O Destino dos Solitários

Capítulo 5
QUASE LÁ

         - Acho que é para mim – disse Snape, aproximando-se da coruja.

         Ela piou alegremente e soltou o pergaminho, que estava endereçado a Severo Snape. Katie aproximou-se vagarosamente e leu a correspondência por cima do ombro dele, com muita dificuldade.

 

“Severo,

Recebi sua coruja e fiquei muito surpreso, realmente. Pelo que escreveu deve estar se divertindo muito aí, mas não esqueça de seu trabalho. Os alunos adoraram uma folga por hoje, mas não é certo deixá-los sem aula por muito tempo.

Ouça, fiquei muito desapontado com seu comportamento de aparatar até Hogsmeade. Você sabe mais do que ninguém que os Comensais só atacaram a vila porque souberam que você aparatou por lá. Espero que não tenha feito a mesma idiotice em desaparatar na frente da casa da moça. Eles podem localizá-la e isso não seria bom para nenhum de nós. Se cometeu este erro, fique cauteloso. Não podemos deixá-la correndo perigo.

A propósito, achei muito interessante da garota querer falar comigo, fique sabendo que não esperava que ela também tivesse o que falar comigo. Ela poderá vir com você, mas em hipótese alguma deve aparatar junto com você, ambos sabemos que é Magia Negra e isso não é permitido em Hogwarts. De qualquer jeito, pensarei em alguma coisa e posso arranjar um jeito, mas gostaria que vocês dois tentassem achar alguma solução, por isso a coruja deve estar esperando-os.

Não faça nenhum feitiço desnecessário e tenha cautela com qualquer barulho incomum. Pela manhã eu devo ter respondido sua carta, por isso não a espere para agora. Tenha cuidado também com o que escrever, temo que as corujas possam ser interceptadas.

         Alvo Dumbledore”

 

         - Bem... – começou Katie, enquanto Snape dobrava o pergaminho – Ao menos eu estava certa, aparatar é perigoso – ele notou um pouco de sarcasmo na voz dela, mas não disse nada.

         - Já que leu tudo sem minha permissão, diga-me um jeito de infiltrá-la no castelo – disse, fingindo não ter ouvido a provocação dela.

         - Podemos fazer uma brincadeirinha – disse marotamente. – Eu finjo estar desmaiada e você me leva correndo até a sala do Dumbledore, gritando: “Ela foi atacada, precisa de tratamento!” – na última parte ela imitou a voz grave de Snape.

         - Essa é a desculpa mais besta que já ouvi! – exclamou inconformado – Não, isso não cola, invente outra.

         - Bem... – ela parou por um momento, pensando em outra desculpa – Você chega normalmente e eu vou junto, você pode fingir que eu sou uma aluna desavisada que foi para a floresta e você “me deu detenção”.

         - Por que esse sarcasmo na parte de detenção? – ele perguntou, já imaginando a resposta.

         - Como se você realmente pudesse me dar detenção – respondeu, desta vez com desdém.

         - Já disse que se fosse estudante, ganharia detenções sim, ainda mais com seu comportamento, típicos de alunos grifinórios – retrucou Snape seriamente.

         - Não importa isso agora! Quero saber se gostou do meu plano.

         - Vamos escrever para Alvo e ele decidirá – finalizou, olhando em volta. – Onde temos pena e pergaminho?

         - Er... desculpe-me, excelentíssimo senhor professor Snape – disse Katie, uma notável nota de sarcasmo na voz. – Mas sou trouxa, não tenho pena e pergaminho.

         - E o que usa para escrever, então?

         - Caneta e folha! – respondeu sorridente.

         Ela foi até a mesa de canto e pegou, uma folha com linhas e uma caneta azul, e entregou para Snape. Ele olhou para o que recebera com uma expressão pior do que sempre, e depois para Katie, que sorria alegremente.

         - Como se usa isso? – perguntou asperamente, apontando para o material.

         - É assim – disse, pegando a caneta da mão de Snape. – Você segura firmemente a caneta em uma mão, e depois começa a escrever, olha só.

         Ela pegara a folha e escreveu “Caro Dumbledore”, com Snape apenas olhando. Depois, devolveu a caneta e disse para ele tentar, dizendo que era fácil.

         A primeira tentativa foi lastimável. A caneta era muito mais grossa que uma pena, e Snape não estava com muita prática para segurá-la, e sua letra saiu toda tremida, além de estar maior do que o tamanho normal. Katie não agüentou, caiu no riso.

