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Conteúdo do 1º Bimestre
POLÍTICA
É COISA SÉRIA?
Sobre farinhas do mesmo e de outros
sacos
Roberto Pompeu de Toledo
Não contribui para o bom funcionamento
da democracia a idéia tão brasileira de que os políticos são
todos iguais São todos iguais.
Farinha do mesmo saco.
É assim que o eleitor brasileiro, com frequência,
se refere aos políticos. Seriam todos uns a cara esculpida
e escarrada dos outros. Fazem promessas vâs. Eleitos, dão
as costas ao eleitorado. Só se importam com os próprios interesses.
E roubam, roubam. Se são todos iguais, como escolher entre
um e outro? Como decidir em quem votar? Aliás, para que votar?
A crença no “são todos i~uaís muito partilhada no Brasil,
é na verdade uma das principais responsáveis pelo mau funcionamento
da democracia no país.
O comentário vem a propósito do escândalo
que envolve a administra çáo da cidade de São Paulo. A partir
do gesto destemido de uma professora de ginástica, que se
recusou a pagar a propina exigida pelos fiscais da prefeitura
para autorizar o funcionamento de sua academia e os denunciou,
veio à tona todo um lamaçal de falcatruas, com ramificações
em múltiplos cantos do Executivo municipal, passagem importante
pela Câmara dos Vereadores e ímpeto que ameaça mesmo a cadeira
do preteito. Ao leitor de outros Estados o assunto pode parecer
distante, mesmo o de São Paulo pode não se ter dado conta
do tamanho do problema, mas a esta altura é permitido afirmar
que ocaso se equipara aos escândalos ColIor— PC, Anões do
Orçamento ou Precatórios. A maior cidade do país, ficou-se
sabendo, era uma Chicago entregue a Aí Capone, Bagdá abandonada
a Ali Babá, Jerusalém doada aos incréus. E diante dessa tenebrosa
realidade, quais foram as reações? Duas foram muito comuns,
a saber:
1. Sempre foi assim;
2. Todo governo faz isso.
O “sempre foi assim” refere-se ao fato
de sempre ter havido fiscais que exigem propinas. Certo, mas
isso não impede que o fenômeno conheça variados graus de extensão,
que os fiscais ajam mais ou menos à vontade segundo a leniência
dos chefes e que o problema assuma proporções máximas quando
se recobre, como ép caso, de formas institucionalizadas de
planejamento das roubalheiras, arrecadação das preúenciase
distribuição dos bb~inY’O “todo governo faz isso” refere-se
à questão, central no caso presente, de o prefeito ter entregue
a vereadores o controle das chamad,ís administrações regionais.
Certo, até na Alemanha, onde o Partido Verde ocupa alguns
ministérios em troca do apoio ao -governo socialdemocrata,
se faz isso. A diferença é que em São Paulo a divisão obedeceu
menos a esse padrão, ou mesmo ao padrão tradicional do patrimonialismo
brasileiro, do que àquele pelo qual os bicheiros, no Rio de
Janeiro, dividem as zonas da cidade.
O “sempre foi assim” e o “todo governo
faz isso’ nem seria preciso acrescentar, servem de defesa
aos implicados direta ou indiretamente. “Todo fiscal é corrupto”,
disse com a habitual imprudência verbal, o ex-prefeito Paulo
Maluf, chefe do partido e patrono último da turma do escândalo.
Os vereadores contemplados com o loteamento das administrações
regionais têm se defendido com o “todo governo faz isso”.
Tanto o “sempre foi assim” como o “todo
governo faz isso” remetem ao axioma-mãe, segundo o qual os
políticos são todos iguais. Se não se acreditasse que todos
são iguais, não se acreditaria que sempre foi assim nem que
todo governo taz isso. Ora, acreditar que os políticos são
iguais é, ao mesmo tempo, uma impossibilidade lógica e uma
renúncia de direitos. Inípossibílidade lógica porque nunca
duas pessoas, mesmo que profissionais da mesma atividade,
ou membros da mesma corporação, são iguais. Os advogados não
são todos iguais, nem os pedreiros, nem mesmo os bandidos.
É uma renúncia de direitos porque o cidadão que assim pensa
mentalmente rasga o titulo de eleitor. Se é tudo igual, para
que votar? O cidadão em geral acredita que os políticos são
iguais de boa-fé, mas com isso acaba fazendo o jogo dos piores.
São eles os principais interessados em que se acredite que
“é tudo farinha do mesmo saco”.
O quadro que se revela em São Paulo é obra
de um grupo específico, que já há dois mandatos toma conta
da cid,ícle e agora tem suas vísceras expostas. Um membro
desse grupo, o vereador Wadih Mutran, ao ser entrevistado
no pro,grama Opinião Nacional, da TV Cultura de São Paulo,
defendeu o colega Vicente Viscome, preso na semana passada,
com o argumento de que Viscome é tão rico que “nem precisava
ser vereador”. Eis um cacoete de linguagem que vale por tinia
confissão. “Tão rico que nem precisava Isso revela uma concepção
segundo a qual vai para a política quem precisa ain da enriquecer.
