![]() ![]() ![]()
|
TEORIA DOS JOGOS E DA COOPERAÇÃO PARA FILÓSOFOS | ||||||||||||||
SEÇÃO II | |||||||||||||||
O mais difícil em uma caminhada é o primeiro passo. Uma longa caminhada não termina enquanto uma série de passos não ligar o primeiro ao último. Concepções imediatistas, em política, são adotadas por nações e seus respectivos governos que se arriscam a estabelecer projetos de larga escala, sem levar em conta os detalhes e aspectos elementares que compõem o todo. Essa visão macroeconômica amiúde gera desperdícios que sobrecarregam os povos de impostos e custos desnecessários. Em geral, sabem como começar, mas não como parar. A solução dos problemas vividos por toda uma geração neste começo de milênio depende de uma correta compreensão de como a ação de cada ser humano no passado contribuiu para o estado de coisas alarmante dos tempos atuais. Poluição, devastação do meio ambiente, superpopulação, má distribuição de recursos e miséria são consequências da cegueira de teorias para a ação individual e o impacto do somatório dos seus ganhos no resultado final da interação humana. Como parte da microeconomia, a Teoria dos Jogos chama atenção para os efeitos das escolhas de cada um sobre a condição geral de todos envolvidos. O planejamento prévio e uma política imposta de cima para baixo não são capazes de resolver as dificuldades acumuladas por uma cadeia de erros sucessivos cometidos no passado. A mudança desse quadro ameaçador só ocorrerá quando se considerar seriamente os interesses individuais de cada envolvido e a satisfação de seus desejos no fim do jogo. De outro modo, políticas públicas macroeconômicas não podem aspirar à eficiência. Caso contrário, os bons indicadores iniciais, que facilmente aparecem, não conseguem se manter a longo prazo. A teoria dos jogos e da cooperação têm a seu favor a capacidade de esclarecerem os conceitos e princípios elementares que sustentam a possibilidade de êxito de interpretações sobre o comportamento dos seres vivos. O individualismo metodológico, que caracteriza esse ponto de vista, tornou-se uma concepção bem sucedida, em face do fracasso evidente do positivismo nas ciências sociais. Não existe fato social ou instituição que se sustente sem levar em consideração os interesses dos indivíduos que os geraram. As escolhas que os agentes fazem estão limitadas por sua condição física herdada e pela situação em que se encontram. O somatório dessas decisões produz a sociedade humana com os vícios e virtudes que possuam seus integrantes. O curso que ora se encerra pretedeu pôr em relevo essa conclusão inevitável. Muitos outros aspectos importantes da teoria não puderam ser sequer abordados, para não perturbar a linha introdutória que foi traçada. Procurou-se, nessa primeira abordagem ao tema, evitar o desenvolvimento de fórmulas que caracterizam a pesquisa mais avançada em seu domínio. Na primeira seção, foram apresentados um breve relato histórico e os principais conceitos e preceitos dos jogos. Em seguida, um tema específico relacionado aos jogos com comunicação foi colocado como um exemplo da maneira que a teoria dos jogos trata um problema afim a diversas correntes filosóficas da linguagem e comunicação. Depois, a teoria da cooperação foi introduzida e os pontos relacionados à evolução trouxeram a transformação provocada pelos torneios de computadores e suas variantes. Na segunda seção, o Dilema dos Prisioneiros Iterado indicou as propriedades das diversas estratégias que contribuem para manutenção da cooperação em contextos diferentes. O Dilema Social, ou Jogo dos Bens Públicos, é uma extensão do dilema dos prisioneiros para mais de dois jogadores, onde a necessidade de punição e de uma instituição que implemente as penalidades se faz notar. As dificuldades teóricas em relação à concepção de um agente egoísta e racional ficam evidentes em modelos de jogos como o Ultimato. Aqui, a equidade parece ser mais resistente do que a tentação de desertar, sobretudo, porque a possibilidade de retaliação é imediata a propostas injustas, na maioria das sociedades. Considerações sobre a reputação, passada e futura, bem como sentimentos morais - vergonha e indignação - são mobilizados para explicar o fenômeno e a ausência de um comportamento que deveria ser, ao menos, próximo ao do "homo oeconomicus", personagem cuja conduta seria a recomendada pela teoria econômica. Esses poucos pontos apresentados foram suficientes para elencar uma série de disciplinas ou campos de investigações separados que podem estabelecer relações através do uso de métodos típicos da teoria, por meio de simulações e modelos de jogos, que tratam do comportamento humano e do processo de deliberação. A teoria dos jogos e os modelos de agentes fazem a ponte entre disciplinas como a economia e as neurociências, promovendo a formação da neuroeconomia. A partir desta nova disciplina, foram feitas pesquisas sobre como o sistema nervoso reage a situações econômicas, nas quais os participantes devem decidir de acordo com a reação