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Sua cabeça dói. Ele caminha para descansar o animal e esticar o corpo. Não
para de pensar como está sendo idiota. Já está cavalgando há 14 dias,
evitar as montanhas e os nativos deste planeta lhe prolongara a viagem.
Evitou planar, um flutuador pequeno chamaria mais atenção do que um
"sandareiro" em terras selvagens. Ele tenta se convencer disso
enquanto seus olhos cansados percorrem as montanhas. Cuidado com o
ciclotron, ela sacoleja e mantém constante o fluxo de íons. É uma as
poucas riquezas que possui.
Raramente consegue perceber o engodo de lhe enviarem para os Campos Gerais
do décimo oitavo planeta, e nestes momentos raros consegue descobrir
alguma coisa a mais de um estranho quebra-cabeça. Por isso esperava uma
tocaia depois que partiu do espaçoporto avançado. Mesmo assim, atento a
tudo, demarcou os acampamentos dos nativos, mapeou o seu caminho, indicou
a latitude e arriscou a longitude usando o ciclotron.
Esta fina peça obtida dos centurianos da estrela anã lhe dava quase com
exatidão doze horas. E era ao meio dia que ele calculava a defasagem a
partir do Espaçoporto. Como seria fácil se fosse permitido deixar dois
satélites em órbita. Mas depois dos atritos diplomáticos entre os
centurianos e humanos, planetas são estudados à distância ou da superfície.
Avisaram-lhe que havia um caminho para evitar a baia e os charques, isto
também era providente. Cem anos antes Chico Chaves e mais 80 homens
armados comandados por Pedro, o Lobo, tinham levado quatro meses para
chegarem no mesmo local e serem dizimados pelos nativos de Goyo-Covó.
Seguindo um rio ou outro, seguindo alguns caminhos de anturianos, evita ao
máximo os relevos. Uma ninhada de dípteros levanta vôo, é um sinal. A
dor que lhe acompanha mistura a fome. Está na hora de comer. Não há
nenhuma fruta alienígena comestível por perto, antes tinham muitas.
Os dípteros levantam vôo deste jeito quando há
uma anamorfa carnívora, homem ou algum nativo. Confia no sandaro, deixa-o
para trás e se confunde com o capão. Facilmente encontra a kautia.
Às vezes pensa
que é bicho, mas bicho não tem dor de cabeça. A caça o satisfaz. Às
vezes pensa que é um sandareiro que deixou sua amada. Mas é um pau
mandado que se apaixonou por quem não devia, uma Lara.
A vegetação rareia e o campo se prolonga, e os
rios estão mais visíveis. Aquele imenso campo pode representar tanto
perigo quanto a serra. Gericó "guincha". O sandareiro desce e
sente cheiro de queimado. Com a bateria solar recarrega o zaper, coloca o
tampão. Deixa a faca elétrica mais próxima da mão e caminha em direção
do perigo. Pode ser qualquer um, mas tem esperança de ver o sargento
Francisco de Souza Faria que havia sumido há uns 3 anos com sua tropa.
O dia está limpo. Sobe um morro e retira um artefato da bolsa. O
instrumento se assemelha aos que os militares usam para ver a distância,
com um ajuste identifica pontos distantes que se diferenciam da paisagem
verde. Possivelmente ali estão os t'd'iqüeras, enfim Abraão havia chego
no sertão da baía deste planeta.
Mas se o tenente está realmente nos campos do décimo oitavo planeta,
como que não consegue ver o mar? A serra deve escondê-la. Existem
nativos nas proximidades?
Quando se
aproxima percebe a maloca, caixas de madeira com pedregulhos, traves com
carne de dípteros secando ao sol e um garimpeiro solitário vestido em
trapos à margem do rio. Abraão Canela tem vontade de rir de si, não
limpa o zaper, mas mais tranqüilo desce e na distância de um
eletrochoque e grita: - Português?!
O garimpeiro levanta assustado. Segura uma besta e responde: - Humano!
- Sou o tenente Abraão Canela. Vim a mando do Almirante estelar Salvador
Correa de Sá.
- E veio sozinho? – O velho desconfiado aperta o cabo da besta.
- Sim – respondeu o tenente levando a mão ao alforge e tirando um tubo
de acrílico com holograma do governador. Mostra rápido e guarda.
O velho relaxa,
ri e convida o visitante para entrar.
O tenente não
tem como recusar o pedido, ele está preocupado com o sandaro, mas não
quer se mostrar mal educado.
O velho descobre o urânio que nunca era descoberto de dia, e oferece a
aguardente que bebia escondido para não oferecer aos nativos. Depois de
falar que buscava carbono 60 no rio Atuba, contar sobre os Nativos da Região
e ficar bêbado revela que é um desertor da expedição do Capitão Mor Lácteo:
- Os nativos Antúrios, eles estão lá, juntos dos Naens... perto
daqui... não faz uma milha, mataram todos, até eu. Apareciam do nada,
lutavam como demônios, é mais fácil caçar kautia do que ver um
deles... eu era um dos besteiros... não conte para ninguém que estou
aqui.
- Não tem medo do Cabeza de Vaca, o centuriano?
- Ele é uma lenda ou já morreu antes do tenente nascer. Não aparece
centuriano por aqui faz anos. Os nativos contam, eles são meus amigos.
- Conhece o caminho para a cidade Terra 9?
