ShowBizz Especial (Agosto 2000) no1


Capa: Apetite por rock - As últimas novidades sobre o prometido disco que marcará a volta da banda. Bem-vindo à selva: Como um bando de rebeldes dominou os palcos do mundo inteiro Guerra Civil: As intermináveis confusões entre os integrantes Um em um milhão: Entrevista reveladora com Axl Rose

FASCÍNO INTACTO

Não importa quantas vezes seu novo disco seja adiado, o Guns N'Roses é assunto na certa. Mesmo que hoje a) o grupo esteja resumido a Axl Rose e sei lá quem; b) o hard rock que consagrou a banda tenha perdido o poder de fogo nas paradas; e c) a patrulha do politicamente correto não tolere mais atrasos célebres por mau comportamento. Como explicar tanta devoção a um negócio que não dá boas notícias desde 1993? Vendo o fascínio que Axl exerce sobre os leitores e a agitaçaão que se cria que é anunciado algo sobre a banda, só dá para concluir uma coisa: o Guns entrou para a seleta categoria dos artistas que são tratados como times de futebol no imaginário pop. O sujeito é torcedor e pronto, está sempre apoiando e acredita que a má fase seja apenas isso, uma má fase. Grupos que, enquanto existirem consumidores de rock'n'roll no planeta, estarão co seu espaço garantido no coração, nas paredes e nos aparelhos de som de algumas centenas de milhares de admiradores. Bandas como o Black Sabbath, o Led Zeppelin, o Deep Purple. Como o Guns N'Roses. Comemorando seus 15 anos, ShowBizz traz uma seleção das melhores reportagens e entrevistas com Axl e gangue publicadas na revista. De propósito, deixamos de fora as referências ao período pós-The Spaghetti Incident?, que pouco ou nada acrescentam agora que a situação do grupo muda a cada instante. Para os ávidos por novidade, há uma reportagem inédita, com o atual status da banda e do novo disco, Chinese Democracy. Mas o que pega de verdade - e é isso que vale a pena lembrar - é o relato do tempo em que o Guns dominava o mundo. Uma história veloz e fulminante como o solo de "Welcome To The Jungle".


O GUNS É ROSE - O "perfeccionismo"; do vocalista acabou transformando sua banda num grupo de um homem só: ele mesmo, cercado de músicas que são seus funcionários. Resta saber se, com essa formação exótica, Axl vai reviver as górias do passado e terminar com o mistério que cerca sua volta à ribalta, lançando o tão aguardado CD Chinese Democarcy

Chinese Democarcy. Não, esse não é um plano da CIA para derrubar o regime iniciado à força por Mao Tsé-tung no país da Grande Muralha. Trata-se do nome do novo álbum do Guns N'Roses, o CD mais esperado dos últimos anos, um traba;ho cercado de rumores e expectativas que deverá ser lançado até o início de 2001 - isso se não for novamente adiado. Mas o que o faz ser tão aguardado? Simples. Pode ser o renascimento de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos. Um grupo que vendeu 15 milhões de cópias de seu primeiro disco (Appetite For Destruction), segundo melhor número da história (só perde para Jagged Little Pill, de Alanis Morisette), e que, 13 anos depois do seu lançamento, ainda seduz 200 mil compradores por ano. E tem mais, desde que lançou The Spaghetti Incident? (com covers de bandas punks), em 1993, o quinteto não lança trabalho de estúdio. Tudo isso, somado ao carisma do seu líder, causa essa ebulição.

São sete anos de especulações, brigas, internações em clínicas para desintoxicação, brigas, problemas com a Justiça, brigas, separações, brigas e horas de estúdio. E só um lançamento oficial, no final do ano passado (Live Era 87-93). Da primeira - e considerada a melhor - formação do GN'R, que começou a se desmantelar em 90 com a saída do baterista Steven Adler, com Axl Rose (vocal), Slash (guitarra, Izzy (guitarra) e Duff McKagan (baixo), só sobrou o vocalista. Agora, mais do que nunca, o Guns é Rose. É ele, mais uma dezena de músicos e produtores, que há seis anos vêm passando as noites (das 10h às 6h da manhã) em vários estúdios da Califórnia, torrando um milhão de dólares anuais, segundo a revista Rolling Stone, no que será o próximo disco da banda. Um trabalho que ninguém sabe quando vai estar nas lojas.

