DISCURSUSTEORIA DOS JOGOS E DA COOPERAÇÃO (MAY, E. 'Ben Franklin leva Xeque-Mate de Lady Howe', sec.XIX) O Papel da Comunicação
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TEORIA DOS JOGOS E DA COOPERAÇÃO PARA FILÓSOFOS

SEÇÃO I

» 2ª Unidade: O Papel da Comunicação

  • A Razão Comunicativa x Estratégica.
Por Antônio Rogério da Silva

Entre os filósofos, sobretudo aqueles ligados à teoria crítica da Escola de Frankfurt e os interessados na obra de Max Weber (1864-1920), é comum distinguir-se razão instrumental ou estratégica de outras formas de racionalidade. Isso não chega a ser uma inovação frankfurtiana. Na tradição moderna, outros autores como Thomas Hobbes (1588-1679) e Immanuel Kant (1724-1804) já destacavam a razão calculadora, a hipotética, a pura ou a prática (1). Trata-se, de fato, de variações do modo pelo qual a mente humana procura resolver problemas metafísicos ou epistemológicos (razão pura), éticos (prática) e teleológicos (instrumental ou estratégica). Há ainda uma racionalização da linguagem (razão comunicativa) que visa encontrar um entendimento mútuo sobre aquilo que está sendo enunciado. Esse tipo de racionalidade foi defendido inicialmente por Jürgen Habermas em vários textos desde "Técnica e Ciência como Ideologia", de 1968.

A teoria dos jogos privilegia análises sobre as escolhas racionais das estratégias mais adequadas à realização de uma ação que atinja os fins almejados. Nesse sentido, o modelo de jogos enquadra-se em parte na definição de trabalho ou racionalidade teleológica feita por Habermas, em meados do século XX.

(...) A ação instrumental orienta-se por regras que se apoiam no saber empírico. Essas regras implicam em cada caso prognoses sobre eventos observáveis, físicos ou sociais. (...) O comportamento da escolha racional orienta-se por estratégias que se baseiam num saber analítico. (...) A ação racional teleológica realiza fins definidos sob condições dadas; mas, enquanto a ação instrumental organiza meios que são adequados ou inadequados segundo critérios de controle eficiente da realidade, a ação estratégica depende apenas de uma valoração correta de possíveis alternativas de comportamento, que só pode obter-se de uma dedução feita com o auxílio de valores e máximas (HABERMAS, J. Técnica e Ciência como Ideologia, III, p. 57).

Na concepção de Habermas, são apontados aspectos axiológicos que os teóricos dos jogos não assumem explicitamente, mas que estão ligados à maneira como os agentes listam suas preferências em utilidades. Não obstante essas sutilezas, guarda a teoria dos jogos uma estreita vinculação com a racionalidade teleológica, cuja ação correspondente é orientada para a realização de determinados fins. Além disso, essa teoria traz também elementos de interação, na maioria dos modelos de jogos, que se aproximam da racionalidade comunicativa elaborada por Habermas, quando se tem em vista os jogos com comunicação, por exemplo.

(...) [E]ntendo por ação comunicativa uma interação simbólica mediada. Ela orienta-se segundo normas de vigência obrigatória que definem as expectativas recíprocas de comportamento e que têm de ser entendidas e reconhecidas, pelo menos, por dois sujeitos agentes. As normas sociais são reforçadas por sanções. O seu sentido objetiva-se na comunicação linguística quotidiana. Enquanto a realidade das regras e estratégias técnicas depende da validade de enunciados empiricamente verdadeiros ou analiticamente corretos, a validade das normas sociais só se funda na intersubjetividade do acordo acerca de intenções e só é assegurada pelo conhecimento geral das obrigações (...) (HABERMAS, J. Op. cit., III, p. 57/8).

