O Destino dos Solitários

Capítulo 9
PASSANDO DOS LIMITES

         Katie se remexia incomodada em sua cama, sem conseguir dormir. Continuava com aquela sensação terrível, e já se remexera muito na tentativa de dispersar aqueles sentimentos. Sentou-se em sua cama, derrotada. Não conseguiria dormir mesmo. Decidiu ir até a lareira, ao menos poderia escrever um pouco, para se distrair.

         O fogo já trepidava lentamente, mostrando sinais de que estava para se apagar. Ela pegou alguns pedaços de madeira, na tentativa de reavivar a chama. E conseguiu. O fogo passou a brilhar com mais força, e ela se sentou em uma mesa próxima a ela. Estava com pena e pergaminho em suas mãos, e acabou se lembrando de escrever a carta para Dumbledore e Snape, ambos do tempo futuro.

         Colocou a pena na boca, pensativa. Como poderia começar a carta? E então uma idéia lhe ocorreu. Molhou a ponta no tintureiro e começou a escrever, absorta.

 

“Caro Dumbledore,

Me desculpe não ter mandado notícias minhas antes, estive muito ocupada com aulas extras. Cheguei bem aqui no passado, e fui muito bem recebida pelo senhor. Rapidamente consegui permissão para estudar aqui, e todos os professores já estão cientes de minha situação. Enquanto estive esperando o começo das aulas, recebi noções de magia com os professores, que me pareceram muito simpáticos. O professor mais simpático de todos foi Steven, quem me ajudou a encontrar seu escritório. Embora ele seja um tanto misterioso e introspectivo, ele é uma pessoa muito legal. Foi comigo fazer as compras no Beco Diagonal e é quem mais me ajudou até agora.

Hoje foi o dia do banquete de seleção e início das aulas. Nunca imaginei que houvessem tantos alunos estudando em Hogwarts! O chapéu seletor é bem sabido, me colocou na Grifinória, mas disse que eu também poderia cair em Sonserina.

Há muitas pessoas legais cursando o mesmo ano que o meu. Conheci Remo Lupin, Tiago Potter, Sirius Black, Pedro Pettigrew, Lílian Evans e outros, mas esses foram os que mais conversei. Eles são legais, e Remo me ofereceu ajuda para me acostumar com o ensino. Apenas achei que Sirius deveria ter alguma coisa comigo, me olhava de um jeito estranho de vez ou outra...

Também me encontrei com Severo, mas isso foi no trem. Tive também a oportunidade de conhecer Lúcio Malfoy. Não tive uma boa impressão dele, ele chegou me expulsando do vagão. Mas enfim, acho que ele deve ser assim mesmo. Não cheguei a falar com Severo, ele poderia se passar por um fantasma, de tão discreto que é.

Agora, Dumbledore, eu gostaria de lhe confidenciar uma coisa. Fui tão bem recebida em Grifinória, todos sendo simpáticos comigo, e eu nunca tinha sido recebida assim. Mas mesmo com todas essas pessoas, sinto uma terrível solidão, um sentimento que me consome, de tão intenso. Gostaria de saber o que é. O senhor tem alguma idéia? Sei apenas que não consigo dormir, estou muito incomodada com isso.

Mande lembranças a Severo. Não estou com ânimo para escrever a ele agora. Espero uma resposta sua.

         Katie”

 

         Ela releu a carta antes de fechá-la, e achou-a bem razoável. Ao menos falara o que estava a deixando preocupada, mesmo que de um jeito tão direto e desesperado. Foi novamente até seu dormitório, onde encontrou Sally, parada no parapeito da janela.

         - Entregue isso a Alvo Dumbledore, 1995, por favor – disse calmamente, acariciando o bico da coruja.

         Ela piou alegremente. Katie amarrou a carta em sua pata, para logo depois Sally sair do dormitório voando. Katie deu um suspiro. Não conseguiria dormir de jeito nenhum, já era fato consumado. Decidiu esperar o sol nascer, para poder ler um pouco na biblioteca antes das aulas começarem.

         Decidiu esperar pelo sol no salão comunal, onde poderia ao menos fazer algum tipo de barulho, já que não queria acordar as companheiras do dormitório.

         Estava absorta em seus pensamentos quando sentiu alguém tocar seu ombro, e deu um pulo, tamanho susto que tivera.

