O Destino dos Solitários

Capítulo 8
CONHECENDO E RECONHECENDO

         “Nunca imaginei que teria uma semana tão desgastante em minha vida. Faz oito dias que estou em 1973, e às vezes sinto vontade de voltar à minha vida no campo, sobrevivendo dos pães que eu fazia. Acho que o que mais sinto falta é de Tempestade, de seu trote suave... Mas não posso mudar meu destino, que é ajudar, no que eu puder, Severo.

         Como dizia, essa foi a semana mais agitada que já tive. No dia seguinte ao Beco Diagonal, minhas aulas de noções básicas começaram. Passo quase o dia todo estudando e aprendendo feitiços novos! É algo que deixa qualquer um de cabelos em pé. Quando não estava com os professores, estava na biblioteca, fazendo as pesquisas e tarefas que eles me passavam e, quando sobrava tempo, lia um pouco sobre Hogwarts e as diferentes artes.

         Acho que até agora o que mais sei é sobre os NOM’s. Aliás, saber eu não sei de quase nada, mas sei que é a abreviação de Níveis Ordinários de Magia, e todo aluno que cursa o quinto ano tem de prestar. São esses exames que vão definir sua carreira no futuro, por isso, tirar boas notas é essencial. Também tive de escolher entre algumas matérias extras, McGonagall disse algo sobre algumas profissões necessitar destas matérias.

         Agora que toquei no assunto, vou falar sobre alguns professores. De longe, o que mais gostei foi o professor Steven. Acabei tomando uma certa intimidade para com ele, e posso até chamá-lo pelo primeiro nome quando estivermos em particular. Fiquei escarlate em saber que eu tenho jeito com Poções, precisava apenas conhecer melhor os ingredientes e suas propriedades. Estou estudando bastante isso, não quero passar vexame nas aulas, ainda mais na frente de Severo... Severo... Não sei quase nada sobre seu tempo de estudante. Melhor, não sei quase nada sobre ele. Tentei arrancar algumas informações de Steven, mas não obtive muito sucesso...

         Feitiços é uma das matérias mais importantes do currículo. Quase todas as profissões precisam de boas notas nessa matéria. Quem a ensina é o professor Flitwick, ele é um duende. Um pouco atrapalhado, mas eu gostei dele. A matéria também é bem interessante, embora alguns feitiços precisem de uns movimentos confusos...

         Agora, uma matéria que achei um pouco complicada foi Transfiguração. As fórmulas parecem ser complicadas, e ainda não consigo pronunciar todas as palavras em latim corretamente. A professora, Minerva McGonagall também não ajuda muito; ela é muito rígida. Mas no fundo, ela deve ser uma boa pessoa, preciso apenas conhecê-la melhor.

         Outra matéria que não simpatizei totalmente é Herbologia. Os nomes científicos daquelas plantas são muito difíceis de decorar! A professora Sprout é simpática, mas ela é meio bobinha, senti que os alunos possam enganá-la facilmente. Tem um bom coração, claro.

         Uma matéria que me chamou bastante a atenção foi DCAT ou, por extenso, Defesa Contra as Artes das Trevas. O professor, Luck Foster, é bem reservado e misterioso, mas ensina maravilhosamente bem a matéria. É muito bonito, também. Não sei se ele ganha do Steven, naturalmente, mas é realmente um bom partido. Pena que já tenha uma certa idade; não daria menos de 30 anos para ele...

         O que mais? Bem, temos as matérias que já citei anteriormente, as que tive de escolher. Tinha um monte que não me interessava, então escolhi Trato das Criaturas Mágicas e Adivinhação – não sei porquê escolhi essa matéria, mas tinha de escolher duas e as outras não me interessavam. Na realidade não sei o que vai acontecer comigo em especial, mas posso descobrir facilmente o que acontecerá com cada uma dessas pessoas – basta saber onde procurar. Isso, é claro, se eu não interferir no destino deles... Mas voltando às matérias... Não tive nenhuma aula dessas matérias, os professores estão de férias ainda...