Já aparecem nessas primeiras definições de razão comunicativa algumas divergências que afastam a realidade estratégica dos jogos da vinculação estrita com a instrumentalidade que contrasta com a ação comunicativa. Isso porque, embora seus enunciados possam ser interpretados de forma analítica - como na filosofia da linguagem, dotadas de valores de verdade ou falsidade -, as diversas estratégicas disponíveis aos agentes contam como sendo factíveis, passíveis de serem realizadas e, nesse sentido, todas são empiricamente verdadeiras. Por outro lado, a formulação matemática que é feita para análise de uma determinada situação não está livre de contextualização, uma vez que procuram descrever como se deve escolher as melhores estratégias, levando-se em conta os fatores determinantes das circunstâncias simplificadas nos modelos de jogos. Por isso, fazem tais descrições uma simulação hipotética do desempenho dos agentes, conforme as condições iniciais relevantes para interpretação da interação.

Ademais, a teoria dos jogos procura delinear as condições estruturantes de uma interação em seu nível mais básico. Para usar uma metáfora da linguagem dos computadores, a teoria dos jogos trabalha na "interface de máquina" dos dados e operações manipulados por "unidades de processamento", no intuito de extrair a solução logicamente inferida das proposições apresentadas. O "código fonte" dos programas executados em ambientes diferentes pelos diversos agentes. Sua "interface humana" são as narrativas, contos e histórias criadas pelas pessoas: o "dilema dos prisioneiros", a "batalha dos sexos", o "bem público", ou o "ultimato" que nada mais são do que parábolas para jogos montados em matrizes, árvores e fórmulas matemáticas.

Ao perceber-se a teoria dos jogos dessa perspectiva formal - como instrumento de análise de interações -, não só a ação teleológica pode ser melhor compreendida, mas também a razão comunicativa tem revelada suas limitações de aplicação, permitindo, assim que se proceda a uma crítica da razão comunicativa que resta por fazer. Os modelos de jogos com comunicação proporcionam uma excelente ferramenta de avaliação da eficácia da comunicação ao realizar seus fins, sejam emancipatórios ou de dominação. Desse modo, é possível compreender como a presença ou ausência de elementos específicos podem facilitar a coordenação das ações - fomentando a cooperação - ou apenas permitir que ameaças ocorram no sentido de impor determinada linha de ação em detrimento de outra.

Em todo caso, os exemplos mostrados antes [veja Jogos com Comunicação e seus Modelos] servem para indicar que a comunicação, embora seja um fator importante do relacionamento entre seres vivos, têm um campo de atuação restrito pelo modo como a interação é montada. Nos jogos de soma zero e informação perfeita, é dispensável. Nos de soma variante, tem um uso problemático quando a matriz induz o recurso de ameaças e promessas. Não obstante, mesmo que tais circunstâncias dificultem o uso pleno da comunicação - segundo seus pressupostos pragmáticos idealizantes (2) -, elas decorrem da concepção egoísta dos agentes racionais adotada pela teoria.

Esse tipo de objeção pode ser facilmente contornada se compreender-se os sujeitos deliberantes como entes que possuem apenas os elementos constitutivos mínimos e necessários para uma tomada de decisão: a motivação que se resume a crenças e desejos que compõem seus interesses pessoais. Todas as outras formas de racionalidade podem ser descartadas de um agente racional, menos a sua razão teleológica. Sem esta, simplesmente não haveria atuação passível de ser motivada. Posto que faltariam os itens indispensáveis para relação entre princípios e fins (3). Por deixar de fora do discurso argumentado todos valores moldados pelo convívio social, a Ética do Discurso - para citar um exemplo de teoria que eliminou a motivação da deliberação - tornou-se uma proposta cuja aplicação é inviável nos contextos concretos do dia-a-dia, onde a comunicação se exerce em função de provocar não só o entendimento mútuo, mas um efeito no ouvinte que o leve a agir em consequência do que foi dito - o chamado efeito perlocucionário da fala (4).

Estratégia e Dominação

A razão instrumental foi classificada como uma faculdade que seleciona os meios adequados para alcançar determinado fim, orientada por regras empíricas de “controle eficiente da realidade” (5). Esse aspecto dominador da razão teleológica (estratégica e instrumental) constitui o principal empecilho para consideração da competência estratégica no confronto da vontade contra a influência das inclinações representadas pelos interesses particulares de um indivíduo ou pelos bens privilegiados de uma cultura específica. Só o agir comunicativo atuante numa relação mediada pela linguagem, seria capaz de orientar os agentes conforme “normas de vigência obrigatória” internalizadas e admitidas intersubjetivamente. Ao invés de tentar ampliar o poder tecnológico de um determinado grupo ou indivíduo, a linguagem proporcionaria a reflexão necessária em torno do interesse emancipatório da espécie humana (6).