         - Desculpe – murmurou uma voz, arrependida pelo que fizera. – Não achei que fosse se assustar.

         - Tudo bem, Remo – respondeu Katie, ainda respirando rapidamente. – Estava distraída, não foi sua culpa.

         Ele deu de ombros.

         - O que está fazendo aqui embaixo?

         - Hum... Estava sem sono, e você?

         - Também – respondeu Remo pouco à vontade.

         Na realidade estava preocupado com a lua cheia, que não tardaria a chegar. Não gostara nem um pouco da idéia de ter de perder logo os primeiros dias de aula.

         Os dois ficaram em silêncio por algum tempo; Katie observando o trepidar calmo das chamas e Remo apenas fitava o nada, ainda de pé.

         - Posso me sentar...? – perguntou ele, quando achara que o silêncio já estava desagradável.

         - Claro que sim, esteja à vontade.

         Silêncio novamente. Katie estava demasiado ocupada em observar o movimento das chamas para dizer alguma coisa. E Remo não fazia idéia de como começar uma conversa. Mas podia sentir que alguma coisa inquietava a garota, pois por vezes ela se movia desconfortavelmente na poltrona, fitando diversos pontos do salão comunal.

         - Por que está sem sono, Katie? – ele perguntou, muito cauteloso – Ansiosa para o começo das aulas?

         - Não... – respondeu vagamente – Não é sobre as aulas... Estou... preocupada... mas nada que seja muito importante – ela apressou-se a completar.

         - Está triste com alguma coisa? – arriscou o rapaz, observando-a atentamente.

         - Não! – foi a primeira resposta de Katie, quase automática – Na verdade... apenas... hum... estou me sentindo um pouco só... hum... acho que é besteira minha. – ela concluiu.

         Remo sentiu que não era apenas aquilo, tinha algo mais que ela não se sentia à vontade para contar, e ele também não a forçaria. Sabia muito bem como era esconder um segredo dos outros – não que ela tivesse algum, ele pensou, mas era parecido -, e o quão horrível era ser pressionado a contar.

         Katie levantou-se e caminhou até uma janela, observando o céu. Havia poucas estrelas naquela noite, e uma brisa suave fazia seu cabelo voar graciosamente.

         - Noite bonita, não é? – comentou ela, apenas para não ficarem em silêncio – A lua está grande, logo iluminará todo o jardim.

         - Verdade – respondeu Remo com a voz levemente fraca. – A lua cheia está chegando...

         Ela virou-se de repente, e percebeu que Remo corara rapidamente quando fez o movimento. Parecia ter se lembrado de alguma coisa, pois logo disse:

         - Acho melhor tentarmos dormir, Remo – concluiu ela. – Amanhã o dia será cheio, primeiro dia de aula sempre nos cansa.

         - Mas Kat...

         - Boa-noite, Remo – ela interrompeu o rapaz com um beijo no rosto, e logo se dirigiu até a escadaria que levava aos dormitórios.

         Remo observou Katie subir as escadas até sumir de vista, mas não a acompanhou. Continuou no salão comunal, observando de longe a lua quase cheia.

 

         Katie não dormira depois que voltara ao seu dormitório, ficara se remexendo desconfortavelmente, quando já não conseguia mais ficar deitada. Olhou para a janela e viu que não tardaria a amanhecer, então trocou de roupa e desceu até o salão comunal, que estava totalmente deserto.

         “Ao menos Remo foi dormir um pouco” pensou aliviada, enquanto procurava uma poltrona suficientemente confortável.

         Terminara a conversa entre os dois por sentir que não estavam muito à vontade um com o outro. Ela, por não querer contar o que a fizera passar a noite acordada; ele, por algum motivo que ela não percebera muito bem.

         “Depois tenho de pedir desculpas a ele, coitado” cogitou, enquanto abria ‘Hogwarts – Uma História’. “Vai achar que sou uma mal-educada”.

         Quando o sol já iluminava toda a propriedade, Katie decidiu ir até a biblioteca, ao menos era uma boa desculpa para dar uma volta pelo castelo, enquanto esperava a hora do café da manhã.

         Foi andando o mais devagar que pôde até a biblioteca, para ter bastante tempo para tentar decifrar seus confusos e contraditórios sentimentos. Quando chegou, porém, não se viu atraída pelas enormes prateleiras lotadas de livros, então mudou completamente seu curso, indo parar nos jardins do castelo.

