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TEORIA DOS JOGOS E DA COOPERAÇÃO PARA FILÓSOFOS | |||||
SEÇÃO II | ||||||
Logo no primeiro capítulo de Theory of Games and Economics Behavior, John Von Neumann e Oskar Morgenstern colocaram como única possibilidade de solução para os problemas de diversas situações típicas da economia - troca de bens, monopólio, oligopólio e livre competição - a abordagem destes através dos métodos matemáticos contemporâneos. A teoria dos jogos moderna já surgia como a responsabilidade de aplicar as técnicas de uma disciplina (a matemática) sobre outra (a economia). As análises dos jogos estratégicos vinham desenvolvendo-se, desde 1928, com a pesquisa de matemáticos acerca da melhor maneira de vencer em jogos de xadrez, pôquer e outros divertimentos de salão. A idéia era de que o comportamento econômico poderia ser descrito ou interpretado do mesmo modo que esses jogos estratégicos (1). O que aqueles dois autores imaginavam era que a matemática poderia ser útil à economia, da mesma forma como fora para as diversas teorias da físicas - calor, nuclear, quantas etc. Apesar do ceticismo das ciências sociais, que consideravam a psicologia e o comportamento humano fenômenos de difícil trato formal, acreditava-se que uma formulação clara desses problemas seria o primeiro passo para o emprego da matemática, também em economia. Por outro lado, o uso do instrumental matemático adequado à economia evitaria o desconforto de iniciativas anteriores nesta direção em relação a uma física social - como fora proposta pelos positivistas, marxistas e malthusianos -, procurando assim orientar-se pela aplicação de novas técnicas relevantes tal como fora importante o cálculo diferencial para o estudo de trajetória de objetos no passado. O ceticismo inicial não permitiu que os economistas se entusiasmassem pela teoria dos jogos. Como narra Silvia Nasar, em Uma Mente Brilhante (1998), as contribuições da obra de Von Neumann e Morgenstern estavam limitadas a uma reapresentação mais extensa do teorema minimax e uma nova roupagem de problemas econômicos tradicionais. Isso explica, porque durante muito tempo a teoria dos jogos continuou sendo um tema mais difundido entre matemáticos do que entre economistas. Por tratar prioritariamente de jogos de soma zero, o alcance da teoria ficou reduzido aos interesses de militares que interpretavam a guerra como um jogo que para um vencer, outro tem necessariamente que perder (2). A partir da descoberta do ponto de equilíbrio, por John Nash, para jogos não-cooperativos com múltiplos jogadores, o interesse de cientistas sociais pôde ser despertado. Fora da matemática e da economia, ou administração, os primeiros textos publicados sobre o tema foram Theory of Games as a Tool for the Moral Philosopher, de Richard B. Braithwaite, lançado em 1955. Cinco anos depois, o psicólogo Anatol Rapoport apresentou Lutas, Jogos e Debates (1960). Enquanto Richard C. Lewontin foi o primeiro biólogo a escrever um artigo a respeito em "Evolution and Theory of Games" (1961). Nessa fase de aproximação, as principais objeções levantadas partiram do economistas francês Maurice F. Ch. Allais. Suas críticas estavam voltadas para as dificuldades de seres humanos se comportarem racionalmente em condições de risco ou incerteza conforme os resultados previsto pela teoria. A suposta irracionalidade dos humanos observados diante do risco afrontava diretamente os axiomas assumidos pela teoria econômica estadunidense da metade do século XX. Uma resposta satisfatória a essas questões só foi bem sucedida, depois dos psicólogos israelenses Daniel Kahnemann e Amos Tversky lançarem a Teoria das Perspectivas (Prospect Theory), em 1979. O sucesso dessa teoria em suas implicações econômicas valeram o Nobel de economia de 2002 à Kahnemann e certamente seria estendido a Tversky, caso este estivesse vivo à época - Tversky falecera em 1996, vítima de câncer. Jogos Dinâmicos Até que a Teoria das Perspectivas viesse elucidar o comportamento de inconsistência aparente dos agentes humanos, em escolhas envolvendo risco e incerteza, a teoria dos jogos sofreu várias críticas de economistas acerca da concepção forte de racionalidade dos jogadores que não correspondiam ao real desempenho dos agentes racionais. Além disso, muitos conceitos chaves, como ponto de equilíbrio, axiomas da transitividade das preferências, foram atacados através de experimentos simples, como o Dilema dos Prisioneiros, que