O Destino dos Solitários

Capítulo 3
PERGUNTAS E RESPOSTAS

            Snape até que se saiu bem com os ovos, embora tenha sujado toda sua capa, e tiveram que pô-la para lavar. Os pães ficaram prontos bem na hora, e logo a carroça da padaria veio buscá-los. A remessa estava tão boa que Katie recebeu um bônus, e ficou super contente.

            - Por que tanta alegria? – perguntou Snape, não entendendo o motivo dela estar pulando na porta, segurando um punhado de notas.

            - Recebi uma quantia a mais de dinheiro, e isso nunca me aconteceu! – disse contente – Venha, Severo, fiz alguns a mais para nós, achei que ia querer provar um pouco.

            - Não precisa Katie, eu realmente estou sem tempo e...

            - Sem desculpas, você precisa provar alguns! – disse energética, puxando-o para a cozinha.

            A garota acabou convencendo Snape a comer um pouco, e ele percebeu o quanto estava faminto. Os pães estavam deliciosos, e ele até ficou sem graça em pedir mais um pouco.

            - Coma mais, Severo. Não costumo comer muito, e é muita judiação deixar estes pães estragarem – ofereceu, sorridente.

            Ele aceitou, e teve de admitir que a garota era muito boa nisso, embora não achasse que ela devesse viver de fazer pão.

            Snape estava quase acabando um pão quando a campainha tocou, e Katie teve de deixá-lo sozinho para atender. Quem batia era uma conhecida da cidade, de nome Melody.

            - Oi Melody, como vai? – Katie a recebeu calorosamente, surpresa com a visita.

            - Estou bem Katie, e você? Parece um pouco ansiosa, o que é?

            - Não é nada, só que tenho uma visita meio inesperada, fiquei feliz, só isso – disse rubra, tentando disfarçar a curiosidade da outra.

            - Quem seria esta visita...? Por acaso um homem? – perguntou interessada.

            - Melody! – repreendeu-a, ligeiramente ofendida – Mas diga, o que a trouxe aqui?

            - Ah claro! – ela pareceu lembrar-se apenas naquele momento – Haverá uma partida do campeonato estadual hoje à noite, vim trazer convites para você e... hum... para sua visita também.

            - É verdade? Que bom que conseguiu ingressos! – sua felicidade aumentava a cada minuto, e novos planos formigavam em sua mente – E você vai?

            - Na realidade não sei se vai dar, você sabe... Meu namorado não é chegado em esportes, então preciso convencê-lo, se não teremos um encontro em um restaurante ou coisa parecida.

            - Você não consegue se enquadrar na situação dele, não é mesmo? – perguntou divertida – Mas espero que consiga, espero encontrá-la lá.

            - Também espero, querida. E preciso ir, chegaram uns pãezinhos quentinhos lá na padaria, não posso perder o meu! – disse dando uma piscadela, e correndo até seu cavalo, que bebericava um pouco d’água.

            Katie sorriu. Melody sempre sabia quando deveria partir, e era uma sorte ela ter vindo visitá-la. Segurava as entradas para o jogo, se perguntando se Severo gostaria de assistir com ela.

            Quando voltou à cozinha, viu-o limpando os pratos, e colocando-os na pia. Ela teve vontade de colocá-lo para lavar, mas achou que isso o intimidaria.

            - Mais uma encomenda? – perguntou ele, levemente curioso.

            - Não, apenas uma velha amiga – disse desligada, sorrindo brevemente.

            - Agora posso ter minhas respostas? – ele estava hesitante se aquele poderia ser o momento, mas estava remoendo-se de curiosidade, e não conseguia controlar esse sentimento por muito tempo, por isso raramente acontecer com ele.

            - Sim, sim, suas respostas – concordou, levemente pensativa. – Vamos dar uma volta por aí, é melhor do que ficarmos confinados em casa.

            Ela sugerira dar uma volta para ter uma desculpa para não encará-lo. Tinha um sério problema em encarar as pessoas, e nunca conseguia mentir ou esconder informações. E sabia que Snape era um homem que possuía grandes armas de persuasão, por isso não queria arriscar um cara-a-cara. Caminhar era uma boa desculpa para olhar para frente, desviar o olhar ao ver uma coisa bonita e várias outras...

            Os dois saíram da casa, e Katie a trancou em seguida. Era ela quem guiava o caminho, e ele apenas a seguia. Uma brisa forte atingiu-os, e Snape sentiu falta de sua capa, que secava ao varal.

            Ficaram apenas caminhando em silêncio por um tempo.

            Quem começou o assunto foi Katie, e não Snape.

            - Posso te pedir uma coisa, em troca das respostas?

