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Não há ideias

Jorge Sampaio, Ferreira do Amaral, António Abreu, Fernando Rosas e Garcia Pereira. Eis os protagonistas de uma "quase" luta eleitoral pelo mais alto cargo da nação.

Efectivamente, o cargo de Presidente da República é bem mais do que um cargo meramente decorativo do nosso sistema político. O Presidente da República é o mais alto magistrado da nação, representa-a e, em termos práticos, exerce um efectivo poder de influência na sociedade portuguesa, onde se destaca pela sua inegável relevância, o poder de dissolver a Assembleia da República e demitir o Primeiro Ministro, desde que esteja em causa a regularidade da vida democrática.

Ora nestas eleições a discussão, se é que houve porque não se ouviu, não se centrou em projectos de exercício do cargo presidencial mas antes, em tricas de duvidoso interesse. Assim, o resultado foi o que se esperava. Venceu o candidato Jorge Sampaio, ficou em segundo o candidato Ferreira do Amaral, seguido de António Abreu, Fernando Rosas e Garcia Pereira. Tudo de acordo com o previsível.

Mas há um dado novo neste processo eleitoral que importa apreciar. A abstenção, pela primeira vez em Portugal ficou ligeiramente acima dos 50%, o que significa que mais de metade da população portuguesa se alheou da escolha do Presidente da República.

Uma elevada abstenção é sinal de estabilidade e maturidade democrática. Significa que o povo não sente que as suas liberdades estejam ameaçadas de algum modo. No entanto, quando mais de metade da população não se preocupa em participar na eleição do Presidente da República é sinal de que algo vai mal no reino.

A abstenção verificada tem que, a meu ver, ser entendida como uma forma de expressão popular válida, possível de diversas leituras mas, ainda assim, válida. As pessoas abstiveram-se por vários motivos: porque acharam que não valia a pena votar, porque acharam que era uma forma de protesto ou ... porque simplesmente se estiveram nas tintas.

De qualquer forma, o nível de abstenção é profundamente preocupante e faz-nos pensar que a política é cada vez mais uma actividade intestina, de pequenos grupos circulares e restritos, que usam uma linguagem própria e vivem para si mesmos, em torno de si mesmos.

Esta é a profunda negação da política. A política é a arte de governar um povo e não a arte de se governar de um povo. Ora, quando mais de metade do povo eleitor não se revê, seja porque razão for, nos políticos e nas ideias trazidas à liça, isso só pode significar que os políticos não protagonizam nada que interesse a esse povo.

Não o governam nem, no fundo, o representam. É, pois, o caos pantanoso da micro representação de um país.

Tudo isto nos mostra algo de profundamente perverso que é o facto dos políticos não encontrarem a chave para despertar o interesse daqueles que os elegem para as causas e ideias que trazem. Se calhar porque... não há ideias.

Hélder Patrão

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