ShowBizz Especial (Agosto 2000) no1


DOCE ILUSÃO - É como tudo em que eles metem a mão. O burburinho em torno do lançamento dos (dois? três?) novos discos (LPs duplos? Cd simples? LPs com EPs?) só faz aumentar a febre. Use Your Illusion, seja ;á o que for, é uma respeitável coleção de 36 músicas...

A primavera de 1987 parece ter sido um milhão de anos atrás. No calendário são apenas quatro - o que não é muito na escala mundial. Mas para o Guns N'Roses - a banda das ruas de Los Angeles que, de alguma forma, capturou corações, mentes e púbis de 15 milhões de fãs - foi uma eternidade.

Para colocar esse período ma devida perspectiva alucinada do GN'R, considere o seguinte: desde que a banda realizou o último show oficial da turnê de 1988 - abrindo para o Aerosmith em Irvine Meadows, Califórnia - houve um casamento anulado, um divórcio, um membro trocado, outro acrescido, quatro estúdios de gravação, três desintoxicações, três capas da Rolling Stone, 17 veículos novos comprados, incontáveis matérias em jornais sensacionalistas e um número igual de boatos escandalosos sobre a dissolução da banda, problemas legais, mau comportamento e uma generalizada atitude iconoclasta. Que quer dizer tudo isso? Resumindo: em 1987, o seu apetite foi excitado; em 1991, começa o banquete!

"Use Your Illusion é um cruzamento entre Physical Graffit e The Wall", proclama Alan Niven, um dos empresários do GN'R. "É um disco que vai surpreender e assustar ao mesmo tempo." Estas palavras fortificaram a mística que cercava o LP de rock pesado mais esperado desde que o Deff Leppard encerrou seu silêncio de quatro anos com Hysteria, em 1987. Durante meses, ninguém tinha certeza sobre o formato de Use Your Illusion. Poderia ser um CD de 76 minutos ("Chegaremos ao limite tecnicamente possível em um CD", dizia Axl Rose). Poderia ser lançado em duas partes - LP e CD primeiro, um EP depois; ou então algo totalmente bizarro, como dois LPs lançados ao mesmo tempo com capas e títulos diferentes. O mistério que cercava a embalagem do novo disco do Guns simplesmente acentua o caráter único de todo o projeto. A única certeza de que havia 36 músicas - gravadas, mixadas e prontas para serem lançadas. Na banda, o concenso era de que todos gostariam de soltar todo o material para os fãs de uma só vez, ou com o menor tempo de intervalo possível. A listagem do repertório percorre todo o espectro possível de estilos roqueiros, desde épicos gigantescos como "Coma", "Breakdown", "The Garden", "Estranged" e "November Rain", passando por canções melódicas, mas ásperas e rasgadas, como "Dust And Bones", "Pretty Tied Up", "Bas Obsession", "Yesterdays", "Bad Apples" e "So Fine" (com o baixista Duff McKagan no vocal), até porradas como "Locomotive", "Ain't Goin Down", "Right Next Door To Hell" (onde à encrenqueira vizinha de Axl), "Back Off Bitch" e "Shotgun Blues".

Em vez de tentar futilmente delinear cada faixa, preferimos focalizar algumas delas, gravações excepcionais que - antes mesmo do lançamento - causaram um tremendo buchicho interno na banda.

"Axl cantou uma parte de 'The Garden' que soava exatamente igual ao Alice Cooper", lembra Slash. "Quero dizer exatamente igual. Aí pensamos em chamar Alice para gravar, em vez de simplesmente roubar seu estilo. Ele veio e cantou. Foi demais." Uma experiência alucinatória criada por Axl e West Arkeen, "The Garden" contém um trecho vocal fantasmagórico de tirar a respiração, em que Alice - em seu estilo declamatório da melhor época - interpreta a letra escrita por Del James, amigo da banda e jornalista da Rip. Encerrada a gravação. Axl ligou para a revista e tocou a música para Del ouvir pelo telefone. "Ouça, cara", ele disse. "Alice Cooper cantando sua letra." Mr. James passou o resto da tarde sem conseguir falar.

"Uma coisa neste disco", diz Slash, "é que muitas das músicas foram compostas em períodos diferentes - algumas até antes de nos conhecermos. Aí, o que acontece é que você tem uma letra escrita para combinar com uma música composta por outro cara, há muito tempo, e, quando vai gravar, não consegue captar o que ele estava sentindo quando a escreveu."