            - Sim, só não sei se vou aceitar – respondeu, virando a cabeça para olhá-la.

            - Sabe, sinto-me sozinha, e agora que você apareceu novamente, é como se alguma coisa fosse preenchida dentro de mim, e tenho medo deste vazio voltar – ela dizia sem olhar para ele, caminhando apenas. – Gostaria de saber se poderia passar esta noite por aqui.

            Ele foi pego de surpresa. Não fazia idéia de quanto tempo demoraria com a presença dela, mas esperava voltar para o castelo antes do anoitecer. Mas ela fizera uma proposta que não sabia como dizer não, somente pelo que ela disse, o garotinho desprotegido voltara a aparecer em Snape, e ele pôde ter uma vaga idéia de como se sentia sozinho. Criara uma barreira em volta de si que não deixava as pessoas se aproximarem, e isso acabou endurecendo um pouco seu coração, mesmo que não tivesse consciência disto. Estava tão acostumado a ser frio e distante que esquecera-se de como era demonstrar algum sentimento, ser gentil, e mostrar que se importava.

            Não restou-lhe opção a não ser aceitar, mesmo que fosse contra sua vontade.

            - Fico feliz que tenha aceitado, Severo, muito feliz mesmo – disse sinceramente, fitando-o rapidamente.

            Ela então fez um gesto para que perguntasse o que ele quisesse, e demorou um pouco para conseguir pensar em qual pergunta iria fazer.

            - Como conseguiu me fazer ter aquele sonho tão repetidamente? Tem algum tipo de poder especial que não é conhecido por ninguém?

            - Não chamaria de poder especial – disse séria. – E com certeza é conhecido por alguém. Não sei o termo correto para dizer mas, desde que o acolhi naquela noite, tenho tido alguns sonhos com você, quando seus sentimentos tornam-se excessivos.

            - Como consegue isso? Não tivemos nenhum contato, como pode sentir o que sinto? – aquilo era uma ofensa para os pensamentos de Snape, e ele não admitia uma coisa dessas.

            - Na realidade – disse cautelosa -, enquanto você dormia, quis saber por que tinha um sono tão inquieto, e me arrisquei a fazer uma coisa que nunca tinha feito antes, e que nunca tive coragem o suficiente para fazer novamente.

            - O que você fez? – a pergunta parecia querer saber mais do que aquilo, ele ansiava para saber tudo, todos os detalhes desta história.

            - Concentrei-me com todas as minhas forças e procurei sentir o que você sentia, por que se debatia tanto na cama. Isto só é possível se eu te tocasse, e o fiz. Só não achei que fosse ser como foi, pois garanto que se soubesse não teria o feito.

            Ele a encarava indagativamente, e uma sensação nada boa tomando conta de seu pensamento. Ela inspirou profundamente antes de continuar.

            - Adentrei em seu pensamento, revivi cada momento extremo de sua infância e... foi horrível. Me sentia em seu lugar, sofrendo o mesmo que você sofria, e me senti muito mal. Não era pra menos que se sentia sozinho, você sempre fora sozinho, mas de um jeito pior do que o meu. Não consegui dormir o resto da noite. Era uma criança, fiquei com muito medo daquilo.

            Ele a ouvia em silêncio, uma onde de culpa e remorso invadindo seu peito. Também sentia uma grande irritação por ela ter se atrevido a descobrir seus maiores segredos, suas mágoas quando criança...

            Katie percebeu que ele ficara realmente sentido com o que lhe contara. Realmente não gostara de ficar sabendo do que soube daquela maneira, preferiria que ele lhe contasse, ao menos não sentiria tão intensamente aqueles sentimentos horríveis...

            - Severo, me desculpa... eu...

            - Você não teve culpa, era apenas uma criança – disse sério, parando de andar e olhando para o lado contrário dela. – Eu também não deveria ter saído do castelo, adentrado a floresta e... e... e nada teria acontecido.

            Katie não respondeu. Abraçou-o pelas costas, muito sentida com o que ele havia dito. Lágrimas involuntárias brotaram dos olhos da garota, e ela não fez nada para pará-las. O que ele dissera estava carregado de sentimentos, todos confusos, sobre o que estava acontecendo naquele momento.

            Snape olhou para baixo, completamente sem reação. Ainda lhe doía muito o que sofrera quanto criança, e passara toda a adolescência tentando esquecer, e quando tudo voltou à tona como uma grande bola de neve, ele não conseguiu resistir. Segurou as mãos da garota lentamente, para mostrar que não estava bravo com ela.