FORMAÇÃO FLUTUANTE - Mais difícil do que adivinhar a data de lançamento de Chinese Democracy, entretanto, é saber quem são os componentes do GN'R. As últimas alterações foram as deserções de Robin Finck, integrado ao Nine Inch Nails (saiu atirando, reclamou da demora de Axl em terminar as letras) e, mais recentemente, Josh Freeze, que pediu para "dar uma volta para comprar cigarro" com o pessoal do "A Perfect Circle" e nunca mais deu as caras. Se vc nem sabia que eles faziam parte da banda, não se culpe. Esse vaivém é constante na história recente do Guns. É tudo tão confuso que até a volta da formação inicial foi anunciada e logo desmentida. Hoje, e provavelmente não no dia que você estiver lendo este texto, o Guns N'Roses é formado por Axl, o ex-Replacement Tommy Stinson (baixo), o amigo de infância Paul Huge (guitarra) e Dizzy Reed, tecladista que está na banda desde 1991. Além desses, pode-se dizer, membros fixos do grupo, participaram das gravações Dave Navarro (ex-Jane's Addiction e Red Hot Chili Peppers), Dave Abbruzzese (que já mandou nas baquetas do Pearl Jam, Zakk Wilde (guitarrista da banda de Ozzy Osbourne), Chris Vrenna (ex-Nine Inch Nails), e o multiinstrumentista Buckethead, além de Brian May, companheiro de Freddie Mercury no Queen. Para completar a lista de nomes envolvidos no projeto, há os produtores Moby (pioneiro da música eletrônica), Mike Clink e Youth (que trabalhou com Verve). Atualmente, Sean Beave, que já trocou figurinhas com Pantera e Nine Inhc Nails, está pilotando as mesas de som. Roy Thomas Baker (Queen e T-Rex no currículo) também tem contribuído. Todo esse pessoal é "funcionário" de Axl, com contrato de trabalho e salário para nenhum sindicalista botar defeito. Isso permite ao cantor controle total sobre todos. Poder que sempre sonhpu ter e que é a causa de tantas mudanças. Entre mortos e feridos, o exército recrutado pelo general Rose já deixou sua marca. Já está na praça a frustrante "Oh My God", da trilha do último filme do brutamontes Arnold Schuwarzenneger, End Of Days, que não acabou com o suspense de como vai soar o no GN'R. Fora este tira-gosto insosso, pouco ou quase nada se sabe sobre Chinese Democracy. Mesmo com esse entra e sai de gente dos estúdios onde está sendo gravado (até o jogador de basquete Shaquilli O'Neal apareceu), o segredo está muito bem guardado. As informações não dão muitas pistas do que virá por aí.

"Quero fazer como o Appetite For Destruction (deve querer mesmo, pois regravou o álbum com seus novos amigos), misturando várias influências", disse Axl em uma das suas raríssimas entrevistas nos últimos sete anos. "Haverá bases de guitarra blues e batidas de hip-hop." Um Guns N'Roses com pitadas de Nine Inch Nails? Pode ser. Ele já declarou que quer fazer um som "tipo industrial". Falou ainda que "os fãs mais antigos irão detestar algumas músicas".

INFÂNCIA TRAUMÁTICA - Além do já citado Nine Inch Nails, as comparações com Pink Floyd, U2 (fase Achtung Baby) e Nirvana também compõem o extenso número de declarações sobre o assunto. Mas não dá para saber até onde são verídicas. As informações são desencontradas. Chris Vrenna deu uma dica à revista Spin que vai alegrar muitos fãs: "Tenho a impressão de que vai ser mais Appetite For Destruction do que as pessoas estão esperando". Um amigo de Rose disse que o vocalista tem escutado muita música eletrônica nesses anos.. Moby ouviu ele se derretendo em elogios ao trabalho do DJ Shadow. Youth declarou que uma das músicas tem o nome de "Prostitute". Prováveis títulos é o que não faltam: "Catcher In The Rye", "Oklahoma", "I.R.S.", "NoLove Remais" e "The Blues", entre outros, estão sendo jogados no ar. Estão trabalhando cerca de 70 músicas e, até a desova, serão apenas 16 escolhidas. Parece que finalmente Axl conseguiu chamar a atenção da mídia e do público para sua música, depois de anos de exposição de sua privacidade sem dó nem piedade.

