APÊNDICE 

            O Universo, segundo os adeptos da antiga religião chamada hinduísmo, é o produto do sonho de um deus, Shiva. Enquanto dorme, Shiva sonha o Cosmos e tudo que há nele; no sono de bilhões de anos, teríamos a nossa gênese. Até que Shiva acorde, e o Universo termine, se dilua em sensações antes do despertar. Mas Shiva adormecerá novamente, e outro Universo, outro sonho amorosamente geral, terá início. Entre os dias e as noites de Shiva, o Universo nasce e morre incontáveis vezes, no curso de sua vida eterna. Essa visão do Cosmos pode não ser verdadeira, mas é extremamente bela. E pode mesmo, de certa forma, corresponder à realidade: para muitos cientistas que estudam a estrutura e o desenvolvimento universais (os cosmólogos), é provável que este nosso Universo, após um período de expansão de muitos bilhões ou trilhões de anos, passe a se contrair, de maneira que o próprio tempo voltasse para trás. Outros consideram que a expansão continue indefinidamente, sendo muita incrementada, de período em período, por concentrações de matéria e energia que resultariam em grandes explosões, como o Big Bang de 18 bilhões de anos atrás (a idade de nossa realidade física), de modo que a matéria existente se transforme ou se enriqueça noutra matéria sob outras condições, ampliar-se-iam muitíssimo as próprias fronteiras cósmicas, e assim o Universo jamais de “fecharia”. Mas todos os cosmólogos concordam que há vários Universos paralelos ao nosso, em muitas outras dimensões da realidade física, quase todos completamente diferentes do nosso, onde até mesmo a Matemática, tal como a concebemos, perderia o sentido. E esta noção extraordinária: em diversos Universos paralelos, um duplo seu, uma pessoa que não é você, mas tem todas as suas recordações e pensamentos, pode estar lendo agora este livro, escrito por um duplo de mim, numa dupla Terra, onde se dão agora uma dupla guerra e algum grande duplo empreendimento artístico e científico, com suas duplas esperanças e temores. Teríamos inumeráveis irmãos gêmeos, espalhados pela Realidade imensamente mais ampla que a de nosso simples Universo de galáxias, átomos e espaços vazios. Mas a vida é mesmo mágica. Cada homem e cada mulher é habitante desse Todo verdadeiro, inimaginavelmente grande, até um pouco assustador

          Em O Colosso de Pégasus, brincamos com a viagem espacial, interplanetária, interestelar. Ocorre que temos sido sempre, nós seres vivos da Terra, verdadeiros viajantes espaciais. A cada ano, a Terra faz sua revolução ao redor do amado Sol, a 150 milhões de quilômetros, de maneira que somos levados a cobrir anualmente 300 milhões de quilômetros no espaço, em órbita. A cada 250 milhões de anos, completa-se o ano galáctico, a revolução do Sol ao redor do centro da Via Láctea, a 30 mil anos-luz de distância. Todo o Sistema Solar viaja, realiza um “vôo” aos espaços de outras estrelas, que se movimentam também; viajam o Sistema Solar e seus habitantes humanos, até agora moradores da pequena Terra. Do céu noturno de um planeta distante, o Sol será somente uma estrela diminuta entre tantas outras, e próximos a ela, totalmente invisíveis, estaremos, estamos nós. Afixamos assim a nossa residência celestial. A Via Láctea, a galáxia onde se encontra o Sol, igualmente se movimenta: como o Universo inteiro se expande, as galáxias estão constantemente se separando entre si, deslocando-se umas em oposição às outras. Antevemos então, sem jamais poder presencia-lo, o mesmo “vôo” de nosso mundo pelos espaços intergalácticos. Não cessaremos nunca de viajar. Encontraremos talvez um sentido mais amplo e mais real da viagem à medida que melhorem os feitos e se incrementem as promessas acerca das naves espaciais. Um dia, quem sabe, a viagem em naves espaciais estará à disposição do cidadão comum, como hoje está o ingresso em aviões de ponta a ponta do planeta, alguns tão rápidos quanto o som – embora, ainda, seja necessário ter muito dinheiro para pagar uma viagem de avião.

          E então, do verde Brasil, de sua região Nordeste, lá do Estado do Maranhão, da base de lançamentos de Alcântara, parte aos céus o foguete VLS 1, tripulado pela intrépida cosmonauta Sofia, sempre a bordo de meu coração. Mas como, um foguete brasileiro? O Brasil é capaz de fabricar e lançar naves espaciais?? Essa história começou há mais de vinte anos.

