BROQUÉIS
Estudo da obra de Cruz e Sousa
A poesia de BROQUÉIS, primeiro livro de Cruz e Sousa,
causou, na época, grande celeuma. Abandonava o significado explícito,
procurando a sugestão, propondo-se fazer poesia pura. O referencial perdia
a predominância, passavam a pesar o choque das imagens, os ritmos, a música
insinuante. O leitor deveria recuperar a experiência da vida interior
do artista.
Cruz e Sousa transpõe para sua sensibilidade as posições
de Baudelaire, Mallarmé e Verlaine, entre outros. Mas o milagre que ocorre
é que esses recursos estilísticos vão estar a serviço
de um excluído. Que não se aceita como tal e, por meio de sua
arte, vai ser para sempre uma das vozes de nosso povo. Homenagear Cruz e Sousa
é lê-lo e isso, na plena acepção da palavra, é
não aceitar uma sociedade excludente e preconceituosa, é impedir
que outros vivam o drama do Poeta. Seus versos apresentam aliterações
e assonâncias e, muitas vezes, como diz Ivan Teixieira, "... se baseiam
no processo de justaposição cumulativa... funcionam como se fossem
notas musicais. Assim, o sentido do primeiro verso soa, isoladamente, para depois,
associar-se ao sentido do segundo e fundir-se com o das unidades seguintes,
formadas pelos dois últimos."
É com BROQUÉIS que Cruz e Sousa lança, no Brasil, os ideais
simbolistas. E "Antífona", que abre o livro, é uma espécie
de profissão de fé simbolista, fornecendo, já na primeira
estrofe, as coordenadas básicas do cromatismo, sonoridade e sugestão
dessa escola, que tudo dilui no vago abstrato e indefinido:
"Ó formas alvas, brancas, formas claras
de luares, de neves, de neblinas!...
Ó formas vagas, fluídas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...
A partir de um dos sonetos do livro - "Carnal e Mistico":
Pelas regiões tenuíssimas da bruma
Vagam as Virgens e as Estrelas raras...
Como que o leve aroma das searas
Todo o horizonte em derredor perfume.
N'uma evaporação de branca espuma
Vão diluindo as perspectives claras...
Com brilhos crus e fúlgidos de tiaras
As Estrelas apagam-se uma a uma.
E então, na treva, em místicas dormências
Desfila, com sidéreas lactescências,
Das Virgens o sonâmbulo cortejo...
Ó Formas vagas, nebulosidades!
Essência das eternas virgindades!
Ó intensas quimeras do Desejo...
define-se a dicotomia que será básica nesses poemas. A carne, a sensualidade e luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas. A lascívia da carne atrativa manifesta-se em
LÉSBIA
Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.
Nesse lábio mordente e convulsivo,
Ri, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passe, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo...
Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atracões do gozo.
Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os letargos,
Os ópios de um luar tuberculoso...
na "serpe venenosa" de
LUBRICIDADE
Quisera ser a serpe venenosa
Que dá-te medo e dá-te pesadelos
Para envolverem, ó Flor maravilhosa,
Nos flavos turbilhões dos teus cabelos.
Quisera ser a serpe veludosa
Para, enroscada em múltiplos novelos,
Saltar-te aos seios de fluidez cheirosa
E babujá-los e depois mordê-los...
Talvez que o sangue impuro e flamejante
Do teu lânguido corpo de bacante,
Da langue ondulação de águas do Reno
Estranhamente se purificasse...
Pois que um veneno de áspide vorace
Deve ser morto com igual veneno...
nos mistérios da luxúria da
AFRA
Ressurges dos mistérios da luxúria,
Afra, tentada pelos verdes pomos,
Entre os silfos magnéticos e os gnomos
Maravilhosos da paixão purpúrea.
Carne explosiva em pólvoras e fúria
De desejos pagãos, por entre assomos
Da virgindade--casquinantes momos
Rindo da carne já votada a incúria.
Votada cedo ao lânguido abandono,
Aos mórbidos delíquios como ao sono,
Do gozo haurindo os venenosos sucos.
