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Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
HISTÓRIA DA FILOSOFIA MODERNA

Primeira Unidade - SÉCULO XVII:

  • Renascimento, prelúdio da modernidade;
Por Antônio Rogério da Silva

Quando Desidério Erasmo de Rotterdam (1466-1536) lançou seu Elogio da Loucura, em 1509, uma série de fatos históricos e filosóficos já haviam ocorridos ou estavam por acontecer no período de mudança das mentes e dos costumes europeus, chamado Renascimento. Passo a passo, a mentalidade e as tradições medievais presas ao fervor religioso vão cedendo espaço aos protestos contra os preceitos ascéticos e à crescente valorização dos prazeres materiais. Para tanto muito contribuiu o profundo desgaste causado pela Guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre as realezas feudais inglesa e francesas.

Eduardo III, rei da Inglaterra (de 1327 a 1377), tinha pretensão ao trono francês, que ficara sem sucessor após a morte de Carlos IV em 1328, por ser descendente de Felipe IV, o Belo, rei da França (entre 1285 e 1314). Intitulando-se rei da França, em 1337, promoveu a invasão daquele país, a fim de tomar posse de seu governo. Naquela época, a região de Flandres, os países baixos, fronteiriça ao nordeste da França era rica produtora de tecidos e rota de comércio importante para o Mar do Norte. Vitórias e derrotas de ambos os lados, intermediadas por períodos em que a Peste Negra avançava sobre o continente, destruíram praticamente toda estrutura do sistema de feudos medievais.

Na penísula itálica, dividida entre várias repúblicas, a cultura secular ganha impulso, graças ao comércio com o Oriente, através do Império Bizantino, geograficamente, próximo à região do norte da Itália e à costa do Mar Adriático. Especificamente, em Florença, situada às margens do Rio Arno, ao centro da Toscana, a ascensão da família Médici irá patrocinar uma verdadeira revolução nos costumes italianos e, em consequência, de toda Europa. Cosimo de Médici - conhecido como Cosme, o Velho (1389-1464) -, patriarca da família, enriquecera sendo banqueiro do papa, dos reis de França e da Inglaterra. Em 1429, Cosme, o Velho, assume o governo de Florença, passando a exercer uma política que proporcionava diversão e cultura à população, ao mesmo tempo em que buscava concentrar todo poder em suas mãos.

Ao consolidar o domínio da cidade, em 1434, os Médici prepararam-na para ser o centro do poder na penísula, rivalizando com Roma e os Estados Papais. Com a queda de Constantinopla, em 1453, sob o poder dos turcos, Florença foi uma das cidades favorecidas pela migração de eruditos bizantinos que levavam o conhecimento acumulado pela cultura grega e literatura clássica. Em 1462, o ambiente já é propício para fundação da Academia Platônica de Florença, em uma vila localizada em Careggi, posta à disposição de Marsílio Ficino (1433-1499), por Cosme. Ficino foi o principal representante fiorentino do neoplatonismo. No período em que dirigiu a Academia de Florença, publicou a tradução completa dos diálogos de Platão (427-348 a. C.). É dele o conceito de "amor platônico" - que prioriza a contemplação das formas da figura do ser amado -, forjado a partir de sua interpretação e comentários ao Banquete.

A Academia de Florença marcou decisivamente o movimento renascentista. A expressão das idéias por meio das artes, o lançamento do conceito de cidadão, do método de auto-aperfeiçoamento, o retorno à geometria e temas gregos, a discussão de problemas religiosos e a libertação dogmas são algumas das atitudes que foram estimuladas pelo debate surgido no círculo formado em torno de Ficino.

