APÊNDICE 

 

“Se você descrever o mundo exatamente como ele é, em suas palavras haverá muitas mentiras e nenhuma verdade.”

Leão Tolstói

          Plutão é o nono planeta do Sistema Solar, longe à beça do Sol: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão. Está tão distante que não pode ser visto a olho nu. Mesmo com imensos telescópios é difícil discerni-lo: em 1915, o apaixonado astrônomo Percival Lowell já cogitava a existência do nono planeta, após muitas observações, mas a descoberta oficial só se deu em 1930 – pode ser que Lowell tenha tido alguns problemas de credibilidade, ao longo da vida, por causa de suas conjecturas erradas a respeito dos “canais” do planeta Marte: ele acreditou serem canais construídos por seres inteligentes, talvez bem semelhantes aos humanos, as longas manchas escuras no solo marciano; canais intrincados, retos e curvos, que transporiam as águas derretidas dos pólos às secas cidades equatoriais. O primeiro a fazer tais conjecturas, já em 1877, foi o astrônomo italiano Giovani Schiaparelli; deixou-se levar pelo tremendo erro de observação, certamente induzido, em grande parte, pelo desejo de detectar sinais claros da civilização extraterrestre, anunciando serem os “canali” os tais sinais, e logo possuíamos, nós homens da Terra, uns vizinhos sofisticados, mestres na arte da sobrevivência, quase visíveis à luneta. Sabe-se hoje, porém, que os “canais” não existem, nem marcianos capazes de construí-los. Outros tipos de marciano são outra história: pode haver microorganismos em Marte, atualmente vivos, ou mortos há milhões ou bilhões de anos, fossilizados como os dinossauros (fósseis de animais grandes também são uma possibilidade).

          De qualquer modo, o nome Plutão acabou sendo uma homenagem proposital a Lowell: as duas primeiras letras, Pl, são as iniciais do astrônomo. Pois Lowell, além de prestigiado observador e matemático de peso, é lembrado até hoje como um construtor da ciência, literalmente: em 1894, dirigiu a construção de seu próprio observatório, em sua cidade natal, Flagstaff, nos Estados Unidos – observatório construído especialmente para a procura do planeta transnetuniano... até que, em 1930, para felicidade de todos em Flagstaff, C. W. Tombaugh descobriu Plutão. Mas não foi fácil: para se certificar do nono planeta, Tombaugh precisou comparar as anotações do próprio Lowell, mais fotos tiradas em 1919, 1921 e 1927. Os astrônomos asseguram que sua ciência ensina a paciência.

 

          Plutão está tão longe que o Sol, visto de sua superfície mais fria que o interior de qualquer geladeira, é apenas um pontinho de luz brilhante. O ano plutoniano dura 248 anos terrestres: dois anos de Plutão preenchem, por exemplo, quase todos os 500 anos da história do Brasil durante e após a ocupação pelos portugueses, entre 1500 e 2000. 20 anos plutonianos equivalem a quase 5000 anos terrestres.

          Também os dias plutonianos são extremamente longos: duram 6 dias e 9 horas, se medidos pelos relógios dos observatórios astronômicos da Terra, ou considerando as medidas de tempo usadas naturalmente aqui. O nono planeta é tão pequeno e tão distante do Sol, e seus movimentos são tão particulares, que talvez somente pessoas aptas a viverem 20000 anos se sentissem satisfeitas por uma vida longa, considerando algum calendário de Plutão.

          A intervalos de aproximadamente 200 anos, Plutão se aproxima e se afasta do Sol, e da Terra, de maneira que os astrônomos daqui podem vê-lo melhor quando mais perto, e melhor ainda quando todo alinhado com a Terra – o que só ocorrerá, vejam só, entre os séculos 22 e 23 (não haverá, até lá, naves provenientes da Terra, tripuladas por humanos ou robôs, em Plutão e além?). Durante a aproximação, o planeta fica distante “apenas” 4 bilhões e 425 milhões de quilômetros do Sol, e assim Netuno, o oitavo planeta, fica mais longe que Plutão. Durante o afastamento, Plutão alcança 7 bilhões e 400 milhões de quilômetros, é até difícil imaginar uma lonjura dessas. Mas mesmo com todas essas diferenças entre a aproximação e o afastamento, o tamanho da órbita de Plutão (ou o raio da órbita) será sempre o mesmo, o período nunca durará menos de 248 anos terrestres (para ser exato, 247 anos e 249 dias). O planeta Netuno também, para citar um exemplo, e Marte, para citar outro: esses dois têm períodos de grande aproximação e grande afastamento do Sol. É assim porque as órbitas dos planetas não são perfeitamente circulares, como uma roda de bicicleta, mas elípticas, em forma de elipse, mais ou menos em forma de ovo.

        

          Xi, não entendi nada! Calma, a gente explica melhor.

