garota desceu de seu cavalo, e começou a caminhar, puxando-o pelas rédeas. Snape caminhava a seu lado, uma quantidade irreal de perguntas martelando em sua mente, todas querendo ser respondidas no mesmo minuto.

         - Qual o seu nome, senhorita? – decidiu-se por fim por uma pergunta mais comum, já que não poderia conversar com ela sem saber seu nome.

         - Katie Witter – respondeu a garota, concentrada em continuar caminhando.

         Snape ficou calado, somente a acompanhando. Não sabia qual pergunta fazer a seguir, então resolveu não dizer nada. Continuaram caminhando em silêncio por algum tempo, mas Katie resolveu quebrá-lo, incomodada.

         - Sei que tem muitas perguntas para me fazer, Severo – ela virara o rosto para encará-lo -, e prometo respondê-las por inteiro, mas tudo no seu devido tempo.

         - Como sabe? – perguntou levemente surpreso.

         - Qualquer pessoa comum não conseguiria descobrir, mas eu consigo ver em seus olhos toda sua curiosidade – disse com um meio sorriso, perdida nos olhos negros de Snape.

         Ele ficou mais surpreso ainda, e até levantou uma sobrancelha.

         - Meus olhos não dizem o que eu sinto – protestou, sua voz séria.

         - Todo mundo diz o que pensa e sente pelos olhos, uns mais, outros menos.

         Essa frase calou Snape. Katie voltou a olhar para frente, avistando sua casa cada vez mais próxima. Este tempo deixou-o pensar em qual pergunta faria primeiro, e a que surgiu foi a que mais o deixava intrigado.

         - Por que continua jovem se eu cresci?

         Ela ficou sem resposta por um instante, mas o suficiente para Snape perceber sua hesitação.

         - Pergunta errada – disse balançando um dedo, evitando olhá-lo nos olhos. – Não queira trocar os pés pelas mãos. Já disse que vou responder tudo a seu tempo.

         - E o que eu poderia perguntar? – desafiou, uma expressão brava em seu rosto.

         - Não sei, quem tem as perguntas é você, não eu – disse dando de ombros. – Mas poderia perguntar alguma coisa sobre seus sonhos, talvez por que motivo eu quis tanto te encontrar... – sugeriu, olhando distraidamente para o céu, deixando Snape irritado.

         - Por que me procurava tanto, usando os sonhos como arma? – ele mordera a isca, tentando controlar sua respiração e não se irritar mais.

         - Te esperei por muito tempo, Severo – disse tristemente, parando de caminhar abruptamente. – No começo tinha esperanças de que voltaria, mas depois percebi que esperava em vão, que até tinha esquecido do que acontecera.

         Snape a olhou com pena. Os olhos da garota expressavam toda a tristeza que sentia, e que ele já sentira antes, e aprendera a conviver com ela.

         - Por um bom tempo tentei me convencer de que conseguia superar isto sozinha – continuou Katie, mas sem olhar para Snape. Abaixara o rosto, para ele não vê-la com lágrimas nos olhos. – Mas não consegui.

         Ela deu uma pequena pausa, mas ele sabia que ela continuaria a frase, era só questão de recuperar-se.

         - Então decidi te chamar, ainda mais com os acontecimentos que ouço os viajantes comentarem, e nunca tinham acontecido coisas como essas.

         - Que coisas?

         - Acontecimentos estranhos, cheios de mistério – ela voltou a andar, e Snape a seguiu. – Coisas que não têm explicação para acontecerem, eles simplesmente aconteceram.

         Aquelas palavras impulsionaram o cérebro de Snape a pensar, e a questionar se aqueles acontecimentos teriam alguma coisa a ver com o mundo mágico.

         Katie logo o chamou, avisando que já haviam chegado. Caminhou até o estábulo para deixar o cavalo, e Snape a seguia silenciosamente. Deixou-o comendo ração e bebendo água, e virou-se para encarar Severo.

         - Preciso terminar umas encomendas agora. Será que poderia me ajudar? Posso responder suas perguntas enquanto isso.

         A pergunta não soou como uma pergunta, era mais uma confirmação do pedido.