         O sol iluminava toda a parte, e ela pôde aproveitar a brisa matinal, que a reconfortava milagrosamente. Sentiu falta de Tempestade, e logo seu coração se entristeceu. Mas tratou de lançar aqueles pensamentos longe, e ocupar sua mente com coisas mais interessantes.

         Ficou sentada próxima a uma árvore até notar movimento por parte dos alunos, e concluir que já era hora do café da manhã. Caminhou, então, até o salão principal, onde encontrou grande parte dos alunos conversando animadamente. Localizou Remo e seus amigos a uma ponta da mesa de Grifinória, e pensou em não incomodá-los. Mas não conseguiu, pois assim que eles a viram, a chamaram freneticamente para se sentar junto com eles.

         - Não quis atrapalhar vocês – respondeu timidamente, quando perguntaram o porquê dela não ter se reunido assim que entrara.

         - Mas se estamos a chamando, não está atrapalhando! – retrucou Tiago marotamente, rabiscando alguma coisa em um pergaminho.

         - O que está fazendo, Tiago? – perguntou Pedro, observando os movimentos do rapaz.

         - Rabiscando o horário – respondeu simplesmente. Em seguida, pegou sua varinha e murmurou: - Limpar.

         Os traços que Tiago fizera sobre o horário desapareceram; em seu lugar, o horário estava impecável, exatamente como o recebera.

         - Uau – murmurou Pedro boquiaberto, mirando o pergaminho fascinado.

         - Pare de se exibir, Tiago – disse Sirius parecendo entediado.

         - Katie, olhe aqui, seu horário – disse Remo, depois de procurar em um punhado de pergaminhos, entregando o que tinha o nome de Katie.

         - Obrigada – ela agradeceu, começando a olhá-lo com curiosidade.

         Sirius observou o horário da garota, curioso. Deu um muxoxo de decepção ao ver as aulas daquele dia.

         - Aula dupla de Poções e Transfiguração – gemeu, horrorizado.

         - Onde está o seu horário, Sirius? – questionou Remo.

         - Queimei ele – respondeu indiferente.

         - Só porque suas aulas são iguais às de Tiago não precisa tacar fogo no seu horário – repreendeu Remo, não achando aquela atitude correta.

         - Ih Sirius, seus dias de delinqüente acabaram, o monitor está no pedaço! – troçou Tiago, rindo da cara do amigo.

         - Verdade Tiago – concordou Sirius, segurando ao máximo o riso. – Acho que vou precisar reconstituir meu horário, ou vou levar detenção!

         Pedro quase não aparecia na mesa, se contorcia de tanto rir, e só era possível ver sua cabeça. Remo corara furiosamente, mas não retrucou nada. Katie observa a tudo atônica, sem saber se ria ou se defendia Remo.

         - Eles não me deixam em paz desde que virei monitor – comentou Remo em voz baixa. – Acham que os traí.

         - É inveja, logo passa – comentou Katie, tentando confortar Remo.

         Pedro, Sirius e Tiago continuavam rindo da brincadeira, mas Tiago parou abruptamente ao ver Lílian Evans se aproximar do grupo. Ela nem deu atenção aos três, apenas cumprimentou Remo com a cabeça e chamou Katie a um canto.

         - O que houve, Lílian? – perguntou Katie curiosa.

         - Eu queria saber suas aulas extras, para ver se batem com as minhas – disse a garota displicentemente.

         - Ah, claro! Olhe aqui – ela mostrou seu horário.

         - Você também escolheu Trato das Criaturas Mágicas e Adivinhação? – perguntou Lílian excitada.

         - Sim, foram as que me pareceram melhores dentre todas.

         - Isso é ótimo! Então, se quiser, posso te mostrar onde ficam as salas.

         - Obrigada Lílian, mas até a sala de Poções eu vou sozinha, depois posso te acompanhar – agradeceu Katie.

         - Se você prefere assim... – ela deu de ombros – Então começo a te mostrar tudo no caminho para Feitiços, tudo bem para você?

         - Para mim está ótimo – disse Katie, sorrindo.

         - Então nos vemos nas masmorras! – Lílian se afastou em seguida, atendendo ao chamado de Alice e Michelle, que estavam do outro lado do salão.