Os dois tipos de racionalidade – o dirigido a fins (instrumental e estratégico) e o de uma comunicação livre de coerção – disputariam o fornecimento de soluções para as questões teóricas e práticas. Entretanto, só quando a razão teleológica declinasse da substituição e restrição da linguagem, durante a formação da vontade, é que o potencial de libertação poderia se constituir de vez. Livre de qualquer limitação e ameaça, a discussão pública avançaria em direção a um consenso geral, contribuindo para o desenvolvimento da autonomia dos indivíduos (7).

O prevalecimento do agir estratégico, na tradição da teoria crítica, reproduz a dominação ideológica da tecnologia sobre a sociedade e a natureza. Sua função é simplesmente privilegiar os interesses restritos de quem detém o poder, a despeito de interesses mais abrangentes. A competência estratégica representaria, portanto, um obstáculo quase intransponível ao projeto emancipatório da modernidade. Mas este não é o único problema inerente na ação voltada para o sucesso de determinados fins. A Teoria dos Jogos também detectou uma série de limitações dessa forma de pensar as soluções dos problemas da escolha.

Por prestar atenção apenas na satisfação de seus interesses, muitos são levados a resultados paradoxais desastrosos, quando prevalece uma postura paramétrica – agir como se fosse o único centro de deliberação e todo o resto ficasse inalterado frente às ações executadas. O choque de interesses, em consequência, tornaria impossível encontrar um ponto de equilíbrio, a não ser por acaso. Mas ainda que se admitisse uma provável reação contrária às ações implementadas, a existência de mais de uma opção em equilíbrio geraria embaraços ao agir estratégico, como demonstram jogos do tipo do Dilema dos Prisioneiros e a Batalha dos Sexos. Isto porque, ao escolher a estratégia maximizadora de sua utilidade esperada, os agentes racionais cairiam em resultados, cuja dominância fornece ganhos abaixo do que é considerado ótimo.

Explicações iniciais sugerem que a simplificação dos cálculos induziriam agentes racionais à adoção equivocada da posição paramétrica, que facilita a abordagem cognitiva dos detalhes da barganha pelas partes envolvidas. Noutras situações, a ausência de instrumentos adequados, como a comunicação, impediria o acesso a ações conjuntas que conduzissem aos melhores resultados. A incerteza e a indeterminação sobre os desdobramentos futuros seriam fatores cruciais para limitação do sucesso do agir estratégico.

A incerteza aparece em jogos de soma variável – diferente de zero – e nos de soma zero com informação imperfeita, em que um ou mais lances são executados pela natureza. Nessas ocasiões, a probabilidade de uma ocorrência influencia a tomada de decisão, impedindo que uma estratégia estritamente determinante seja encontrada. Somente o emprego de cálculo probabilístico permite a projeção de estratégias mistas, onde os sorteios são preferidos de acordo com a maior chance de um resultado vir acontecer. Isso, no entanto, aumenta as dificuldades de uma clara percepção do porvir, perturbando o comportamento racional dos participantes. Encontrar uma solução que represente uma imputação de resultados racionais esperados à cada parte, passa a depender da sorte e da disposição dos agentes em aceitar os riscos acarretados pelas decisões assumidas em tais circunstâncias. A princípio, seres racionais são, por definição, aqueles que seguem as soluções encontradas que lhes garantam o resultado ótimo. Contudo, quando essas soluções ficam ao sabor do acaso, tal comportamento fica prejudicado.

Em outras palavras, assumindo-se que ser racional é produzir os melhores resultados para o indivíduo, uma racionalidade instrumental mínima exigida deve ser aquela que, além de projetar as linhas de ação que maximizam a utilidade esperada, deve também poder prever o comportamento consequente mesmo em situações em que elementos irracionais estejam envolvidos. Na última década do século XX, o refinamento da descrição de jogos estudados revelou a riqueza de soluções que podem ser geradas quando pequenas modificações são feitas nos modelos padrões, seja pela repetição sucessiva de diversas rodadas, seja pela permissão de troca de informações, ou ainda pela mudança do enquadramento da situação. A linha de pesquisa que avalia o papel da comunicação e do conhecimento comum dos participantes – uma abordagem paralela a do agir comunicativo na teoria crítica – já permite uma comparação entre os pontos coincidentes que antes eram apresentados com uma aparente divergência, logo desfeita quando se nota sua compatibilidade.