         - Que encomendas? – ele permitiu-se perguntar.

         - Um padeiro da cidade pediu uma remessa de cinqüenta pães para o meio-dia, e ainda não acabei tudo. Deixei alguns no forno, enquanto passeava com Tempestade.

         - Fabrica pães? – a voz de Snape era de incredulidade, misturada de grande surpresa.

         - Sou eu quem distribui pães para quase todos na cidade. Meu pão é o melhor da redondeza, por isso sou muito procurada – sua voz demonstrava orgulho oculto nas palavras. – É o que posso fazer para me sustentar, e quando tenho tempo livre, adestro cavalos ariscos dos fazendeiros.

         - Você trabalha para se sustentar? – a cada minuto ele ficava mais surpreso.

         - Esperava que eu fosse uma alta executiva que ganhasse sem fazer nada? – o questionamento em sua voz estava misturado com uma pitada de raiva, quase imperceptível.

         - Não, eu...

         Snape percebera que ela ficara levemente ofendida, e tentava se desculpar. Ela fez um gesto com as mãos, como se dispersasse o assunto. Chamou-o para a cozinha, onde faziam-se vários pães no forno à lenha.

         Katie aproximou-se do fogo, para tirar os que já estavam prontos. Tocou levemente na aba e sem querer deixou a mão queimar, por ter tocado no lugar errado.

         - Está tudo bem, Srta. Witter? – perguntou Snape preocupado, vendo a expressão de dor no rosto da garota.

         - Sim, não foi nada – ela tentava disfarçar a dor, mas não estava sendo bem sucedida.

         - Vamos, deixe-me ver – pediu, puxando a mão dela para perto de si.

         Era uma pequena queimadura nos dedos, mas que a incomodaria um pouco.

         - Permita-me que a cure, não vai doer nada – pediu suavemente, abandonando a frieza habitual de sua voz.

         - Não sei se você deve – disse o olhando nos olhos, os seus levemente marejados. – Há uma lei que proíbe o uso de magia na presença de trouxas.

         Isso pareceu derrubar Snape. Ele soltou as mãos de Katie rapidamente, os olhos arregalados em surpresa, toda a pose de inabalável deixada para trás.

         - Como sabe? – sua voz ficara um pouco falha, sem saber o que fazer.

         - Desculpa Severo, eu não... – Katie recuou, xingando-se por ter dito aquilo. Uma das coisas que descobrira era sobre o mundo mágico, e prometera a si mesma que não tocaria no assunto, assim como não gostaria que comentassem sobre seu segredo.

         - Srta. Witter, como sabe sobre os bruxos? – perguntou rapidamente – Pelo que sei é trouxa e...

         - Não me faça perguntas, não me faça perguntas! – murmurou em evasiva, temerosa.

         - Srta., espere! – pediu Snape, vendo-a correr para fora da casa.

         A garota corria, desesperada. Martirizava-se por ter estragado tudo tão rapidamente, e tentava fugir. Para onde não sabia exatamente, mas queria evitar de olhá-lo nos olhos e ter que se explicar.

         Correu em direção da floresta, com Snape a seguindo de longe. Ele usava todas as suas forças para alcançá-la, e conseguiu rapidamente, a agarrando pelas costas. Ele cambaleou, já que ela tentava fugir.

         Sua força era superior, assim como sua velocidade. Katie bem que tentou se debater, mas vendo que lutava em uma batalha perdida, desistiu.

         - Srta. Witter, pare de se debater, por favor – pediu Snape com dificuldade, ainda lutando para segurar Katie.

         Ela parou, mas não deixou por menos.

         - Pare de me chamar de Srta. Witter, Severo. Faz parecer que quer distância, e além do mais não gosto que me chamem assim. Meu nome é Katie.

         - Tudo bem, Katie – ele não estava acostumado a chamar as pessoas pelo primeiro nome, ainda mais sendo uma garota que nem tinha intimidade. – Vamos voltar para sua casa e conversarmos civilizadamente, não fica bem eu ficar te segurando deste jeito.

