APÊNDICE                          

          Em 1000 anos-luz, a cosmonauta Sofia realiza uma viagem no tempo e no espaço, através de um buraco aberto num cantinho do Cosmos, um buraco-de-tatu. Na vida real (nós nos habituamos a considerar a literatura como algo fora da vida real...), haveria tais buracos? A natureza do Universo, da qual sabemos e saberemos sempre uma ínfima fração, é prodigiosa em princípios e mecanismos surpreendentes, e há muito pouco tempo uma parte da humanidade os considera tanto mais a sério, por assim dizer, a partir de estudos puramente físicos, materiais. Seria o Universo todo esburacado, cheio de túneis e galerias, como a terra fofa das hortas, habitada por minhocas? Seria possível viajar no tempo? E esse planeta 70 Virginis, existe?

          Vamos por partes. Para começar, falemos de coisas até bem simples (embora nada seja simples em demasia ou fácil de entender) a respeito das estrelas, como o nosso Sol, para em seguida pensar na viagem no tempo, no planeta 70 Virginis e depois – eu prometo! – falar do homem do mundo Vladimir Maiakovski, poeta de minha predileção. Veremos que a poesia e os humanos ocupam no Universo o lugar da própria matéria e da própria maravilha – embora nós humanos sejamos realmente insignificantes de tão pequenos, em relação às grandezas universais, e a poesia... bem, tratemos disso depois.

          Em primeiro lugar, há algo de fato extraordinário sobre as estrelas do céu: elas trabalham. Como as pessoas, elas nascem, se desenvolvem e morrem. E trabalham sem parar entre o nascimento e a morte.

          É que os interiores profundos das estrelas são como enormes fábricas de elementos químicos; usinas termonucleares naturais, onde a matéria velha se funde para formar matéria nova, ou para transformar matéria velha em matéria nova. Toda nossa vida é construída a partir dos elementos químicos da natureza, o carbono, o hidrogênio, o metano, o ferro, etc, etc.

          Por exemplo, o ar é formado por átomos de nitrogênio (N), oxigênio (O), carbono (C), hidrogênio (H) e argônio (Ar). A Terra é composta por átomos de silício (Si), oxigênio (O), alumínio (Al), magnésio (Mg) e ferro (Fe).

 

          Opa, peraí! Átomo??

 

          Os átomos comportam as estruturas fundamentais de que toda a matéria é formada; são tão pequenos que vários bilhões deles constituem o bico da caneta com que escrevo agora. Uma estrutura fundamental, que funciona como um sistema: um elétron, ou uma nuvem de elétrons, eletricamente carregada, de carga negativa, e o núcleo, composto de prótons, de carga positiva, e os nêutrons, de carga neutra. Os elétrons, ao redor do núcleo, determinam as propriedades químicas dos átomos: um átomo com 1 elétron ao redor do núcleo é um átomo de hidrogênio, o elemento químico mais abundante do Universo. Com 2, é um átomo de hélio. Com 3, é um átomo de lítio, o mais leve de todos os metais, usado para fazer remédios psiquiátricos, contra a depressão. Com 4, é um átomo de berílio, um metal cinza e muito leve, semelhante ao alumínio. Com 6, é um átomo de carbono, naturalmente encontrado em carvões minerais e vegetais, em diamantes, etc. Com 8, é um átomo de oxigênio, um dos elementos do ar. Com 14, é um átomo de silício, elemento duríssimo, mas não um metal, encontrado em 28% da crosta terrestre, como um grosso pó castanho, ou como um volume cinza-preto. Com 35, é um átomo de bromo, o metal líquido utilizado no nível de pedreiro. Com 79, é um átomo de ouro. E assim por diante até o átomo de 92 elétrons (número atômico 92), o mais pesado elemento encontrado na natureza – embora a atual classificação dos elementos químicos vá o elemento de 103 elétrons ao redor do núcleo, o laurêncio (para ler um apêndice só sobre os átomos, sua classificação e seu espantoso poder, vejam o livro décimo desta coleção, O homem de Abdera).

          Pois bem, nosso universo é 99% constituído de hidrogênio e hélio – no espaço aberto interplanetário ou interestelar, os átomos de hidrogênio ocupam, individualmente, 10 centímetros cúbicos, o volume de uma uva. Mas se o Universo é principalmente hidrogênio e hélio, como surgem os outros elementos químicos? Dá-lhe, é aí que entram as estrelas!

