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atualizado 25/12/2004

 

Índice

 

 

Domingo

 

Bernardo acordou às 11 horas, será mais uma tentativa de viver mal sucedida? Quase formado em jornalismo escreve meia dúzia de artigos por mês. Publica na empresa de fotocópias mais barata da cidade. Espalha mão a mão e por vezes cola em postes suas denúncias da mentira urbana. Mas hoje é domingo e está chovendo na alma deste homem.
Olha para fora e vê as indústrias paradas, lojas funcionando e arvores em um cinza profundo. Poucas pessoas na rua correm para não se molhar. A auto-estrada a 300 metros continua com seu fluxo de 24 horas como um rio mecânico de correntes contraditórias. Seu conforto e ver a madeireira antiga, com várias casas e barracões. Existe vida nesta madeireira, habitada por um caseiro e sua família, o chão de terra é coberto por pedra, areia e vários pedaços de tijolos. Os barracões se tornaram abrigos para varais de roupas e galinhas, cães e brincadeiras de crianças.. Uma réstia do que foi o bairro industrial onde Bernardo mora. Mesmo ele é um invasor deste vale por onde o trem passava carregado de café, trigo, madeira e animais. Mas agora, lhe resta uma visão feia de uma modernidade que cobriu o piso com asfalto e pedra ou um vasto campo que circunda um mercado de bricolagens. Apenas o barracão escapa.
O que angustia o projeto de jornalista é que seu presente não é contemporâneo, o agora é alheio ao tempo. Nada do que vê mostra o antigo ou o moderno, mas o congelado como o frio de um inverno molhado. Dia a dia em que Bernardo acorda tentando submeter-se a um projeto de vida se depara com esta paisagem triste, monótona e feia de um ferro-velho composto com amianto, alumínio, zinco, concreto, argila e asfalto. Com poucas construções que se elevam além dos 12 metros de altura.
De sua janela suja de esquadrias de alumínios do segundo andar de um prédio de 14 anos Bernardo planeja levar uma vida com visão seletiva, como se fosse um fotógrafo e não um projeto do que poderia ser. Planeja flanar olhando bueiros e procurando uma beleza trágica em ratos mortos e pombas que compõe a cidade em suas cores neutras. Mas Bernardo será uma lente para os detalhes, para os sapatos que seguram o pó e formam vasos para plantas que nascem ao meio fio.
É um belo projeto, e Bernardo pega sua máquina zênite com a lente zoom preparado para enfrentar a luz difusa que estraga qualquer foto. Talvez outro dia em que houver sol leve a diante esta idéia, por hora levará em frente seu projeto de imaginar que é o que não é e que está onde não está.

    copyright wilton pacheco 2003