A Primavera de BotticelliEm Florença, a aplicação da geometria e da matemática às artes estava em plena consonância com o espírito inovador da época. Em 1419, o arquiteto Filippo de Brunelleschi (1377-1446) emprega as regras da perspectiva pela primeira vez na construção do pórtico do Hospital dos Inocentes. Para conseguir reduzir o espaço tridimensional ao plano bidimensional, Brunelleschi utilizou de instrumentos óticos inventados por ele mesmo. Essa técnica foi o passo principal para distinção das obras renascentistas, das medievais, que tinha uma concepção hierárquica para distribuição da cena em uma tela. Alessandro de Mariano Filipepi, ou Sandro Botticelli ("pequeno barril", 1445-1510), um dos favorecidos pelo mecenato dos Médici, pinta, em 1478, A Alegoria da Primavera em homenagem a Lorenzo de Médici, o Magnífico (1449-1492), como um marco da atmosfera vivida sob ideais neoplatônicos daqueles tempos.

O governo de Lorenzo, o Magnífico, neto de Cosme, procurou seguir a política de incentivo às artes, às atividades comerciais e à diversão. O próprio Lorenzo fora discípulo de Ficino e adepto do neoplatonismo. Contudo, sua gestão foi marcada por conflitos de interesses com outra família poderosa de Florença, os Pazzi, e por sua relação dúbia com a Igreja. Como reflexo de toda a Itália, esta república esteve dividida entre o apoio à família hegemônica e à aspiração por maior liberdade política para a população. No ano em que Cristóvâo Colombo (1451-1506) chega à America pela primeira vez, Lorenzo não resiste à artrite e deixa como sucessor seu filho Piero de Médici, o Louco, cujo regime tirânico rompe velhas alianças e protege corruptos. Na Florença de Piero, agora existem motivos suficientes para alimentar a pregação radical do frade Fra Girolamo Savonarola (1452-1498) contra o arbítrio dos Médici e o luxo da Igreja. A retórica deste monge dominicano consegue reunir os interesses contrários aos dos antigos dominadores, depondo o detestável Piero, em 1494. Porém o curto período em que Savonarola tentou implantar um regime republicano que favorecesse a participação política dos fiorentinos (os quatro anos entre 1494 e 1498), também não esteve livre de ameaças, devido à carga pesada de impostos e à insatisfação contra seus rígidos preceitos morais. Em 1497, foi excomungado pelo papa Alexandre VI (1431-1503), a quem acusava de corrupção, e executado no ano seguinte.

Fora da Itália, a descoberta da América estimula ainda mais a navegação feita por aquelas nações que haviam conseguido unificar seu território em torno de uma única coroa. Em Portugal, Infante Dom Henrique, o Navegador (1394-1460), com a fundação da Escola de Sagres, a partir de 1415, financia as viagens de exploração dos mares com o dinheiro recolhido pela Ordem de Cristo para combater os árabes. Os relatos de viajantes e o novo comércio com as chamadas Índias Ocidentais, excitam a imaginação de escritores como Thomas Morus, ou More (1477-1535) que projeta regimes políticos ideais. Em 1500, o Brasil é descoberto e três anos depois inicia-se a formação do império colonial português.

Três Humanistas Diferentes

Pessoalmente, a vida de Erasmo de Rotterdam, que era filho de um casal de pai religioso e mãe de origem burguesa, está sincronizada com esses sucessivos acontecimentos. Nascera três anos antes de Lorenzo, o Magnífico, subir ao poder em Florença e durante sua formação religiosa procurou conciliar esta doutrinação com os clássicos da antiguidade. Com esse espírito contemporizador, torna-se sacerdote e recebe o grau de doutor em teologia pela universidade de Paris, em 1492. Anos depois, convidado por um aluno, viaja à Inglaterra, a fim de conhecer a Universidade de Oxford, onde faz amizade com Thomas Morus. De volta ao continente, mais precisamente em Paris, passa a estudar o Novo Testamento diretamente do grego.

