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atualizado 25/12/2004

 

Índice

 

 

2630 – Alpha Centaurus

     Sua cabeça dói. Ele caminha para descansar o animal e esticar o corpo. Não para de pensar como está sendo idiota. Já está cavalgando há 14 dias, evitar as montanhas e os nativos deste planeta lhe prolongara a viagem. Evitou planar, um flutuador pequeno chamaria mais atenção do que um "sandareiro" em terras selvagens. Ele tenta se convencer disso enquanto seus olhos cansados percorrem as montanhas. Cuidado com o ciclotron, ela sacoleja e mantém constante o fluxo de íons. É uma as poucas riquezas que possui.

     Raramente consegue perceber o engodo de lhe enviarem para os Campos Gerais do décimo oitavo planeta, e nestes momentos raros consegue descobrir alguma coisa a mais de um estranho quebra-cabeça. Por isso esperava uma tocaia depois que partiu do espaçoporto avançado. Mesmo assim, atento a tudo, demarcou os acampamentos dos nativos, mapeou o seu caminho, indicou a latitude e arriscou a longitude usando o ciclotron.
Esta fina peça obtida dos centurianos da estrela anã lhe dava quase com exatidão doze horas. E era ao meio dia que ele calculava a defasagem a partir do Espaçoporto. Como seria fácil se fosse permitido deixar dois satélites em órbita. Mas depois dos atritos diplomáticos entre os centurianos e humanos, planetas são estudados à distância ou da superfície.

     Avisaram-lhe que havia um caminho para evitar a baia e os charques, isto também era providente. Cem anos antes Chico Chaves e mais 80 homens armados comandados por Pedro, o Lobo, tinham levado quatro meses para chegarem no mesmo local e serem dizimados pelos nativos de Goyo-Covó.

     Seguindo um rio ou outro, seguindo alguns caminhos de anturianos, evita ao máximo os relevos. Uma ninhada de dípteros levanta vôo, é um sinal. A dor que lhe acompanha mistura a fome. Está na hora de comer. Não há nenhuma fruta alienígena comestível por perto, antes tinham muitas.
     Os dípteros levantam vôo deste jeito quando há uma anamorfa carnívora, homem ou algum nativo. Confia no sandaro, deixa-o para trás e se confunde com o capão. Facilmente encontra a kautia.

Às vezes pensa que é bicho, mas bicho não tem dor de cabeça. A caça o satisfaz. Às vezes pensa que é um sandareiro que deixou sua amada. Mas é um pau mandado que se apaixonou por quem não devia, uma Lara.
     A vegetação rareia e o campo se prolonga, e os rios estão mais visíveis. Aquele imenso campo pode representar tanto perigo quanto a serra. Gericó "guincha". O sandareiro desce e sente cheiro de queimado. Com a bateria solar recarrega o zaper, coloca o tampão. Deixa a faca elétrica mais próxima da mão e caminha em direção do perigo. Pode ser qualquer um, mas tem esperança de ver o sargento Francisco de Souza Faria que havia sumido há uns 3 anos com sua tropa.

     O dia está limpo. Sobe um morro e retira um artefato da bolsa. O instrumento se assemelha aos que os militares usam para ver a distância, com um ajuste identifica pontos distantes que se diferenciam da paisagem verde. Possivelmente ali estão os t'd'iqüeras, enfim Abraão havia chego no sertão da baía deste planeta.

     Mas se o tenente está realmente nos campos do décimo oitavo planeta, como que não consegue ver o mar? A serra deve escondê-la. Existem nativos nas proximidades?

Quando se aproxima percebe a maloca, caixas de madeira com pedregulhos, traves com carne de dípteros secando ao sol e um garimpeiro solitário vestido em trapos à margem do rio. Abraão Canela tem vontade de rir de si, não limpa o zaper, mas mais tranqüilo desce e na distância de um eletrochoque e grita: - Português?!

     O garimpeiro levanta assustado. Segura uma besta e responde: - Humano!

     - Sou o tenente Abraão Canela. Vim a mando do Almirante estelar Salvador Correa de Sá.

     - E veio sozinho? – O velho desconfiado aperta o cabo da besta.

     - Sim – respondeu o tenente levando a mão ao alforge e tirando um tubo de acrílico com holograma do governador. Mostra rápido e guarda.

O velho relaxa, ri e convida o visitante para entrar.

O tenente não tem como recusar o pedido, ele está preocupado com o sandaro, mas não quer se mostrar mal educado.

     O velho descobre o urânio que nunca era descoberto de dia, e oferece a aguardente que bebia escondido para não oferecer aos nativos. Depois de falar que buscava carbono 60 no rio Atuba, contar sobre os Nativos da Região e ficar bêbado revela que é um desertor da expedição do Capitão Mor Lácteo:

     - Os nativos Antúrios, eles estão lá, juntos dos Naens... perto daqui... não faz uma milha, mataram todos, até eu. Apareciam do nada, lutavam como demônios, é mais fácil caçar kautia do que ver um deles... eu era um dos besteiros... não conte para ninguém que estou aqui.

     - Não tem medo do Cabeza de Vaca, o centuriano?

     - Ele é uma lenda ou já morreu antes do tenente nascer. Não aparece centuriano por aqui faz anos. Os nativos contam, eles são meus amigos.
     - Conhece o caminho para a cidade Terra 9?