Mais Conversa

A comunicação não se reduz aos aspectos estruturais de uma sintaxe e semântica linguística, nem só ao âmbito exclusivo de uma pragmática da linguagem, voltada para o entendimento. Para ser entendida como um fenômeno natural em sua totalidade, é preciso levar em conta seus efeitos perlocucionários e as modificações que a ação comunicativa, de um modo geral, provoca nos seres vivos e, por conseguinte, no mundo. A eficácia da comunicação não se restringe a uma competência linguística, sendo como sua forma implícita ou explícita pode exercer a coordenação das ações dos agentes envolvidos numa interação, sem que sua função instrumental seja considerada. O Dilema dos Prisioneiros só é um dilema porque a comunicação entre eles está proibida. A Batalha dos Sexos também é um problema só para os “casais” que não têm como falar entre si antes de decidir o que fazer. Nada que uma boa conversa não pudesse revolver.

Pontos focais, “telepatia”, comunicação tácita são alguns nomes, cujo significado se reduz à formação de um repertório de símbolos constituídos por uma comunidade através de um convívio social e cultural partilhado por um grupo de pessoas ao qual pertençam os jogadores, em uma palavra: convenções. A função exercida por tais mecanismos tem por objetivo fomentar o entendimento acerca das estratégias relevantes, para então, possibilitar a seleção daquela que maximize a utilidade esperada. Ao revelar essa forma de comunicação subjacente a contextos de aparente isolamento, a Teoria dos Jogos ajudou a revelar o modo pelo qual comunicação e razão estratégia podem atuar de maneira complementar. Fatores comunicativos pertinentes ao jogo de interação social, que não estão explicitamente postos, induzem à escolha das estratégias puras disponíveis que melhor atendam aos interesses de todos. O isolamento inibe o recurso a ameaças que poderiam distorcer os resultados em favor de um agente com posição privilegiada sobre o outro. Imunes à coerção ou controle externo, resta aos jogadores agir segundo a estratégia conjunta observável com o melhor resultado factível.

Entretanto, a comunicação implícita muitas vezes impede o acesso a um equilíbrio na fronteira do ótimo de Pareto (eficiência) – aquela onde estão as estratégias conjuntas nas quais ninguém pode obter mais sem diminuir o ganho do outro. Uma troca de informação explícita conhecida pela expressão “conversa barata” (cheap talk), quando permitida antes do início do jogo, tem-se revelado como o meio mais eficiente, senão um dos mais, para atingir equilíbrios ótimos de Pareto ou de Nash. Estudos desenvolvidos a partir dos anos 80 revelaram a tendência para escolha dessas estratégias cooperadoras, sempre que se abre uma ou mais rodadas de comunicação antes da fase de ação do jogo iniciar (8).

Uma longa conversa barata pode transformar situações de aparente conflito em pura coordenação, como mostra o exemplo da Batalha dos Sexos. Outros contextos, entretanto, exigem que algo mais seja dito. O Dilema dos Prisioneiros possui uma matriz cuja configuração traz maiores dificuldades. O significado e a credibilidade dos proferimentos ficam ameaçados a ponto de tornarem a fala prejudicial à busca do equilíbrio. Em apenas uma rodada de conversa, a sinalização e o comprometimento não conseguem se impor, pois uma mensagem do tipo “farei assim e espero que você também o faça” não é suficiente para garantir a credibilidade, embora o significado de todos os termos sejam compreensíveis aos falantes de uma língua natural qualquer que permita a construção de tal expressão. O que está em jogo não é um mero entendimento sobre o significado da frase, mas a melhor distribuição dos saldos disponíveis.