            Katie sentiu-se um pouco melhor por ele ter pego nas mãos dela, mas ainda sentia culpa por estar fazendo-o passar por isso. Um vento forte acertou os dois, e junto com isso, ela sentiu todos os sentimentos excessivos dele passarem para seu peito com uma força incrível. Teve mais vontade de chorar. Ele sentia muita dúvida, sofrimento, raiva, incerteza, e mais uma porção de outros sentimentos que ela não conseguiu discernir.

            - Eu peço perdão, Katie. Não queria te deixar assim – disse Snape, soltando-se do abraço e virando-se para encará-la.

            - Agora você pode ver como sou frágil, chorando como um bebê – Katie disse forçando um sorriso, seus olhos cor de mel levemente avermelhados.

            - Enxugue estas lágrimas, por favor – pediu, passando o dedo levemente pelo rosto dela, limpando algumas lágrimas. – Não quero amolecer mais ainda.

            Rapidamente Katie enxugou as lágrimas e forçou outro sorriso, mais verdadeiro desta vez.

            - O que importa é que passei a sentir seus sentimentos quando eles se tornavam excessivos, e acabei conseguindo reviver esta lembrança em sua mente – disse rapidamente, como se não tivessem tido nenhuma interrupção na conversa.

            - Chegou a senti-los muitas vezes? – perguntou receoso, voltando a andar.

            - Algumas - mentiu. – O maior período foi o que calculo que fossem seus dezessete anos. Freqüentemente sentia sua dor, sua dúvida, sua insegurança – ela sabia que este fora um dos piores períodos na vida dele, mas não queria que ele ficasse lembrando, queria apenas que ele soubesse que ela sabia.

            - Eles te afetavam muito? – Snape realmente queria saber mais detalhes sobre isso, mas não queria adentrar novamente em seu passado, tão sombrio e cheio de dor. Apenas rodeava o assunto, sem adentrar muito profundamente.

            - Era quase como se eu estivesse sentindo o mesmo, Severo. Não digo que foi fácil, e passei muito tempo em dúvida se deveria ajudá-lo a enfrentar isto, mas não achei justo me intrometer novamente em sua vida.

            - O que quer dizer com “ajudá-lo a enfrentar isto”? – perguntou desconfiado.

            - Esta pergunta se junta à primeira que me fez, e ainda não respondi – disse em um suspiro.

            - E que ainda não terei a resposta, certo? – Snape completou, já sabendo que estava certo.

            Ela concordou com a cabeça.

            Ele deu um breve suspiro. A cada minuto que passava estava cada vez mais incerto se desejaria saber a resposta para a pergunta que mais aguçava sua curiosidade. Respeitou a opinião dela, e esperava que ela também respeitasse a dele.

            Deram a volta em uma lagoa, e retomaram o caminho de volta para a casa de Katie. O assunto morrera naquele ponto, e nenhum dos dois parecia disposto a começar um novo, estavam ocupados demais absorvendo e assimilando as informações que receberam naquele curto espaço de tempo.

            - Dumbledore sabe muito mais do que você, não é? – perguntou Katie distraidamente, algum tempo depois, quando já avistavam a casa bem ao longe.

            - Acho que até mais do que você, se formos comparar – respondeu, lembrando-se do mistério que o diretor fizera sobre a garota, e voltando a se enfurecer, por não saber o mesmo.

            - Ele parece ser um grande sábio – comentou, querendo puxar assunto.

            - Ele é – confirmou Snape. – Sabe informações absurdas sobre todo o mundo mágico, não sei como consegue tantos aliados e espiões.

            - Então poderei ter uma conversa com ele, certo?

            - Vai querer falar com ele? – rebateu, olhando-a com surpresa.

            - E não duvido nada que ele também queira falar comigo – disse com importância.

            Snape riu, inconformado em como a garota poderia mudar de humor tão rapidamente, ou apenas fingir muito bem que estava melhor. Mas intimamente concordou com ela. Dumbledore certamente iria querer falar com ela. Só se perguntava como iria levá-la até a sala do diretor.

            - Não há sistema de corujas nesta redondeza, estou certo que não.

            - Todos dizem que Hogsmeade possui um correio gigantesco, mas fora isto, não há.

            - Se importa se eu fosse mandar uma carta para Alvo, dizendo que vou ficar mais um tempo?

            Katie o fitou interrogativamente, e ele percebeu que ela não entendera quem era Alvo.

            - Alvo é o primeiro nome de Dumbledore – explicou.

            - Ah, certo – ela agora parecia entender. – Pode ir, só me pergunto como fará isso, sendo que a viagem de cavalo demora um pouco, e não sei se sabe montar um.

            - Posso aparatar – disse, como se fosse algo comum para ela. – Suponho que não estamos mais em terrenos de Hogwarts, por isso devo conseguir aparatar até lá.