         Katie deu de ombros, e voltou ao seu lugar, sendo bombardeada por um monte de perguntas, principalmente da parte de Tiago.

         - O que a Lílian queria com você?

         - Ela só queria saber qual era o meu horário, Tiago. Por quê? – Katie respondeu surpresa, tentando se livrar do questionário.

         - Não, por nada – ele respondeu, parecendo cair em si.

         - Bem, eu já vou indo – disse ela, pegando uma bomba de chocolate e se levantando. – Agora que já sei o horário, vou separar meu material.

         - Você sabe o caminho para as masmorras? – questionou Sirius, parecendo levemente irônico ao falar.

         - Sei sim – respondeu simplesmente, se afastando em seguida.

         - Ela sabe mesmo? – perguntou Sirius desconfiado.

         - Não faço idéia – disse Remo.

 

         Katie seguiu até o salão comunal, e reuniu o material necessário naquela manhã. Depois checou seu relógio de pulso, e viu que a aula começaria em dez minutos. Decidiu, então, já caminhar até a masmorra maior, para evitar de chegar atrasada.

         Ao chegar na sala de Poções, viu que uma boa parte dos alunos já estava sentada, e notou uma visível separação entre grifinórios e sonserinos. Seu coração saltou ao ver Severo Snape sentado em uma das primeiras carteiras do lado sonserino, e teve de fazer um enorme esforço para não tentar iniciar uma conversa. Do outro lado da sala, o grupinho de Lílian conversava animadamente, nem percebendo a presença de Katie.

         Sentou-se exatamente no meio da sala; não queria continuar com aquela bobagem de separação de casas. Retirou seu livro, ingredientes e seu caldeirão. Assim que terminou, o professor Scop adentrou a sala, e fez um meneio com sua cabeça na direção da garota, quase imperceptível. Ela retribuiu, sorridente.

         - Sr. Snape, poderia vir aqui por um momento? – perguntou o professor, assim que se sentou em sua escrivaninha.

         Snape arregalou os olhos, surpreso pelo chamado do professor. Mas atendeu ao chamado, e se aproximou de sua mesa.

         - Sim professor.

         - Poderia fazer um favor para mim, Severo? – perguntou o professor em voz baixa.

         Katie estava atenta à conversa, já que estava sem ninguém sentado próximo a ela, e não tinha nada para fazer até o começo da aula.

         - Sim professor, o que é? – perguntou Snape educadamente.

         - Poderia sentar-se com a Srta. Witter por um tempo? – as sobrancelhas de Snape se ergueram, visivelmente surpreso – Como ela veio de um colégio muito diferente de Hogwarts e como você é meu melhor aluno de Poções deste ano, achei que não haveria problema ajudá-la nas primeiras aulas.

         A segunda parte o professor disse em um tom um pouco mais alto, fazendo com que o grupo de sonserinos e Katie escutassem suas palavras, prestando mais atenção na conversa. Snape corou com o elogio; já sabia que era o melhor aluno da turma, mas nunca ouvira o professor dizer isto, principalmente de modo tão natural como dissera agora.

         - Mas... senhor... Ela é uma grifinória, não há problema nisso? – disse receoso.

         - Não haverá problema nenhum nisso, você não sofrerá discriminação por estar fazendo um favor ao seu professor de Poções – garantiu Scop.

         - Se o senhor diz, então tudo bem – Snape aceitou, já que o diretor de sua própria casa não estava fazendo objeções ao assunto, não seria ele quem faria.

         Scop concordou com a cabeça. Em seguida, caminhou até a mesa de Katie, e disse em tom baixo, porém audível.

         - Srta. Witter, o Sr. Snape irá auxiliá-la no começo deste ano, até que pegue um pouco de prática com meu método de ensino – nesse meio tempo, Snape já recolhera seu material e estava caminhando até onde Katie estava, e o coração da garota batia descompassado.

         - Obrigada... professor – balbuciou ela, incapaz de dizer qualquer coisa mais; o choque que tivera fora grande.

         O professor concordou com a cabeça e voltou ao seu lugar. Em seguida, Snape se aproximou da mesa da garota, despejando seu material na carteira ao lado dela, e murmurando um ‘Bom-dia’ com muita má vontade.

