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atualizado 25/12/2004

 

Índice

 

 

LUNABAR

 

Parte 1 de 5

 


Sobre o teclado sujo Ulisses se debruça. Um fino fio de cabelo castanho encostado na tecla F4, um relógio prateado feminino marcando meia noite. Uma calculadora científica HP42S que Tereza esqueceu depois de sair magoada.
O rapaz está triste. Demasiadamente idealista a ponto de prejudicar seu relacionamento amoroso. Tarde demais para mudar.
Ulisses é belo, já atraiu muitas garotas, assim como a luz elétrica atrai mariposas para uma armadilha mortal. Nenhum dos seus relacionamentos duravam mais de um mês. Noites quente de paixão nas primeiras semanas, e logo depois o idealista estava entretido numa cruzada de como salvar o mundo da autodestruição através de algum plano mirabolante. Uma rapariga que passasse algumas semanas com Ulisses se sentiria apaixonada e abandonada. Se todas que se aproximaram do rapaz se unissem talvez fizessem um coro de lamentos, mas não de vingança, pois compreendiam que Ulisses agia assim não por maldade, mas por paixão. Tudo o que ele fazia era com paixão. Até quando saboreava o que comia parecia que sentia um prazer semelhante ao de quando beijava.
Isto até que conheceu Tereza. Talvez tenha sido seu relacionamento mais longo, se pode se chamar de relacionamento. Completamente imprevisível, Tereza não sabia dizer se seu olhar apaixonado era dirigido a ela ou para algum plano distante que se formava naquela caixa excêntrica que alguns chamam de cérebro.
Mas ele a amava e respeitava, sentia atração e inveja da capacidade de calculo de Tereza.
Foi no dia dos namorados, ele a presenteou e sentados no sofá olhou nos olhos de sua amada, e alí congelou com aquele olhar alucinado. Tereza retribuiu o olhar, mas como o tempo se passava e Ulisses não saia daquele estado catatônico Tereza percebeu que Ulisses não estava olhando para ela, mas sim para seu interior.
Indignada perguntou para Ulisses o que ele estava pensando. Respondeu que tinha encontrado um jeito de usar mensagens subliminares sobre a população para que houvesse respeito ao próximo. Bastaria pintar muros com cores de tonalidades muito próximas mensagens simples sobre o anarquismo.
Ela tem razão. Ulisses é sonhador, muitos textos falando sobre como salvar o planeta. Discursos vãos pronunciados para estudantes, orações em público.
O jovem puxa o teclado e começa a digitar, as letras correm apaixonadamente pelo monitor de 14 polegadas.
“Há alimentos para todos, assim como há ar. Gigantescas áreas de plantio produzem alimentos para estocagem e modernos métodos de conservação aumenta a durabilidade desses alimentos para transportes em longas distâncias.
Mesmo o calor e a umidade não conseguem transpor a barreira de vidro metal, plásticos, conservantes em antioxidantes que acompanham produtos mais variados e de infinitas marcas.
Máquinas engenhosas produzem mais em menor tempo em todos os gêneros alimentícios.
Mas nem todo esse alimento é consumido como a máquina produz em abundância existem poucas ofertas de emprego, robôs substituem facilmente o trabalho repetitivo humano numa fábrica. Os poucos que trabalham nessa fábrica não trabalham diretamente na produção e sim no controle de estocagem de máquinas, em sua manutenção, na compra e venda, setores administrativos. Como antes alguns ganham mais que o necessário , mas não como antes, não existem outros. A máquina não recebe salário, o lugar que ocupou é a do desempregado que não tem dinheiro para comprar o alimento. O mesmo alimento que existe em abundância, que se empoeiram nas prateleiras do supermercado. com suas longas datas de validades.
As indústrias não podem manter sua capacidade de produção, pois isso baratearia o custo e a poucos consumidores com dinheiro. Apenas produtos de longa data de validade e de baixíssimo custo como o macarrão instantâneo se mantém no mesmo nível de produção sem risco de falência.
E o mercado pulsa de maneira desordenada e caótica rumo a um enfarte por causa de seu capitalismo desregrado que faz que grandes quantidades de alimentos sejam jogados no lixo, meio a ratos e deteriorações onde os desempregados e famintos tiram seu sustento nada salutar.
Sintoma de uma sociedade decadente, dificulta ou impede qualquer representante ou administrador de atuar para a melhoria social.
Enquanto cada um de nós busca o confronto excessivo em prol de um prazer sem limites estaremos atuando com o desperdício e a destruição pelo vício.
Depende de cada célula mudar essa situação, a proliferação de atitudes desregradas que prejudicam o próximo é como um câncer na humanidade que só leva à amoral destruição do mundo. Uni-vos”
Naquele momento Ulisses esqueceu completamente de Tereza. Como sempre esquecia quando se envolvia em um de seus projetos de salvação.
Tereza sempre lhe dizia de que não adiantava ele perder tempo. A humanidade era como uma praga que se expandia, e que naquele momento não havia mais espaço naquele planetinha.
Parte da noite se entreteve em traduzir para o inglês, francês e alemão. Quando o relógio marcava três horas e trinta minutos tentou acessar, linha discada. Enviou para todos os endereços que havia colecionado em volta do mundo.
Espaço para se expandir. Uma idéia começou a ocupar parte de sua mente perturbada. Quando a fome lhe apertou achou melhor ir dormir.
Isto havia sido antes da queda das Torres Gêmeas.