É claro que nem tudo está perfeito nesse embate Axl/imprensa. O mais famoso recluso do rock, como está sendo chamado, sofre a pressão de ser quem é e quem foi. O último cara do rock que levou ao extremo o fato de ser um roqueiro. Ele ressuscitou o personagem que parecia ter sido enterrado nos anos 70, vítima de exageros. Com tudo que tem direito: prisões, hotéis destruídos, drogas, surubas etc. E paga o preço por isso, sendo o prato principal de jornalistas ávidos por escândalos.

Isso somado a uma infância traumática, fez com que Axl se tornasse uma pessoa um tanto quanto excêntrica e reclusa. É um praticamente de regressões a vidas passadas, hipnoses, acredita em "forças magnéticas negativas" vindas da terra que podem capturá-lo. Já se disse possuído por John Bonham, baterista do Led Zeppelin que morreu sufocado pelo próprio vômtio. Pertence a uma organização mística, a New Age, e tem uma conselheira que lhe diz aonde pode ir sem medo das tais "forças magnéticas". Axl não dá um passo sem consultá-la.

De 1994 a 1998, não se tiveram notícias do rapaz que encarou dois dias de ônibus, dos cafundós de Indiana até a Califórnia, e venceu na selva, como ele prefere chamar Los Angeles no clássico "Welcome To The Jungle", a primeira paulada da dupla Axl/Slash. Durante anos, nem uma foto sequer. O sumiço foi interrompido no aeroporto de Phoenix. O sr. Guns não quis deixar que revistassem sua bagagem de mão e acabou tendo problemas com a lei. Pronto, um Axl rechonchudo (mas não se preocupem, mulheres, ele está malhando e já atingiu a antiga forma) volta às página policiais dos periódicos do mundo. Nada de novo, por sinal. Tanto que uma de suas ocupações nesses anos de exílio tem sido resolver problemas com a Justiça.

PERTO DO FIM - O esconderijo de Axl Rose é em Malibu, na Califórnia. Depois de anos tendo problemas com vizinhos, agora está cercado pelo Oceano Pacífico e pela deliciosa Gabrielle Reece. Dorme de dia e trabalha à noite. Passa as horas no fliperama, na companhia da irmã, Amy Bailey, e do meio irmão Stuart Bailey. O moço não tem com que se preocupar - pelo menos não em termos monetários. O Guns faturou 60 milhões de dólares entre 1988 e 1992.

Mas parece que mesmo com o futuro garantido, Axl Rose está realmente preparando a volta. No dia 22 de junho, quebrou um jejum de sete anos e subiu ao palco com o ex-gunner e ex-desafeto Gilby Clarke para cantar duas músicas dos Stones, "Wild Horses" e "Dead Flowers". A novela de Chinese Democracy está chegando a um desfecho. Só resta esperar que esses anos de exílio e exoterismo tenham trazido bons fluidos ao temperamental vocalista e que seu perfeccionismo exacerbado produza bons frutos. E como sonhar "é de grátis", porque não um retorno aos palcos no Rock In Rio III?

Guilherme A. Hungria


COM PESO, SEM MEDIDAS - São quase 100 milhões de cópias vendidas no mundo todo, um número absurdo tanto para um LP de estréia como para uma banda de hard rock. O nome dela: Guns N'Roses. Além de um breve histórico do fenômeno, segue a entrevista com seu front man W. Axl Rose, concedida a Del James e publicada na revista norte-americana Rip

O que leva uma banda de hard rock com menos de quatro anos de estrada a começar a lotar arenas e estádios, além de ter os seus discos alcançando os primeiros lugares nas paradas? A razão principal talvez seja que seu som furioso e agressivo tenha alcançado plena recepção em meio à pasteurização reinante no mercado musical, inclusive conseguindo arrebanhar adeptos nas trincheiras do heavy metal (tanto pelo seu lado mainstream, como também na ala independente). Mas existe mais alguns pontos a se analisar quando o grupo em questão é o Guns N'Roses, o quinteto de bad boys egresso dos subterrâneos de Los Angeles que, já em seu álbum de estréia, Appetite For Destruction (1987) atingiu a consagração vendendo mais de 6 milhões de cópias só nos EUA. A começar pela própria identificação entre os membros da banda (cujas idades variam entre 24 e 27 anos) e seu público, em sua maioria adolescentes, que vê nas atitudes e na energia do som do grupo incontáveis pontos em comum com seu próprio conceito de uma legítima banda de rock'n'nroll.