 

          Para transformar um elemento em outro, bastaria “cortar” o elétron? Vejamos:

 

          Um átomo de hidrogênio, com 1 elétron ao redor do núcleo (ou seja, número atômico 1), está lá, tranqüilo e calmo. Então chega alguém, digamos um pirata dez bilhões de vezes menor que uma formiga, desembainha a espada, e zumpt!, corta o elétron ao meio, e logo em seguida as duas metades em 2. O átomo, surpreso, ofendido, verá seu elétron original partido em 4 pedaços – é agora um átomo de 4 elétrons, um átomo de berílio. Não contente, o assanhado pirata aperta bem os olhinhos, maneja rápido a espada, e zapt! Num único corte em linha reta, parte os 4 elétrons ao meio, e obtém-se daí um átomo de oxigênio, 8 elétrons. Então, cheio de astúcia, o piratinha ajeita a espada, respira fundo, e zapt, zumpt, zipt, zept... obtém 79 elétrons – um átomo de ouro! E o pirata, orgulhoso, rindo-se satisfeito, sai exibindo seu manto do mais nobre metal...

          Para ser franco, essa brincadeira do piratinha cortando o elétron não corresponde bem à realidade, mas serve para dar uma idéia. Aqui, o elétron não se fragmenta. Acontece que os átomos se fundem, de maneira que os elétrons que sobreponham em camadas, na nuvem ao redor do núcleo – que se funde também, e mesmo principalmente, havendo núcleos diferentes para cada elemento. E tal coisa só é possível e pressões e temperatura altíssimas.

 

          Na natureza, esse tipo de fenômeno, chamado fusão nuclear, só é possível no interior das estrelas.

          17 bilhões e 999 milhões de anos atrás (aproximadamente), as primeiras estrelas se formaram exclusivamente a partir do hidrogênio e um pouquinho de hélio. Para que uma grande massa de energia se forme, de maneira a realizar a fusão nuclear, ou de modo a esboçar este processo, o centro estelar precisa atingir uma temperatura mínima de 1.000.000 C º. Concentrado o material atômico, e atingida a temperatura mínima, têm início as reações termonucleares: no centro da estrela, as imensas pressões, mais a física do calor, fazem com que as estruturas atômicas se encontrem, e 4 núcleos de hidrogênio se fundem para dar 1 núcleo de hélio, e mais energia.

          Como as estrelas se constituem graças à contração de uma nuvem de gás e poeira no espaço aberto, e como é necessária certa estabilidade para que as condições imprescindíveis às reações termonucleares tenham vez, um marco da construção estelar é o seu “fechamento”; a estrela já possui um tamanho e pressões estáveis, e assim, em seu interior, a física dos átomos possa operar em paz, fundindo os elementos e gerando mais energia. Mas como os recursos naturais da Terra, o combustível da estrela (ela processa hidrogênio em hélio) não é infinito: um dia, esse combustível acabará. Assim, ao ponto máximo do consumo, a estrela explodirá. As existências das estrelas durariam entre 10 milhões e 10 bilhões de anos, dependeria da massa total da estrela em questão.

 

          Nosso Sol processa mais ou menos 400 milhões de toneladas de hidrogênio em hélio a cada segundo. Tem estado estável pelos últimos 5 bilhões de anos (sua idade atual), e permanecerá assim pelos próximos 4, 5 ou 6 bilhões de anos. Até que o hélio de esgote, e a zona de fusão do hidrogênio vá parar nas mais altas camadas da esfera solar. Em seguida, a gravidade do Sol forçará uma nova concentração de seu interior cheio de hélio, e a temperatura e as pressões profundas vão se elevar. A altíssimas pressões, os núcleos de hélio se comprimirão ainda mais. Então o Sol passará a processar carbono e oxigênio, seus combustíveis novos, quando sua imensa agonia mortal estiver começando.