- Conheço, mas só lhe mostro o começo do caminho, é caminho nativo,
muito bom, se tiver disposto faz em um dia. Eu desço para lá às vezes
quando encontra uma pedra ou outra. Mais ao sul do litoral que é a tribo
dos Carijós. Mas tem muitos T'p'iquins amigos. Acho estranho vossa mercê
vir sozinho, não tem medo de anamorfa, nativo, serpente de corpos e
centurianos.
- Fala muito para um velho eremita.
- Não sou tão só, tem nativa que me oferece favores, e às vezes desço
para a baia para não perder a língua mãe.
- Com nativa? Isso é sacrilégio, e se diz humano?
- Não se meta com minha vida. Não consegue nem cuidar da tua, te
mandaram para a morte tenente. Todos os que vêm nessas paragens estão
armados, em campanhas, com um mínimo de 20 homens. O que vossa mercê fez
para ser mandado sozinho? Um homem graduado, educado nas ciências? Qual
rapariga de família rica que cortejou?
A luz verde do urânio enriquecido fica mais pálida diante do clarão que
ocorre na mente de Abraão. Terra 9 é o seu destino, não sabia o que o
esperava no litoral, a sesmaria tinha sido concedida Diogo de Alpha
Centaurus, mas o velho deu a entender que haviam portugueses dispersos, não
havia vila. Era quase certo que encontraria Gabriel de Centuria 2 bem
informado de seu nome e do que havia feito.
Já faz tempos que querem fazer caminhos por terra para juntarem os gados
do vento e encontrarem minas. Essas idéias não são do agrado dos capitães
mores dos portos que ganham com o movimento de espaçonaves e o controle
interplanetário.
Se descesse a serra seria enforcado, mas qual seria a acusação? Flertar
uma castelhana, filha Diogo de Centuria 2? Isso não é o suficiente para
enforcar um tenente.
Qual era a missão de Abraão? Descobrir um caminho menos acidentado para
o local onde foi dizimado uma bandeira de 80 homens e descrever a região,
registrar sua longitude e latitude, descer para a cidade Terra 9, ou um
posto avançado, onde tivesse algum cargueiro espacial para divulgar a
informação.
Talvez pensassem que essa odisséia fosse suficiente para matá-lo, mas se
ele conseguisse, seria ovacionado por ter completado a missão, e o plano
do castelhano falharia desastrosamente. Havia alguma coisa que ele não
tinha pensado, um detalhe que o esperava no espaçoporto. Mas qual?
- No começo estava com medo de vossa mercê, tenente. Ia matá-lo com a
besta, mas agora que eu sei que o Tenente vai ser carne morta eu me torno
seu irmão.
- Continue sentindo medo desertor. Vou denunciá-lo quando eu chegar no
porto.
O velho se levanta, tenta alcançar a besta, mas Abraão ativa o zaper que
deixa avermelhar ao carregar propositadamente:
- Parado.
- Eu tenho carbono 60 guardado. Leva tudo. Vai embora.
- Você não entendeu. Esses campos têm futuro para o governador. Eu não
vou matá-lo, nem denunciá-lo, e vossa mercê não pode continuar aqui,
se não vai ser descoberto, mas vai ter que me ajudar velho bestero.
O bestero pára e espera.
- Eu confisco todo o c60 que tem escondido, vai me explicar onde conseguiu
cada quantia que possui. Se eu não entender, me levará no local. Se
estiver mentindo venho com a milícia e te levo à corte marcial
Nos dias seguintes o tenente mapeia o rio Tuba e escreve as descrições
do velho das possíveis fontes de C60 nas proximidades da cidade Terra 9.
O plano é simples, entrega o C60, que é pouco, mas que é prova que
existe, as coordenadas, e a carta assinada da missão que foi enviado e
executado com eficiência acima do esperado. Talvez com isso seja até
levado em consideração pelo Governador e elevado a Capitão Mor. Até
planeja como escrever o pedido da sesmaria para administrar as minas.
Tudo preparado ele desce pelo caminho dos
anturianos guiado pelo velho.
Quando próximo à baia muda de idéia, abandona
o desertor atravessa o charco e alguns rios, em um tempo menor que o
esperado chega ao Espaçoporto.
Não como herói, mas como traidor.
Rebaixado, desonrado e sem saber qual a acusação, recebe a visita de
Francisco Bueno na prisão.
- Abraão Canela?
- Sim senhor.
- Não me conhece rapaz, sou irmão do rei do sistema trinário.-pigarreia
– li seu processo, foi pego numa armadilha. Não sei que mal fez para
fazer inimigos poderosos. Seus registros da missão estão sendo bem
usados por Gabriel de Centuria 2. Oh, eu vejo que nem sabe porque está
preso. Um argumento bem simples, foi pego pela longitude. Às vezes usamos
mapas com longitudes falsas para justificarmos a colonização de terras
que vão além do tratado dos Centurianos. Marcou a longitude correta
tenente, esse foi o argumento de ato de traição contra a coroa.
- Pode me ajudar?
- Sim, posso, vou partir para a província de Tapes com uma tropa
numerosa, mais homens do que possa imaginar. Preciso de sua ajuda como
tenente. Mas seu nome não será registrado, se sobreviver receberá seu
soldo anonimamente até o final de sua vida. Em troca mapeará e demarcará
nosso avanço. Não posso fazer mais do que isso.
Claro
que aceita.
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