obrigavam uma reinterpretação das deliberações que fugiam do padrão teórico previsto. Enquanto a intransitividade das preferências iria esbarrar no problema insolúvel do teorema de Arrow, para o bem-estar social, o dilema dos prisioneiros acabou por transformar a teoria dos jogos estáticos imaginada por Von Neumann e Morgenstern em uma teoria de jogos dinâmicos que rapidamente foi desenvolvida e incorporada aos métodos de pesquisa da biologia evolutiva contemporânea. Em Theory of Games and Economic Behavior, seus autores foram enfáticos em procurar delimitar sua formulação à busca de compreensão das evidências de como as pessoas se comportam em uma dada situação. Primeiro era preciso entender como as decisões são tomadas em um instante determinado para depois investigar as repetições sucessivas das mesmas circunstâncias iniciais. Sob o argumento de que, uma vez encontrado o equilíbrio, não haveria razões para mudanças, eles rejeitavam a necessidade de se desenvolver uma abordagem dos jogos dinâmicos, naquele estágio teórico preliminar (3). Entretanto, depois que, sobretudo, Axelrod colocou o Dilema dos Prisioneiros Iterado no centro de sua Teoria da Cooperação, o estudo dos jogos dinâmicos acabou por preencher a lacuna deixada pela teoria original e apresentou um amplo espectro de possibilidades para sustentação do equilíbrio em situações mais favoráveis do que a do jogo base, estático. Assim, resultados na fronteira do ótimo de Pareto poderiam ser alcançados permitindo aos jogadores observarem as reações do outro a suas decisões e, nesse, sentido reorientar duas estratégias. Na biologia evolutiva, foram os jogos dinâmicos uma ferramenta empregada na explicação de diversos comportamentos paradoxais, observados não só em humanos, mas em todo tipo de ser vivo. Surgiu, então, uma nova classe de jogos evolutivos que transformou por completo a interpretação da teoria dos jogos tradicional, não se detendo mais em agentes racionais, mas abordando a conduta de qualquer tipo de indivíduo que fosse capaz de atuar conforme as condições do meio e a presença de uma outra parte reagente. Por conta dessa nova abordagem, a teoria dos jogos e sua modelagem formal da interações atraiu a atenção de pesquisadores de muitas outras disciplinas afins, interessadas no estudo do comportamento de sistemas dinâmicos. Para a Teoria do Caos e para a Inteligência Artificial, a teoria dos jogos apresentou a possibilidade de se programar autônomos celulares que simulassem a cognição e o movimento oscilatório pertinente a condições de vida no limite entre o caos e a ordem. Desse modo, a teoria dos jogos conquistou a física contemporânea e a ciência cognitiva mais avançada. Se na teoria econômica a teoria dos jogos ficou restrita à microeconomia, nas outras áreas do conhecimento veio galgando espaços cada vez mais amplos. Na biologia, está no centro dos experimentos a respeito da evolução do comportamento e consolidação das emoções na psicologia humana. De fato, os jogos evolutivos vêm ganhando cada vez mais atenção de pesquisadores fora da biologia. O afastamento inicial dos economistas não impediu que experimentos com modelos dinâmicos fossem usados para atacar os pressupostos teóricos do liberalismo econômico que não se sustentam na prática. Nessa linha de investigação, testes que avaliam a capacidade de cooperação dos jogadores estão sendo empregados como métodos que ajudam a revelar mecanismos que estão por detrás da complexa atividade humana. Na economia, os jogos experimentais estão em expansão graças à gama de possibilidades de aplicação, já demonstrada pelos evolucionistas. Karl Sigmund, economista austríaco, recomenda sua utilização no estudo das interações cotidianas de comércio entre pessoas de diversos países por meios eletrônicos, através da rede mundial de computadores. Essas e outras relações interpessoais funcionariam a despeito da ausência de contratos explícitos e instituições que deveriam regular essas trocas em escala global (4). Neuroeconomia Por causa do sucesso do individualismo metodológico na biologia e ciências sociais, os jogos dinâmicos abrangem atualmente áreas que antes a teoria dos jogos não atraia. A neuroeconomia é um novo campo interdisciplinar que cresce com a reunião dos modelos de jogos à investigação neurológica, por meio de tomografia computadorizada, atraindo o interesse de economistas e neurocientistas que querem descobrir as causas fisiológicas do comportamento dos agentes. Antes, a tática