Um exemplo é a faixa que deu o segundo single de Use Your Illusion, uma canção chamada "Don't Cry". Composta há cinco anos, ela estava na primeira fita, que continha também "Welcome To The Jungle", "Back Off Bitch" e "Anything Goes". Na época em que tocavam em casas noturnas, "Don't Cry" era um dos pontos altos. A garotada ficava hipnotizada pela intensidade da letra de Axl, enquanto a balada escorria do palco num turbilhão.

Mas, meia década depois, quando a banda finalmente decidiu gravar a música para ser lançada, Axl examinou a letra e achou que precisava ser "revista e atualizada". Haverá, assim, três versões de "Don't Cry" - a demo original, outra de uma segunda demo e a edição de 1991, com a nova letra.

"Acabamos de acrescentar a 36a faixa", diz Duff McKagan. "É com Michael Monroe (ex-líder do Hanoi Rocks). Chama-se 'Ain't It Fun' e é meio sombria, porque diz assim: 'Ain't It Fun? You're gonna die young' (Não é divertido? Você vai morrer jovem'). É uma canção dos Dead Boys que refizemos com Axl e Michael cantando."

Chama a atenção a verdadeira apreciação que o Guns tem do monumental catálogo da histótia do rock. Esta é uma banda que nunca teve medo de fazer cover de uma música legal, não importa de onde ela venha. De "Mama Kin", do Aerosmith, até "Knockin' On Heaven's Door", de Dylan, as influências são das mais abrangentes, para dizer o mínimo. Para Use Your Illusion, gravaram cinco da época punk - "Down On The Farm" (UK Subs), "I Don't Care About You" (Fear), "Attitude" (Misfits), "New Rose" (Damned) e "Black Leather" (Sex Pistols) - além de "Live And Let Die" (Paul McCartney).

Um fator inegável que contribuiu para a longa demora na produção do disco foi o problema que cercava o ex-baterista, Steven Adler. Incapaz de superar sua destrutiva dependência da heroína, ele não cnseguia desempenhar no estúdio. Muitas vezes nem aparecia, além de mostrar pouco ou nenhum interesse no projeto. Depois de quase 18 meses perdendo tempo (e dinheiro), chegou-se a decisão de deixar Steven partir em busca de um novo par de baquetas. O baterista que ficou em seu lugar provou ser o salvador do Guns.

"Não quero dizer nada contra Steven, mas tivemos de enfrentar poucas e boas", recorda Slash. "Durante anos foram todas aquelas distrações, só por causa dele. Aí, de repente, Matt (Sorum) entra em cena. Ensaiamos 36 músicas em um mês e gravamos o disco em cinco semanas - todas as guitarras, baixos, violões. Os vocais demoraram um pouco mais. Quando Matt entrou, simplesmente fomos para o estúdio e fizemos tudo. Antes, estávamos presos num adiamento interminável!"

"O Cult já estava mesmo procurando um baterista inglês", lembra Duff. "Por isso pegamos Matt, e ele deu àquela banda o chute no traseiro de que eles precisavam. Já me perguntaram se não é estranho tocar com Matt depois de tantos anos com Steven, e eu estaria mentindo se dissesse que não, no começo. Agora é natural."

Em janeiro, o Guns fez seus primeiros shows com Matt: duas noites no Rock In Rio II, com uma platéia de um quarto de milhão. Junto com o "sexto" gunner, o tecladista Dizzy Reed, a banda excitou o público com um repertório que incluía sete faixas de Use Your Illusion.

"Matt e Dizzy nunca tinham tocado conosco com a banda completa, pois Axl não participa dos ensaios", observa Duff. "Nunca tinham visto Axl cantando junto. E não tínhamos nem repertório acertado, apenas uma lista para escolher na hora, que é o jeito que gostamos. Aí, três minutos antes de ele subir ao palco diante de 140 mil pessoas, dissemos ao Matt que ele ia fazer um solo de bateria. E ele segurou na boa! Estraçalhou! A maior platéia a qual Dizzy tinha tocado era de umas 400 pessoas, abrindo para o L.A. Guns no Country Club. Vamos dizer apenas que ele tomou alguns drinques antes, mas também segurou a onda. Um pouquinho antes de entrarmos no palco, a banda inteira - e isto não acontecia há um bom tempo - se reuniu numa sala. Dava para sentir a eletricidade. Não importava quantas pessoas estavam lá fora, nem nossas famílias, nem os jornalistas e fotógrafos, porque o principal era que não passávamos dos mesmos caras que éramos cinco anos antes, e dava pra sentir nas risadas nervosas. Fuckin' espantoso!"