         - Se acha tão fácil venha fazer você mesma! – desafiou, jogando a caneta em cima do móvel com raiva.

         - É fácil – disse de modo superior, pegando outra folha e começando a escrever.

 

“Caro Dumbledore,

Quem vos escreve é Katie Witter, devido à imensa dificuldade de meu caro Severo Snape em segurar uma simples caneta trouxa.

 

         - Quer fazer um favor, Katie? Não me colocar como um completo idiota na frente de Dumbledore? – pediu Snape azedamente.

         - Não estou colocando você como um completo idiota – contrapôs sorridente. – Só estou falando em sua falta de habilidade em utilizar artefatos trouxas.

 

Severo está reclamando que estou o fazendo de completo idiota na sua frente, senhor, mas particularmente acho que isso é besteira deste homem aqui. Afinal, quem pode culpá-lo por ser um bruxo tão sangue-puro que nunca se deu ao trabalho de sequer pesquisar alguma coisa sobre os trouxas? Ninguém pode culpá-lo, realmente... Isso varia de família para família, não é? Acho que deveriam obrigar todos os bruxos a aprenderem ao menos o básico sobre nós, já que muitos terão que conviver com nossa “esquisita” companhia, então, por que não preveni-los desde já? O que acha, Dumbledore?

 

         - Ora, já chega!

         Snape bufava de raiva, e tentava arrancar a folha das mãos de Katie, que subira em cima do sofá e ria da expressão bravia no rosto dele.

         - Calma Severo, só estou dando meu ponto de vista! – comentou divertida – Agora vamos, diga o que quiser que porei aqui, como suas palavras, é claro.

         Ele bufou novamente, antes de sair de uma área de perigo pra Katie e deixá-la voltar à mesa para escrever.

 

O senhor tinha que ver, ele ficou furioso comigo, quase correu atrás de mim em busca da folha, para tacar fogo nela. Tsc, tsc, tsc, se todos os bruxos forem tão impulsivos assim acho que o mundo desaba!

Ah, certo, certo, ele está quase me estrangulando novamente, então vou parar de comentar. Agora tudo o que eu disser, ou melhor, escrever, serão palavras dele, por isso estarão entre aspas.

 

         - Se eu pudesse te jogava uma praga! – resmungou Snape, seus olhos brilhando de fúria.

         - Você não faria isso com a única pessoa que sabe quase tudo sobre você – ela provocou, mostrando-lhe a língua.

         - Não me teste, garota! – disse bravio, em tom de alerta – Não sabe do que sou capaz.

         - Tudo bem, eu paro – disse, não acreditando muito que ele fosse realmente capaz. – Diga logo, ainda precisamos trocar de roupa, esta aqui ainda está gelada!

 

“Alvo, essa garota é um problema. Não sei como consegui agüentá-la o dia todo!

 

         - Espera aí! – interrompeu Katie, olhando sentida para ele – Como assim... “não sei como consegui agüentá-la o dia todo!”?

         - A senhorita é muito ativa e mandona, se quer saber – disse sério, olhando para a folha e suas escritas, esperando o ataque dela acabar e continuar a escrever.

         - Ora essa! – reclamou, subindo na cadeira para ficar da altura dele – Saiba que devo ter sido muito mais feliz do que o senhor na mesma idade!

         - E foi, não nego isso. O problema é que não vem ao caso agora – Snape respondeu indiferente, sua voz lotada da frieza habitual.

         Katie sentiu-se completamente desarmada. Achava que a frase que tinha dito desbancaria Snape, e não o contrário. Soltou um resmungo baixo e voltou a sentar-se, segurando a caneta e pronta para escrever.

 

Eu realmente não lembrei do que disse sobre aparatar e os Comensais, foi descuido meu, admito. Não vou fazê-lo novamente, mas agora me pergunto sobre o que acontecerá com Katie. Acho melhor não me estender muito nesse assunto, no caso da carta ser interceptada.

E como a mente dessa menina voa! Nem acreditaria nas idéias que me deu para adentrar no castelo. A melhor sugestão foi de fingir-se por uma aluna que desobedeceu regras e entrou na Floresta Proibida, e eu a encontrei e estou dando uma detenção. O que acha? Espero sinceramente que tenha encontrado alguma idéia melhor.

Amanhã bem cedo iremos partir, não estou com ânimo para perder mais um dia de aulas. Não me alegra nada ver o sorriso de Potter e seus amigos em verem que não estarei ensinando-os o que deveriam enfurnar em suas cabeças-ocas!