O que ocorreu na cidade nâo ocorreu porque todos são assim,
mas porque eles, os atuais detentores do poder municipal,
são assim. Trata-se de um grupo que, a cada eleição, costuma
dizer-se renovado, convertido dos pecados da vez anterior,
mas que, a cada nova oportunidade, mostra-se, ele sim, mais
igual ainda a si mesmo. Construir uma democracia supõe saber
distinguir diferenças. Começaremos a construir a nossa quando
deixarmos de acreditar que é tudo a mesma coisa. TOLEDO, Roberto
Pompeu de. Sobre farinhas do mesmo e de outros sacos. Vela,
São Paulo, n. 14, 07 de abril de 1999. p. 150. Editora Abril.
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O texto de Roberto Pompeu de Toledo é de
“tirar o fôlego”.
A desorientação diante das mentiras, das
falsas promessas, das decisões radicais e dos fanatismos é
muito grande.
Aqui, a filosofia — que cultiva o senso
crítico — se apresenta como um ~‘remédio”. Pelo pensamento
é que podemos estabelecer o que é mentira e o que é verdade.
Pela razão é que podemos concluir que o nosso destino é planetário
e que, muito para além de todas as nossas diferenças, devemos
colaborar uns com os outros para que seja possível continuar
vivendo.
A política, os políticos, as ideologias
e as instituições políticas devem ser alvo permanente de nossas
profundas reflexões. Hiroshima e Nagasaki experimentaram a
bomba atômica, no final da Segunda Guerra Mundial. Que garantia
temos de que a intolerância dos políticos não chegue ao máximo,
a ponto de extinguir a humanidade inteira pela violência das
armas?
De que forma dar crédito aos políticos,
se nos dicionários mais da metade dos verbetes cognatos de
“político” é de sentido depreciativo? Veja, por exemplo, o
que nos traz o Aurélio:
política. [Fem. substantivado de
político.] 5. 1. 1. Ciência dos fenômenos referentes ao Estado;
ciência política. 2. Sistema de regras respeitantes à direção
dos negócios públicos. 3. Arte de bem governar os povos. 4.
Conjunto de objetivos que enformam determinado programa de
ação governamental e condicionam a sua execução. 5. Princípio
doulriná rio que caracteriza a estrutura constitucional do
Estado. 6. Posição ideológica a respeito dos fins do Estado.
7. Atividade exercida na disputa dos cargos de governo ou
no proselitismo partidário. 8. Habilidade no trato das relações
humanas, com vista à obtenção dos resultados desejados. 9.
P. ext. Civilidade, cortesia. 10. Fig. Astúcia, ardil, artifício,
esperteza. [Cf. politica, do v. politicar.] *
Política econômica. Meio pelo qual
um governo busca regular ou modificar os negócios econômicos
de uma nação. Política monetária. Controle do sistema bancário
e monetário exercido por um governo com o propósito de estabilizar
a moeda.
politicagem. 5. f. Deprec. 1. Política
(4 a 7) mesquinha, estreita, de interesses pessoais. 2. O
conjunto dos políticos pouco escrupulosos, desonestos. (Sin.
ger.: politicalha, politica ria, politiquice, politiquismo.]
politicalha. 5. f. Deprec. V. politicagem.
politicalhão. 5. m. Deprec. V. politiqueiro (5). [Fem.: politicalhona.]
politicalheiro. [De politicalho + -eiro.] Adj. Deprec. Relativo
à política.
politicalho. [De político + -alho.]
5. m. Deprec. V. politiqueiro (5).
politicalhona. 5. f. Deprec. Fem
de politicalhão.
politicante. Adj. 2 g. e s. 2 g.
Deprec. V. politiqueiro (2 e 5).
politicão. [A um. de político.] 5.
m. Pop. grande político.
politicar. V. int. 1. Tratar ou ocupar-se
de política: Deputados e senadores politicam dia e noite.
2. Discorrer acerca de política. [Conjug.: v. trancar. Pres.
ind.: politico, politicas, politica, etc. Cf. político e política.]
Mas será que tudo o que se disse até agora
faz justiça a todos os políticos?
ATIVIDADES
1. Faça a pergunta a seguir para três pessoas
que estejam fora do ambiente escolar (pode ser o jardineiro,
a empregada doméstica, o dentista, o vizinho, o pai, a mãe,
a tia...) e entregue a resposta ao seu professor: Qual a sua
opinião sobre os políticos?
2. Faça um pequeno comentário sobre a proposta
do Dr.Enéas:
Atômico - O candidato do Prona, Enéas Carneiro
encontrou uma nova maneira de chamar a atenção no horário
gratuito. Em vez de ficar apenas esbravejando contra o governo,
ele agora também faz uma ameaça: se eleito, o pais deverá
investir na construção da bomba atômica. Enquanto Enéas desfia
argumentos a favor da delirante proposta, uma mensagem dá
o número de um telefone que promete “a verdade sobre a bomba”.
(VEJA. 26 ago. 1998, p. 43)
Questões Comentadas
1.
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