Zeppelin em seus áureos tempos, o GN'R mantém uma tradição de concertos tumultuados e violentos, onde não raramente os eventos assumem proporções trágicas (como em show realizado em agosto do ano passado em Derby, Inglaterra, onde dois fãs morreram pisoteados durante a apresentação do grupo). Aliadas a isso, temos também as letras do grupo, repletas de referências explícitas a drogas e freqüentemente acusadas de ser chauvinistas, antigays, xenófobas e por aí afora. Porém, não é apenas no vinil ou sob as luzes da ribalta que aflora a fama barra-pesada do grupo, como atestam um sem-número de histórias escabrosas a respeito de suas vidas na estrada ou no backstage.Uma sucessão interminável de porres homéricos, longos período de envolvimento com heroína, violentas brigas com fãs, jornalistas, outros grupos, um rastro de hotéis e camarins depredados, além de prisões, processos e fianças diversas.

Nada de estranho, no entanto, se retornarmos a história da formação do GN'R, ou ao menos a parte de que seus membros se recordam, entre as doses cavalares de drogas e bebidas consumidas por eles ao longo desse tempo. Entre esses flashes, pode-se vislumbrar a adolescência delinqüente de Bill Bailey na cidade de Lafayette, em Indiana. Entre uma ou outra prisão`ou briga de rua, Bill descobriu que o sobrenome de seu pai verdadeiro era Rose e o adotou, mudando o se nome também para W. Axl (o nome de uma das bandas locais na qual cantava). Um de seus colegas de turma, Jeff Isabelle, era um pouco menos "bandido" (sendo o único membro do GN'R que terminou o colégio), mas também atendia pelo nome de Izzy Stradlin, dividindo seu tempo livre entre as arruaças e a dedicação à guitarra. Tempos depois, Axl e Izzy voltariam a se encontrar em Los Angeles e, juntamente com o guitarrista Slash, um inglês que viera ainda criança com a família morar em Hollywood e partilhava do mesmo estilo de vida marginal da dupla, decidiriam formar um grupo. Por meio de um anúncio de jornal, Duff "Rose" McKagan - ex-baterista e ex-guitarrista vindo de Seattle - foi recrutado para o baixo e, pouco depois, o baterista Steven Adler, atuante no circuito local, veio se incorporar à banda. Depois de descartarem algumas opções como Heads of Amazon e Aids, o nome adotado surgiu da combinação de L.A. Guns e Hollywood Rose, dois outros grupos nos quais eles haviam tocado.

Com essa formação, o GN'R lançou em janeiro de 1987 o EP ao vivo Live?!* Like A Suicide, pelo seu próprio selo independente (Uzi Suicide). Além de duas canções ("Reckless" e "Move To The City"), o disco trazia também covers do Rose Tatoo ("Nice Boys Don't Play Rock'n'Roll") e do Aerosmith ("Mama Kin"). No meio do ano surgiria o primeiro single do grupo ("It's So Easy"/"Mr. Brownstone"), que antecederia o estrondoso sucesso de Appetite... Na sequência dessa aclamação, foram lançados mais dois singles: "Welcome To The Jungle", que trazia no lado B uma versão ao vivo de "Whole Lotta Rosie", do grupo AC/DC, e o outro, que apresentava o mega-hit do GN'R, "Sweet Child O'Mine".Depois de passar quase todo o ano de 1988 excursionando, a banda lançou um novo disco - GN'R Lies -, que trazia a reedição de seu EP inddependente de estréia, juntamente com quatro canções acústicas inéditas, entre s quais a polêmica "I Used To Love Her, But I Had To Kill Her" ("Eu A Amava, Mas Tive De Matá-la"), cuja letra se tornou motivo de controvérsias. Mas os bad boys do GN'R já pareem ter dado a volta por cima e preparam material para um segundo álbum inteiramente de estúdio. Com muito sex, drugs and rock'n'roll...