         Katie respondeu ao cumprimento com timidez, e logo Scop começou sua aula, depois de checar seu relógio e mais alguns alunos terem entrado.

         - Este ano, como todos já devem saber, será o ano em que prestarão seus NOM’s...

         Sua preleção sobre NOM’s não conseguiu passar deste ponto, pois a porta da masmorra se abriu com estrépito e por ela entraram Tiago, Sirius, Remo e Pedro, todos parecendo ofegantes. O professor parecia muito bravo com a interrupção, e sua voz era gélida.

         - O que os leva a crer que podem chegar em minha aula com tamanho atraso?

         - Hum... nos atrasamos – respondeu Tiago com a cara mais lavada do mundo.

         - Menos dez pontos de Grifinória – disse o professor. – E agradeçam por eu não tirar essa quantidade por cabeça – ele deu uma pequena pausa. – E agora sentem-se antes que eu lhes dê uma detenção.

         Remo parecia muito envergonhado de chegar atrasado, Pedro se escondia atrás de Sirius e Tiago, temendo que o professor lançasse mão de sua varinha e lançasse uma azaração, e os dois últimos não pareciam muito afetados com a perda de pontos; pelo contrário, tentavam segurar uma espécie de sorriso cúmplice.

         Eles se sentaram; por falta de opção, Sirius e Tiago ficaram atrás de Katie e Snape, e Remo e Pedro sentaram-se atrás deles. Ao verem Snape sentado com Katie, só faltava terem um ataque de riso ali mesmo.

         - Estou tendo uma miragem, Sirius? – perguntou Tiago, incrédulo com o que via – Ou será que o Snape perdeu o juízo de vez?

         - Só posso dizer uma coisa, meu amigo – respondeu Sirius, igualmente surpreso. – Certamente podemos esperar muitas surpresas de Katie Witter!

         - Srs. Potter e Black, se não pararem de falar, irei tirar mais pontos de sua casa – ameaçou o professor, ao ver que eles não ficavam quietos.

         Depois de tão perigosa ameaça, Remo cutucou com tanta força os amigos, que eles não tiveram escolha a não ser ficarem quietos.

         - Como ia dizendo, este ano teremos os NOM’s, e ficaria muito decepcionado se esta turma não tivesse boas notas. E naturalmente, se seus resultados não forem como esperados, teremos de nos despedir em nossos próximos anos – Scop examinou atentamente todos os alunos, e constatou que alguns pareciam tentados a terem péssimos resultados em seus NOM’s.

         - Hoje poderão sentar em duplas, apenas para relembrarem tudo o que aprenderam – continuou, caminhando até sua mesa. – Faremos a Poção da Paz, que serve para acalmar a ansiedade e diminuir a agitação. Normalmente é pedida em exames. Então, sugiro que leiam atentamente as instruções no quadro para não cometerem nenhum erro, fazendo com que a pessoa que a beba entre em um sono profundo, que é irreversível. Vocês têm uma hora e vinte. Podem começar.

         Katie não sabia ao certo como agir, então começou a ler atentamente as instruções do quadro, fazendo uma espécie de resumo em seu pergaminho. Observou com o canto do olho o que Snape estava fazendo, e ele começara a separar os ingredientes que deveriam ser colocados primeiro. Decidiu que precisaria começar uma conversa de algum modo, para poderem trabalhar juntos na poção.

         - Severo Snape, não é? – perguntou Katie, puxando assunto – Me chamo Katie.

         - Eu sei quem você é, Witter – respondeu Snape friamente, nem sequer olhando para ela.

         - Ei, Sirius, por que será que o seboso decidiu trabalhar com Katie? – perguntou Tiago, visivelmente determinado a esgotar a paciência do sonserino.

         - Provavelmente ele está tão cheio de ser o cachorrinho do Malfoy que decidiu mudar de lado, não é, seboso? – provocou Sirius.

         - Calem a boca – murmurou Snape quase inaudivelmente.

         - Severo, o que eles têm contra você? – perguntou Katie, levemente interessada.

         “Pergunta errada” pensou ela no instante seguinte, ao ver que ele franzira a testa e ficara mais bravo do que com as provocações de Tiago e Sirius. Resolveu ficar quieta, e terminar de copiar as instruções.