Chamar de grande acontecimento a turnê mundial que começou em 19 de maio, no gigantesco auditório de Alpine Valey, seria uma subestimação. Segundo Axl, todos os promotores de shows americanos ficaram louquinhos depois que os 40 mil ingressos foram vendidos no primeiro dia, proeza só igualada uma vez, pelo Who. Depois de cobrir todos os EUA, a turnê segue para a Austrália, Europa e Japão - se possível, o mundo inteiro. "Terminaremos a parte americana em Los Angeles, com quatro noites no Forum", diz Duff. "queriam que fizéssemos oito."

Uma das canções que eles estarão tocando ao vivo é o opus de 12 minutos "Coma". Uma assombrosa, cortante e trovejante aventura pela mente de uma vítima de overdose, a música conta a verdaeira história das indulgências de Axl no passado. É realmente espetacular em sua intesa grandiosidade. Enquanto fazia os vocais de "Coma" (e das outras músicas, durante o período de gravação no Record Plant, em Hollywood), Axl literalmente mudou sua cama para o estúdio. Além disso, instalou um saco de areia e duas máquinas de fliperama - Kiss e Elton John.

"'Coma' é monstruosa", exclama Duff, com um sorriso. "Gosto muito de 'Coma'", acrescenta Slash. "Tem um desfibrilador - você sabe, aquele aparelho que faz o coração voltar a bater quando ele pára. Há também uns bips de eletro-cardiograma. Estávamos só experimentando, mas a canção é tão pesada, e os vocais de Axl ficaram fantásticos, realmente espantosos."

O clima que cerca o lançamento de Use Your Illusion vai entre o temor e o absurdo. Certa noite, Axl e Del James passeavam ouvindo as novas mixagens de "Back Off Bitch", "New Rose" e "Right Next Door To Hell" no imenso estério do carro de Axl. Um veículo da polícia de Beverly Hills encostou ao lado. Não é preciso dizer que o volume estava um tanto alto. Percebendo que estava violando a lei, Axl sorriu e abaixou a música. "Ei, nós não somos como os tiras de West Hollywood", gritou pela janela um dos policiais. "Gostamos de música alta." Dand ouvidos ao humor do policial, Axl e Del continuaram com seu passeio. Poucos quilômetros depois, Axl voltou a botar o máximo de volume, e mais uma vez o carro da polícia parou ao lado. Desta vez, pediram para o vocalista encostar. "Eu estava quase fazendo nas calças", recorda Axl, mas seus medos eram infundados: tudo o que queriam era um autógrafo para um colega policial, grande fã do Guns N'Roses.

Como o rádio, a MTV e o resto da indústria reagirão a Use Your Illusion é mera especulação. "Acho que não existe nenhum single no disco", disse Slash à Rolling Stone. Mas se você pensar sobre o assunto, com a rádio e a MTV passando pela fase mais fraquinha de suas histórias, uma canção como "Paradise City" não teria sequer uma chance de ser levada ao ar em 1991. Mas a verdade é que, como quatro anos atrás, o Guns não está nem aí para esse tipo de coisa.

"Andei ouvindo rádio hoje", diz Slash. "Foi de dar nojo. Não me importo com o que ninguém possa pensar do que fizemos, a merda que estão tocando não tem alma. Sei que fizemos muito sucesso e depois sumimos um tempo e tudo ficou meio chato. Desde então, apareceram todos esses imitadores de meia tigela do GN'R. Não sou de ficar resmungando 'oh, estão nos plagiando' ou coisa parecida, mas tem gente fazendo isso. Não estou falando da indústria como um todo, e do modo como as coisas funcionam - você sabe, lançarem versões mornas daquilo que fazíamos. Pelo menos os que estão nos copiando. As outras pessoas que eu acho legais - como o Faith No More - criaram seu próprio estilo. É assim que tem de ser. Seja você mesmo. Este disco é pesado, mas - mesmo nas faixas mais pauleira - exiiste um algo mais. É bem variado. Tudo o que você tem a fazer é ouví-lo. Se gostar, gostou. Se não gostar, não gostou. Nós fizemos assim e não há nada mais a dizer."