         Também tem a Madame Pince. Ela é a bibliotecária, e eu já consegui uma boa intimidade com ela. Nossa, se alguém ler isso vai achar que me vanglorio por conseguir intimidade com as pessoas. Na verdade, eu apenas acho legal as pessoas não me tratarem como se estivessem em um degrau diferente do meu na vida. Apenas isso. Ela é um pouco preocupada com os livros, mas me deixa folhear tudo, menos a Sessão Reservada – tenho uma enorme curiosidade de saber o que há por lá. Um dos meus maiores defeitos – ou qualidades – é a curiosidade.

         E eu não posso me esquecer do Rúbeo Hagrid! Ele é o guarda-caças do castelo, e tem a ajuda do cão dele, o Canino. Tem uma queda – ou melhor, quedona – por animais perigosos, e sonha ter um dragão de estimação. Vá entender... Ele é muito gentil, pena que não pude passar muito tempo com ele, por causa das tarefas, entende...

         Acho que de membros do corpo docente é só.

         Estou em um dormitório provisório para mim, apenas até eu ser escolhida para alguma casa. Esse diário foi um presente caridoso do Steven, disse que eu ia precisar recordar-me de todas as coisas desse tempo – naturalmente Dumbledore contou aos professores, por isso eles aceitaram dar as aulas extras. Ao menos ele se preocupa comigo, e foi gentil em me dar o presente.

         Amanhã vou para o Expresso de Hogwarts. É um trem vermelho que nos leva para a escola – se bem que já estou por aqui. Minerva deu essa sugestão para eu não parecer especial, me fingir de apenas uma estudante transferida. E eu já estava me esquecendo, estou sendo bem bajulada, como se fosse especial – aliás, a pessoa que salvará o mundo de Voldemort é especial, naturalmente.

         Já se passam das nove da noite e eu ainda preciso acabar meu ensaio sobre Transfiguração de Mamíferos. Quem sabe ainda dê tempo para ler algumas páginas de ‘Hogwarts: Uma História’...

29 de Agosto de 1973 – Castelo de Hogwarts”

 

         Katie fechou o diário e se permitiu dar um breve suspiro. Recostou-se na cama de colunas em que se encontrava, e fechou os olhos, perdida em pensamentos. Sua vida dera um salto tão grande que às vezes não conseguia acreditar. E pensava em Severo... Como devia ser a vida dele, vista do ângulo em que ele a via? Será que se divertia nas férias de verão? Tinha muitos amigos? Iria ter interesse na amizade que ela tinha a lhe oferecer? Perguntas como essas não paravam de lhe ocorrer, sempre que parava para pensar em qualquer coisa. E não conseguiria obter nenhuma das respostas se não perguntasse, ou melhor, observasse. Se uma coisa que aprendera de útil com a vida era de observar as coisas, pessoas, ambientes... observar tudo para depois perguntar e questionar. Embora a teoria fosse bem diferente da prática.

         Ouviu uma batida leve na porta. No instante seguinte, viu a cabeça do professor Scop aparecer no vão da porta, examinando o local minuciosamente.

         - Oi Steven! – chamou Katie calorosamente, tentando disfarçar as preocupações, que pareciam emanar de seu ser.

         Ele ainda deu mais um olhar analítico antes de responder.

         - Katie, Dumbledore está a chamando em sua sala. Disse que é algo muito rápido.

         - O que pode ser?

         Ela pusera-se de pé em um salto, movida pela curiosidade. Steven deu de ombros.

         - Obrigada, de qualquer jeito. Vou ver o que ele quer.

         E, sem nem esperar resposta, a jovem saiu do quarto em uma espécie de trote humano.

§§§§§

         Os dois estavam na sala do diretor. O primeiro parecia muito preocupado com alguma coisa, e andava de um lado para o outro, enquanto o outro apenas observava, pensativo.

         - O que está te deixando tão preocupado, Severo? – questionou displicentemente Dubledore, já conhecendo o motivo de inquietação de Snape.

         - Não tenho notícias de Katie, isso está me deixando preocupado! – revelou o professor, sentando-se derrotado na cadeira defronte.

         - Tenha calma, Severo. Não tenha dúvida de que ela irá mandar notícias e, bem...

         O diretor decidiu calar-se antes que pudesse revelar algo de extrema importância.

         - O que é, Alvo? Não esconda nada de mim, nada além do que já escondeu – disse Snape com voz ameaçadora.

         - Severo, estou quase certo de que, no momento em que se encontrar com a Srta. Witter no passado, terá sonhos e lembranças repentinas que revelam o que está acontecendo entre os dois.