Existem muitas impressões diferentes de você por aí, desde maníaco-depressivo e suicida até gênio enlouquecido pelas drogas. O que move e comove Axl Rose, e qual é a sua? Bem, por causa do estilo de vida dos componentes do Guns N'Roses, as pessoas que não nos conhecem tendem a ficar intimidadas ou amedrontadas. Depois de levar uma vida de garotas, drogas, e seja lá o que for, pintaram um certo retrato meu. Mas eu dei uma boa reduzida nisso tudo, porque tenho outras coisas para fazer. Não posso ficar me drogando todas as noites porque, depois de vender 6 milhões de discos, os negócios ficam mais intensos que os da maioria das pessoas. Assim que você chega à platina, de repente começa a lidar com executivos da gravadora, com homens de negócio, com a MTV e tudo o mais. Começa a se tornar uma daquelas pessoas que você pensava ser contra. Você tem de trabalhar com eles. Estão lá dando duro por você e você tem de produzir. Dizer f*-se só por dizer é como cortar sua própria garganta. É difícil sair e barbarizar o tempo todo quando se tem esse tipo de responsabilidade, e o GN'R tem tido de lidar com isso desde que assinou contrato. Slash provavelmente não beberia tanto se não fosse pelo fato de que esse é o jeito como ele consegue lidar com essa gente. Ele consegue beber tranqüilamente sua garrafa e conversar. Eu, se estou bêbado, acabo expulsando todo mundo de minha casa. Não posso cair de boca porque reajo de uma maneira diferente. Assim que fico bêbado, me dou conta: "Essa última semana de trabalho tem sido realmente um saco". Tenho vontade de matar alguma coisa (risos).

Quando é que a situação começa a ficar claustrofóbica? Geralmente quando estamos na estrada. Sempre fico muito estressado por causa dos shows, que são a coisa mais importante para mim. Nada funciona direito com essa banda. Slash disse uma vez que Deus não queria que fizéssemos sucesso (risos) e eu de certa forma acredito nisso. Quando chega algum entrevistador e eu preferia estar dormindo, ou ele percebe que não estou no clima, a impressão que fica é "ele está perdendo o pique". Resumindo, é por isso que acontece.

Você se considera maníaco-depressivo? Sou muito sensível e emotivo, e as coisas me aborrecem e me dão vontade de não fazer nada, não lidar com pessoa nenhuma, nem com a própria banda. Até fui a uma clínica, achando que isso ajudaria. A única coisa que fiz foi um teste de 500 perguntas, preenchendo pontinhos pretos. De repente vem o diagnóstico de maníaco-depressivo e "vamos medicá-lo". Bem, esses remédios não me ajudam com o estresse. A única coisa que me fazem é tirar as pessoas das minhas costas, porque sabem que estou sendo medicado.

Desde o primeiro dia, você continuou crescendo como pessoa, como músico e, agora, como homem de negócios. Você fez de tudo à sua maneira. Como você vê seu crescimento e o da banda, e o que aprendeu nos últimos três anos? Não somos os caras mais inteligentes do mundo, mas no sentido da realidade das ruas - sair à noite, drogas, festas, garotas, essa merda toda - conhecemos e entendemos muita coisa. É como se tivéssemos nos colocado à força na escola das ruas. Não sabia nada sobre drogas, então aprendi o que é e o que não é seguro, como arrumar, como fazer direito. Aprendemos a sobreviver. Aprendemos quem é quem na indústria fonográfica. Aprendemos a perceber quando uma pessoa é falsa. Aprendemos alguma lições bem duras e tivemos de fazer alguns acertos extrajudiciais. Pelo menos ficamos espertos o suficiente para conversar sobre negócios. Se alguém na banda se sente encostado na parede, temos gente - advogados, mais advogados e contadores - para livrar a barra.

