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O GRÉS, dando continuidade à rubrica sobre profissões à beira da extinção, foi falar com o senhor Francisco António Cabrita, de 63 anos, «sapateiro de bancada», como o próprio nos disse: Tudo começou há cinquenta anos, quando o sapateiro, então com catorze anos, foi para uma pequena fábrica em Portimão e onde o seu mestre, o senhor António, lhe ensinou tudo o que sabe. Tendo acabado a 4ª Classe, recebeu um repto do pai: «O meu pai, que trabalhava no campo, deu-me duas escolhas: ou andas atrás de mim com a enxada na mão, ou vais aprender um ofício, e», como nos revelou, «numa altura em que qualquer profissão era melhor que andar a trabalhar no campo...», foi assim que começou. «Nesse tempo, tudo era diferente, havia muito mais trabalho, havia poucas fábricas e até o material era diferente. Hoje, é quase tudo material sintético, antigamente era tudo pele de animal», diz, para mostrar as diferenças que existem entre o início do seu percurso e a actualidade. A partir dos dezassete anos, o senhor Francisco começou a fazer calçado novo, para depois ser vendido nas sapatarias Zaza e Oriental, em Portimão. Na altura, um bom par de sapatos, conforme nos disse, «podia custar entre os oitenta e os cem escudos, tudo em pele animal e grande parte do trabalho feito à mão, o que rendia cerca de 7 a 8 escudos por par» e, acrescentou, «um quilo de sola custava dois e quinhentos e hoje custa quase três contos». Na sua loja em Silves, tudo continua a ser feito à mão, conforme nos disse com orgulho: «As pessoas mais antigas ainda dão valor ao trabalho manual, porque é sempre diferente do trabalho de uma máquina» e prosseguiu, contando um episódio curioso: «Aí há tempo, apareceu uma pessoa e perguntou se eu não tinha máquinas e eu respondi que tinha. Essa pessoa olhou e disse que não via nenhuma, e eu respondi-lhe que tinha; então, ela disse-me que, se não tinha máquinas ia a outro sítio» e acrescentou com tristeza: «As pessoas não sabem o que pode fazer um sapateiro de bancada». Com o desenvolvimento da indústria do calçado e, principalmente com a alteração dos hábitos de consumo, este tipo de trabalho tem os seus dias contados, uma vez que se resume essencialmente à colocação de "capas" e que, conforme nos disse o senhor Francisco, só «de ano a ano lá aparece alguém para colocar meias solas». «Hoje, o material é quase todo imitação e a pessoa usa e deita fora», lamenta este artesão. Carlos Marques
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