          As reações termonucleares do hidrogênio ao hélio super compactado e deste ao carbono e ao oxigênio, atestam já que o Sol vai se expandir, tornando-se uma estrela gigante vermelha. A esfera solar inflando como um balão: conforme se expanda,  engolirá os planetas Mercúrio, Vênus e Terra. Pela perda de gravidade, graças à expansão, o Sol lançará ao espaço a maior parte de seu material estelar, num tipo de rajada cósmica, banhando de luz ultravioleta o Sistema Solar inteiro, ejetando fragmentos difusos de seu corpo monumental. E embora se expanda e se contraia durante alguns milhares de anos, o Sol por fim será uma pequenina estrela branca, rodeada pela nuvem fina que vai sobrar do Sistema Solar, como uma bolha de sabão sinceramente grande, até que finalmente se torne uma estrela preta, fria, com poucos quilômetros de diâmetro. A fase da expansão, envolvendo o maior brilho estelar e as seguintes contrações, é chamada supernova. A “bolha de sabão” em volta da estrelinha anã branca é uma nebulosa planetária. A estrela escura e fria, no último estágio da evolução de uma estrela como o Sol, é uma anã preta.

          Mas nem todas as supernovas resultam em estrelas brancas, que esfriam e escurecem. Algumas viram estrelas de quarks, outras se transformam em estrelas de nêutrons, os incríveis pulsares (também aqui é preciso recomendar O homem de Abdera, livro décimo desta coleção).

          Pois era justamente aí que eu queria chegar, bati esse papo todo sobre as estrelas e sua profissão para falar dos buracos à solta no Universo – pensaram que eu tinha esquecido, hein?

 

          Se uma estrela com a massa do Sol, após a supernova, se contrai a poucos quilômetros de diâmetro, que destino teria, após o mesmo processo, uma estrela 40, 50, ou mesmo 200 ou 300 vezes mais massiva que o Sol?

          Primeiro, uma estrela assim viveria bem menos tempo que o Sol. Por ser muito maior, por ter um corpo muitíssimo mais “gordo” para alimentar de energia pura, uma estrela gigante consumirá seu combustível nuclear mais rápido que uma estrela média como o Sol. E por ter pressões e temperatura sensivelmente maiores, a sua contração final, após o esgotamento, se dará de uma maneira tão violenta, mas tão intensamente violenta, que, no ponto de encontro, por assim dizer, de sua massa contraída, forma-se um buraco, um buraco no tempo e no espaço, um buraco negro. A contração é tão braba e tão cheia de energia, que é preciso que se abra algo como uma válvula de escape, possivelmente para fora do nosso Universo, ou para fora do local do Universo onde a contração final da gigante aconteceu.

          Imaginem este Universo como uma folha de borracha, suspensa como um tampo de mesa, sem nada embaixo. Alguém joga um grão de arroz sobre a folha de borracha, e nada acontece. Aí a pessoa joga um grão de feijão, e também nada acontece. Depois um caroço de azeitona, e nada. Até que, finalmente, já meio sem paciência, a pessoa deixa cair, sobre a folha, uma bola de aço, vejamos, do tamanho de um pêssego. Já podemos predizer o que acontece: forma-se uma depressão onde está a bola de aço, além de um ligeiro arredondamento nas bordas, nas extremidades. Também não é a melhor idéia sobre a física do buraco negro, mas agora como anteriormente, no caso do pirata minúsculo, serve para dar uma idéia.

          O buraco negro, no espaço, resulta de uma supernova gigantesca, mas ao preservar o campo de força original, e por deformar o espaço imediatamente ao redor, mantém um campo gravitacional de tal sorte poderoso, que sequer a luz pode escapar dele. Por isso o buraco é intensamente escuro, negríssimo a poucos quilômetros de distância: ele “engole” mesmo as partículas de luz, que se movimentam em ondas: as mais velozes do Universo (tomo uma vez mais licença para recomendar O homem de Abdera).

          Será que os buracos negros são túneis de acesso naturalmente abertos no espaço, que poderiam nos levar, se encontrássemos um meio de viajar dentro dele, a outros locais do Universo, como um atalho? Ou quem sabe a outros Universos? Será que poderíamos viajar no tempo, para um futuro remoto, em poucas horas medidas por um relógio a bordo da nave? Feita a viagem, conseguiríamos retornar?