          A Força Aérea Brasileira possui uma das melhores escolas de engenharia de foguetes e satélites do mundo, o Instituto de Tecnologia Aeroespacial, ITA. Entre os anos 1975-1980, os cientistas e técnicos do ITA bolaram um foguete para ser feito no Brasil, chamado VLS, Veículo Lançador de Satélites. Um foguete que poria em órbita satélites de estudos meteorológicos, ambientais e de reconhecimento terrestre. De lá para cá, muito dinheiro foi gasto em pesquisas, mais ou menos 280 milhões de dólares (a gente tem essa mania de contabilizar tudo em dólares...), e foi empregada a melhor mão de obra na construção de protótipos e da base de lançamentos, em Alcântara.  Após o fim do governo militar (nosso país foi governado por militares e civis milionários entre 1964 e 1985), a nação passou a interessar-se mais pelo VLS e por todo o programa espacial brasileiro, uma vez que passaram a circular mais livremente as notícias e opiniões sobre o assunto. Até que, em 1997, fez-se o primeiro vôo-teste do VLS 1, que explodiu no ar. Felizmente, ninguém se machucou.   O segundo vôo-teste, VLS 2, em 1999, também deu em nada: o foguete foi destruído, sem grandes pompas. E no dia 22 de agosto de 2003, uma explosão num dos propulsores do VLS 3, dois dias antes do lançamento, matou 21 dos melhores patriotas brasileiros, cientistas ou técnicos quase todos formados pelo ITA e pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, de São José dos Campos), homens e mulheres de valor, que contra todas as dificuldades empenharam seus conhecimentos no sucesso do nosso programa espacial. Foram tão dispendiosos os três fracassos, que o Estado brasileiro demorará 15 anos para repor as perdas em dinheiro e apontamentos técnicos.

          Bem, o governo dos Estados Unidos da América, lá no Norte do continente, muito bem protegido em sua Casa Branca e em seu Pentágono, sempre boicotou o programa espacial brasileiro. Diziam, como dizem ainda, que o Brasil não é um país “confiável”; que o VLS poderia ser usado para fins não-pacíficos (logo eles que gostam tanto de guerra), e que, de qualquer maneira, não estaríamos aptos a realizar vôos espaciais, por sermos inferiores a eles em questões de apreciação científica e tecnológica, como em todas as outras questões. Os Estados Unidos sempre se recusaram a vender peças para foguetes ao Brasil, bem como trataram sempre de ridicularizar nossos arrojados projetos em tecnologia de ponta, quando não podiam simplesmente ignora-los. E estiveram, ao longo do século 20, como estão agora, empenhados em dirigir grandes guerras ou conflitos de vulto mundial, como a Guerra Fria (contra a União Soviética, até 1990) ou a suposta guerra “ao terrorismo”, ora contra os povos do mundo, em particular os do Oriente Médio, onde se encontra o Iraque, para obter petróleo e manter seu poder político. Por essas razões, muitos brasileiros menos medrosos consideram os três fracassos do VLS como o produto de uma sabotagem, forçosamente orquestrada pelo governo dos Estados Unidos. Mas não é possível afirmar nada. Para que disséssemos com certeza se o VLS tem sido ou não violentamente sabotado pelos estadunidenses, seria preciso uma larga investigação, prolongada e minuciosa, divulgada no Brasil e no mundo a todo vapor, buscando descobrir e punir os cruéis inimigos, se existirem. Curiosamente, tal investigação nunca foi feita. E mais curiosamente ainda, o governo estadunidense quer porque quer meter as mãos justamente em Alcântara, no Maranhão, para construir ali uma base militar sua, como as que existem na Colômbia, na Argentina, na Terra do Fogo, na Turquia, na Arábia Saudita, no Afeganistão, no Iraque... O atual governo brasileiro (2005) tem-se recusado a negociar a entrega de Alcântara ao Exército dos Estados Unidos, mas nem por isso os EUA (Estados Unidos da América) deixaram de lado suas intenções. Ao contrário, eles têm a tomada de Alcântara como uma das partes dos acordos relativos à entrada do Brasil na ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), e sem dúvida tentarão alcançar seus objetivos das mais variadas formas.

          Seja lá como for, em O Colosso de Pégasus, o VLS não só é um baita sucesso, como faz muito mais que pôr em órbita terrestre um satélite: é capaz de promover a viagem interestelar a velocidades impossíveis, lançando ao espaço uma cápsula rumo a outro planeta habitado,  pilotada por uma menina. Sim, a cosmonauta Sofia! Mas poxa, quem será Sofia? Será que ela existe de verdade?

