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Pragmatismo
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Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
HISTÓRIA DA FILOSOFIA MODERNA

Quarta Unidade - SÉCULO XX:

  • Pragmatismo;
Por Antônio Rogério da Silva

A crítica solitária de Nietzsche aos abusos da concepção de verdade absoluta que era buscada e afirmada tanto pela metafísica do idealismo alemão, quanto pelo radicalismo empírico do cientificismo positivista, reverberou além do oceano Atlântico. Nos Estados Unidos, a reação ao "pensamento profundo" da filosofia continental européia veio de um grupo de pensadores, dentro e fora da academia, que procuraram fundar a verdade e o significado das palavras em uma prática facilmente observável, ao invés de lançá-la longe da compreensão acessível à maioria dos seres humanos mortais. O chamado pragmatismo teve em Charles Sanders Peirce (1839-1914) e William James (1842-1910) seus fundadores históricos, mas viu em John Dewey (1859-1952) seu principal representante na primeira metade do século XX, enquanto Richard Rorty e Hilary Putnam foram seus herdeiros mais destacados nos últimos anos.

A origem do termo pragmatismo foi creditada a Charles Peirce por William James em conferência que este fez cerca de 20 anos depois do primeiro ter lançado suas bases no artigo How to Make Our Ideas Clear (Como Tornar Claras Nossas Idéias, 1878). Sendo assim, a primeira forma do pragmatismo estava ligada à noção de verdade como consenso último de todos os preocupados na busca da verdade. A realidade, portanto, seria o objeto resultante dessa opinão partilhada.

(...) Mentes diferentes podem montar as visões mais antagônicas, mas o progresso da investigação as carrega por uma força externa a uma mesma conclusão. Essa atividade do pensamento pela qual somos carregados, não está em nosso controle, mas por uma meta pré-ordenada, como uma operação do destino. Nenhuma modificação do ponto de vista tomado, nem seleção de outros fatos para estudo, nem mesmo uma tendência natural da mente, pode capacitar um homem a escapar da opinião predestinada. Essa grande esperança está incorporada na concepção de verdade e realidade. A opinião a qual esta destinada a ser um consenso último por todos que investigam é o que queremos dizer por verdade e o objeto representado nesta opinião é o real. (...) (PEIRCE, Ch. How to Make Our Ideas Clear, IV, p. 14.)

Peirce construiu sua teoria do conhecimento pragmática fora da academia. Depois que se formou em química na Lawrence Scientific School, trabalhou como engenheiro geodésico e fazendo análises laboratoriais na U.S. Coast and Geodetic Survey até ser dispensado em 1891. No final da vida, passou por dificuldades econômicas que obrigaram os amigos a socorrê-lo, por vezes. A despeito de sua vontade não pôde sistematizar sua obra que ficou fragmentada. Em vida terminou apenas um grande tratado sobre lógica - Description of a Notation for the Logic of Relatives (Descrição de uma Notação para Lógica das Relações, 1870), enquanto apresentava diversas conferências na recém fundada Universidade John Hopkins, onde lecionou de 1879 a 1884.

De fato, embora Peirce não tenha usado em nenhum momento o termo pragmatismo no artigo que James citara, já estava em "Como Tornar Claras Nossas Idéias" a concepção de que os efeitos sensíveis de uma crença sobre determinadas ações seriam suficientes para garantir a sua correção ou realidade. Em carta a James, Peirce chegou mesmo a questioná-lo quem teria sido o inventor do termo e em que texto teria sido expresso (1). Além de uma indicação para o estabelecimento do conceito de pragmatismo Peirce apresentou uma noção de falibilismo da razão crucial para a mudança de perspectiva filosófica no século XX. Na visão pragmática e falibilista proposta por Peirce, a verdade passa a ser compreendida como a sustentação de uma proposição cuja veracidade depende da correção lógica da argumentação feita com base em juízos perceptivos. Ou seja, enquanto nenhuma outra percepção descobrir que a proposição é falsa, ela será entendida como verdadeira. Para um pragmático, o conhecimento de algo deve “considerar as consequências práticas prováveis como resultantes necessariamente da verdade da concepção”(2).

A realidade e verdade de uma concepção seriam sustentadas pelo consenso estabelecido entre todos que investigam a matéria como havia sido posto em "Como Tornar Claras Nossas Idéias". O passo consequente leva ao reconhecimento de que, mesmo o mais atento observador humano está inclinado a adotar crenças falsas sobre o mundo. Por causa disso, uma atitude mais humilde quanto ao conhecimento exigiria a disposição de sempre rever as suas concepções toda vez que surgissem evidências em contrário. A visão falibilista sustenta, portanto, que o conhecimento verdadeiro será aquele que se mantiver como tal, frente às possibilidades relevantes opostas, ao invés de se preocupar com uma busca de fundamentação última necessária para refutar todas as demais possibilidades.

A Palavra de James

Provavelmente, tenha sido James o primeiro a utilizar o termo Pragmatismo para representar o conceito apresentado por Peirce e que podia ser percebido em diversos outros autores antes deles.