            Ela pareceu hesitar por um momento, mas acabou deixando.

            - Tome muito cuidado, Severo. Ouvi dizer que este povoado anda muito perigoso, é um dos lugares onde têm mais ataques – disse preocupada.

            - Não se preocupe, sei como lidar com essas coisas – e Katie ouviu um estalido. Severo Snape havia sumido de seu campo de visão, provavelmente aparecendo muito longe dali.

            - Não quero que nada te aconteça, Sev... Aparatar anda muito perigoso ultimamente...

            Ela murmurava para si mesma, sua voz explodindo de tanta preocupação, ao mesmo tempo que seus olhos voltavam a ficar lacrimejados. Voltou a caminhar para sua casa, a brisa cada vez mais fria.

§§§§§

            Os primeiros sinais de fim de tarde começavam a aparecer, junto com a queda de temperatura. Katie acabava de sair do banheiro, vestida com apenas um roupão azul claro e uma toalha da mesma cor enrolada na cabeça. Caminhou lentamente até a porta do armário, e demorou-se em se ver sua imagem refletida no espelho.

            “Como parece cansada, Katie” murmurou para si mesma, observando seu rosto preocupado e cansado, leves olheiras formando-se abaixo de seus olhos.

            Deixou o espelho de lado, e ocupou-se em andar de um lado para outro do quarto, inquieta. Pouco tempo depois percebeu que não daria em nada, e desistiu.

            “Onde está, Severo? Fazem quase três horas que está fora, não acredito que uma correspondência leve tanto tempo para ser despachada” pensou preocupada, agora na porta do armário, escolhendo uma roupa decente.

            Passou quase vinte minutos decidindo-se sobre qual roupa usaria, mas sem apreciar realmente nenhuma delas. Acabou decidindo-se por um jeans em três tonalidades de marrom, com uma blusinha regata branca, com detalhes em marrom. E é claro, um sobretudo preto, graças ao frio que faria à noite. Mas deixou para colocá-lo mais tarde, já que não sentia frio.

            Penteou seus cabelos molhados, e secou-os rapidamente com o secador. Passou também um creme que acentuava mais seus cachos, que passava de vez em quando.

            Depois de se arrumar foi para a cozinha, comer alguma coisa rapidamente. “Não estou com fome, não vejo necessidade de comer” disse para si mesma, fazendo uma careta para o que tinha na geladeira. Acabou desistindo da idéia de comer, e foi para a sala, esperar por Severo. “Ele não deve demorar mais, já deve estar chegando...” pensou esperançosa, olhando para a janela.

            Seu primeiro pensamento para quando ele chegasse foi de pular nos braços dele, dizendo estar preocupada. Mas logo descartou essa idéia. “Não vou mostrar preocupação, se não, o que ele vai pensar de mim?” A melhor saída que achou foi dar uma bronca pela demora, dizendo discretamente que estava preocupada, e depois o chamaria para verem ao jogo juntos.

            “É, acho que é o mais sensato a fazer” decidiu em fim, sentando-se na cadeira ao seu lado.

            Mas não esperou por muito tempo. Ouviu passos, e foi correndo atender à porta, mesmo sem ouvir a campainha. Deparou-se com Snape, sua roupa levemente suja e desarrumada. Katie olhou-o brava. Como poderia ser tão cínico ao ponto de aparecer com uma expressão jovial, sendo que a fizera esperar pela tarde toda? Não conseguiria aturar aquilo, não mesmo.

            - Disse-me que era rapidinho, e quando vejo a tarde inteira já tinha ido embora! Que tipo de pessoa acha que sou, aquelas que esperam pacientemente?

            - Calma, Katie – ele apressou-se a responder. – Ocorreram alguns contratempos, não consegui acessar o correio imediatamente.

            - Contratempos? – perguntou duvidosa – Não vai me dizer que foi outro ataque?

            Ela notou que ele pareceu um pouco desconfortável para responder à pergunta, e quando o fez, evitava de olhá-la nos olhos.

            - Foi apenas um tumulto. Nada mais do que isso.

            - Então entre, vá tomar um banho e comer alguma coisa. Estamos de saída – disse secamente, dando passagem para ele.

            - De saída? Para onde? – perguntou confuso.

            - Não importa, depois conversamos.

            O tom de voz dela avisava a Snape que era melhor fazer o que ela mandava, e deixar as perguntas para depois. Entrou e Katie mostrou onde era o banheiro, e pediu suas vestes. Disse que tinha uma roupa masculina guardada, e era para ele usá-la. Ele não teve como recusar, e logo entrou no chuveiro, a água ligeiramente fria.

<Anterior    Próximo>

Voltar para O Destino dos Solitários