Em 1509, retorna à Inglaterra e hospeda-se na casa de More, que lhe serve de modelo na composição de Elogio da Loucura. A sua pregação pelo reavivamento do cristianismo primitivo permitiu que com essa obra Erasmo ridicularizasse os costumes humanos e, como Savonarola, criticasse abertamente o luxo e o cerimonial da Igreja.

(...)Gabam-se os veneráveis cardeais de descederem em linha reta dos apóstolos, mas eu desejaria que filosofassem um pouco sobre os seus hábitos, e fizessem a si mesmos esta apóstrofe: "Se eu descendo dos apóstolos, porque não faço, então, o que eles fizeram? Não sou senhor, mas simples distribuidor das graças espirituais, e muito berve terei de prestar contas da minha administração. (...) Para que tantos tesouros? Aqueles que pretendem representar o antigo colégio dos apóstolos não deveriam, antes de tudo, imitar a sua pobreza?" Afirmo que, se os cardeais fizessem a si mesmos semelhante apóstrofe, refletindo sobre todos esses pontos, de duas uma: ou devolveriam imediatamente o chapéu, ou levariam uma vida laboriosa, cheia de desgostos e de desejos, justamente como faziam os primeiros apóstolos da Igreja. (ERASMO DE ROTTERDAM, D. Elogio da Loucura, pp. 94-95).

Erasmo defendia, antes do Protestantismo surgir das 95 Teses de Martinho Lutero (1483-1546), que as traduções da Bíblia deveriam ser confrontadas com os originais e debatidas para que surgisse uma interpretação correta. Nesse sentido, em 1516, editou uma nova versão grega do Novo Testamento, bem como os estudos de São Jerônimo sobre o Antigo e Novo Testamento.

Erasmo retratado por DürerNo norte da Europa, foi Erasmo o mais importante difusor do humanismo renascentista. Por onde passava, procurava promover o intercâmbio de idéias em escala internacional. Conheceu os principais renascentistas da Alemanha, Holanda, França, Itália e Suiça, sendo amigo dos pintores alemães Albrecht Dürer (1471-1528), que lhe retratou em gravura, e de Hans Holbein, o Jovem (1497-1543), que lhe pintou em vários quadros. Embora procurasse ser tolerante em termos religiosos, os pontos comuns entre sua postura e a Reforma não impediram Lutero de lhe lançar uma dura resposta por causa da publicação de De Libero Arbitrio (1524), causando o rompimento das relações entre os dois. Mesmo assim, Erasmo não deixou de tornar pública suas críticas aos doutores, padres da Igreja e à perseguição religiosa, lançando várias edições de seu pensamento até 1530.

O amigo inglês de Erasmo, Thomas Morus era um advogado muito eloquente que acumulou bens suficientes para se dedicar aos estudos dos clássicos e dos sistemas políticos. Em 1529, chegou a ocupar o cargo de embaixador e chanceler de Henrique VIII (1491-1547) até 1532. Dois anos depois, envolve-se no escandaloso caso de divórcio do rei, defendendo os princípios da Igreja Católica Romana ao recusar negar a autoridade do papa, depois do rompimento da Inglaterra com Roma. O que fez com que fosse levado a julgamento e condenado por traição à pena de morte, pelo seu soberano, ex-amigo, em 1535. Em reconhecimento de seu martírio, a Igreja Católica o canonizou e santificou seu nome.

A obra de Morus é caracterizada pelo idealismo intransigente que norteava sua vida. Escreveu as Histórias de Ricardo III e Eduardo IV, além de Poesias latinas e uma série de Contos. Mas é com A Utopia que seu pensamento político irá conduzi-lo ao centro do Renascimento inglês. A Utopia fora lançada pela primeira vez em Louvain, Bélgica, em 1516, muito antes de seu envolvimento com a corte de Henrique VIII. Teve também uma segunda edição em 1518 que foi publicada na Basiléia, em latim.