          É certo que qualquer artefato depositado na boca de um buraco negro seria despedaçado rapidamente, após ser esticado como um belo fio de espaguete. Mas se o buraco negro nos levasse a um local universalmente oposto, encontrada uma maneira segura de navegar por ele, o que aconteceria? Há uma especulação segundo a qual o referido buraco seria o portal de entrada do paralelo-oposto: nós (ou o imponderável contrário de nós...) despontaríamos na extremidade de um buraco branco, num espaço cósmico, ou num anti-espaço cósmico branco, salpicado de estrelas de luz – ou antiluz – escura, entre o marrom e o preto... essas especulações em torno do buraco negro são um tremendo barato, vocês não acham?

          Há também uma suposição bastante citada pelo físico russo-americano Issac Asimov, que escreveu muitos livros de ficção científica e divulgação da ciência, segundo a qual haveria buracos negros pequenos, alguns tão pequenos quanto um átomo, não como resultado das maiores supernovas, mas como uma anomalia da própria matéria. Esses buracos negros, se existirem, serão mais “mansos”, justamente por serem menores? Naves pequenas, criadas pela nanotecnologia (a tecnologia dos artefatos muito pequenos), talvez pudessem viajar dentro de um buraco assim. Seja lá como for, seria preciso primeiro identificar um desses “buraquinhos”. Até lá, será uma maravilhosa idéia, como inúmeras outras.

 

          Contudo, em 1000 anos-luz, a cosmonauta Sofia não caiu num buraco negro, mas num buraco-de-tatu: algo semelhante a um buraco negro, mas artificial, esmeradamente construído para possibilitar as longuíssimas viagens interestelares, intergalácticas ou mesmo interuniversais, sem esmagar nem esticar ninguém. Como, artificial?!

          Exatamente, construído ali por alguém, com um notável conhecimento em engenharia nuclear e subnuclear, um igual conhecimento em física teórica e em matemática, talvez totalmente desenvolvido, e uma história científica longa o suficiente para acumular tais conhecimentos, além da mais ampla destreza em astronáutica. Alguém assim precisaria, no mínimo, conhecer detalhadamente imensas regiões do espaço interestelar, para estabelecer as entradas e as saídas do buraco-de-tatu.

          Há um livro do astrônomo russo-americano Carl Sagan, de quem todos nós que curtimos ciência sempre gostamos muitíssimo, chamado Contato, uma beleza de ficção científica – e que virou filme, Judie Foster é a atriz principal, que além de mui formosa está ótima no papel. Na história de Carl Sagan, uns astrônomos captam uma mensagem de rádio enviada por uma desenvolvida civilização extraterrestre, proveniente da estrela Vega, a 26 anos-luz da Terra. Decifrada a mensagem, os cientistas passam à execução de um plano: a radiomensagem dos “veganos” contém uma série de esquemas técnicos da construção de uma máquina, que haveria de ser ocupada por um único tripulante humano, como uma pequena nave. Até que a máquina se construísse, e a personagem central do romance, e a mulher de ciência Eleanor Arroway, fizesse uma espetacular viagem no espaço e no tempo, mergulhando num buraco-de-tatu, fizesse uma espetacular viagem no espaço e no tempo, mergulhando no buraco-de-tatumansagem, os cientistasto pequenos, mais que aberto não no espaço sideral, mas na Terra mesmo, no local de construção da máquina.

          Não vou dizer que me inspirei na história contada por Carl Sagan para escrever e desenhar 1000 anos-luz (eu juro que qualquer possível semelhança entre a ilustração da página 16 e a atriz Judie Foster é uma baita coincidência!), mas é claro que pensei às pampas no romance e no filme, conforme a história fosse se formando nesta morena cabeçorra, com o mesmo carinho e doce admiração que tenho por todas as obras do autor. Agora, se vocês me dão licença, vou cometer uma pequena molecagem, previamente justificada. Confesso, sem contragosto nenhum, que seria totalmente incapaz de fazer um comentário científico bom a respeito do buraco-se-tatu, de modo a satisfazer a vocês como a mim. Quem quiser obter o referido comentário, a descrição primorosamente feita, leia o romance Contato e veja também o filme, que de qualquer modo merece ser visto.