EU, AXL - Entrevistão Especial

O telefone tocou. Era Blake, o secretário pessoal de W. Axl Rose, perguntando se eu estava pronto para uma entrevista com o arisco e polêmico líder do Guns N'Roses. Apesar de estar ocupado com outros projetos, não sou bobo de passar essa bola pra outro. Mas Blake fez um pedido pouco usual: em vez de uma conversa cara a cara, Axl queria fazer a entrevista por telefone. Meio incomum, mas não problemático. Data e hora foram agendadas. O que segue é a nossa conversa-maratona. Em vez de uma entrevista formal, é mais como se o leitor fosse convidado a escutar um bate-papo. Conheço Axl da mesma maneira que qualquer um pode conhecer Axl. Tenho orgulho de considerá-lo meu amigo, e por isso mesmo não tenho medo de dizer a ele o que sinto ou se ele está sendo escroto. Não, não vou publicar o número do telefone dele. Mas se você quer entrar no jogo, sente-se perto do telefone e espere pacientemente (claro que ele se atrasou para ligar; goste ou não dele, o homem é coerente). Imagine o telefone tocar e tire-o do gancho...

É meio estranho fazer a entrevista pelo telefone... Você sabe por que quis fazer desse jeito? Algumas vezes as pessoas dizem coisas mais pesadas por telefone do que fariam pessoalmente. Então achei que seria legal dessa maneira, principalmente porque estou tentando manter minha privacidade. Posso fazer issor no meu próprio espaço, é só falar.

Mesmo te conhecendo bem, ainda leio artigos em revistas para saber o que é dito sobre o Guns N'Roses e, em particular, sobre você. A última entrevista com alguma substância foi a de Kim Neely, na Rolling Stone, mas você ainda está em todas as revistas. Leio coisas que não têm nada a ver com GN'R, artigos onde você é comparado a Adolf Hitler o a algum outro tipo de demônio, somente para pôr um tempero no artigo do jornalista. Acho que há um grande medo do desconhecido, e o meu novo lance é "eu sou o desconhecido".

Parece algo que o Stephen King diria. Po que você é o desconhecido, e por acaso você é assim de propósito? Sim, parcialmente, estou tentando não me expor demais. Negatividade vende, e a mídia sabe disso. "Axl Rose é o bandido do rock'n'roll." Existe um monte de pessoas que achavam que os Rolling Stones não deveriam existir, que falaram merda sobre eles. Agora nós somos enormes, e parece que as pessoas que fazem mais barulho são as que não gostam de nós. Elas pegam qualquer pedra e jogam na gente. Quando leio que o Guns N'Roses é a trilha sonora para David Duke (político americano de extrema direita), isso me machuca. Eu não estou nem aí para David Duke. Não sei nada sobre o cara, exceto que ele era membro da Ku-Klux-Klan, e isso é uma merda. Existe um monte de gente que escolheu usar aquela música ("One In A Million") pelo que imaginam que o som queria dizer. Se eles detestam negros, eles vão escutar minha música e detestar os negros ainda mais, mas me desculpe, não é isso que eu quis dizer. Nossa música afeta as pessoas, e isso assusta muita gente. Penso bastante naquela música. Mais do que em qualquer outra música há muito tempo, ela trouce à superfície certas coisas, acendendo uma discussão de como as coisas são f*. Outra razão porque eu tenho ficado na moita é que estou tentando sobreviver, e assumir responsabilidades pelo nível em que estamos. Eu não tinha energia suficiente para ficar em contato com a mídia. Em vez de ficar me relacionando com a mídia, tentava crescer em meu próprio espaço. Precisei fazer isso nos últimos anos. Levou anos para ultrapassar o sucesso de Appetite For Destruction. Eu pensava: "Por que será que as pessoas estão gostando de nós? Serão as mesmas que me detestavam?" Existem muitas pessoas que têm medo do que pensam que eu poderia ser. Elas veêm o poder da música e das palavras, elas veêm as reações das pessoas à nossa música, e a reação natural é culpar a pessoa que faz a música. Não sou necessariamente responsável por essas reações. Eu escrevo, e a banda toca; isso vem do coração. Em nossas música mostramos situações em que estamos realmente f*, mas damos a volta por cima, e as pessoas assimilam a idéia de sobreviver aos obstáculos. Eu estava assistindo hoje a esse lance de "desmetalizar" os garotos. Tudo o que os pais sabem é que eles veêm os filhos ouvindo Ozzy Osbourne, tomando ácido e pintando cruzes de cabeça para baixo nas paredes, e os pais não sabem o que está acontecendo com eles, ou elas. Então concluem que a culpa é do Ozzy.