         Na dupla de trás, Sirius e Tiago não tinham nem tirado seu material por completo, estavam mais ocupados caçoando de Snape. Até que Remo resolveu interromper, pois o professor estava rondando as mesas.

         - Se não quiserem ser reprovados nos NOM’s, por favor, comecem a fazer a poção.

         - Ela é muito complicada – retrucou Sirius, impaciente. – Não dá para fazê-la.

         - É claro que dá – disse Remo rispidamente. – Na próxima aula terei de fazer dupla com um de vocês, se não ambos irão levar detenção.

         - Não nos subestime, Remo – disse Tiago, em um tom perigoso, mas que na realidade era brincadeira. – Não somos tão burros ao ponto de levarmos detenção logo no primeiro dia de aula.

         Remo, exasperado, abanou a cabeça e decidiu se concentrar em sua poção, que Pedro quase estragara ao acrescentar um ingrediente em demasia.

         Sirius e Tiago não pareceram se importar com Remo, pois continuaram fazendo brincadeirinhas com Snape, e elas começavam a ficar cada vez mais pesadas.

         Snape estava ficando nervoso. Segurara com tanta força um frasco com um líquido marrom, que ele se partira e sua mão ficara toda molhada. Começava a se arrepender redondamente de ter aceitado a idéia do professor.

         - Severo, você está bem? – perguntou Katie, verificando se havia algum pedaço de vidro na mão de Snape – Não quer que eu te ajude com esses ingredientes?

         Essa pareceu ser a gota d’água para o sonserino. Muito irritado, ele virara para encarar Katie, e seus olhos negros pareciam mais ameaçadores ainda.

         - Olha aqui, Witter – disse perigosamente, sua voz quase em um sussurro. – Já que eu aceitei ser seu parceiro por algum tempo, as coisas terão de ser feitas do meu jeito – ele dera uma minúscula pausa, como se checasse a reação da garota. – E qualquer grifinório com um pingo de inteligência não ousaria me chamar de nada além de Snape.

         Katie abrira a boca para retrucar, mas o que ele dissera tinha a pego de surpresa, e vendo que não conseguiria dizer nada, fechara a boca e virara o rosto para outro lado, tentando se recompor. Ficaram em silêncio por algum tempo, Katie separando os ingredientes que deveriam ser colocados em seguida e Snape mexendo levemente seu caldeirão.

         Até que ela não agüentou a situação, e finalmente encontrou algo para revidar.

         - Não vejo por quê uma grifinória como eu não possa te chamar pelo nome que recebeu, Severo – ela enfatizara principalmente as palavras ‘grifinória’ e ‘Severo’, para provocá-lo. – Chamar a pessoa pelo sobrenome só prova que é de mente limitada, e que tem a intenção de falar da família da pessoa, e não com ela em si.

         Ele não respondera nada, então Katie julgara ter o deixado sem resposta. Ficaram mais alguns minutos em silêncio, até que o professor passara pela mesa deles.

         - Está tudo indo bem por aqui? – ele questionou, vendo que a poção dos dois estava um pouco rala – Você precisa arrumar isto, Sr. Snape, esqueceu de colocar as duas gotas de xarope de heléboro.

         Snape corara furiosamente, mas com um movimento da varinha fizera sumir todo o conteúdo de sua poção, e agora começara a separar novamente os ingredientes.

         - Srta. Witter, precisa ajudá-lo se quiser ganhar nota – avisou o professor, mas a garota tivera certeza de que ele dera uma piscadela.

         - Sim senhor – concordou ela, começando a moer um pouco de pedra da lua.

         Depois disso o professor voltou a rondar as mesas, parando em alguns alunos para avisar que a poção estava errada ou para dizer o que deveria ser feito em seguida. Quando ele já estava um pouco longe, Katie comentou com Snape, se sentindo um pouco vitoriosa.

         - Você deveria prestar mais atenção, não viu o frasco com o xarope de heléboro que deixei aí para você? – mas logo ela soltou uma pequena exclamação – Me desculpe, esqueci que você quebrou o frasco enquanto o apertava!

         - Cale-se, Witter – ele respondeu acidamente, sentindo seu sangue fluir até o cérebro.

         Ela deu de ombros. Continuou separando os ingredientes que faltavam, e entregando-os para Snape no momento certo. Não trocaram nenhuma sílaba, apenas o estritamente necessário.