Uma olhada à história mostrará ainda melhor o que significa o pragmatismo. O termo deriva da mesma palavra grega, pratka, que significa ação, do qual vêm as nossas palavras "prática" e "prático". Foi introduzida pela primeira vez em filosofia por Charles Peirce, em 1878. Em um artigo entitulado "Como Tornar Claras Nossas Idéias", em Popular Science Monthly de janeiro daquele ano, Peirce, após salientar que nossas crenças são, realmente, regras de ação, dizia que, para desenvolver o significado de um pensamento, necessitamos apenas de determinar que conduta está apto a produzir: aquilo é para nós o seu único significado. E o fato tangível na raiz de todas as nossas distinções de pensamento, embora sutil, é que não há nenhuma que seja tão fina ao ponto de não resultar em alguma coisa que não seja senão uma diferença possível de prática. Para atingir uma clareza perfeita em nossos pensamentos em relação a um objeto, pois, precisamos apenas de considerar quais os efeitos concebíveis de natureza prática que o objeto pode envolver (...). Nossa concepção desses efeitos, se imediata ou remota, é, então, para nós, o todo de nossa concepção do objeto, na medida que essa concepção tenha, afinal uma significação positiva. (JAMES, W. Pragmatismo, II conferência, pp. 44-45).

Diferente de Peirce, William James teve uma vida mais confortável por ter nascido em família de ricos nova-iorquinos. Seu pai era teólogo e o irmão, Henry James (1843-1916), famoso escritor de romances e contos - autor de Daisy Miller (1878) e A Lição de Mestre (1892). Estudou filosofia e psicologia, formando-se em medicina no ano de 1863, em Harvard. Nesta universidade apresentou o primeiro curso de psicologia, fora do currículo da medicina, em 1875. Por conta disso, escreveu o clássico Princípios de Filosofia (1890) e era mais conhecido pelos trabalhos nessa área. O interesse inicial pela filosofia estava ligado a questões religiosas, que se ampliaram para temas éticos.

Quando cunhou pela primeira vez a palavra pragmatismo, estava em uma reunião filosófica na Universidade da Califórnia discutindo sua aplicação religiosa. Apesar do método pragmático pensado por James estar voltado exclusivamente para o concreto e a adequação dos conceitos aos fatos e consequências das ações, as crenças religiosas poderiam ter um tratamento filosófico, graças as relações que elas têm com a conduta dos seres humanos na sociedade. Da perspectiva de James, as teorias filosóficas serviriam como meio de orientar a pesquisa para os seus resultados finais e não para os seus princípios. Desse modo, até mesmo as teologias seriam passíveis de ser consideradas verdadeiras.

(...) Se as idéias teológicas provam que têm valor para a vida concreta, são verdadeiras, pois o pragmatismo as aceita, no sentido de serem boas para tanto. O quanto serão verdadeiras, dependerá inteiramente de suas relações com as demais verdades, que têm também, de ser reconhecidas (JAMES, W. Op. cit., idem, p. 57).

O critério de verdade pragmático seria, então, aquele que permite adaptar o que se tem por verdadeiro com cada aspecto da existência, em relação com todas as outras experiências vividas, formando um todo orgânico. Assim, as diversas crenças que compõem a mente de uma pessoa teriam reduzidas suas divergências, a ponto de se aproximarem ciência e religião, nos casos mais extremos. O pragmatismo de James, em sua característica funcionalista, tornava a função de verdade subjetiva e sua justificação da religião voltada à satisfação pessoal de cada um.

O termo pragmatismo foi no início do século XX, já tão difundido que Peirce achava melhor dar um novo rumo a essa palavra, enquanto procurava destacar sua concepção filosófica restrita à pesquisa da lógica e à análise da linguagem, por meio de uma semiologia - ou semiótica, estudo dos signos como meio de relacionar as coisas e as pessoas sob certas circunstâncias -, através do emprego do nome pragmaticismo, que não chegou a vingar. John Dewey considerva essa forma de pragmatismo muito restrita, enquanto não aceitasse as vinculações com a religião feita por James. Resolveu, por conta própria, ampliar o alcance da teoria propondo novas concepções pedagógicas, voltadas para o desenvolvimento da criança, ao mesmo tempo que abraçava as descobertas científicas de seu tempo. Embora não acreditasse ser possível reduzir o método científico a um grupo de regras procedimentais, Dewey imaginava ser factível com inteligência conduzir uma investigação em geral, também em ética e outras áreas humanas. Nesse sentido, lançou uma extensa obra abordando a educação, Vida e Educação (1902); ética, Teoria da Vida Moral (1908); o naturalismo, A Natureza Humana e a Conduta (1922) e teoria do conhecimento, Lógica (1938).