         - Como pode ser isso? – perguntou surpreso.

         - Eu tive alguns sonhos dias atrás, que mostrava a Srta. contando a mim sua história, mas não para mim, para um Alvo Dumbledore bem mais novo. Acho que, a partir de agora, todos os envolvidos ao seu passado terão sonhos com a Srta. Witter – explicou Dumbledore serenamente.

         - Todos os alunos? – questionou Snape em um tom defensivo.

         - Sim Severo, até mesmo os Marotos terão sonhos com a Srta. – respondeu o diretor, sabendo perfeitamente o que ele estava querendo saber.

         - Isso... é... impossível...

         Snape se jogou na cadeira, sentindo-se derrotado. Já não gostara nem um pouco da idéia de ter de reviver seu passado por causa de uma garota, e ainda mais tendo os outros grifinórios profundamente envolvidos na situação... Era mais do que se podia aceitar.

         - Alvo, vou me retirar. Ainda preciso absorver mais esta mudança absurda em minha vida.

         E, sem nem esperar resposta, o professor saiu da sala, seu humor pior do que quando entrara.

§§§§§

         A plataforma parecia mais lotada do que de costume. Alunos de todas as idades despediam-se de seus familiares, conversavam com os amigos ou simplesmente se esforçavam para enfiar seus pesados malões dentro do trem. Era mais um 1º de Setembro, e os estudantes de Hogwarts dirigiam-se ao Expresso de Hogwarts, para mais um ano no enorme castelo.

         Katie parecia se surpreender a cada instante. Olhava para tudo com admiração e, embora já estivesse bem familiarizada com o castelo, sentia ainda que tudo relacionado à magia era muito novo. O professor Steven, seu acompanhante encapuzado, parecia divertir-se com as reações da garota.

         - Srta., é melhor que entre logo no trem, pode não conseguir um bom lugar.

         - Mas não é tudo a mesma coisa? – perguntou inocentemente, virando-se para olhar o professor.

         - Não, não. Se chegar muito tarde, pode perder a privacidade de um vagão único.

         - Quer dizer que está me expulsando? A tarefa de me trazer até a Plataforma é tão entediante assim? – perguntou em falsa indignação.

         - Se quiser entender deste modo... – o professor deu de ombros, o que deixou Katie mais brava ainda.

         - Bom, já que estou sendo expulsa para o trem, tudo bem, mas infelizmente terá de me ver por um ano inteirinho... – provocou a garota, de um jeito infantil.

         Mostrou a língua para Steven, e correu para o trem, sua bagagem já a esperando na porta. O professor permitiu-se um pequeno riso descrente.

         - Se soubesse o quanto vou achar este ano interessante, pequena Katie...

         Com um farfalhar de sua capa, o professor sumiu sem nem ser notado.

 

         Katie empurrava seu malão com dificuldade. “Mas que coisa mais pesada!” resmungava para si mesma, enquanto procurava uma cabine vazia. Como estava adiantada em vinte minutos, pôde escolher tranqüilamente a que lhe agradasse mais, e acabou por escolher o último vagão. Colocou seu malão no local mais conveniente e repousou sua coruja, que dormia com a cabeça sob a asa, no banco próximo a ela.

         Passou a observar os alunos brincando e conversando e sentiu um aperto no coração. Se ao menos tivesse pais... Tratou logo de retirar aqueles pensamentos de sua cabeça, e começou a ler ‘Hogwarts: Uma História’.

         Pouco tempo depois o trem começou a andar. Katie estava absorta em sua leitura, e continuaria, se a porta não fosse aberta com tamanha brutalidade.

         - Acho que vamos ficar por aqui mesmo, esse vagão está vazio e...

         O loiro que começara a entrar no vagão parou no meio da frase o olhou com desprezo para Katie. Mais três rapazes apareceram atrás dele, dois que pareciam mais armários e um que estava meio encolhido em um canto.

         - Pode saindo daqui, garota – disse o loiro com voz imperativa.

         - Desculpe?

         Ela apenas abaixara o livro que lia, dando vista apenas aos seus olhos, que observavam a situação com extrema cautela.

         - Será que é surda? Não ouviu dizer que eu quero que saia deste vagão?