 

          Para ter uma idéia da forma das órbitas planetárias, pegue um elastiquinho, desses de amarrar cabelo, e estique. Prenda-o em seus dois dedos indicadores, e vá afastando, devagar, um dedo do outro. Formará uma elipse.

          O pequeno Plutão possui um diâmetro máximo (medido do equador) de 4200 km – tem apenas 0,002 vezes a massa terrestre. É de fato bastante semelhante a certas luas do gigante Netuno (especialmente Tritão e Nereida, as maiores), o que faz crer a muitos astrônomos que Plutão foi uma lua netuniana que por alguma razão escapou da órbita original, passando a girar independentemente ao redor do Sol. Outros pensam que Plutão era um corpo errante, talvez de longe do Sistema Solar, que vinha passando por aqui e foi capturado pela atração gravitacional do Sol.

          A temperatura mínima em Plutão oscila em - 273 C º, é o zero absoluto. A zero absoluto, nenhuma reação química pode acontecer, nem o ar pode se movimentar, nem nenhuma propriedade do solo pode vir a sofrer alterações.

          O inverno plutoniano dura 80 anos. A quase 273 graus abaixo de zero, o finíssimo ar, principalmente de nitrogênio (N) e carbono (C) cai ao solo como uma poderosa nevasca, por anos e anos e anos a fio, de maneira que o chão rosado e cinza vai-se cobrindo de dunas de ar congelado – aqui e ali, a forma do solo sofre uma pequena mudança. Plutão possui um centro de rocha e ferro, sobre o qual há um manto de gelo de água, envolto por uma grossíssima camada de metano congelado, além de silicatos, derivados do silício (Si), e volumes quase pretos de carbono mineral. Há longos traços escuros no equador plutoniano, provavelmente desse material. No inverno, com a prolongada nevasca, o equador se torna um tiquinho mais azul e mais esbranquiçado. Na primavera, os gases leves começam a se aquecer, para que a neve de ar se dissipe. No verão, a evaporação dos gases “fecha” de novo a atmosfera rala, os fortíssimos ventos decorrentes dos encontros das massas de ar abraçam o pequeno mundo com seu sonoro sopro veranil, até que, no próximo ano, o inverno faça de novo o próprio ar cair ao chão. Pode haver também água na superfície de Plutão, como um gelo eterno. Há ainda uma relação entre o inverno e o período de afastamento, como entre o verão e a eventual proximidade, graças à natureza elíptica da órbita.

          Plutão possui uma extraordinária lua, Caronte, com quase a metade do tamanho do planeta, com características físicas semelhantes. Por isso, são um par único no Sistema Solar.

 

         Em O segredo da primavera, inventei habitantes para Plutão. Poxa, habitantes em Plutão? Quero contar essa história a vocês, é gozada – é até mesmo bonita, pelo menos para mim.

          No finalzinho do ano 2004, bolei a coleção planetários, meio por acaso, meio de brincadeira. Eu já tinha feito vários trabalhos como escritor, principalmente poesia e roteiros pequenos para teatro, e também traduções experimentais, como estudos meus, e havia um tempo queria fazer livros infantis, ou infanto-juvenis, de ficção científica: admiro todos os temas relacionados à ciência e gosto de desenhar, mesmo sem me considerar um grande conhecedor da arte do desenho (pra dizer bem a verdade, nem me acho desenhista). Aí, em casa, distraidamente ouvindo rádio, apanhei um lápis nº 2 e três de cor, desses aquareláveis, e fiz a ilustração da página 15: um homenzinho de gelo, pelo menos assim me pareceu pela cor azul, olhando o céu num telescópio maluquíssimo, um pouco semelhante a um ser vivo, um animal. Lembro-me bem da noite a que me refiro, quando este e os outros livros desta coleção começaram a nascer. Eu conversava ao telefone com meu camarada poeta Arildo Lima (ver Agradecimentos), e me pus a desenhar, como de costume, enquanto falava e ouvia – vocês também gostam de rabiscar, enquanto telefonam? Ao fim da conversa, os traços ali estavam. A rádio Cultura AM transmitia um especial de um cantor popular baiano de minha devoção, Elomar. O programa terminou, e estavam postas as cores.

          Até aí, não sabia de que planeta seria nativo meu pequeno astrônomo azul. Pensei em Júpiter, mas a literatura de ficção científica, infanto-juvenil ou adulta, já estava repleta de jupiterianos. De marcianos, então, nem se comenta. Por que não Europa, a lua oceânica de Júpiter? Ah, Arthur Clark já havia posto lá formas de vida dignas de serem preservadas (leiam 2010, o ano em que faremos contato). Considerei também Titã, a grande lua de Saturno, mas não, também andava falada demais.