         Quando faltava pouco mais de cinco minutos para o término da aula, o professor Scop avisou a classe, em tom alto e claro.

         - A poção corretamente preparada deve estar soltando um vapor claro e prateado. Quem estiver com a poção pronta ou quase pronta deverá colocar um pouco em um pequeno frasco etiquetado com seus nomes. Irei avaliá-las e darei suas notas na próxima aula.

         A maioria dos alunos começou a resmungar e a colocar suas poções nos frascos, a grande maioria reclamando que o vapor não estava exatamente da cor que o professor dissera. A outra parte parecia estar reclamando do dever de casa que tinham recebido.

         Após Snape ter entregado a frasco dos dois, Katie recolhera seu material tão rapidamente que ele nem voltara direito para seu lugar, ela já estava saindo da masmorra. Não agüentara o modo que ele a tratara nessa aula, e ele tinha conseguido fazer seu sangue aquecer perigosamente. Cogitava se ele seria mesmo tão insensível ou era apenas o modo de se defender das pessoas alheias, mas torcia para que ele mudasse de postura nas próximas aulas.

         Já do lado de fora da masmorra, lembrara que tinha dito a Lílian que a acompanharia até a sala de Feitiços, e teve de a esperar. Ela chegou pouco tempo depois, e estranhamente não estava acompanhada de suas amigas sorridentes.

         - Oi, Lílian! – chamou Katie, ao que Lílian não a tinha visto.

         - Ah, oi Katie! – ela finalmente a encontrara, e caminhara em sua direção – E então, como foi a aula de Poções para você?

         - Foi bem – ela disse em tom pouco convincente. – Bem... não foi tão ruim, para dizer a verdade... E para você?

         - Ah, eu simplesmente não consigo preparar aquela poção! É muito complicada! – disse a ruiva em tom exasperado – Mas a sua estava ótima, acho que a única que estava completamente certa. Mas também, a fazendo com Snape, não era de se esperar que saísse perfeita.

         - Não sei por que essa história de Severo, ele apenas é atento na maioria das vezes.

         - Eu lastimo por você, Katie – disse Lílian sinceramente, dando uma palmadinha no ombro de Katie. – Snape pode ser ótimo preparador de Poções, mas é muito orgulhoso e um pouco arrogante.

         - Eu acho que ele é apenas um pouco reservado – ponderou Katie. Na realidade o achara um pouco do que Lílian o chamava, mas podia afirmar com certeza que por baixo daquela máscara de frieza, havia um garoto que precisava muito de sua ajuda, e faria de tudo para conquistar a amizade e confiança dele.

         - Não seja tão otimista, ele não é tão bom assim como você o imagina – disse Lílian, cautelosa.

         - Quem não é bom? – perguntou Sirius, chegando junto com Remo e interrompendo a conversa.

         - Snape – respondeu Lílian prontamente. – Estava dizendo o quanto lastimo por Katie ter de fazer dupla com ele.

         - Ahhhh, o seboso – comentou, como se o natal tivesse chegado mais cedo. – É, eu também lastimo muito – ficara óbvio que ele não lastimava coisa nenhuma, pois parecia segurar uma longa risada.

         - Como o convenceu a fazer dupla com você? – perguntou Remo, parecendo um pouco interessado.

         - Eu não fiz nada, na verdade – disse Katie. – O professor Scop o pediu para me ajudar a me acostumar com o esquema dele, e ele aceitou me ajudar, a contragosto, mas foi.

         - Eu preferiria ganhar vários ‘D’s a trabalhar com o seboso! – exclamou Sirius, horrorizado só com a idéia.

         - Ele não é ruim, sabe – contrapôs Katie, tentando parecer calma. – Ele sabe preparar as poções muito bem e...

         - Garanto que ele não deixou você nem sequer tocar no caldeirão, do jeito que é orgulhoso e exibido. “Eu sou o seboso, eu sou o único que sabe preparar poções! Posso te envenenar se tentar ser melhor do que eu!” – troçou Sirius, imitando a voz fria de Snape.

         - Pare, Sirius – pediu Katie.

         - Ora, vamos Katie, ele não é um sapo que vira príncipe encantado com um beijo! – retrucou Sirius, zombeteiro – Eu diria que este seria o estágio ‘príncipe’!