Então você está sendo culpado pelas cagadas da próxima geração? Isso de acordo com os pais, ou de quem quer que seja. Existem muitas pessoas que não entendem ou não sabem manejar a rebelião de seus filhos.

É isso aí. Assumir responsabilidade pelas próprias ações e, se você tem um filho, responsabilidade pelas ações dele, é bem duro. Especialmente uma responsabilidade que parte de nós, que eu nunca quis realmente, e que agora temos.

Porque o mundo tem uma concepção errada de você, especialmete sobre você ser um drogado? Por acaso Bill Clinton não levou o maior cacete por ter admitido que ele experimentou maconha? Isso é besteira. O GN'R chegou ao topo da montanha escalando um monte de merda que sempre jogaram em nós. Estamos vivendo desse jeito, vivendo nossas músicas, e isso começou a nos matar. Era mudar ou morrer. Certas pessoas que viram que temos controle sobre nós próprios, controle sobre nosso físico e nossas vidas, escrevem que estamos todos sedados e previsíveis. Eles dizem que não vivemos mais no limite. Na verdade, eu estou vivendo no limite e aprendendo a domá-lo, ao invés de ser sugado.

Eu entendo o que você está dizendo, mas isso não responde a minha pergunta. Ok, primeiro, tomo vitaminas muito específicas, que ligam. Meu corpo precisa delas. Também estou envolvido em um extensivo trabalho emocional para atingir certos objetivos, e se estivesse tomando drogas pesadas isso iria interferir nesse processo. Estou fazendo vários programas de desintoxicação, para liberar as toxinas escondidas, que estão lá por causa do trauma. Cheirar muita coca atrapalharia meu trabalho. Tomar drogas definitivamente interferiria nesse meu trabalho. Já fumar um pouco de erva não atrapalha muito. Atrapalha o trabalho no dia seguinte, mas algumas vezes relaxa. Se eu estou pirando bem no meio de Idaho, então um pouco de maconha me ajuda a acalmar. Também, quando você deixa o palco, saindo de um mundo de muita energia para um mundo sedado, é duro. É como saltar de um penhasco com um carro, e é aí que posso queimar um pouco de fumo.

VocÊ não fuma mais muita maconha. Eu sei. Um ano atrás, enquanto estávamos gravando discos, fumei muita maconha. Eu estava sofrendo muito e esse era o único jeito de me manter no ritmo para trabalhar. Era a única coisa que tirava minha cabeça dos problemas, que ajudava a manter a concentração para gravar o álbum. Ajudou a me manter naquele tempo. Agora iria interferir.

Você lembra quando se mudou para o estúdio Record Plant e montou acampamento? Não havia aquecimento na sala. Era frio e solitário, mas era o único lugar em que eu poderia ficar para me manter concentrado no trabalho. Era maneiro, mas também era escuro, frio e estranho! Cheguei a um ponto em que algumas pessoas podiam sentir, pelo jeito como eu estava, pelo tom da minha voz, que eu não estava legal. Um amigo me trouxe alguns presentes de Natal. Outro veio sem se anunciar e ficou comigo no dia de Natal, porque eles estavam preocupados, achando que talvez eu não conseguisse segurar a barra. Eu não podia deixar o estúdio, mas também não podia voltar para casa por causa do meu vizinho. Era um pesadelo. Era também muito louco, porque essas pessoas não sabiam nada sobre o Natal passado, quando eu estava dirigindo para casa, tentando achar alguém com drogas no caminho porque queria uma overdose. Sempre me lembrava do som do Hanoi Rocks, "Dead By Christmas". Já se passaram dois Natais desde então, e o Natal passado foi o melhor que tive em 29 anos.