     - Conheço, mas só lhe mostro o começo do caminho, é caminho nativo, muito bom, se tiver disposto faz em um dia. Eu desço para lá às vezes quando encontra uma pedra ou outra. Mais ao sul do litoral que é a tribo dos Carijós. Mas tem muitos T'p'iquins amigos. Acho estranho vossa mercê vir sozinho, não tem medo de anamorfa, nativo, serpente de corpos e centurianos.
     - Fala muito para um velho eremita.

     - Não sou tão só, tem nativa que me oferece favores, e às vezes desço para a baia para não perder a língua mãe.

     - Com nativa? Isso é sacrilégio, e se diz humano?

     - Não se meta com minha vida. Não consegue nem cuidar da tua, te mandaram para a morte tenente. Todos os que vêm nessas paragens estão armados, em campanhas, com um mínimo de 20 homens. O que vossa mercê fez para ser mandado sozinho? Um homem graduado, educado nas ciências? Qual rapariga de família rica que cortejou?

     A luz verde do urânio enriquecido fica mais pálida diante do clarão que ocorre na mente de Abraão. Terra 9 é o seu destino, não sabia o que o esperava no litoral, a sesmaria tinha sido concedida Diogo de Alpha Centaurus, mas o velho deu a entender que haviam portugueses dispersos, não havia vila. Era quase certo que encontraria Gabriel de Centuria 2 bem informado de seu nome e do que havia feito.

     Já faz tempos que querem fazer caminhos por terra para juntarem os gados do vento e encontrarem minas. Essas idéias não são do agrado dos capitães mores dos portos que ganham com o movimento de espaçonaves e o controle interplanetário.

     Se descesse a serra seria enforcado, mas qual seria a acusação? Flertar uma castelhana, filha Diogo de Centuria 2? Isso não é o suficiente para enforcar um tenente.

     Qual era a missão de Abraão? Descobrir um caminho menos acidentado para o local onde foi dizimado uma bandeira de 80 homens e descrever a região, registrar sua longitude e latitude, descer para a cidade Terra 9, ou um posto avançado, onde tivesse algum cargueiro espacial para divulgar a informação.
Talvez pensassem que essa odisséia fosse suficiente para matá-lo, mas se ele conseguisse, seria ovacionado por ter completado a missão, e o plano do castelhano falharia desastrosamente. Havia alguma coisa que ele não tinha pensado, um detalhe que o esperava no espaçoporto. Mas qual?

     - No começo estava com medo de vossa mercê, tenente. Ia matá-lo com a besta, mas agora que eu sei que o Tenente vai ser carne morta eu me torno seu irmão.

     - Continue sentindo medo desertor. Vou denunciá-lo quando eu chegar no porto.

     O velho se levanta, tenta alcançar a besta, mas Abraão ativa o zaper que deixa avermelhar ao carregar propositadamente:

     - Parado.

     - Eu tenho carbono 60 guardado. Leva tudo. Vai embora.

     - Você não entendeu. Esses campos têm futuro para o governador. Eu não vou matá-lo, nem denunciá-lo, e vossa mercê não pode continuar aqui, se não vai ser descoberto, mas vai ter que me ajudar velho bestero.

     O bestero pára e espera.

     - Eu confisco todo o c60 que tem escondido, vai me explicar onde conseguiu cada quantia que possui. Se eu não entender, me levará no local. Se estiver mentindo venho com a milícia e te levo à corte marcial

     Nos dias seguintes o tenente mapeia o rio Tuba e escreve as descrições do velho das possíveis fontes de C60 nas proximidades da cidade Terra 9.

     O plano é simples, entrega o C60, que é pouco, mas que é prova que existe, as coordenadas, e a carta assinada da missão que foi enviado e executado com eficiência acima do esperado. Talvez com isso seja até levado em consideração pelo Governador e elevado a Capitão Mor. Até planeja como escrever o pedido da sesmaria para administrar as minas.
     Tudo preparado ele desce pelo caminho dos anturianos guiado pelo velho.
     Quando próximo à baia muda de idéia, abandona o desertor atravessa o charco e alguns rios, em um tempo menor que o esperado chega ao Espaçoporto.

     Não como herói, mas como traidor.

     Rebaixado, desonrado e sem saber qual a acusação, recebe a visita de Francisco Bueno na prisão.

     - Abraão Canela?

     - Sim senhor.

     - Não me conhece rapaz, sou irmão do rei do sistema trinário.-pigarreia – li seu processo, foi pego numa armadilha. Não sei que mal fez para fazer inimigos poderosos. Seus registros da missão estão sendo bem usados por Gabriel de Centuria 2. Oh, eu vejo que nem sabe porque está preso. Um argumento bem simples, foi pego pela longitude. Às vezes usamos mapas com longitudes falsas para justificarmos a colonização de terras que vão além do tratado dos Centurianos. Marcou a longitude correta tenente, esse foi o argumento de ato de traição contra a coroa.

     - Pode me ajudar?

     - Sim, posso, vou partir para a província de Tapes com uma tropa numerosa, mais homens do que possa imaginar. Preciso de sua ajuda como tenente. Mas seu nome não será registrado, se sobreviver receberá seu soldo anonimamente até o final de sua vida. Em troca mapeará e demarcará nosso avanço. Não posso fazer mais do que isso.

Claro que aceita.

    copyright wilton pacheco 2003