de evitar abordagens que levassem em conta juízos de valor era defendida por economistas que procuravam colocar suas teorias mais próximas dos métodos científicos. Assim, desde o século XIX, os economistas tratavam de desenvolver técnicas de formalização matemática que não fizessem menção a sentimentos e estados mentais dos indivíduos. Não obstante, se no passado não era possível trabalhar de modo experimental a cognição humana - a maneira pela qual as reações nervosas ocorriam no cérebro e provocavam por conseguinte um comportamento respectivo -, com o avanço da tecnologia não invasiva de observação das atividades cerebrais relacionadas a um estímulo qualquer permitiu identificar as áreas responsáveis pelo comportamento econômico, já no final do século XX. A conduta humana surge da atividade conjunta do sistema de reações automáticas com aquelas controladas, dependendo da interpretação da ocasião em que se provoca uma atitude. A neuroeconomia informa os pesquisadores de ambas modalidades - neurociências e economia - sobre o papel do sistema nervoso no processo de decisão em negociações rotineiras. Por conta disso, além das variáveis tradicionais a serem observadas é preciso saber o estado mental do agente em relação ao tipo de ação que irá adotar. Em geral, os economistas imaginam que as escolhas dos agentes são resultados finais de um processo de tomada de decisão que, quando chegam a um equilíbrio não podem mais ser mudados. Entretanto, os recentes estudos neurológicos têm mostrado uma interferência do sistema autônomo de respostas que não é necessariamente percebida conscientemente e, por tanto, não depende do controle cognitivo do sujeito. Por outro lado, há circunstâncias em que as emoções exercem também um papel decisivo, de acordo com o calor do momento. Os métodos das neurociências procuram mapear as áreas do cérebro que trabalham no processamento das escolhas econômicas, identificando, por vezes, os neurônios atuantes, seja por meio de estímulos elétricos ou químicos. Saber como o cérebro funciona nessas ocasiões ajuda a compreender melhor que hipóteses teóricas são sustentadas pelas evidências empíricas. Alguns dos conceitos criados pelos economistas, na prática, não acontecem nos testes realizados, tais como avaliação do risco, o desconto paramétrico do futuro e considerações altruístas, sobretudo quando as decisões são derivadas de um processo automático de seleção. Isto é, não haveria nenhum módulo isolado no cérebro que fosse especializado nesse tipo de avaliação. O que vale dizer que para o risco ser corretamente percebido, precisa estar envolvido em um contexto de incerteza ou insegurança para ser adequadamente estruturado (5). Uma vez contextualizado o problema, o processo afetivo pode então motivar o agente a seguir ou não uma tendência delimitada pelas opções disponíveis. Da perspectiva neurológica, as preferências, os interesses, as crenças e os desejos do agente só existem em função da sua sobrevivência e reprodução. Estes fatores são fins ou meios que são marcados como relevantes em razão da manutenção de um equilíbrio homeostático dos organismos que assegure sua existência e perpetuação, nas condições impostas pelos meio ambiente. A homeostase é, portanto, o princípio que conduz todo processo deliberativo exercido pelo sistema nervoso. Em outras palavras, tudo é decidido no sentido de procurar preservar a integridade física do organismo (6). Pesquisas recentes do economista Ernst Fehr, Michael Kosfeld e seus colegas da Universidade de Zürich têm ajudado a revelar que a confiança nas relações sociais podem ser incrementadas, quando é inalado pelos agentes um tipo de neutransmissor conhecido como oxitocina (figura 1). Esse hormônio é produzido naturalmente pelo hipotálamo, região do cérebro que controla a regulação biológica e também as emoções (figura 2). Trata-se de uma substância química chamada peptido formada por nove aminoácidos. É utilizada por via intravenosa para indução do parto e de modo intranasal para estimular a lactação. Também ajuda a reduzir e controlar a hemorragia pós-parto, sendo contra-indicada para pessoas hipertensas ou quando há complicações na gestação. Não deve ser administrada de forma oral por ser facilmente metabolizada pelo aparelho digestivo. Atua no sistema nervoso em regiões associadas com o comportamento emocional e social (como a amígdala). Nos mamíferos, a oxitocina diminui a resistência natural dos animais à aproximação de extranhos (7).