         - Desculpe, mas o que te leva a crer que eu vá obedecer? – perguntou tranqüilamente, mas achando aquilo uma falta de respeito sem tamanho.

         - Isto.

         Um reluzente distintivo estava preso na capa do garoto. Sobre ele, havia um grande ‘M’, que brilhava conforme o ângulo visto. Katie fez cara de pouco caso.

         - E...?

         - É um distintivo de monitor, sua tonta! – disse o loiro irritado – Aliás, eu nunca te vi antes, você é uma aluna nova?

         - Sim, me chamo Katie Witter, prazer. E você...

         - Lúcio Malfoy – respondeu com desdém. – Witter... nunca ouvi falar nesse nome, por isso é uma sangue-ruim, não é?

         - Acho que não deve julgar as pessoas pelo seu sobrenome – disse Katie em tom ofensivo. Não defendera-se, porém, do insulto, pois nem sabia o que deveria significar aquele ‘sangue-ruim’.

         - É claro, é contra os sobrenomes por ser uma mísera sangue-ruim, enquanto eu sou sangue puríssimo – provocou Lúcio Malfoy. – Vamos Witter, saia logo desse vagão!

         - Desculpa Lúcio, mas não posso sair deste vagão. Não vejo problema em dividi-lo com vocês, mas aí me retirar porque seu ego não permite uma companhia feminina é outra história – Katie respondeu com calculada calma.

         - Sua sangue-ruim metida! Com quem pensa que está falando?

         Lúcio, em um instante, empunhara a varinha e a apontara na direção de Katie. Furioso, pensava em lançar um poderoso feitiço na garota.

         - Lúcio, deixe isso, não vai adiantar nada discutir com ela. Vamos para outro vagão.

         Só no momento em que o garoto segurara a mão de Lúcio e a abaixara, foi que Katie percebeu sua presença por ali. Era quase invisível, por causa dos dois armários que ocupavam quase a porta toda.

         - Você realmente acha que vou deixar essa aí vencer? – perguntou em tom de desafio.

         - Acho apenas que você não deveria esquentar a cabeça com uma coisa dessas – o rapaz deu de ombros.

         - Desculpa... mas não nos apresentamos. Você é? – Katie disse, um pouco cautelosa.

         - Severo Snape – a voz dele tinha um certo ar de superioridade, mas discreto, bem diferente de Lúcio, que queria mostrar para todos que era superior.

         Katie sentiu um solavanco engraçado na barriga. Severo... Severo Snape? Então aquele garoto relativamente magro, cabelos negros oleosos lhe caindo sobre o rosto e a tendência a se esconder e ficar imperceptível era o mesmo Severo que conhecera em outros dois tempos? Era muito difícil de acreditar. Mas, por mais surpresa que estivesse, não podia negar que ele tinha um certo charme – que ele tentava manter oculto a maior parte do tempo -, mas ainda sim, charme..

         Snape também parecera ficar remotamente interessado – ou intrigado – com a garota, mas não demonstrou nada além disso. Ao contrário, começou a puxar lentamente a manga de Lúcio para eles saírem dali. E a muito contragosto ele o seguiu, e os dois armários foram logo atrás.

         - Você vai pagar, Witter, vai me pagar por isso – murmurou Malfoy, segundos antes de bater a porta com força. – Só espero, Severo, que essa sangue-ruim não caia na Sonserina. Eu poderia ter um ataque.

         - Hum-hum – o outro concordou, sem realmente escutar o que o amigo dissera.

         Assim que a porta fechou, Katie deixou escapar uma lágrima. Pequena, verdade, mas não deixava de ser uma lágrima. Sentira a horrível impressão de que Lúcio Malfoy não era realmente amigo de Snape, e que não era uma boa influência. Passou grande parte da viagem pensando sobre o que acabara de acontecer, e só se lembrou de procurar o significado de ‘sangue-ruim’ quase no final do caminho. Ficou possessa quando descobriu, e prometeu que iria dar o troco o mais breve possível.

         Quando o trem parou na estação de Hogsmeade já estava escuro, e o caminho até Hogwarts era iluminado por vários archotes, mas Katie não chegou a experimentá-lo. Rúbeo Hagrid a chamara para fazer a travessia de barco, por ser uma aluna nova.