Sonho-te a deusa das lascivas pompas,
A proclamar, impávida, por trompas,
Amores mais estéreis que os eunucos!
e em outros sonetos como
DANÇA DO VENTRE
Torva, febril, torcicolosamente,
Numa espiral de elétricos volteios,
Na cabeça, nos olhos e nos seios
Fluíam-lhe os venenos da serpente.
Ah! que agonia tenebrosa e ardente!
Que convulsões, que lúbricos anseios,
Quanta volúpia e quantos bamboleios,
Que brusco e horrível sensualismo quente
O ventre, em pinchos, empinava todo
Como reptil abjecto sobre o lodo,
Espolinhando e retorcido em fúria.
Era a dança macabra e multiforme
De um verme estranho, colossal, enorme,
Do demônio sangrento da luxúria!
e também em
TULIPA REAL
Carne opulenta, majestosa, fina,
Do sol gerada nos febris carinhos,
Há músicas, há cânticos, há vinhos
Na tua estranha boca sulferina.
A forma delicada e alabastrina
Do teu corpo de límpidos arminhos
Tem a frescura virginal dos linhos
E da neve polar e cristalina
Deslumbramento de luxúria e gozo,
Vem dessa carne o travo aciduloso
De um fruto aberto aos tropicais mormaços.
Teu coração lembra a orgia dos triclínios...
E os reis dormem bizarros e sangüíneos
Na seda branca e pulcra dos teus braços.
Esse atrativo violento da sensualidade, essa carnalidade tão impositiva, que se projetam em quase todos os poemas de BROQUÉIS, contagiando mesmo de "desejo carnal"o "Cristo de Bronze":
CRISTO DE BRONZE
Ó Cristos de ouro, de marfim, de prata,
Cristos ideais, serenos, luminosos,
Ensangüentados Cristos dolorosos
Cuja cabeça a Dor e a Luz retrata.
Ó Cristos de altivez intemerata,
Ó Cristos de metais estrepitosos
Que gritam como os tigres venenosos
Do desejo carnal que enerva e mata.
Cristos de pedra, de madeira e barro...
Ó Cristo humano, estético, bizarro,
Amortalhado nas fatais injurias...
Na rija cruz aspérrima pregado
Canta o Cristo de bronze do Pecado,
Ri o Cristo de bronze das luxúrias!...
diluem-se, entretanto, não raro, no puro sonho, ou na vaga abstraticidade.
E o "carnal", de tão intensa vibração, desemboca
na diluição abstrata e platônica, conduzindo o místico,
ou seja, prenunciando já a temática obsessiva de ÚLTIMOS
SONETOS: a oposição matéria-espírito, corpo-alma,
imanência-transcendência. Esse anseio pelo vago e abstrato, pelo
misticismo transcendente se declara explicitamente em
SIDERAÇÕES
Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo...
Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo...
Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta...
E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta...
Como revela este soneto, o transcendente Cruz e Sousa não se define claramente.
Não se trata do "céu"de nenhuma religião concreta.
Sempre vagas são as expressões que a ele se referem: "naves
do infinito", "regiões tenuíssimas da bruma", "mundos
ignorados", "vagos infinitos", "branco sacrário das
saudades", "estrelas do infinito", "azuis dos siderais empíreos",
"azuis etéreos".
Essa mesma indefinição vaga caracteriza as referências reiteradas
ao tema do sonho, bem como a redução freqüente de tudo à
"quimera".
São explosões de vida que se torturam na ânsia de realização,
obstaculizada por barreiras, convenções ou preconceitos. A própria
seleção vocabular densifica esse vigor dinâmico impresso
nos versos. A adjetividade carrega de particular intensidade dramática
a realidade enfocada, como em "a torva morte horrenda, / atra, sinistra,
gélida, tremenda".
BROQUÉIS é um livro de poesia maior. O simbolismo nele refulge
na sua linguagem colorida, exótica e vigorosa; na imprecisa mas dominantes
tendência mística, envolvendo todo um vocabulário litúrgico;
na linguagem figurada, constantemente metafórica, de aliterações
e sinestesias; na crescente musicalidade que emana de seus versos. São
poemas simbolistas, mas poemas carregados de sentimentos e de vivências
vigorosas. Poemas que identificam a tortura existencial do poeta, totalmente
dedicado à criação poética.