         Após dizer isso, ele soltou-a. Katie não tentou fugir nem nada, apenas esfregou suas mãos em seus braços, como se estivesse se abraçando. Ela continuava olhando para frente, pois não tinha mais forças para encarar aquele homem, que lhe tirara diversas noites de sono.

         - Venha, Katie – chamou Snape, depois de algum tempo em silêncio. – Precisa terminar sua encomenda, eu posso te ajudar.

         Katie o encarou, incrédula.

         - Como pode falar assim, como se nada tivesse acontecido? Vai deixar por isso mesmo?

         - Percebi que você não vai me dizer nada até quando achar necessário. Sou persistente, mas vejo que sua determinação me vence. Não vou gastar meus argumentos em uma batalha perdida – explicou em tom brando, de um modo quase carinhoso.

         O queixo da garota caiu, surpresa com a atitude dele. Decidiu deixar por aquilo mesmo, e puxou a mão dele, voltando a caminhar até a casa.

         - Mas eu ainda gostaria de curar sua queimadura – disse bem baixinho, de modo que ela quase não o ouviu.

         - Não vamos voltar nisso, Severo... Não quero te prejudicar perante Dumbled...

         Ela parou, percebendo a besteira que ia falar. Mas a frase não passou despercebida, e ele comentou:

         - Não vai me dizer que também conhece Dumbledore?

         Katie ficou em silêncio, mordendo levemente seu lábio inferior. Snape encarou o silêncio como uma resposta afirmativa, e continuou:

         - Sou adulto, Katie, e bem adulto, se me permite dizer. Dumbledore não tem nada a ver com as mágicas que faço, nem o Ministério irá me punir por fazer este feitiço. Ainda mais que você parece saber tudo sobre nós...

         Ela ficou sem graça, e baixou o rosto. Alguns cachos caíram sobre seu rosto, e Snape os tirou lentamente, sua mão dando uma leve tremida. Ela deu um meio sorriso, e entregou a outra mão, onde havia a queimadura.

         - Pode fazer, assim quita logo sua dívida comigo.

         - O que quer dizer com dívida? – perguntou, pegando sua varinha do bolso da capa.

         - Te salvei quando pequeno, achei que estivesse em dívida comigo – seus olhos marejaram rapidamente, e forçou um sorriso.

         - Nunca pensei nessa dívida – disse sinceramente. – Mas ainda não estarei livre, você me salvou da morte, e isto não mata ninguém.

         Katie preferiu não responder, apenas segurou uma lágrima que queria descer de seu olho direito. Snape murmurou algum feitiço, que fez cócegas na mão da garota. Em um instante não havia mais queimadura, e Katie ficou realmente surpresa com a rapidez.

         - Ob-obrigada – agradeceu enxugando duas lágrimas. – Obrigada mesmo, Severo.

         - Vamos logo para sua casa – disse Snape, guardando a varinha no bolso. – Ainda temos muitas respostas para dar.

         - Tudo ao seu tempo, Sev... – começou, mas ele a interrompeu.

         - Acho que já passou o tempo de saber tudo, minha mente formiga em busca de respostas – disse sério, voltando à sua postura de sempre.

         Ela engoliu em seco rapidamente, antes de voltar a caminhar. Snape a seguiu de perto, e ela não teria como fugir do inevitável. Acabou cedendo, quando estavam à porta de entrada.

         - Tudo bem, pode perguntar o que quiser.

         - Quantos anos você tem?

         Katie surpreendeu-se com a pergunta, não por ser difícil, mas por ela não esperar que ele fosse perguntar uma coisa dessas, tão simples e fácil de ser respondida.

         - Tenho quinze – respondeu, esperando a complementação da pergunta.

         - Por que continua com esta idade, quando deveria ter apenas um ano a menos que eu?

         - Por favor, pergunte outra coisa – pediu, tentando evitar de dar aquela resposta. – Vou te dizer isto, prometo, mas por favor, faça as outras perguntas primeiro.

         O olhar dela era tão desesperado que ele acabou amolecendo, e deixou a pergunta por último. Sua voz também deixou de ser tão severa, mas ainda um pouco séria.

         - Como conhece Dumbledore e o nosso mundo?

