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03/10/2002 (EN) European Voice, " Falantes de inglês são tachados de 'arrogantes' " O governo de Tony Blair foi instado a 'sair em defesa das línguas' e a liderar uma mudança de cultura lingüística na Grã-Bretanha. O apelo seguiu-se a recentes observações controversas emitidas pelo ministro do Interior de Blair, David Blunkett, segundo as quais os imigrantes no Reino Unido deveriam falar inglês em casa. Sua idéia de que não falar inglês em casa causaria "clivagens esquizofrênicas" na família gerou protestos de organizações de imigrantes. O Dr. Renato Corsetti, presidente da Associação Universal de Esperanto, que batalha pelos direitos lingüísticos, disse que os comentários de Blunkett foram mais uma prova da "arrogância" de falantes do inglês em um mundo onde a língua inglesa tornou-se dominante. "Fico preocupado que o Reino Unido tenha uma forte reputação em não incentivar o aprendizado de línguas e que o governo britânico esteja na verdade reforçando essa atitude atribuindo um baixo status social às línguas estrangeiras", afirmou. Corsetti sugeriu que os britânicos teriam a ganhar mantendo uma mão-de-obra mais capacitada para línguas. "Para isto é preciso uma mudança cultural. Ao invés de olhar para as línguas dos imigrantes apenas como um problema, deveriam vê-las como parte da solução." |
Opinio recomenda Movimento Nacional em Defesa da Língua Portuguesa EsperantoBrasil.com |
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Reação
de Claude Piron Na qualidade de psicoterapeuta especializado em problemas interculturais, fiquei indignado ao saber que David Blunkett, ministro do Interior do governo Blair, considerou que o fato de não se falar inglês em família provoca nos imigrantes "schizophrenic rifts" (clivagens de ordem esquizofrênica). De fato é muito mais importante para a saúde psicológica de uma família que todos possam falar em sua língua materna ou na língua em que se formula espontaneamente o pensamento. Obrigar os imigrantes a renunciar sua língua é privá-los do apoio de sua cultura e seu sentimento de identidade, é torná-los completamente expatriados. E sabe-se que os desterrados têm uma tendência maior que os outros para comportamentos agressivos ou aberrantes. As propostas de Blunkett atestam uma insensibilidade aos problemas culturais e lingüísticos que se manifesta com freqüência cada vez maior em pessoas de língua materna inglesa. Fazem lembrar a afirmação feita a Hervé Lavenir de Buffon por um senador norte-americano, segundo a qual "há 6 mil línguas no mundo, sendo 5999 demais, o inglês deve bastar". A língua materna é a base de todo desenvolvimento cultural posterior. É o fundamento sobre o qual se desenvolvem as faculdades psíquicas, a percepção do mundo, o sentimento de existência. Rejeitá-la significa transmitir à pessoa a seguinte mensagem: "Você não é o que deveria ser, esqueça o que você é, transforme-se no que nós somos." É um assassinato psíquico. Aliás, a recusa do bilingüismo, cada vez mais comum em pessoas de língua inglesa, equivale a uma mutilação do espírito. Não se percebe bem o mundo em três dimensões se os dois olhos não funcionam bem. Da mesma forma, não se entende em profundidade o que se passa se não se pode pensar em dois eixos lingüísticos. Privando sua população da visão estereoscópica que dá o conhecimento de uma língua estrangeira, os estados de língua inglesa fecham-se em uma mentalidade que impede seus cidadãos de compreender sociedades diferentes das suas. A longo prazo, isto poderá revelar-se mais perigoso que o terrorismo. A tendência ao "English Only" é ainda mais deplorável por que existe um meio simples, rápido e barato de se garantir o bilingüismo, permitindo uma visão não-egocêntrica do mundo: o bilingüismo língua materna-Esperanto. Todo pesquisador honesto poderá verificar que este recurso já comprovou o seu valor. Claude Piron, Gland, Suíça (tradução para o português: James Rezende Piton, Brasil) |
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