 

         - Não vou me estender muito falando mal desse Potter não, viu Severo? Melhor mudar de assunto logo – disse Katie sonoramente.

         - Cale a boca e escreva – disse Snape com sua voz letal.

 

Katie está mandando eu parar. Infelizmente concordo, não sei o que pode estar pensando sobre nós dois, essa garota pode te deixar com idéias impróprias, Alvo...

         Severo Snape”

Aqui Severo deveria assinar, mas acho que ele pode acabar rabiscando toda a folha, então achei melhor não arriscar.

Acho que também vou parando por aqui, Dumbledore, pois acabamos de chegar de uma chuva e estamos ensopados, não quero pegar uma gripe por causa da petulância de Severo... E estou muito ansiosa para conhecê-lo, Severo disse que é incrível! Ah sim, e não vou deixar Severo aparatar novamente, prometo!

         Katie”

 

         - Tinha que puxar o saco de Alvo, tinha... – resmungou Snape, depois que leu o que ela tinha escrito.

         - Só estava falando a verdade – disse com superioridade. – E achei que seria bom puxar um pouco de sardinha pro seu lado, dizendo que o elogiou... Pensei bem e acho que posso ter feito mal em escrever aquilo no começo da carta.

         - Agora coloque em um envelope e enderece a Alvo Dumbledore, ele deve estar esperando uma resposta logo – disse apressado.

         - Já vou, já vou! – disse Katie despreocupada, fazendo o que fora pedido sem pressa nenhuma.

         Conseguiram despachar a coruja sem terem nenhuma outra discussão. Ela voava por cima da floresta proibida, e Katie cogitava se ela conseguiria atravessar tudo aquilo sem perder o fôlego.

         - Agora – disse, sacudindo levemente seus cabelos, e uma porção de água voando para os lados -, precisamos dormir, pois estou exausta! E é claro, arrumar uma outra roupa, pois estas aqui não vão ser usadas tão cedo...

         - E por acaso eu tenho mais roupas, srta.? – perguntou Snape, em tom de desafio.

         - Tem suas vestes sujas e rasgadas, eu suponho – disse com voz despreocupada. – Vou deixar sua capa secando, aposto que vai querer usá-la quando amanhecer.

         Katie pegou a capa encharcada e levou até o varal, enquanto pegava as vestes normais de Snape, que estavam secas, por estarem em um varal coberto, o que fora uma sorte. Voltou instantes depois, trazendo-as e entregando-as para Snape.

         - Pode usar o lavabo para se trocar. Eu vou no meu quarto me trocar e trazer um colchão e cobertores para você.

         Em seguida saiu da sala. Snape foi para o lavabo trocar-se, enquanto Katie fazia o mesmo em seu quarto. Voltou minutos depois, trazendo um colchão e vários lençóis e cobertores. Ela usava uma camisola de seda azul claro, e um robe por cima, trazendo uma harmonia perfeita.

         - Certo, me ajude a forrar esse lençol aqui, Severo, não vou conseguir sozinha – pediu gentilmente, jogando um lençol na direção dele.

         Arrumaram a cama de Snape em questão de segundos. Ela desejou um caloroso boa-noite e foi até seu quarto, sob o aviso de se acontecesse algum problema, ele batesse na porta.

         Ele deitou-se na cama e cobriu-se, achando muito estranho estar dormindo na sala de uma casa de uma garota, que era vários anos mais nova do que ele.

§§§§§

         Em sua sala circular, Alvo Dumbledore morria de rir com a carta que acabara de receber.

         “Katie, Katie... Garota com tanta vida como você eu nunca vi antes...” comentou divertido, relendo a carta que a garota escrevera. “Quem dera fosse uma bruxa, saberia exatamente como seria boa para a comunidade bruxa. Sorte que Severo a encontrou, tenho certeza que isso fará um bem enorme a ele.”

         Fawkes, sua fênix, fez um barulho afirmativo, e Dumbledore acariciou-o serenamente, enquanto ainda pensava na carta. Após isso, caminhou até sua mesa, pegou uma pena e molhou-a no tinteiro, pronto para respondê-la.

§§§§§

         A claridade batia em seu rosto, cegando-lhe. Mal-humorado, cobriu seu rosto com a coberta que usava. Mas não adiantou muito, a claridade inicial já o despertara. Abriu os olhos e sentou-se, olhando a tudo um pouco confuso.

         Demorou um tempo para que percebesse onde estava, e outro tempo para entender por quê estava ali.