         - Não conheço Dumbledore realmente, mas sei sobre ele. Depois que te encontrei, tive acesso a um novo mundo, e comecei a buscar mais informações sobre este mundo. O material feito por trouxas é realmente fraco e disforme, mas consegui uns livros sobre a história da magia e tudo mais, e acabei descobrindo muito sobre vocês. Também ouço alguns bruxos falando sobre uma vila, Hogsmeade, acho, que fica a algumas milhas daqui.

         - Hogsmeade é aqui perto? – perguntou interessado e curioso, mas sem querer deixar transparecer isto.

         - Sim. Contornando a orla da Floresta, você pode chegar lá em meia hora, se for cavalgando. Ao menos foi o que ouvi eles dizerem, nunca me senti no direito de conferir por mim mesma.

         - Fez bem – murmurou mais para si mesmo do que para ela, mas ela ouviu.

         - Severo, pode pegar os pães no forno para mim? Não quero me arriscar novamente – pediu Katie, começando a mexer em uma massa fresca.

         Snape tinha até se esquecido que voltavam à cozinha, e tinham que terminar a encomenda. Fez o que ela pediu com uma expressão carrancuda, pois não se conformava em ter que trabalhar à maneira trouxa, e ficava até um pouco sem jeito em fazer algumas coisas.

         - Severo, pode separar a gema da clara naqueles ovos?

         Ela pedia gentilmente, e ele não tinha coragem de negar.

         Acabaram entrando em um acordo mútuo, em que ele ajudaria na tarefa e não perguntaria nada no processo, mas depois ela teria que responder tudo o que quisesse, inclusive a pergunta já feita duas vezes.

         Snape caminhou até a mesa, onde vários ovos estavam em um potinho, e duas vasinhas estavam na frente, esperando seu conteúdo.

         - Katie, sou um bruxo de família antiga, nunca trabalhei na cozinha, e muito menos sem magia – disse ele confuso, segurando o ovo cuidadosamente. – Não posso usar minha varinha, ao menos sairia melhor...

         - Ora Severo, não quero que use sua varinha, minha receita foi feita sempre do mesmo jeito e tenho medo de perder este cliente. E você verá que é fácil, é só pegar a prática – disse gentilmente, limpando a mão no avental que usava e se aproximando de Snape.

         - Não vou conseguir fazer isso. Será que pode pedir para eu fazer outra coisa?

         - A única coisa que teria para fazer é mexer a massa, mas isso eu não deixo ninguém fazer, por isso terá que fazer isso mesmo – ela disse determinada, pegando um ovo e começando a mostrar como se fazia. – Você dá batidinhas de leve na ponta da mesa, até o ovo rachar. Vamos, faça comigo.

         Ela pegou a mão dele, e fez o movimento levemente, mostrando como se fazia. Ele sentia-se realmente bobo naquela situação, e agradecia imensamente por Potter e seus amiguinhos não poderem vê-lo desse jeito.

         - Isso, está indo bem. Agora, você deixa a parte transparente cair neste potinho... Está me acompanhando, ao menos me ouvindo? – interrompeu, olhando-o brava.

         - Estou tentando, Katie, mas realmente não tenho jeito para isso – respondeu em tom de leve protesto.

         - Certo... Depois da clara cair toda neste pote, você deixa a gema cair neste outro aqui, e depois vai fazendo a mesma coisa com todos os ovos, certo?

         - Mas e se a clar... – começou preocupado, mas o que ele perguntava aconteceu. A gema quebrou, e misturou-se com a clara, bagunçando tudo.

         - Oh Severo, você deixou a gema desfazer-se! – exclamou penosamente, mas segurando um riso. Aproximou-se novamente e ensinou-o a fazer do modo correto, segurando sua mão em cada passo.

         - Acha que agora consegue?

         - Vou tentar, mas não garanto nada – disse emburrado, depois de sujar sua capa com uma gema particularmente rebelde.

         Katie riu educadamente, adorando a expressão de descontentamento no rosto do homem, e suas tentativas de conseguir cumprir o que lhe fora pedido. Deu um sorrisinho de prazer e voltou a mexer na massa, que quase passara do ponto.

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