esperada de outros agentes supostamente egoístas. As ambições iniciais de uma teoria que visava prever a melhor estratégia de atuação em qualquer contexto, na prática, cederam lugar a uma concepção mais promissora de um instrumento de análise útil a muitas áreas de investigação. Com isso, a teoria dos jogos ampliou seu espaço de atuação enquanto fomentava novos setores, como a biologia matemática, a economia experimental e essa tal de neuroeconomia. Para a filosofia, a percepção de Braithwaite ainda aguarda a participação de mais autores interessados. Contudo, a ética é um campo que tem muito a evoluir com a implementação de suas técnicas e formalização da intuição de muitos filósofos modernos: Hobbes, Rousseau, Hume, Bentham, entre outros. Forçoso dizer que muitos outros pontos relevantes para filosofia foram deixados de fora. Jogos que exigem habilidade e não são exclusivamente estratégicos não foram mencionados. Também os leilões e o interessante Jogo do Leilão do Dólar, de Martin Shubik, - chamado de Escalada, por Howard Raiffa - não tiveram mais do que um menção em nota no início desse curso. O estudo de coalizões e pagamentos laterais, tipos de jogos cooperativos foram outra omissão notável, devido ao enfoque nos jogos não-cooperativos ter predominado. Nenhuma palavra foi escrita sobre o valor de Shapley, importante conceito da primeira fase da teoria e muitos outros temas que o leitor mais informado poderá estranhar a ausência. Tudo isso graças às limitações naturais que uma apresentação introdutória tem de enfrentar. O objetivo principal do plano de estudo da Teoria dos Jogos e da Cooperação para Filósofos foi colocar em uma linguagem acessível à maioria dos leitores interessados os aspectos centrais da teoria como vem sendo desenvolvida atualmente. Como primeiro contato, atacou-se de imediato os conceitos comuns à filosofia e aos jogos, a fim de estabelecer uma aproximação natural de quem possui pouca ou nenhuma informação sobre o assunto. Se os textos elaborados foram bem sucedidos deverão despertar no leitor o desejo de buscar mais elementos em pesquisas mais avançadas. A rigor é praticamente impossível mostrar de uma vez todo campo de investigação trabalhado por um setor em franca expansão. De um modo geral, procurou-se apontar a tendência predominante e que vem sendo reconhecida pelas sucessivas premiações recebidas por teóricos dos jogos, desde o Nobel de economia de 1994. São poucos os títulos sobre teoria dos jogos que se mantém em catálogo, disponíveis em português, alguns introdutórios outros voltados a especialistas. Dentre os que estão à disposição do público, a maior parte se dirige a economistas e administradores. Raros são aqueles que se dedicam a um público geral - amiúde são traduções de obras estrangeiras. Teoria dos Jogos e da Cooperação procurou atender uma faixa de leitores lusófonos de outras disciplinas, mas que também possam estar interessados em discussões filosóficas a respeito do processo de escolha, tomadas de decisão e o consequente comportamento de agentes humanos ou não. Nesse sentido, as fórmulas matemáticas foram reduzidas ao mínimo necessário para não prejudicar a explicação. Na maior parte das vezes, foram postas por extenso, verbalmente, na linguagem natural. Entende-se que todas as formulações simbólicas podem ser traduzidas no vernáculo corrente, embora isso resulte em uma perda de precisão e em um número maior de caracteres. Assim, frequentemente, preferiu-se uma expressão da forma "a probabilidade que este resultado possa acontecer tem a chance menor do que cinco porcento" ao invés da simples inequação "p < 0.5" (1). Com razão o leitor mais exigente pode objetar que tal verbalização contraria o "espírito" científico e a pretendida precisão buscada pela teoria. Não obstante, o esforço da divulgação, por vezes, obriga o sacrifício do rigor acadêmico em função de uma causa nobre de atrair os iniciantes para um tema que estes poderão mais tarde desenvolver com maior objetividade. A meta da Teoria dos Jogos e da Cooperação para Filósofos é, portanto, servir como uma pequena escada que depois deve ser descartada por quem tiver alcançado um patamar mais elevado. Deve ser interpretado como um incentivo, ou primeiro passo, para quem queira iniciar sua pesquisa nessa área, mas não sabe ainda por onde começar. A teoria dos jogos já avançou para níveis dos quais não é mais possível retroceder. O neodarwinismo da biologia evolutiva contemporânea, a ciência cognitiva da inteligência artificial, a teoria dos sistemas complexos dinâmicos e a neurociência do estudo da mente desenvolvem pesquisas que não foram previstas no estágio inicial da teoria dos jogos. Filósofos contratualistas e utilitaristas contemporâneos já usam-na como base de sua argumentação e princípios gerais. Para entender o debate atual é preciso conhecer os pressupostos originais e ter uma visão abrangente do seu desdobramento conceitual. A partir daí, o interesse de cada um deverá direcioná-lo ao acompanhamento dos