 

          Quanto a 70 Virginis, o planeta existe sim. Trata-se de um mundo 59 anos-luz distante de nós, com mais de mil vezes a massa da Terra, o único conhecido planeta do sistema 70 Virgo – as palavras latinas Virgo e Virginis são consideradas sinônimas pelos estudiosos que escrevem enciclopédias. Não se trata de um planeta pequeno, formado de desertos ou de qualquer outro material, mas um mundo gasoso e imenso, como Júpiter e Saturno. Não está, claro, a 1000 anos-luz de distância, razão pela qual devo agora confessar uma segunda molecagem: eu pus o planeta a exatos 1000 anos-luz de mim mesmo, para justificar o título do livro, e muito especialmente por causa do nome Virginis, por me fazer lembrar certa pessoa que conheci.

          Gostei de imaginar 70 Virginis um mundo em alguns aspectos semelhante a Marte, só que de ouro (e não principalmente de óxidos de ferro, razão de ser da cor vermelha dos desertos marcianos), rico em petróleo, e salpicado de algas de solo pequeninas, com as quais é possível fazer pão. E habitado por uns robozões projetados na Terra, e por certo cidadão Vladimir Maiakovski.

 

          Sim, Vladimir Maiakovski! Conforme o combinado, digo a vocês que Maiakovski foi um poeta, desenhista artístico e industrial, homem de teatro e publicitário russo, que nasceu em 1893 e morreu em 1930, numa manhã da azul-cinzenta primavera da capital Moscou. Uma das pérolas da música brasileira é uma canção de uma peça de teatro sua, chamada O Percevejo; a versão do poema foi feita por Caetano Veloso e Ney Costa Santos, a partir de uma tradução do erudito russo-brasileiro Boris Schneiderman. Nesse poema, O Amor, de 1923, o autor pede aos químicos do século 30 que o ressuscitem, o poeta quer viver! Trata-se na verdade de um longuíssimo poema originalmente chamado Sobre Isto (escrito para sua namorada Lili Brik, entre as mais lindas damas de todas as Rússias). Circula entre nós sob o título da música, no mais das vezes na voz de Gal Costa. Conheci Maiakovski, quando garoto, graças à canção. Com vocês, O Amor:

 

“Talvez, quem sabe, um dia

Por uma alameda do zoológico

Ela também chegará

 

Ela que também amava os animais

Aparecerá sorridente assim como está

Na foto sobre a mesa

 

Ela é tão bonita

Ela é tão bonita

Que eles na certa a ressuscitarão

 

O século trinta vencerá

O coração destroçado já

Pelas mesquinharias

 

Agora vamos alcançar

Tudo o que não pudemos amar

Na vida, com o estrelar das noites inumeráveis

 

Ressuscita-me, ainda que mais não seja

Porque sou poeta

E ansiava o futuro

 

Ressuscita-me, lutando contra as misérias

Do cotidiano

Ressuscita-me por isso

 

Ressuscita-me, quero acabar de viver o que me cabe

Minha vida

Para que não mais existam amores servis

 

Ressuscita-me para que ninguém mais tenha

Que sacrificar-se

Por uma casa, um buraco

 

Ressuscita-me para que a partir de hoje

A partir de hoje

A família se transforme

 

E o pai seja pelo menos o Universo

E a mãe seja no mínimo a Terra”

 

          Em 1000 anos-luz, há diversas citações de outros poemas de Maiakovski:

 

“Dizem que em alguma parte – parece

Que no Brasil – existe um homem feliz”

 

“Eu gostaria de viver e morrer em Paris

Se não houvesse esta terra: Moscou!”

 

“A extraordinária aventura vivida por

Mim, Vladimir Maiakovski...”.

 

          Este último um trecho do título de uma poesia famosa, no qual o autor narra o dia em que o Sol desceu dos céus para com ele ir tomar chá, numa casa de fazenda:

 

“BRILHAR PARA SEMPRE

BRILHAR COMO UM FAROL

BRILHAR COM BRILHO ETERNO

GENTE É PRA BRILHAR

QUE TUDO MAIS VÁ PRO INFERNO

ESSE É MEU SLOGAN

E O DO SOL!”

 

         Quanto ao Universo ser pelo menos o pai, e a mão no mínimo a Terra, contra todas as tristezas e mazelas da vida familiar, penso haver pouca coisa mais apropriada, em toda a poesia, de todos os tempos, ao desfecho deste desvalioso livrinho meu.

 

          Para terminar, quero fazer minhas as melhores súplicas de um dos meus heróis.

          Se alguma amorosa alma do século 30, seja homem ou robô, peço também eu que me ressuscite.

          Porque sou poeta, e ansiava o futuro...