Por acaso o Robert (John, fotógrafo do Guns) tirou alguma foto de você lá? Não.

Isso é chato. Sim, uma vergonha.

Seria uma p* foto. Essa e aquela, de quando você jogou seu piano fora pela porta de vidro que tem em sua casa. Essas foram duas coisas que deveriam ter sido registradas. John Lennon não era tão envergonhado como eu sou. Ele mantinha uma câmera rolando o tempo inteiro. Eu me lembro de estar nos bastidores em San Diego, e você estava atrasado. As pessoas estavam muito tensas. Metade da minha preocupação era com o próprio trabalho, a outra metade era vom você. Não era uma preocupação do tipo "meu Deus, lá se foi a grana da reportagem", mas "será que o Axl está legal?". Nunca estive antes numa posição de ser o responsável pela renda e pelo destino de pelo menos 60 pessoas, como acontece agora em relação ao nosso pessoal de apoio. Isso é difícil para mim. Se nós não tivéssemos feito um álbum agora, estaríamos numa turnê. Eu não teria escolhido essa responsabilidade agora. Mas não tenho muita escolha, especialemnte se quero manter a minha carreira. Gostaria de estar mais coeso emocional e mentalmente antes dessa turnê. Parte do trabalho de ser um membro do GN'R é aparecer no palco e ser um super-homem. Nós temos de emergir acima da energia da platéia, acima de qualquer coisa ruim que tenha acontecido naquele dia, ficar acima de qualquer coisa que esteja em sua cabeça e, ao mesmo tempo, tentar ficar acima de qualquer problema que esteja acontecendo em sua própria vida. Quando digo que o GN'R está lutando para se manter acima, quero dizer que estamos fazendo o possível para sobreviver, e não algo como "ei, somos melhores que vocês". Não quero dizer emergindo como sendo alguém sedento de poder e crueldade para com o público. Tentamos ficar acima para sermos saudáveis e seguros de nós mesmos, e tentamos passar essa energia para as pessoas. É nisso que estou trabalhando.

Me parece que está todo mundo caindo em cima de vocês por causa da sua demora em aparecer no palco. Eu me dirigi à multidão em Phoenix e expliquei: "Talvez eu tivesse muito louco para não ter subido aqui rapidamente". Eles amaram isso. Talvez não pudesse me mover mais rápido porque eu estava uma merda. Não gosto de irritar a galera por estar atrasado. Talvez lendo essa entrevista eles possam entender um pouco das coisas pelas quais passo regularmente. É muito difícil, algumas vezes, subir no palco, porque sinto que não tenho como ir lá e vencer. Não subo no palco a não ser que saiba que posso vencer, e dar às pessoas retorno para o seu dinheiro. Estou lutando pela minha própria saúde mental, sobrevivência e paz. Estou me concentrando bastante em ajudar a mim mesmo e, felizmente, posso suportar as pessoas com quem trabalho. As pessoas me dizem que eu sou mimado.Sim, eu sou. Mas o que estou fazendo é para que possa realizar minha função. Aprendia que quando acontece algum acidente com você, seu cérebro solta substâncias que ficam presas no músculo onde ocorreu o trauma. Elas ficam lá por toda a sua vida. Daí, quando você chega aos 50 anos, tem perna ruim ou dor nas costas. Quando fica velho, é difícil carregar o mundo de coisas que manteve preso dentro do seu corpo. Tenho trabalhado no sentido de soltar essas coisas, mas tão logo desprendemos uma coisa e o dano desaparece, algum novo músculo dói. Não é um machucado novo; é alguma velha lesão que, em função dessa minha sobrevivência, tive de enterrar. Quando sou massageado não é uma coisa relaxante; é algo como uma massagem para um jogador de futebol. Tenho feito muitas coisas - terapia muscular, acupuntura, kinesiologia - quase todo dia em que estamos numa turnê.