Na Batalha dos Sexos, o equilíbrio dado pela conversação mantém-se graças às perdas advindas de uma possível deserção, enquanto no Dilema dos Prisioneiros, o contrário acontece. Ao desertar, uma parte tem tudo a ganhar, se o outro seguir a estratégia cooperadora. Para todos envolvidos, a deserção mútua permanece sendo uma opção superior ao resultado frustrante de uma atitude amigável que não é correspondida. A aversão ao risco faz da estratégia maximin – que maximiza os ganhos mínimos – dominante sobre o equilíbrio de Nash – aquele cuja multiplicação das estratégias dos jogadores produz o maior resultado numa fronteira de eficiência.

Nesse cenário, a comunicação exerceria uma função nula e supérflua. As restrições feitas à troca de informações visam, então, impedir que ameaças sejam feitas entre os participantes. Contudo, experiências realizadas em laboratório demonstram que o diálogo entre os agentes acaba por transformar esse dilema – um jogo não cooperativo –, num jogo de cooperação entre pessoas dispostas a correrem riscos moderados. Na prática, rodadas que se prolongam com o tempo favorecem o surgimento da reciprocidade e a consequente confiança na colaboração (9).

As motivações que concorrem para transformação do Dilema dos Prisioneiros em cooperação possuem, portanto, ingredientes de fundo psicológico e cognitivo. Psicológico, porque a proximidade dos agentes, a reciprocidade das respostas, um padrão subjetivo de confiabilidade e a percepção do outro como uma instância dotada de intenções semelhantes estimulam um comportamento cooperativo. Cognitivo, devido às inferências que são feitas tanto para o entendimento do significado dos enunciados emitidos, como na aferição das maiores vantagens em continuar agindo em função dos contratos estabelecidos, a despeito dos lucros imediatos de uma deserção que, no entanto, acabam por gerar prejuízos futuros, oriundos de uma retaliação esperada, por parte do outro. A comunicação, então, requer a mobilização de outros fatores alheios ao âmbito da linguagem, tais como credibilidade, reciprocidade e convivência prolongada.

Arranjos típicos do Dilema dos Prisioneiros servem para mostrar os problemas de aplicação de normas morais aceitas argumentativamente como válidas. Não basta apenas que se diga em uníssono “faça assim, que o farei também” ou “todos devem cooperar”. O contexto em que a aceitação é produzida força o envolvimento e apresenta os desafios que as partes devem resolver mutuamente. Perante o balanço dos danos e benefícios causados por uma empresa conjunta, os participantes vêem surgir a dimensão moral – a necessidade da concordância do outro – e o valor prático universal da norma candidata à lei, motivador do cumprimento dos contratos firmados.

Nem todos jogos se prestam ao uso efetivo da comunicação. A permissão de uma conversa barata antes da escolha de uma linha de ação não acrescenta coisa alguma ao destino de jogos de soma zero com informação perfeita, onde sempre há uma estratégia estritamente determinada que garante a vitória ou ao menos o empate a um dos jogadores. A discussão também é inútil quando neologismos e o significado dos conceitos empregados não são entendidos pelos falantes, colidindo com um dos pressupostos pragmáticos da argumentação. Acrescente-se a isso que a falta de credibilidade torna vão os esforços empreendidos nos debates, por menos custosos que sejam.

Todos poderiam, por hipótese, aceitar a validade dos 10 Mandamentos, do imperativo categórico, dos princípios de justiça etc. numa situação de fala ideal. Entretanto, do ponto de vista instrumental, nenhum argumento racional impediria o homem econômico de seguir a maximização irrestrita de sua utilidade esperada, a despeito de uma alegada contradição performativa, toda vez em que encontrasse uma estratégia que garantisse seus ganhos maiores. Apenas quando as informações individuais sobre os lances de um jogo são incompletas, ou há incerteza na obtenção de algum resultado mais favorável, a comunicação pode vir a desempenhar um papel decisivo, produzindo o entendimento no ouvinte de que o falante intenciona fazer algo cujo conteúdo é o significado a ser compreendido.