Apesar de seu forte apego à tradição católica, Morus revelou, em A Utopia, uma certa tolerância religiosa e uma crítica contudente ao sistema educacional e político de sua época. Na segunda parte do livro, descreve um tipo de sociedade comunal inspirada na República, de Platão.

(...) Na Utopia, onde ninguém possui nada de seu, todo mundo se ocupa, vivamente, dos negócios públicos: (...) tudo é comum a todos. Uma vez tomadas as medidas para que os celeiros públicos estejam cheios, ninguém receia que lhe falte o necessário. E a distribuição dos bens não é feita parcimoniosamente, lá não se vê nem pobre, nem mendigo, embora ninguém tenha nada de seu, todo mundo é rico (...) (MORUS, TH. A Utopia, livro II, p. 84).

Morus tratou de uma possível sociedade maravilhosa localizada numa ilha "sem lugar" específico, enquanto Erasmo sonhava com a razão sã dos filósofos antigos em sua pregação contra a Escolástica medieval. Entre eles, estendeu-se a sombra de maior vulto de Niccoló di Bernardo dei Maquiavelli (1469-1527), que tentou por ordem na política real, visando a unificação de sua caótica Itália.

O fiorentino Maquiavel iniciou sua carreira pública no tempo em que Savonarola ascendia ao poder em Florença. Mesmo depois da queda do frade dominicano, foi escolhido por Piero di Tommaso Soderini (1452-1522), que subira ao cargo de gonfaloneiro (magistrado) vitalício de Florença (1502), para ser seu secretário de governo, em 1503. Neste ano, passa três meses em missão junto a César Borgia (1378-1507), magistrado e capitão-general da Igreja, filho do papa Alexandre VI. Bórgia será a figura central da obra prima de Maquiavel, O Príncipe, escrita no exílio logo depois da queda de Florença sob o avanço das forças espanholas, em 1512.

Em O Príncipe, Maquiavel procurou construir a figura de um governante poderoso, segundo o que sua experiência prática e a história lhe haviam ensinado, deixando de lado o idealismo neoplatônico que contaminará os principais filósofos renascentistas. Em vez de um Estado ideal, Maquiavel estava preocupado em argumentar que a virtude do bom governante estaria em poder realizar seus objetivos, conforme as possibilidades concretas disponíveis.

(...) Todos esses [Moisés, Ciro, Rômulo, Teseu e semelhantes] encontram no seu caminho inúmeros obstáculos e perigos, e é-lhes mister superá-los com a virtude [virtù]. Mas uma vez que os superaram e começaram a ser venerados, então, tendo destruído os que lhes invejaram a condição de prícipe, ficam poderosos, seguros, honrados e felizes. (MAQUIAVEL, N. O Príncipe, cap. V, p. 40].

Diferente de Erasmo e Morus, que pelo idealismo discutiam teses gerais sem prestar a devida atenção aos indivíduos que constituem os fatos históricos, Maquiavel coloca sobre os ombros da figura do governante, dotado de virtude e sorte, a capacidade de superar os problemas colocados pelo destino a sua frente. Nesta postura, percebe-se, entrementes, a influência dos estudos clássicos, em particular das tragédias gregas.

Durante o período em que foi afastado das atividades políticas, Maquiavel pôde dedicar-se à literatura. Escreveu poemas, contos e a comédia teatral A Mandrágora (1518), um dos marcos da dramaturgia italiana. Aos poucos, seus ensaios políticos, como Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio (1516), A Arte da Guerra (1520), chamam a atenção do Studio da Universidade de Florença que o indica para o posto de historiador oficial da república. Em 1525, aparece as volumosas Histórias Florentinas, cujos primeiros oito tomos dedica ao papa Clemente VII (Júlio de Médici). Contudo, permaneceu afastado da chancelaria da cidade até o fim de sua vida.