assuntos que lhe forem mais próximos. E depois, possivelmente, produzir novas pesquisas em textos críticos sobre os problemas encontrados. Da maneira que evoluiu, a própria teoria dos jogos é um exemplo de campo interdisciplinar aberto a todos os pesquisadores, nas áreas mais diferentes. Nesse sentido, construiu a percepção de ser um método de análise eficiente e versátil das situações de interação entre agentes egoístas. O que reforça a tendência em considerá-la um meio adequado para solução dos problemas atuais vividos pela humanidade em uma escala global. O acúmulo de erros e confusões metodológicos de uma tradição acadêmica impediu o desenlace de novas perspectivas para o trato da crise provocada pela globalização. Sem fazer tábula rasa de toda essa cultura filosófica, a teoria dos jogos abre horizontes onde podem ser trabalhados sem preconceitos os problemas mais próximos aos indivíduos que sobrevivem em um mundo poluído, com escassez de recursos, superpopuloso e em meio a uma desigualdade que lança pelo menos um bilhão de humanos em uma condição de vida miserável. A solução desses problemas passa por uma minimização da corrupção, da superação da tragédia dos comuns e da necessidade do estabelecimento de um organismo mundial com poderes de intervenção legitimado pelo consenso dos representantes de toda população do planeta. Todos esses aspectos e muitos outros são abordados nos modelos de jogos. Tal técnica de sistematização ajuda a encontrar respostas para as questões gerais e específicas que lhe são formuladas. Portanto, a teoria dos jogos se apresenta como a disciplina mais promissora para o tratamento desses temas. As próximas gerações têm, então, uma maneira de examinar os problemas que cedo ou tarde terão de enfrentar pela sua própria sobrevivência, livres dos vícios e preconceitos da academia. Nesse sentido, do mesmo modo sugerido por Harsanyi, assim como não se deixa de ensinar aritmética às crianças, também não se deveria furtar de lhe ensinar a teoria dos jogos, por mais difícil e contra-intuitiva que possa parecer, à primeira vista (2). Os jogos têm a vantagem de simplificar, ao mesmo tempo em que tornam mais precisos, o estudo da interação e comportamento humanos. Serviu para apresentar com nitidez o que há de elementar em muitas formas de convívio social, cuja valoração é difícil de hierarquizar no âmbito da teoria política. Em um jogo, os jogadores procuram realizar da melhor maneira os objetivos que lhe são propostos, seguindo as estratégias disponíveis, segundo uma interpretação correta das regras. Do mesmo modo, em sociedade, os cidadãos visam atingir um plano de acordo com os princípios particulares e as normas gerais aceitas pela comunidade. O resultado conjunto das escolhas feitas pelos indivíduos reflete-se em uma constituição mais ou menos justa, conforme a capacidade de cada um em perceber a cooperação como a melhor solução para todos. Para estudar o mundo social, necessitamos de conceitos rigorosos. Impõe-se que emprestemos precisão a termos tais como utilidade, informação, comportamento ótimo, estratégia, equilíbrio, ajuste e muitos outros. A Teoria dos Jogos de estratégia desenvolve noções rigorosas para todos esses vocábulos e, assim, nos capacita a examinar a pertubadora complexidade social sob nova luz. Sem esses conceitos precisos, jamais poderíamos esperar que a discussão saísse de um estágio puramente verbal e nos veríamos para sempre cingidos a uma compreensão muito restrita, se é que conseguiríamos alcançá-la (MORGENSTERN, O. "Prefácio", in DAVIS, M. Teoria dos Jogos, p. 12). Oskar Morgenstern considerava importante a formalização matemática da teoria e que toda tentativa de divulgá-la para o grande público fosse feita por quem tivesse o conhecimento profundo de todas complexidades teóricas, bem como participado de sua elaboração. Duas características das quais carece o autor de Teoria dos Jogos e da Cooperação para Filósofo. No entanto, este ousou implementar essa tarefa na ausência de alguém mais habilitado que se dispusesse a fazê-lo e com a consciência dos riscos de ter cometido possíveis equívocos. Porém, o reconhecimento da importância de se recuperar o tempo perdido pela falta de textos acessíveis, obrigou à decisão pela tomada do difícil primeiro passo. Que essa iniciativa temerária estimule autores credenciados a cumprirem sua missão de divulgador, responsabilidade social de todo cientista e acadêmico. - Senhoras e Senhores, façam seu jogo! ![]() Notas
| |||||||||||||||
Referências Bibliográficas | |||||||||||||||
AXELROD, R. Advancing the Art of Simulation in the Social Sciences. Disponível na Internet via http://www-personal.umich.edu/~axe/. Arquivo consultado em 2005. DAVIS, M. D. Teoria dos Jogos; trad. Leonidas Hegenberg e Octanny S. da Mota. – São Paulo: Cultrix, 1973. HARSANYI, J. C. "Normative Validity and Meaning of von Neumann-Morgenstern Utilities", in BINMORE, K., KIRMAN, A. & TANI, P. Frontiers of Games Theory, cap. 15. – Cambridge (Ma): MIT, 1993. pp. 307-320. |