A equipe do Instituto para Pesquisa Empírica em Economia de Zürich borifou um líquido contendo a oxitocina e outro com placebo, respectivamente, em dois grupos distintos de jogadores que participaram anonimamente de uma variante do Ultimato conhecida como Jogo da Confiança. Neste tipo de jogo, duas pessoas atuam sem saber quem é o investidor ou o depositário. O investidor deverá escolher uma parte ou o total de uma quantia disponível para ser enviada a um depositário. Ao fazer isso, o valor que for investido será multiplicado pela banca (o experimentador) e imediatamente remetido ao depositário, que de posse dessa transferência deve então decidir se devolve alguma parte, todo o dinheiro ou nada. O Jogo da Confiança testa a confiabilidade do investidor no retorno de seu capital por parte do depositário. Entretanto, o investidor enfrenta o dilema de fazer um alto investimento e arriscar a ter sua confiança explorada pelo depositário ou investir pouco e passar a ser alvo da indignação do segundo jogador, que pode considerar injusta a fração que recebe, em relação ao que o primeiro guardou para si. Nos experimentos realizados por Kosfeld, os investidores recebiam $12 e tinham as opções de aplicar nada, $4, $8 ou tudo. Os valores eram depois triplicados e enviados ao depositário. Este somava as transferências com os $12 que também recebera do experimentador e decidia quanto deveria devolver ao investidor, a saber: zero, $12, $24, $36 ou $48 (8). Os participantes da experiência foram divididos em dois grupos. Os investidores que inalaram a oxitocina aumentaram suas transferências em média 17 por cento, em comparação ao grupo de controle que inalou placebo. Esse comportamento indicou que a oxitocina interfere nas interações sociais, estimulando a confiança no outro, mesmo que desconhecido. Razões para esta conclusão foram reforçadas, pois quando o investimento sofria a incerteza do risco - com uma taxa de probabilidade de não ser devolvido - ou quando era informado que o depositário era uma máquina, a oxitocina não produzia nenhum efeito perceptível (9). Além do mais, a oxitocina só agia sobre as decisões do investidor e não do depositário. Isto porque, os primeiros exercem papéis psicológicos diferentes dos segundo. Cabe ao investidor ter a iniciativa de abordar o depositário, enquanto este tem apenas de avaliar se responde a ele reciprocamente ou não. O que significa que a oxitocina não atua sobre a reciprocidade, mas afeta o contato interpessoal, estimulando a interação social, aquilo que os biólogos chamam de "comportamento de abordagem" (10). Os experimentos com jogos em que participam pesquisadores de vários campos de investigação estão apenas começando. Os resultados obtidos até agora, sobretudo na nova neuroeconomia, apontam para uma promissora área de atuação para jovens pesquisadores interessados em abrir a "caixa-preta" que processa as deliberações econômicas e sociais. O mistério da consciência e do comportamento humano nunca esteve tão perto de ser elucidado. Notas
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Referências Bibliográficas | ||||||
CAMERER, C., LOEWENSTEIN, G. & PRELEC, Dr. "Neuroeconomics", in Journal of Economic Literature, 2005. DAMÁSIO, A.R. O Mistério da Consciência, trad. Laura T. Motta. - São Paulo: Companhia das Letras, 2000. _______. "Brain Trust", in Nature, vol. 435, jun 2005, pp. 571-572. FEHR, E., FISCHBACHER, U. & KOSFELD, M. "Neuroeconomis Foundations of Trust and Social Preferences", in American Economic Review, no prelo. KOSFELD, M. et al. "Oxytocin Increases Trust in Humans", in Nature, vol. 435, jun 2005, pp. 673-676. NASAR, S. Uma Mente Brilhante; trad. Sérgio M. Rego. –Rio de Janeiro: Record, 2002. Von NEUMANN, J. & MORGENSTERN, O. Theory of Games and Economic Behavior. – Princeton: PUP, 1953. SIGMUND, K. "The Economics of Fairness". Disponível na Internet via http://www.iiasa.ac.at. Arquivo consultado em 2003. |