         A experiência foi interessante, mas as ondas fortes a deixaram um pouco tonta. Chegaram às margens do lago todos ensopados, vários alunos novatos resmungando. Tiveram de esperar algum tempo em uma saleta – o que, Katie nunca descobriu -, até a professora McGonagall os chamar para o salão principal.

         A decoração era incrível. A iluminação não era feita por luminárias, mas sim por milhares de velas, e o teto não era visível, podia-se ver no lugar o céu estrelado, com a lua crescente em sua fase final ajudando a iluminar o salão. Várias cabeças de alunos se viraram para ver os novatos, e Katie se surpreendeu ao ver a quantidade de alunos que estudavam em Hogwarts.

         Os alunos se amontoaram próximos à mesa dos professores, onde estava um banquinho e um chapéu velho e remendado, que Katie já lera sobre ele. Era o Chapéu Seletor, que designava as pessoas para as casas que estavam em seus corações, e fora criado pelos fundadores da escola – Griffyndor, Slytherin, Hufflepuff e Rawenclaw. Dumbledore levantou-se e logo toda e qualquer conversa parou. Todos tinham um grande respeito para com Dumbledore.

         - Sejam todos muito bem vindos a mais um ano letivo! Desejo um bom retorno para os alunos antigos e um bom começo para os novos. Espero que as férias não tenham feito o conteúdo que aprenderam sumir de seus cérebros, mas sei que logo pegam o ritmo. As recomendações são as mesmas de sempre, então não acho necessário ficar repetindo tudo outra vez.

         Os alunos escutavam o diretor falar com total atenção, em um respeitoso silêncio.

         - Este ano, temos uma aluna nova um pouco diferente dos outros. A Srta. Witter veio da América e foi transferida de sua escola lá por problemas familiares. Seus pais morreram em um acidente e ela teve de morar com o avô, único parente vivo de sua família – todos os alunos tinham os olhos sobre Katie, que corara ligeiramente. – Ela cursará o quinto ano e peço a ajuda de todos os estudantes para que ela possa se acostumar com o método de ensino daqui, que é bem diferente do que ela estava acostumada. Acho que agora podemos começar a seleção.

         Dumbledore se sentou e logo todos os alunos começaram a conversar, ou retomando os assuntos anteriores, ou falando agora de Katie, por acharem estranho uma aluna nova entrar direto para o quinto ano.

         O chapéu cantou sua música como de costume e estava pronto para receber os alunos. McGonagall achou melhor chamar Katie primeiro, e grande parte dos cochichos parou quando a viram sentar no banquinho, a maioria masculinos, que comentavam a beleza e a simplicidade da aluna nova. Ela procurou rapidamente por Snape, e o localizou na mesa da Sonserina, observando a tudo levemente interessado. Ela estava um pouco assustada com tudo aquilo, e quase pulou quando ouviu o chapéu cochichar em seu ouvido.

         - Grande dúvida vejo em sua mente, garota. Acabou de chegar a este mundo e ainda não sabe bem o que é melhor, mas torce para ficar no local mais conveniente para sua missão. Acho muito arriscado, porém, colocar-te na mesma casa dele. Provavelmente se daria melhor em seu oposto, devido sua persistência em cumprir seu objetivo, e não medir esforços para consegui-lo. Grande qualidade Sonserina, mas devo dizer que ficará melhor em... GRIFINÓRIA!

         A mesa do leão vibrou com vontade. Muitos alunos se levantaram para receber a nova aluna, enquanto McGonagall batia palmas discretamente e Scop dava um suspiro de derrota. Katie se dirigiu até a mesa, olhando de esgueira para observar Snape, e percebeu tristemente que ele parara de olhar na direção dela, provavelmente meramente desapontado pelo resultado do chapéu.

         - Srta. Witter, eu sou Remo Lupin, monitor da Grifinória. Se tiver qualquer dúvida sobre o castelo pode me chamar, e também pode perguntar qualquer coisa sobre as matérias, posso ajudar no que for preciso – disse um garoto de cabelos castanhos claro e bem simpático, que beijou a mão de Katie de modo cortês.

         - É um prazer te conhecer, Remo. Gostaria apenas que não me chamasse de Witter – Katie disse com um sorriso.