Dewey foi o principal divulgador do pragmatismo até a metade do século XX. Fez pós-graduação em John Hopkins, tendo se deixado influenciar inicialmente por Hegel. Mas a partir das descobertas da biologia evolutiva, afastou-se do hegelianismo, mantendo no entanto uma atenção para os aspectos históricos atuantes na realidade. Desde o começo de sua carreira acadêmica, esteve ligado à elaboração de uma nova pedagogia - a nova escola - que procurasse acompanhar o desenvolvimento infantil até a formação de um adulto com a preocupação permanente de ampliar sua consciência do mundo que o cerca. Contudo, não obstante os esforços de Dewey em preservar o pragmatismo, pouco antes de sua morte, a chamada filosofia estadunidense curvou-se ao obscurantismo de um pensamento considerado mais profundo que se concentrava entre existencialista sartreanos e heideggerianos. Foi preciso que uma nova geração surgisse, a fim de resgatar as idéias consequencialistas sob nova roupagem.

Sem Método

Enquanto Peirce e James trabalhavam o pragmatismo como método filosófico para resolver as disputas metafísicas, chamando atenção para soluções que tentassem interpretar as teorias de acordo com suas consequências práticas, a geração de filósofos neopragmáticos, dos quais se destaca Richard Rorty, abandona qualquer pretensão teórica. O pragmatismo, agora, procura construir discursos voltados para uma transformação utópica do mundo. Com essa nova estratégia, a filosofia trataria de não mais preservar os aspectos positivos de teorias metafísicas, mas negar tudo aquilo que em nada tivesse servido para melhoria da sociedade. Sem propor qualquer fundamento que sustente sua verdade, o que se pede é que se escreva novas narrativas mais coerentes com aquilo que se buscar defender, fora do âmbito acadêmico, desgarrado da vivência cotidiana.

As mudanças visam uma utopia vaga, apoiada em discursos que não se justificam por uma fundamentação última, mas consequente e comprometida com as mudanças.

Se nós pudessemos nos libertar da noção de que há um caminho científico especial para lidar com idéias "filosóficas" em geral (uma noção que Dewey deu o melhor de si para desaprovar), então nós teríamos muito menos problemas em pensar na cultura inteira, da física até a poética, como uma única atividade, contínua, sem emendas, na qual as divisões seriam meramente institucionais e pedagógicas. Isso nos previniria de fazer da pergunta sobre onde se deve traçar a linha entre "verdade" e "conforto", um tema moral. Nós executaríamos então a missão do lado holístico e sincrético do pragmatismo - o lado que tenta ver os seres humanos como implementando o mesmo tipo de resolução de problemas através de todo o espectro de suas atividades (...) (RORTY, R. "Pragmatismo Sem Método", in Objetivismo, Relativismo e Verdade, p. 107).

Nova York antes de 11 de setembroSem um método capaz de descobrir a verdade de todas as coisas, seria possível ao filósofo pragmático perceber a visão materialista que faz parte da concepção liberal contemporânea livre do estabelecimento de uma verdade cientificista. O pragmatismo pode de novo voltar a encarar as crenças tidas por verdadeiras como práticas que podem ser bem sucedidas da perspectiva empírica e falibilista que no entanto não estaria vinculada a nenhum método correspondente a tal postura (3).

No final do século XX, o pragmatismo sem método de Rorty permitiu que a filosofia estadunidense pudesse retomar a vanguarda do debate filosófico contra os abusos do reducionismo cientificista que retornava agora, sem o estigma positivista. Nesse sentido o pragmatismo atual pondera as críticas radicais do historiador das ciências Paul Feyerabend (1924-1994) que já pregava um adeus à razão, em seu livro Farewell to Reason (Adeus à Razão, 1987), em uma retomada das críticas nietzscheanas.

Notas

1. Veja carta de 10 de novembro de 1900 a William James em PEIRCE, Ch. "Correspondência", in Escritos Coligidos, p. 103.
2. PEIRCE, Ch. S. “Conferências sobre Pragmatismo”, in op. cit., § 2, 9, p. 7.
3. Veja RORTY, R. "Pragmatismo Sem Método", in Objetivismo, Relativismo e Verdade, p. 94.

Bibliografia

BLACKBURN, S. Dicionário Oxford de Filosofia; trad. Desidério Murcho et al.. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

DEWEY, J. A Natureza Humana e a Conduta; trad. Eugênio M. Rocha e Jacob Thealdi - Bauru: Brasil, 1956.

_____. Teoria da Vida Moral; trad. Leonidas C. de Carvalho. - São Paulo: Abril Cultural, 1985. (Os Pensadores)

GUIRALDELLI JR, P. Caminhos da Filosofia. - Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

JAMES, W. Pragmatismo e Outros Ensaios; trad. Joseph L. Blau. - Rio de Janeiro: Lidador, 1963.

PEIRCE, Ch. "How to Make Our Ideas Clear", in Popular Science Monthly, 12, pp. 286-302, janeiro de 1878.

______. Escritos Coligidos; trad. Armando M. D'Oliveira e Sérgio Pomerangblum. - São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores)

PUTNAM, H. Renewing Philosophy. - Cambridge, Mass.: H.U.P., 1992.

RORTY, R. Objetivismo, Relativismo e Verdade; trad. Marco A. Casanova. - Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997.