O Renascimento, por ser um período de transição entre a era medieval e moderna, aprensenta, mais do que qualquer outra época, as ambiguidades e a profusão de projetos conceituais - de onde se destaca a incipiente noção de cidadania - que são desenvolvidos ou descartados tempos depois. Erasmo e Morus, por exemplo, que por um lado criticavam as loucuras das instituições e o sistema educacional de seus contemporâneos e antepassados, valorizando a expressão do pensamento livre, por outro, elogiavam o apego a tradições religiosas remotas de um cristianismo primitivo. Se buscavam transformações políticas, entretanto, mantinham-se afastados da prática cotidiana que vinculasse seus ideais às atividades concretas de transformação da real condição humana. Maquivel, por sua vez, embora tivesse tentado estreitar a distância entre o ideal e o mundo vivido, ainda acreditava na noção determinista de destino, fortuna, sorte ou história. Em política, seu individualismo - centrado na personalidade heróica do príncipe - deixa de lado as interações que envolvem os interesses pessoais de diversos agentes que disputam entre si aquilo que consideram o melhor para eles mesmos. Uma noção sólida de indivíduo só terá sua base lançada no século seguinte ao Cinquecento, quando Thomas Hobbes (1588-1679) escrever De Cive (Sobre o Cidadão, 1642), no início da Era Moderna.

Árdua Luta contra o Obscurantismo

Ao pregar suas 95 Teses no portal da igreja de Wittenberg (Alemanha), no dia 3 de outubro de 1517, Lutero deflagrara o movimento da Reforma que, depois de uma longa luta contra os desvios da Igreja - acumulados desde a Idade Média -, consolidou a cisão no cristianismo e promoveu um arrefecimento nas posições radicais da Inquisição. Enquanto as idéias do neoplatonismo e de outras correntes filosóficas gregas eram difundidas rapidamente através das artes e da literatura que ganhara impulso com a invenção da imprensa por Johann Guttenberg (1398-1468), em 1453, a filosofia da natureza avançava lentamente no desvelamento da criação. Quanto mais radicais eram as novas interpretações dos fenômenos naturais, maiores eram as chances de que viesse seu autor ter problemas com as religiões e seus velhos dogmas.

Sistema copernicanoFora do foco renascentista, longe da Itália e, portanto, das vistas do papa, o polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) resgatou, em 1507, uma antiga idéia de Aristarco de Samos (cc. 310 - 230 a.C.), no intuito de tentar solucionar mais facilmente o cálculo das tabelas planetárias que serviam de base para formulação de calendários. Copérnico percebeu que isso seria possível se, ao invés da Terra, o Sol fosse considerado o centro do universo. Entretanto, tal concepção chocava-se frontalmente contra a noção religiosa de que a Terra seria o local privilegiado por Deus para realizar sua criação e à autoridade de Aristóteles (384-322 a.C.) que sustentava a Escolástica e corroborava a idéia de imobilismo da Terra e perfeição do espaço. Ao terminar de escrever De Revolutionibus Orbitum Coelestium, onde apresentava seu sistema heliocêntrico, Copérnico, temendo que sua obra pudesse ser considerada herética, adiou sua publicação por quatro anos até o ano de sua morte, em 1543.

Menos prudente, Galileu Galilei (1564-1642), inicialmente, não se assustou com o exemplo de Giordano Bruno (1548-1600) que, ao se recusar retratar suas idéias sobre a infinitude do espaço, culto à natureza e desprezo pelos conceitos tradicionais, foi condenado à fogueira, depois de um longo julgamento que se arrastou por sete anos. Galileu estava convencido de que contava com o apoio do para Urbano VIII (de 1623 a 1644) e não tardou em divulgar suas descobertas, feitas com telescópio, de novas estrelas, satélites e fenômenos que derrubavam a Escolática e confirmavam as teses de Copérnico. Em 1632, publicou, em língua vulgar (italiano), Diálogo sobre os Dois Sistemas do Mundo, no qual adeptos do sistemas ptolomaico e copernicano defendiam seus argumentos a um ouvinte leigo. A pretensão óbvia de difundir tais idéias ao público em geral insultou os eruditos latinistas que consideravam uma caricatura a exposição do modelo de Ptolomeu (cerca de 75). Foi acusado, então, de heresia e levado, a 21 de junho de 1633, ao tribunal da Inquisição, onde obrigaram-no a negar a teoria copernicana. Percebendo que, aos 70 anos, uma recusa poderia significar o destino de Bruno, preferiu pedir clemência, sendo assim condenado a recitar os salmos semanalmente, por três anos e ao silêncio, pelo resto da vida.