         - Estou dizendo Sirius, Severo não merece tantos xingamentos assim.

         - Severo? – ele se engasgara com a risada, tamanho absurdo que ouvira – Severo?! Você tem certeza de que não está namorando o seboso e esqueceu de nos contar?!

         - Essa não foi uma boa idéia – comentou Lílian, preocupada com o fim desta conversa.

         - Não sou namorada dele, Sirius – respondeu Katie com veemência. – E se fosse, o que você teria a ver com isso?

         - Há, eu sabia! Você está namorando com ele sim, mas está com medo de ser odiada por todo o colégio, assim como ele! – Sirius parecia vitorioso, e seu tom de voz aumentara ligeiramente.

         - Como eu poderia namorar ele com apenas um dia em Hogwarts? – perguntou Katie, se controlando ao máximo para manter a voz normal.

         - Vocês devem se conhecer há tanto tempo que já devem ter freqüentado a cama diversas vezes, às vezes revezando com o resto da família dele! – soltou ele, sem pensar.

         Katie ficara lívida, e parecia prestes a explodir. Em um movimento impensado, tirara sua varinha das vestes e a apontara firmemente na direção de Sirius, entre seu rosto e seu peito.

         Nesse meio tempo, o restante dos alunos já saíam das salas, e passaram a se reunir em volta dos dois, ansiosos para assistirem a alguma briga. Os sonserinos incentivavam o começo dela, e riam bastante da situação.

         Segundos depois, Sirius levantara sua varinha também, não estando disposto a ficar em desvantagem. Mas Katie não tinha o intuito de atacar, tirara a varinha do bolso apenas por estar muito ofendida com o que Sirius dissera. E ainda sabia muito pouco sobre magia, sendo que o único feitiço que lhe ocorrera caso começassem a duelar fora o “Expelliarmus”, mas tinha certeza de que Sirius sabia muito mais do que isso.

         - Ande, Lupin! Não vai honrar seu distintivo de monitor? Não vai dar uma detenção para os dois? Ou será que irá perder os privilégios antes mesmo de usufruí-los? – provocou Lúcio Malfoy para Remo, e agora ele estava na frente da multidão, e podia encarar Remo abertamente – Ou quer que eu mesmo arranje uma detenção para os dois?

         Remo se sentia preso à parede. Sabia que se não tomasse nenhuma atitude, a culpa cairia sobre ele também, e perderia o distintivo de monitor, além de prejudicar mais ainda os amigos. Não teve escolha, a não ser puni-los.

         - Katie, Sirius, detenção – disse Remo o mais alto que conseguiu. Malfoy deu um sorrisinho de prazer. – Agora, abaixem as varinhas, por favor.

         Ela parecia ter acordado naquele momento, e olhava horrorizada para tudo à sua volta, abaixando a varinha lentamente. Sirius fez o mesmo, e parecia mais decepcionado com Remo do que afetado pela detenção.

         Katie simplesmente não podia acreditar no que ouvira. Detenção, foi o que Remo disse? Sentia-se péssima, e seu ânimo despencou de vez quando vira Snape observar a situação e, parecendo muito decepcionado com o resultado, saiu da multidão, caminhando na direção da aula de História da Magia.

         - Srs. Lupin, Black, Witter – chamou a voz imperativa do professor Scop, tentando abrir caminho entre os alunos. – Creio que devam ver a diretora de sua casa, para explicarem o ocorrido.

         - Professor Scop? – chamou uma voz desdenhosa – O senhor não acha que eu deva ir junto, para explicar o que exatamente aconteceu?

         - Sim, Malfoy. Seria interessante dois monitores relatarem o ocorrido – assentiu o professor. – Agora vão, não devem chegar atrasados em sua próxima aula.

         Katie se sentia arrasada. Não acreditara que arranjara encrenca em seu primeiro dia de aula, e ainda mais entrara em detenção. Viu os outros três seguirem até a sala de McGonagall, e os seguiu, não arriscando olhar para ninguém, pois agora sim seria capaz de lançar um feitiço em Sirius Black.

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Nota da autora: Desculpem pelo capítulo enooorme, mas eu realmente precisava acabá-lo desse jeito, e acabei recheando demais as falas e cia. Mas espero que tenham gostado, pois eu me empolguei para escrevê-lo e gostei muito. Aguardem o próximo! ^^

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