         Levantou-se e seguiu até o banheiro, para lavar o rosto. Quando voltou à sala, cogitou se deveria acordar Katie ou esperá-la acordar. Arrumou os lençóis e ficou sentado em uma poltrona, esperando-a.

         Katie demorou quase meia hora para acordar, e aparecer na porta da sala, ainda com sua camisola, olhando sorridente para a visita.

         - Você demorou – disse Snape, assim que a viu parada;

         - Quase não dormi – respondeu, dando de ombros. – Suponho que esteja com fome, acho melhor ver o que temos para comer.

         Com um gesto de sua mão ela fez Snape a seguir até a cozinha, que era amarela clara com branco. Katie abriu a geladeira e tirou leite, manteiga e geléia. Também achou umas torradas perdidas na dispensa.

         - É isso que temos para comer – disse, mostrando tudo o que tinha. – É claro que não deve ser igual aos banquetes luxuosos de Hogwarts, mas isso deve nos dar um pouco de energia até chegarmos lá. Talvez conseguiremos pegar o horário do almoço, o que acha?

         - Para mim tanto faz, Katie. Quero apenas voltar ao castelo – disse indiferente.

         Ela ficou levemente ofendida, achando que ele não gostara de sua casa. Mas sentou à mesa com ele e comeu seu café rapidamente, indo para o quarto logo em seguida, para tomar um banho rápido.

         Snape voltou à sala para esperar. Uma coruja acabara de pousar no parapeito da janela, e ele rapidamente foi pegar o envelope. A coruja voltou a voar, desaparecendo rapidamente. Ele abriu a carta e começou a lê-la.

 

“Severo e Katie, se estiver aí

Achei muito divertida a carta anterior, Severo, e até Fawkes divertiu-se lendo o que Katie escreveu.

Não se preocupe com a tal caneta que Katie fala, nem todos os bruxos têm facilidade para lidar com os artefatos trouxas, naturalmente. Traga uma dessas canetas, gostaria de ver como elas são.

Agora, sobre o meio de entrarem, peço que sejam cautelosos, e mantenha a varinha em punhos, Severo, para se alguma coisa acontecer. Transfigure algumas vestes dela em vestes de Hogwarts, sem necessariamente nenhum emblema das casas. Sei que será fácil para você fazê-lo, e tenho inteira confiança que pode.

Assim que chegarem, venham até minha sala, temos muito que conversar.

         Alvo Dumbledore”

 

         Snape acabou de ler a carta, e colocou-a no bolso. Logo em seguida Katie apareceu, usando uma blusa amarelo-claro e uma calça esportiva.

         - Receio que vá precisar pegar outras vestes, que sejam velhas, de preferência – avisou Snape, observando a roupa que ela usava, e como seu cabelo estava preso jovialmente.

         - Quer que eu fique feia, por acaso? – rebateu Katie.

         - Não – disse friamente, entregando a carta para Katie. – Alvo pediu para usar vestes bruxas, para não dar motivo para desconfiarem.

         - Blá, blá, blá – Katie disse, totalmente desinteressada. – Certo, certo, vou trocar de roupa – e voltou para o quarto com passos duros.

         Voltou alguns minutos depois, com um vestido prateado que já estava ficando curto e apertado, mas que delineava bem o corpo de Katie.

         - É isso, então? – Snape quis confirmar, tirando sua varinha do bolso.

         - Só queria saber, Severo, se quando fizer o feitiço poderia colocar um pouco mais folgada essa tal de roupa, é que este vestido está um pouco apertado.

         - As vestes bruxas são mais largas, e as de Hogwarts também – respondeu, mirando a varinha para a roupa de Katie.

         Ele falou um feitiço que Katie não conseguiu entender e logo suas vestes mudaram totalmente, para as vestes de Hogwarts, só que sem o emblema das casas, mas sim o emblema geral de Hogwarts.

         - Mas como isso esquenta! – reclamou Katie, tirando a capa.

         - Em Hogwarts é mais frio do que aqui – explicou Snape, dando de ombros.

         - Certo. Agora deixa eu pegar meu dinheiro e vamos, não quero demorar muito para falar com Dumbledore.

         - E para que vai levar dinheiro trouxa? – questionou, levemente desconfiado.

         - Preciso me precaver, não acha? – rebateu com outra pergunta.

         - Vamos – disse com a voz seca, por não ter gostado da resposta que Katie lhe deu.

         Ela trancou a porta e passou a acompanhar Snape, pela primeira vez desde que se encontraram sem poder guiar o caminho, e sem conseguir imaginar o que os aguardava.

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