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Bernardo acordou às 11
horas, será mais uma tentativa de viver mal sucedida? Quase formado em
jornalismo escreve meia dúzia de artigos por mês. Publica na empresa de
fotocópias mais barata da cidade. Espalha mão a mão e por vezes cola em
postes suas denúncias da mentira urbana. Mas hoje é domingo e está
chovendo na alma deste homem.
Olha para fora e vê as indústrias paradas, lojas funcionando e arvores
em um cinza profundo. Poucas pessoas na rua correm para não se molhar. A
auto-estrada a 300 metros continua com seu fluxo de 24 horas como um rio
mecânico de correntes contraditórias. Seu conforto e ver a madeireira
antiga, com várias casas e barracões. Existe vida nesta madeireira,
habitada por um caseiro e sua família, o chão de terra é coberto por
pedra, areia e vários pedaços de tijolos. Os barracões se tornaram
abrigos para varais de roupas e galinhas, cães e brincadeiras de crianças..
Uma réstia do que foi o bairro industrial onde Bernardo mora. Mesmo ele
é um invasor deste vale por onde o trem passava carregado de café,
trigo, madeira e animais. Mas agora, lhe resta uma visão feia de uma
modernidade que cobriu o piso com asfalto e pedra ou um vasto campo que
circunda um mercado de bricolagens. Apenas o barracão escapa.
O que angustia o projeto de jornalista é que seu presente não é
contemporâneo, o agora é alheio ao tempo. Nada do que vê mostra o
antigo ou o moderno, mas o congelado como o frio de um inverno molhado.
Dia a dia em que Bernardo acorda tentando submeter-se a um projeto de vida
se depara com esta paisagem triste, monótona e feia de um ferro-velho
composto com amianto, alumínio, zinco, concreto, argila e asfalto. Com
poucas construções que se elevam além dos 12 metros de altura.
De sua janela suja de esquadrias de alumínios do segundo andar de um prédio
de 14 anos Bernardo planeja levar uma vida com visão seletiva, como se
fosse um fotógrafo e não um projeto do que poderia ser. Planeja flanar
olhando bueiros e procurando uma beleza trágica em ratos mortos e pombas
que compõe a cidade em suas cores neutras. Mas Bernardo será uma lente
para os detalhes, para os sapatos que seguram o pó e formam vasos para
plantas que nascem ao meio fio.
É um belo projeto, e Bernardo pega sua máquina zênite com a lente zoom
preparado para enfrentar a luz difusa que estraga qualquer foto. Talvez
outro dia em que houver sol leve a diante esta idéia, por hora levará em
frente seu projeto de imaginar que é o que não é e que está onde não
está.
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