Na Inglaterra, onde Henrique VIII iniciara a separação da Igreja Romana, passando por cima da cabeça de Morus, Lord Francis Bacon, Barão de Verulam (1561-1626), pôde com relativa tranquilidade propor um novo método de investigação da natureza, apoiado na experimentação e indução generalizada, contra a especulação dedutiva do método aristotélico. Em Novum Organum (1620), Bacon restringiu a dedução à matemática, ao passo que as leis científicas deveriam ser induzidas por uma série de observações específicas - ao lados dos eventos positivos devem ser listados também os negativos e depois de extraídos os axiomas da experiências, deve-se fazer novos experimentos que testem os resultados obtidos.

Para a constituição de axiomas, deve-se cogitar de uma forma de indução diversa da usual até hoje e que deve servir para descobrir e demonstrar não apenas os princípios (...) como todos axiomas, em suma. Com efeito a indução que procede por simples enumeração é coisa pueril, leva a conclusões precárias, expõe-se ao perigo de uma instância que a contradiga. (...) Mas a indução que será útil para a descoberta e demonstração das ciências e das artes deve analisar a natureza, procedendo às devidas rejeições e exclusões, e depois, então, de posse dos casos negativos necessários, concluirá a respeito dos positivos (...).
Na constituição de axiomas por meio dessa indução, é necessário que se proceda a um exame ou prova: deve-se verificar se o axioma que constitui é adequado e está na exata medida dos fatos particulares de que foi extraído, se não os excede em amplitude e latitude, se é confirmado com a designação de novos fatos particulares que, por seu turno, irão servir como uma espécie de garantia (...). (BACON, Fr. Novum Organum, liv. I. §§ CV e CVI)

Embora Bacon mantivesse ainda preconceitos medievais que o impediam de aceitar que um objeto gigantesco, como a Terra, voasse pelo espaço, sua participação em círculos de eruditos e nobres acadêmicos - por ter escrito sua obra em latim ele podia participar do debate científico - permitiu que a ciência experimental se tornasse moda entre os aristocratas ingleses.

O empirismo inglês, inaugurado por Bacon, abriu caminho para que pensadores brilhantes como Hobbes, Newton, Locke e Hume pudessem superar os séculos de atraso medieval. Depois de Newton, ninguém mais duvidaria que a Terra se move em torno do Sol por força da gravidade, pondo fim a uma rodada na luta contra o obscurantismo.

Bibliografia

ASIMOV, I. Gênios da Humanidade. - Rio de Janeiro: Bloch, 1974.

BACON, Fr. Novum Organum; trad. José A. R. de Andrade. - São Paulo: Abril Cultural, 1973.

BLACKBURN, S. Dicionário Oxford de Filosofia; trad. Desidério Murcho et al.. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

ERASMO DE ROTTERDAM, D. Elogio da Loucura; trad. Pietro Nassetti. - São Paulo: Martin Claret, 2000.

HOBBES, Th. Leviatã; trad. João P. Monteiro e Mª Beatriz N. da Silva. - São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Penaadores)

MAQUIAVEL, N. O Príncipe; trad. Mário C. da Silva. - Rio de Janeiro: Vecchi, 1965.

MORUS, Th. A Utopia; trad. Anah M. Franco. - Brasília: UNB, 1982.