A comunicação, portanto, parte da intenção do falante de que o ouvinte compreenda o que se quer dizer quando a mensagem foi transmitida. Em sua forma direta, explícita, a troca de mensagens é mais eficiente que o recurso aos pontos focais de uma comunicação tácita ou implícita. Ao invés de um encontro “casual”, influenciado por um conhecimento comum ou pela topologia ambiental, os falantes podem simplesmente indicar o lugar preciso onde estarão e resolver facilmente a Batalha dos Sexos ou modelos semelhantes. Noutras palavras, a conversa preliminar, sempre que possível, conduz a resultados melhores do que a coordenação feita por convenções populares ou formais, desde que haja o uso pleno de mensagens compreensíveis por todos (10).

Tom Natural

A ideia de uma racionalidade moldada pela evolução natural das espécies admite que possa haver problemas não só para execução perfeita de estratégias, mas também para a produção de um entendimento mútuo entre emissores e receptores interessados, principalmente, com sua sobrevivência e reprodução. Se, por um lado, a razão estratégica perfeita ainda não foi alcançada e sofre com a incontinência ou o conflito de diversos interesses individuais, o agir comunicativo, por sua vez, tem de enfrentar a falta de credibilidade e significado das expressões em certos contextos de aplicação. Na natureza, há exemplos de seres vivos que emitem informações falsas sobre si mesmo – mimetismo – ou algum acontecimento – a presença de um inimigo –, obtendo assim chances de ganhar proteção ou maior quantidade de alimento (11).

Naturalmente, a comunicação pode ter surgido e sido mantida graças a sua potencial capacidade de promover o bem dos indivíduos. Contudo o seu uso exclusivo em finalidades particulares restritas que poderiam prejudicar o outro tiveram origem, paradoxalmente, na eficácia desse processo comunicativo. Foi porque a troca de informação inspirava à primeira vista a credibilidade de todos que captavam a mensagem, constituindo-se num meio efetivo de fomentar os interesses individuais na luta pela sobrevivência, que espécies mutantes passaram a empregar tal mecanismo apenas em proveito próprio.

Um Dilema dos Prisioneiros está em curso no desenvolvimento do agir comunicativo. Transmitir uma informação falsa pode trazer maiores vantagens para o emissor e prejuízos para o receptor. Entretanto, essa atitude, se costumeira, poderá gerar a desconfiança que prejudica a todos quando uma mensagem perde sua credibilidade. Melhor seria, então, transmitir sempre expressões válidas que, embora gerassem um ganho menor para o emissor, manteriam o recurso comunicativo passível de ser aplicado com sucesso no futuro. A percepção da necessidade de transmissão de enunciados verazes depende portanto de fatores extra-linguísticos – os interesses dos indivíduos na manutenção de um instrumento que auxilia na sua sobrevivência – que vão além dos limites ilocucionários.

Na espécie humana, para a comunicação atingir o entendimento mútuo em torno de uma linha de ação comum a todos, faz-se necessário o recurso a efeitos perlocucionários de esclarecimento e convencimento do outro, que mostrem também as vantagens que se terá com a satisfação de seus interesses ao agir no sentido do conteúdo expresso na mensagem. Todos devem perceber o que têm a ganhar colaborando para formação e implementação do consenso, ainda que momentaneamente seja mais vantajoso para um deixar que o outro cumpra a sua parte sozinho, enquanto puder desfrutar das vantagens dessa exploração, sem nada fornecer em troca. Mostrar que a comunicação constitui a estratégia mais adequada para estabelecer normas úteis para todos exige a compreensão de que a comunicação surgiu como um instrumento desenvolvido ao longo da evolução natural e que se mantém devido a sua eficácia na promoção dos interesses vitais, aos quais ela se vincula.

Não há, pelo menos enquanto a espécie Homo s. sapiens for como tal – racional, sensível e mortal –, um modo seguro de planejar uma decisão formal precisa que supere esses embaraços psicológicos definitivamente. Nenhuma teoria moral sustentada tão somente em pressupostos da razão (instrumental, prática ou comunicativa) está livre das armadilhas psicológicas e das pressões ambientais. Estimativas que considerem as probabilidades de um evento acontecer estão sujeitas a equívocos desconcertantes, graças à indeterminação natural dos fenômenos e à tendência em evitar o mal e perseguir o bem para si, seja lá o que isso for: maximizar a duração da vida e a distância da data fatal.