O GN'R está chegando à marca de 7 milhões de cópias vendidas de Appetite For Destruction. Os membros da banda estão comprando casas, carros etc. Como é essa passagem da sobrevivência na rua para milionários? Não estamos milionários. O mundo e as pessoas de fora da indústria fonográfica acham que se você chega ao disco de platina, 1 milhão de cópias vendidas, fica milionário. Não é aasim que funciona. Custa 200 mil dólares produzir um vídeo adequado. Já é uma dívida. Existem outras: os custos de produção do disco, de divulgação, essas coisas todas. É fácil chegar a uma conta de 1 milhão, especialmente em um disco que vendeu 6 milhões de cópias. Toda a promoção e o dinheiro que entra nisso têm de vir de algum lugar. Basicamente, ganhamos 1 dólar por disco - 20 cents para cada membro da banda de cada cópia vendida de Appetite... Esse é um cálculo aproximado. Com 5 milhões de cópias, chegamos ao ponto em que cada membro teria, teoricamente, 1 milhão de dólares. Para isso ser realidade, o disco teria de vender 8 milhões de cópias, pois existem uns 3 milhões em dívidas. Você tem de pagar pagar as pessoas que trabalham para você: empresários, advogados, contadores, roadies ets. Então, dessa grana que ganhamos, estamos acertando dívidas. Tudo o que emprestamos, usamos, quebramos ou alugamos sai daí. Depois de uma excursão, então, há um verdadeiro acúmulo de dívidas. Sair e fazer qualquer coisa por menos de 1.000 ou 1.500 dólares por show significa que voê está pagando para tocar. Se o show passa das 11h, há uma multa por excesso de tempo. Em Nova York, eu estava atrasado para o show no Felt Forum porque estava chumbado de bebida e por causa de uma entrevista para a MTV. Tomei um chuveiro, fiz meus exercícios vocais, me vesti em 15 minutos e fui para o show. Escapamos de uma multa de 8 mil doláres por atraso porque as barricadas separando os fãs do palco tinham sido armadas errado e, quando consertaram, eu já estava lá. As pessoas perguntam porque as bandas não tocam um tempo maior. Não é porque elas não querem.

Muita gente acredita que você usa drogas pesadas. É verdade? Eu tenho uma constituição física e um ponto de vista diferente em relação às drogas do que todo mundo que conheci em Hollywood, porque não me abstento, mas, ao mesmo tempo não deixo isso se tornar um hábito. Não deixo isso acontecer. Mesmo que sinta uma necessidade física, depois de três dias de consumo, eu paro, porque sei que atrapalha meu trabalho com a banda. Eu tomei direto durante três semanas, porque estava com uma garota de quem gostava num belo apartamento e passamos o tempo todo ouvindo Led Zeppelin e transando. Nesse período eu não tinha mais nada a fazer que dois ou três telefonemas por dia. Aí parei, acho que no sábado, porque tinha trabalho para valer na segunda-feira. Me sentia péssimo, suava e tremia, mas na segunda, estava funcionando. Não consigo me esconder nas drogas. Um monte de gente consegue, mas, seja lá o que eu tome, minha vida tem de estar perfeita, nenhum problema, nada errado. Caso contrário, fico analisando tudo de cabo a rabo, tentando descobrir porque as coisas estão saindo erradas. Isso não é nem um pouco divertido. E, se tenho shows para fazer, aí mesmo é que não toco em drogas, porque f* minha garganta. Meu conselho é: não adquira hábitos nem vícios, não use a agulha de outra pessoa e não deixe as drogas se tornarem um pré-requisito para a diversão. Faça tudo com moderação e tenha muito cuidado.

Porque uma banda como o GN'R, cujo principal mercado é o de hard rock e heavy metal, lança GN'R Lies, em que quatro das oito faixas são acústicas? Em primeiro lugar, há uma guitarra elétrica em três delas. Esse é o modo como preparamos mentalmente as pessoas para ouví-las. Temos composto algumas canções doces e suaves que parecem seduzir o coração das pessoas. É algo que temos planejado há um bom tempo. Algumas delas fizemos antes ou durante a gravação de Appetite... e as revisamos até sentirmos que estavam fortes o suficiente para serem lançadas. A razão pela qual as fizemos é que queríamos fazê-las.

Você gosta das canções lentas? Acho que "Crazy" ficou uma porcaria. A banda está ótima, mas eu estou uma merda. É uma canção mágica, muito especial... Toda vez que a gravávamos, algo acontecia. Quando ela realmente pega, a banda entra em transe. Mas eu não acho que atingi o que estava procurando. Não que haja algum problema imenso, só não ficou perfeita. No resto das faixas, a coisa pega fogo.