O show sempre me pareceu como um pôquer, em que se tenta adivinhar o que Axl irá aprontar no palco. Por que isso? Parte de disso é porque o GN'R é um organismo vivo, não uma peça. Mesmo se estiver dando o mesmo pulo na mesma parte da música, não é ensaiado. Este é o melhor meio de me expressar naquele ponto. Chego lá, e me solto. O jeito que me movo, como em "Brownstone", é a maneira de dar o melhor de mim. É como se fosse algo do tipo "como posso dar o máximo de mim sem desistir da minha vida?", "como posso dar a vida e sair ileso disso?". Nós não entramos mais no palco como o GN'R costumava fazer, como um grupo punk - e não estou pegando no pé dos punks - pensando que se nós não estivermos vivos amanhã, tudo bem. Agora há várias coisas dependendo do futuro do GN'R. Como nós podemos dar tudo o que temos hoje, chegar amanhã e dar tudo o que dispomos de novo? Isso dá bastante trabalho, esforço e manutenção. Quando subi ao palco em San Diego, tive de agradecer ao Nirvana. Usei a sua música para me inspirar. Copiei a atitude deles e subi ao palco de jeans e camiseta - nunca faço isso. Fui lá e disse ao Slash que não sabia o que iria acontecer. Eu pensava que iria chegar lá e apagar. Se subo lá e não posso cantar por não ter energia, tenho de cair fora. Quando entrei no palco, a multidão emanava energia em nossa direção, e isso encheu meu tanque. Há uma energia na multidão que, a menos que você tenha visto ou sentido, não tem como explicar. É muito amedrontador. Darby Crash (cantor da banda ounk Germs, de Los Angeles) estava morrendo e medo dessa energia, e o único modo de ele superar isso foi ficando completamente chapado, agindo como se ela não existisse, e mostrando que poderia fazer mais danos a ele mesmo do que qualquer um na multidão. Foi esse o modo como ele superou essa barra, mas essa atitude acabou matando Darby.

É tão estranho você ter lembrado disso. Ontem mesmo estávamos falando de como o novo disco do Germs é legal. Hoje estava assistindo a The Decline of Western Civilization (O Declínio da Civilização Ocidental, a respeito da cena punk de Los Angeles no final dos anos 70, dirigido por Penelope Spheeris, a mesma diretora de Quanto Mais Idiota Melhor). Eu realmente gostava daquele cara e me senti muito mal com sua morte.

Você sabe que alguns caras vão ler você falando em "viver no limite" e pensar que isso quer dizer drogas, loucura e todos aqueles outros clichês do Hollywood. Bom, já estou acostumado. São maneiras de lidar com a dor. Era um mecanismo de sobrevivência. Quando vejo alguém famoso dizendo "não houve drogas em nosso caminho caminho ao estrelato e blablablá", penso: "Ei, eles se mantiveram vivos durante aquele tempo, não é? Se você não as tivesse, talvez não teria chegado lá". Há muitas coisas que não nos ensinaram quando éramos pequenos. Existe muita dor represada ao longo desses anos. Você é ensinado a acreditar que é normal levar porrada na cabeça se você não come sua comida. Quando chega a adolescência, é tipo "me dá uma cerveja, a vida é uma merda". Nunca poderia me ver tentando tirar de alguém o que a pessoa precisa para controlar suas emoções. Eu gostaria de mostrar às pessoas que dá para você passar por cima dessas coisas e não precisar delas nunca mais. Não estou usando mais sexo e drogas como forma de escapismo, porque atingi um ponto em que não posso mais escapar. Não há saída. Tenho de viver com isso e encarar minha vida. Eu era uma dessas pessoas que achavam que não iriam sobreviver até a próxima semana. Achava que o mundo estava tão f* e tão por baixo que atingir o sucesso não era superar tudo isso. Foi como dar a volta por cima em um monte de coisas, como o lado financeiro; aí você tem de aprender como mexer com dinheiro, porque senão você seria enterrado por isso, e ficaria muito mais deprimido.

Eu entendo o que você quer dizer. Se você está trabalhando sem medo de chegar a alguma barreira intransponível, você pensa "f*-se". Em certos aspectos tivemos sorte - aqueles de nós que ainda estão vivos, que passaram por tudo isso. Há muita gente envolvida com rock'n'roll que está fugindo de algo. Eles se envolveram com drogas e álcool para ajudar a diminuir a dor. Uma garnde parte - provavelmente a maioria - dos roqueiros e fãs de metal são pessoas danificadas que estão procurando um jeito de se expressar. Eles podem se relacionar com a raiva, a dor, a frustração da banda que está dando o espetáculo... Posso te ligar de volta em meia hora?

Claro. O que acontece? É que eu quero comer alguma coisa...


Continuação

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