A Teoria dos Jogos detecta tais armadilhas na intransitividade das preferências que torna a função de utilidade de von Neumann-Morgenstern “impraticável”, na maioria dos indivíduos. De forma semelhante, os problemas de aplicação enfrentados pela Ética do Discurso decorrem da desconfiança sobre as motivações inseridas num pano de fundo específico. O que impede a desejável efetivação de normas que poderiam ser respaldadas pelo consenso dos participantes numa situação de fala ideal. Na compreensão adequada do contexto real, ações estratégicas e comunicativas precisam atuar de maneira complementar no intuito de esclarecer os desvios cometidos pelas pessoas em suas deliberações e apontar mecanismos auxiliares que promovam a cooperação em busca dos melhores resultados para todos.

Notas
1. Veja HOBBES, Th. Leviatã, I part., cap. V, p. 27 e KANT, I. Crítica da Razão Prática, prefácio, A3, p. 11.
2. Desde HABERMAS, J. "Notas Programáticas para a Fundamentação de uma Ética do Discurso", in Consciência Moral e Agir Comunicativo os pressupostos pragmáticos de uma situação ideal de fala passaram por várias reformulações até chegarem a forma condensada de HABERMAS, J. "Racionalidade do Entendimento Mútuo", in Verdade e Justificação.
3. Em DAMÁSIO, A. O Erro de Descartes são apresentados exemplos dramáticos da necessidade de motivação para que as escolhas por ações sejam adequadamente feitas.
4. Em tempo, no artigo HABERMAS, J. "Racionalidade do Entendimento Mútuo", in Verdade e Justificação, o autor tentou fazer uma nova distinção entre os tipos de racionalidade, mas sua descrição imprecisa das condições em que uma ameaça ou um ato perlocucionário podem ser eficazes demonstram que ainda ignora o uso da teoria dos jogos nas análises dos jogos de comunicação.
5. Veja HABERMAS, J. "Técnica e Ciência como Ideologia", seç. III, p.57.
6. Veja HABERMAS, J. Op.cit., seç. III, pp. 57 a 60; seç.VI, p. 75 e VII, p.82.
7. Veja HABERMAS, J. Idem, seç. VIII, p.88.
8. Veja AUMANN, R. J. & HART, S. “Long Cheap Talk”; FARRELL, J. “Meaning and Creability in Cheap Talk Games” e FARRELL, J. & RABIN, M. “Cheap Talk”.
9. Veja AXELROD, R. The Evolution of Cooperation e AUMANN, R. & HART, S. Idem, seç.5.2, p. 17. 10. Veja FARRELL, J. & RABIN, M. ibidem, p. 112.
11. Veja DAWKINS, R. O Gene Egoísta, cap. 4, pp.87-89.

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A seguir: Axelrod e seu Livro: biologia e a Teoria da Cooperação
Referências Bibliográficas

AUMANN, R. J. & HART, S. "Long Cheap Talk", in Econometrica, 2003, vol. 71, nº 6, 1619-1660. Disponível na Internet via http://www.ma.huji.ac.il/~hart/abs/long.html?. Arquivo consultado em janeiro de 2005.

AXELROD, R. The Evolution of Cooperation. - Nova York: Basic Books, 1984.

DAMÁSIO, A. O Erro de Descartes; trad. Dora Vicente e Georgina Segurado. – São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

DAWKINS, R. O Gene Egoísta; trad. Geraldo H. M. Florsheim. – Belo Horizonte: Itatiaia, 1979.

FARRELL, J. "Meaning and Credibility in Cheap-Talk Games", in Games and Economic Behavior, 1993, 5, pp. 514-531.

FARRELL, J. & RABIN, M. "Cheap Talk", in Journal of Economic Perspectives, vol. 10, nº 3, pp. 103-118. Verão de 1996.

HABERMAS, J. Técnica e Ciência como “Ideologia”; trad. Arthur Morão. - Lisboa: Edições 70, 1987.

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________. Verdade e Justificação; trad. Milton C. Mota. - São Paulo: Loyola, 2004.

HOBBES, Th. Leviatã; trad. João P. Monteiro e Mª B. M. da Silva. – São Paulo: Abril Cultural, 1983.

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