Sobre o que é "One In A Million"? É sobre... Eu fui para Indiana e voltei umas oito vezes no meu primeiro ano em Hollywood. A inspiração foi a chegada na rodoviária. Nunca tinha estdo antes em uma cidade tão grande e tive a sorte de aparecer um garoto negro que me ajudou a encontrar meu caminho. Ele me levou ao terminal e me ensinou qual ônibus tomar, pois ninguém me dava uma resposta séria. Era mais do tipo: "Eis um garoto novo na cidade e pelo jeito ele pode arrumar encrenca por aqui, deixa eu dar uma mão". As pessoas vinham tentando me vender baseados e coisas assim. Na parte mais barra-pesada de Los Angeles, você pode comprar drogas que acabam te matando. É um cenário horrendo. E a música não é sobre esse cara, mas daria para dizer que ele é um em 1 milhão. Depois de ficar andando em círculos durante três horas, os tiras apareceram para me dizer para sair das ruas. Eles já viram tanta sujeira que, se você tem cabelos cumpridos, também não passa de sujeia. Havia também uns negros tentando vender jóias e droga, e é daí que vem o verso "policiais e negros, saiam do meu caminho". Já vi esses caras puxando facas para pessoas, é terrível.

Existem versos bem polêmicos, não? Você quer dizer os versos sobre "imigrantes e bichas"? Não tenho nada contra alguém de outro país que venha para cá tentando melhorar. O que não me agrada é um balconista se comportando como se você não fosse daqui, ou fingindo que não te entende para te sacanear. "O que? Eu não entender você." "Tudo o que disse é que te dei uma nota de 20 e quero meus 20 dólares de troco." Ameacei explodir o posto de gasolina e aí deram meu troco. Não preciso desse tipo de coisa. Quanto aos gays, não sei o que pensar sobre eles. Vivem em seu próprio mundo. Só não estou muito contente com a Aids. Quando digo que sou um garoto branco de uma cidade pequena, estou apenas dizendo que não sou nem um pouco melhor que essas pessoas que estou descrevendo. Estou apenas tentando sobreviver, só isso.

Parece que pelo menos uma vez por semana surgem rumores de que você ou o Slash morreram. Histórias de suicídio, overdose, assassinato. Alguns deles aborrecem bastante... Eles aborrecem porque ficam ligando (para a revista Rip) para perguntar: "É verdade que Axl morreu?"

Não, o que me preocupa é que um dia não seja só um rumor. Por que você acha que essa boataria circula tanto? Existem algumas razões. Em primeiro lugar, isso já acontece há algum tempo porque eu costumo ficar desaparecido durante semanas e as pessoas acham que, se não sou visto em público, alguma coisa deve ter acontecido. O mais provável é que eu esteja em Hollywood, na minha própria casa, dando um tempo, sem atender o telefone, sem querer ver ninguém, aí ninguém sabe exatamente o que aconteceu com Axl. Tenho de dar essas escapadas de vez em quando para tentar digerir e entender tudo o que está acontecendo à minha volta. Um monte desses boatos começou na época em que assinamos contrato e agora parecem ter voltado à superfície. Existem rumores sobre gente famosa desde o tempo de colégio. Alguns bem estranho, como sobre Rod Stewart (risos). As pessoas falam "cara, você ouviu o que aconteceu com fulano, blablablá?", e se divertem espalhando isso, para ver o efeito que tem nos amigos. Outra razão é que o GN'R pode passar um bom tempo totalmente careta, fazendo tudo conforme o figurino e, de repente "f*-se! Não agüentamos mais essa merda" e damos o fora. Estamos sempre numa corda bamba. Isso assusta as pessoas. Acham que talvez tenha mesmo acontecido, ou se convencem de que morremos. Aí, saem contando para os amigos. Outra razão é que esta banda significa muito para muitas pessoas. São grupos assim que provocam esse tipo de rumor. Muitos deles temem que seus heróis possam deixar suas vidas. Talvez as pessoas tentem ter uma noção de como seriam suas vidas sem seus ídolos, se elas poderiam suportá-las, daí passa a ser um rumor. Estou morto outra vez. O que eu acho é isso: que esses rumores de morte dizem que a banda significa muito para muitas pessoas, e que somos tão importantes que as perturbaria bastante se não estivéssemos mais aqui. Espero que não se torne uma profecia.


Continuação

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