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RPG na educação não é correção postural dos alunos

DivulgaçãoAqui não é lugar de brincadeira! Quem já não ouviu essa exclamação ao ser surpreendido pela professora enquanto brincava durante a aula, afinal, brincar de pega-pega entre as carteiras valia até detenção e um constrangedor bilhete para casa. Mas se o aluno se interessa mais pelo intervalo do que pela aula de História? Como fazer para que ele tenha interesse pela escola? Para muitos educadores a resposta é simples: trazendo a brincadeira dos pátios para o interior das salas de aula. Como? Você conhece RPG?

Não! Não estamos falando de "Reeducação Postural Global", um tratamento fisioterapêutico para desvios na coluna cuja sigla também é RPG, mas do famoso (vai dizer que você nunca tinha ouvido falar) jogo de interpretação de papéis, "Role Playing Game" para os íntimos da língua Inglesa. Basicamente, o RPG é um jogo onde os participantes encarnam papéis em uma história narrada por um dos jogadores (chamado pela alcunha de "Mestre").

Uma das analogias mais comuns para se explicar o que é esse jogo que muitos acham "coisa do demo" são aquelas férteis brincadeiras de infância do tipo "polícia e bandido", onde brincamos de "interpretar" outras pessoas em aventuras especialmente produzidas por nossas mentes criativas. A única diferença é que no RPG existem regras que definem o sucesso (ou o fracasso) de determinada ação executada pelo personagem-jogador, decidindo de maneira objetiva aquela velha disputa: quem atirou primeiro?

Embora não seja um fenômeno recente, o uso do RPG na educação vêm crescendo junto com o interesse dos educadores pelos benefícios do jogo: "Se percebermos que o RPG faz com que NATURALMENTE os seus praticantes sejam incentivados a ler, a pesquisar, a trabalhar em grupo em prol de um objetivo (ainda que virtual), veremos que a simples prática do RPG como entretenimento ou hobby atua no sentido de desenvolver a criatividade, a leitura, a escrita, a expressão verbal, a organização das idéias e do texto, a atuação dentro de um grupo, desenvolvendo as competências sociais e argumentativas, além de cultivar a imaginação e a fantasia, elementos que têm sido relegados apenas à infância, mas que deveriam fazer parte das nossas vidas adultas também. E isso se refere ao RPG sem NENHUMA intenção didática..." Diz Luiz Eduardo Ricon em entrevista que você confere na íntegra clicando aqui.

Além de mestrar palestras e workshops sobre RPG e educação, Ricon também é autor de RPGs, como o "Desafio dos Bandeirantes" e os "Mini-GURPS", uma série de suplementos - de grande valor educacional - que colocam os jogadores em contato direto com a História do país. Protagonizando aventuras como "Quilombo dos Palmares" e "Descobrimento do Brasil", sobre isso, Ricon comenta: "Se encararmos o RPG sob uma perspectiva educacional, veremos que ele pode ser uma ferramenta importante não para apenas 'transmitir' os conteúdos, mas para criar uma OUTRA relação do aluno com o conteúdo, uma relação de proximidade e intimidade, de pertencimento. Depois que você jogou umas aventuras no quilombo dos Palmares, lutou ao lado de zumbi e "viveu" aquele momento histórico em sua imaginação (e também na emoção), acredito que a relação que você, como aluno, poderia ter com o conteúdo se transforma".

Co-criador do RPG "Desafio dos Bandeirantes" (junto com Ricon e Flávio Andrade) Carlos Klimick, que também atua com RPG e educação, aponta para alguns tópicos básicos em seu trabalho publicado no site www.historias.interativas.nom.br, que fazem do jogo uma ótima ferramenta de ensino: socialização, cooperação, criatividade, interatividade e interdisciplinaridade. Primeiro, o RPG assume uma característica distinta dos outros jogos ao colocar os participantes numa aventura onde não há ganhadores, ou seja, não existe competição entre quem joga, uma vez que todos devem se socializar (um dos tópicos de Klimick) para que juntos possam cooperar (outro tópico) entre si. E só assim, vencer os desafios.

Toda a aventura é criada pelas contribuições criativas (mais um tópico) dos participantes, seja interagindo (olha aqui outro tópico) com a história, através da interpretação dos personagens-jogadores, seja bolando o enredo da trama (papel do mestre, que também assume todos os personagens não-jogadores que aparecem na narrativa).

Já a questão da interdisciplinaridade mostra que além de todas as contribuições usuais que o RPG pode trazer, ele ainda pode ser ministrado com conteúdos acadêmicos de várias disciplinas. Desde História, revivendo os acontecimentos, até noções de matemática, "obrigando", de forma divertida, os jogadores a realizarem contas para resolver os problemas propostos pela aventura. Imaginou? Descobrir que para impedir que seu personagem morra numa armadilha você precisa saber a fórmula de Báskara para desativá-la?

O interesse pelo uso do RPG na sala de aula já rendeu três simpósios de "RPG e Educação". Realizados pela associação cultural Ludus, os simpósios ajudam a ONG em seus debates sobre a utilização do RPG como ferramenta educativa. A ludus, inclusive, mantém um portal para a divulgação da prática do jogo de interpretação na escola, além de prestar orientação para os educadores, atentar para os benefícios do RPG como ferramenta pedagógica e como ele pode ser introduzido no ambiente da escola. Para maiores informações acesse: www.rpgeducacao.com.br.

Se em qualquer instituição de ensino você ver pessoas fantasiadas, ao redor de uma mesa, analisando uma infinidade de papéis e resultados, não se assuste. Eles estão apenas "encarnando" seus personagens de maneira divertida, e porque não dizer, bem educativa. Portanto, relaxe e entre no jogo, afinal, desde sua criação, o "Role Playing Game" vêm despertando nas mentes adultas todo o encantamento e a fantasia que, um dia, deixamos para trás naquela criança sonhadora que vivia se divertindo na escola, matando a soporífica aula e deixando a "tia" doida da vida.

Carlos Campos e Leandro Arouca

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