         - Hum, sinto cheiro de amor no ar! Remo, já quer externar seus conhecimentos para a moça? – zombou um garoto que estava próximo a ele. Tinha cabelos negros, olhos claros e um ar sexy e maroto.

         Remo corou. Os outros garotos que estavam por perto riram com gosto;

         - Sirius, assim você deixa o coitado corado! Quando ele finalmente toma a iniciativa você quer cortar o barato dele? – continuou o outro, que também tinha cabelos negros, mas indisciplinados e usava óculos.

         - Tiago! Sirius! – repreendeu Remo, mais vermelho que um tomate. Katie também ficara levemente envergonhada.

         - Estamos só brincando – disse o primeiro animado. – Sou Sirius Black, srta.

         - Eu me chamo Tiago Potter – disse o segundo.

         - E eu Pedro Pettigrew – finalizou o terceiro, que apenas rira dos outros dois. Era gorducho e parecia se esconder nos outros dois.

         - É um prazer conhecer todos. Peço apenas que me chamem só de Katie.

         Todos assentiram com um sonoro ‘sim’. Remo, ainda corado, ofereceu um lugar para a garota se sentar e, quando ela estava passando por ele, ainda o ouviu sussurrar, para os amigos não ouvirem.

         - De qualquer jeito, a ajuda ainda está de pé.

         - Obrigada.

         Katie agradecera apenas com o movimento dos lábios, e dera um sorriso em seguida. Sentou-se no banco e tentou assistir ao resto da seleção, mas sem muito sucesso. Os rapazes começaram a bombardeá-la com perguntas de todo o tipo, e seria uma proeza se conseguisse manter a concentração.

         - O que aconteceu para você vir para a Grã-Bretanha?

         - Como era o ensino na sua escola?

         - Qual era o nome da sua escola?

         - Bem, vim para a Grã-Bretanha por causa da morte dos meus pais, o ensino era basicamente teórico e o nome era Escola de Magia das Américas, filial Norte-Americana – respondeu Katie passivamente, tentando não se exaltar com a aglomeração.

         - Teórico? – Sirius fez uma careta – E como é que vocês aprendiam os feitiços?

         - Os feitiços na prática eram apenas aprendidos nos últimos anos, mas não cheguei a aprender muita coisa no período em que vim para o país.

         - Era proibido usar magia lá? – perguntou Pedro, seus olhinhos miúdos brilhando.

         - Para os novatos, sim. A partir do quinto ano eu poderia comprar uma varinha, mas não cheguei a cursá-lo, então...

         Katie gostaria de rir daquele momento. Como a mente de Dumbledore era engenhosa! Criara uma história completa para que pudesse enganar e fascinar seus colegas, e ela estava funcionando perfeitamente, visto as caras de espanto e interesse dos alunos grifinórios. Era engraçado analisar as expressões de cada um. Pedro parecia fascinado, quase babava. Tiago estava inconformado pela impossibilidade de utilizar a varinha até o presente momento, mas parecia muito interessado em saber se os conhecimentos dela eram maiores do que os deles, mesmo que apenas na teoria. Sirius tinha uma leve expressão de desdém, aliás, Katie notara algo diferenciado nele desde o começo, mas não conseguia identificar o quê. Remo estava interessado em ter uma conversa mais aprofundada sobre o assunto, mas estava um pouco sem jeito para começar a conversa.

         - Você já aprendeu na teoria os feitiços proibidos? – perguntou Sirius, em uma pergunta que parecia displicente, mas na realidade ele procurava saber algo mais.

         E aparentemente conseguira o que queria. Katie ficara sem ação por alguns segundos, chocada pela pergunta, e sem ter uma idéia do que responder. Nunca foram mencionados os feitiços proibidos em suas aulas, sem contar algumas de DCAT, mas nada muito profundo... Teria de inventar algo por si só, e já tinha algo em mente...

         - Acho que os feitiços proibidos não deveriam ser ensinados aos alunos, principalmente àqueles que têm uma queda para o lado obscuro.

         - Então não poderíamos nem pensar no Snape – cochichou Tiago para Sirius.

         A conversa foi interrompida por Dumbledore, que anunciou o banquete e logo as comidas surgiram nos pratos à volta de todos.

         - Wow, que surpreendente! – exclamou Katie baixinho, surpresa com o aparecimento das comidas.