          Deixem-me contar a vocês um caso engraçado citado por Monteiro Lobato, meu e nosso amigo mais velho, criador do Sítio do Pica-pau Amarelo. Ele dizia que, dentre todos os personagens do Sítio – Visconde de Sabugosa, Dona Benta, Tia Nastácia, Quindim, Marquês de Rabicó, Narizinho e Pedrinho, a Cuca, etc – , a que tinha com ele mais intimidade era mesmo a Emília, boneca de pano que se transformara em gente. Conta Monteiro Lobato que, muitas vezes sozinho, à máquina de escrever, era surpreendido por Emília em pessoa, a lhe fazer altas revelações e confidências incríveis, ou então lhe contava piadas novas, ou lhe ditava parágrafos inteiros. Certa vez perguntou à boneca-gente:

          “Afinal de contas, Emília, quem é você?”

          Ao que ela respondeu:

          “Ora, eu sou a Independência ou Morte!”

          O gozado da história é que Emília, segundo a justa interpretação dos que conhecem ou estudam o homem e sua obra, era o próprio Monteiro Lobato; ele se servia dela para dizer o que pensava.

          No caso de Sofia (reparem que eu, metido a besta, estou meio que me comparando a Monteiro Lobato, vejam se pode!), ocorre algo diferente. A menina Sofia existe sim na vida real, e é minha filha. Ela adora as estrelas, as plantas, os bichos, as pedras, as letras, as coisas. Se mereço felicidade, quero ser igual a ela, quando eu crescer. E minha doce Emília, como um presente desta vida radiosa pelo Cosmos, também surge repentinamente diante de mim, mesmo quando estamos longe um do outro, ditando os temas e as palavras dos meus livros.

           Ainda em relação ao VLS, não é possível deixar de dizer algo realmente problemático, uma questão que precisa ser resolvida. Antes da construção da base astronáutica de Alcântara, viviam lá grandes populações quilombolas, isto é, descendentes dos negros escravos que fugiam da opressão nas fazendas refugiando-se nos quilombos, comunidades livres criadas e governadas por eles, onde a própria terra era dividida fraternalmente entre os homens. O problema é que o Estado brasileiro, em nome do programa espacial e da “segurança” do país, vem tratando sempre essas populações quilombolas do modo mais autoritário e violento, expulsando-as de suas terras, para que se mantenham afastadas da base de lançamentos. É claro que há aí inclusive uma ponta de preconceito racial. Isso é tão cruel e miserável quanto a sabotagem dos inimigos contra o VLS, se de fato o VLS vem sendo sabotado. Contudo, acreditamos firmemente que um novo Brasil, ainda a ser construído pela população, será capaz de pedir polidamente aos quilombolas de Alcântara permissão às experiências astronáuticas em suas terras, e que a base de lançamento poderia oferecer aos quilombolas boas oportunidades de estudo, considerando que todo o povo se interessará por ciência e tecnologia como riqueza sua, e mesmo de lazer. Também seria necessariamente solicitado aos quilombolas que nos viessem nutrir as cabeças com suas histórias de bravura e libertação, em favor da nacionalidade, renovada. Do contrário, somos favoráveis à remoção da base de Alcântara, e que se restituam agora mesmo as terras tiradas daquelas famílias já expulsas das áreas próximas à base. Ou então que se indenizem as referidas famílias, após um acordo favorável a elas.

            Quanto ao planeta Pégsus 51 (51 Pegasi b), existe e fica a 42 anos-luz de distância da Terra, ao redor da estrela 51 Pegasi, muito semelhante ao Sol. Trata-se de um mundo extraordinário: está a apenas 7 milhões de quilômetros de sua estrela, seu ano dura só 4,2 dias terrestres. Para se ter uma idéia, Mercúrio, o primeiro planeta do Sistema Solar, tem uma distância média em relação ao Sol de 57 milhões de quilômetros, e seu ano dura 88 dias terrestres. E como Pégasus 51 é um enorme planeta gasoso (tanto recebe quanto gera certa energia), como Júpiter e Saturno, e dada a pequeníssima distância em relação à estrela, a temperatura equatorial da atmosfera está pouco abaixo ou pouco acima de 1300 Cº. Um mundo pouco promissor à vida, portanto. Eu o povoei de répteis obtusos e bonachões, habitantes de cidadezinhas de rocha suspensas no ar espesso, por ser 51 Pegasi b um marco na história da Astronomia: foi o primeiro planeta confirmado fora do Sistema Solar, anunciado em 1995 pelos astrônomos Michael Mayor e Denedier Queloz, que trabalham no Observatório de Genebra, na Suíça. Os pegasianos gostam de rádio, afinal, e demonstram simpatia por estes bichões complicados, os humanos, recém chegados na festa da Natureza.

 

(este apêndice continua em O Colosso de Pégasus, parte 2)