          Eu lia pela décima vez, o último livro do astrônomo russo-americano Carl Sagan, Pálido Ponto Azul, onde há uma sensacional descrição dos sistemas de Urano e Netuno, além de muitas fotografias, e um comentário sobre o planeta transnetuniano, tão caprichosamente procurado por Percival Lowell e pelo feliz C. W. Tombaugh. Olhei satisfeito o desenho, mirei com agrado o céu noturno, pela madrugada, e disse: PLU-TÃO!

 

          É claro que não poderia existir, na realidade, qualquer forma de vida em Plutão. Com temperaturas tão baixas, ao ponto da solidificação do próprio ar rarefeito, sob certas condições, e a tamanha distância do Sol, considerando a vida na Terra, Plutão será para sempre um mundo estéril. Contudo, gostei de povoar o planeta. Por alguma grandiosa razão sentimental, e com muita presunção, penso que os marcianos de Lowell e Schiaparelli são semelhantes a meus plutonianos. Por serem uns extraterrenos cheios de ideal: os ditos marcianos certamente amargariam as maiores dificuldades técnicas e econômicas (poucos recursos naturais, num planeta de desertos) para completar a construção dos canais, viabilizar sua vital manutenção e garantir a distribuição racional da água aos moradores das cidades de Marte. Em O segredo da primavera, os plutonianos têm sua Utopia: possuir árvores e flores, como as possuímos na Terra. Nem dão muita bola aos humanos e seus feitos (alguns tão duvidosos ou horríveis), querem mais é saber da nossa flora. Têm uma astronomia adiantadíssima, portanto; agrada-me pensar que a desenvolveram, em grande medida, por amor a nossas matas, etc. Até que, num dia de primavera, às postas do verão, nasce um baita cedro, com flores ao redor, numa cidade plutoniana,. Que coisa deliciosamente monumental é ver um profundo desejo realizado, sejam quais forem os motivos desse desejo.

          Em nossa rápida ficção, um asteróide se choca com a Terra, ali na Arábia ou na África, lançando ao espaço uma lasquinha do nosso planeta, com uma semente de cedro e várias sementinhas de flor dentro. Ocorre uma troca planetária: a lasca vai cair lá em Plutão, e o cedro e as flores germinam.

          É óbvio que o cedro e as flores nunca germinariam em Plutão, na vida real. Mas esse fenômeno, a troca planetária, ocorre de fato na natureza. Os planetas trocam seus materiais entre si, graças ao impacto dos asteróides.

          Essa é uma parte fundamental da própria história do Sistema Solar. Em sua infância, este sistema planetário foi todo fustigado por impactos: a Lua da Terra, por exemplo, terá se formado a partir de muitas lascas terrestres, após choques colossais de asteróides. Os impactos prosseguiram muito tempo depois: as crateras da Lua atestam isso, são as marcas de trilhões e trilhões de choques, preservadas pela não erosão lunar: sem a ação de ventos e águas, não há o que cubra as crateras. Na Terra, algumas crateras estão ainda bem preservadas, nas regiões mais áridas – uma das maiores é popularmente conhecida como Cratera do Meteoro, no Arizona, um estado dos EUA, ali pertinho do observatório construído por Lowell. Um grande choque será uma catástrofe, poderá culminar na extinção em massa de espécies vivas: os cientistas são unânimes em dizer que  o que pôs fim à vida dos dinossauros, 65 milhões de anos atrás, foi o impacto de um meteoro graúdo (para ler um apêndice só sobre os impactos, vejam o livro oitavo desta coleção, Amanhã e depois de amanhã).

          Mas e a troca planetária, que negócio é esse? Em, 1996, os pesquisadores encontraram um meteorito de ferro, na Antártida, que, pela composição, veio do planeta Marte, uma lasca após um impacto forte. E o que havia dentro dele? Uma bactéria!

          O fóssil de uma bactéria, ou de uma estrutura semelhante, sem dúvida biológica, morta ali há bilhões de anos. Resta saber se a bactéria era de fato marciana, um autêntico ser extraterrestre, ou se era uma bactéria da Terra, que foi morar no meteorito, após a queda (há uma suposição segundo a qual a vida na Terra poderia ter começado assim, pela troca planetária com Marte: seriamos, neste caso, descentes remotos dos marcianos). Mesmo há muito passada a época de ouro da troca planetária, o material sideral continua a cair sobre a Terra, como pequenos meteoritos (as estrelas cadentes são meteoritos acesos pelo atrito atmosférico), e até partículas provenientes do Sol e das outras estrelas (peço licença para recomendar também o livro décimo desta coleção, O Homem de Abdera).

 

          Um impacto grande significaria certamente desastre para os seres vivos, para os humanos. Em O segredo da primavera, porém, o impacto ocorreu, e ninguém se machucou. Ora, se é possível até transformar Plutão num mundo naturalmente habitado...

 

          Por fim, digo a vocês que o melhor lugar para pensar nessas coisas é o observatório astronômico. E que ver Plutão, com dificuldade através do telescópio, chega a ser emocionante.