         - Você não sabia? As comidas são preparadas por centenas de elfos, às vezes damos uma passadinha por lá para surrupiar alguns doces – comentou Tiago preguiçosamente, servindo-se de uma substância verde.

         - Tiago... – Remo disse em tom de aviso.

         - Desculpe! Esquecemos que não podemos falar em descumprir as regras na presença de nosso estimado monitor! – troçou Sirius, dando um tapinha no ombro de Remo.

         A conversa foi animada em todo o jantar, inclusive na sobremesa. Tiago e Sirius faziam todo o tipo de brincadeira, principalmente quando uma garota de cabelos acaju estava por perto, sempre querendo se exibir. Pedro ria freneticamente de tudo o que eles faziam, e Remo contentava-se em tentar uma conversa mais instrutiva com Katie.

         Após o jantar, Remo teve de ensinar o caminho até o Salão Comunal para os mais novos, e Katie foi ao lado dele, tentando memorizar tudo.

         - Temos apenas esse caminho até a torre?

         - Não, não. Esse é apenas o mais fácil, pois as escadas não mudam muito de posição, mas tenho certeza que você irá descobrir muitas outras passagens secretas e atalhos – explicou Remo com um sorriso tímido.

         - Coincidentemente você conhece todas, certo? – alfinetou a garota em tom brincalhão.

         - Sim... – respondera ficando vermelho.

         Katie deu uma pequena risada, fazendo Remo relaxar um pouco. Ele terminou de mostrar tudo para os novatos e os deu a senha. Eles foram correndo para aproveitar o Salão, mas não sem antes receberem as últimas instruções do novo monitor.

         - Você é muito bom monitor, sabia? Explica as coisas de um modo amigável, quase carinhoso, mas que ao mesmo tempo mostra o quanto você sabe das coisas – elogiou Katie meio inconsciente, sem notar que deixara Remo vermelho.

         - Obrigado...

         - Ei, o que você fez com o Remo?

         Os outros três se aproximaram, e notaram instantaneamente a vergonha do amigo. Quem lançara o comentário fora Sirius, que começara a balançar sua mão na frente de Remo.

         - Apenas o elogiei pelo trabalho de monitor – ela deu de ombros.

         - Venha Katie, vamos apresentar o resto dos alunos do 5º ano – chamou Tiago, se aproximando de um grupo de garotas e mais um garoto.

         - Esses são Frank Longbotton, Lílian Evans, Michelle Livians, Alice Spring e Deborah Brown – apresentou Tiago, apontando para cada um conforme o nome.

         - Oi Katie, prazer – disseram em coro.

         - É um prazer conhecer vocês – ela disse envergonhada.

         Os alunos do quinto ano ficaram conversando até tarde sobre os mais diversos assuntos. Katie sentiu uma grande surpresa por uma recepção tão calorosa, e achou seriamente que o Salão Comunal ajudava discretamente nisso. Sentiu-se bem confortável ali, e torcia imensamente para que conseguisse ter uma boa impressão também de Severo, embora tivesse trocado pouquíssimas palavras com ele.

         Por volta de meia-noite todos foram para seus respectivos dormitórios e Lílian, com quem Katie simpatizara mais, mostrou qual cama seria dela e como era o dormitório feminino. Katie tomou seu banho e se preparou para dormir. Contudo, não estava com um pingo de sono, sua cabeça estava muito confusa e cheia de pensamentos que não paravam de pipocar em sua mente. Naquele dia tivera muitas revelações, e acima de tudo, um estranho e crescente sentimento de solidão, que parecia querer sufocá-la até a morte. O que era estranho, pois nunca estivera tão rodeada de pessoas e nunca fora tratada com tanta simpatia.

         Aquilo estava realmente a incomodando. Era uma sensação terrível, que a consumia lentamente e fazia seu coração se apertar. Era mais do que podia agüentar. Mas não quis pensar muito no assunto, não naquela noite. Tinha de acordar cedo, suas aulas começariam em pouco tempo, e precisava ao menos estar de pé para assistir às aulas. Não queria decepcionar Dumbledore, ainda mais no primeiro dia de aula!

         Se esforçou para dormir, tentando afastar os inúmeros pensamentos que pareciam determinados a impedir que ao menos cochilasse.

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