Parte 2 de 5

 

Ulisses já tem todo o plano construído em seu subconsciente. Mas ele não sabe.
Televisão ligada, Chirac cumprimenta Bush. Os franceses, revoltados com a visita de George W Bush durante as comemorações, saem às ruas com cartazes. Em alguns dos cartazes aparece a foto do presidente americano com o bigode de Adolf Hitler.
O idealista, ao ver cena pela visão periférica, sente um estalo neural:
- Um jogo! – Exclama animado.
Procura em sua gaveta um CD, instala um software. Sua mente fervilha, tenta escrever as idéias que aparecem, mas elas se cruzam rapidamente. Num bloco de papel desenha o roteiro com tanta intensidade que a ponta da lapiseira quebra várias vezes.
Esquemas sobre esquemas são produzidos. Abandona o computador reclamando que é muito lento. Corre a estante e abre um imenso Atlas geográfico.
Localiza o Texas, volta ao computador e procura na enciclopédia virtual sobre Saturno V. Foguete abandonado, Texas, enferrujado, verbetes atrás de verbetes e não encontra a informação desejada.
Liga para seu amigo Ícaro:
- Ícaro... não és o Ícaro??? Não me faças perder tempo, quero falar com o Ícaro... é, é, o Ícaro... sou o Ulisses!!!
O artista demora a atender ao telefone, Ulisses está impaciente, procura meio a centenas de CDs que possui uma gravação de reportagens de revistas. Segura o telefone com o ombro enquanto insere o CD e escreve os mesmo verbetes sobre Saturno V. Enfim encontra.
Enfim o artista pergunta no fone o que Ulisses deseja.
- Eu desejo simuladores de vôos de ônibus espaciais, informações sobre onde estão os módulos de pouso, contatos com os russos que tu possuis. E número da Tereza.
Ícaro demora um pouco para assimilar os pedidos de Ulisses, e quando assimila, pergunta:
- Por que?
- Nós vamos montar um bar na Lua.
...
- O que foi Ícaro?
- Eu não acredito...
- Já era esperado, bom, vou convencê-lo. O mundo está sendo destruído, mas se a mesma humanidade que a destrói não faz nada para sobreviver a esta destruição ela está se destruindo, certo?!
- Autofagia??
- Suicídio coletivo. Queimamos petróleo e acabamos com a atmosfera, indústrias, automóveis, caminhões produzindo monóxido de carbono.
- Monóxido? – A voz de Ícaro revela o quanto está feliz em corrigir o seu amigo. – queimar hidrocarbonetos produz dióxido de carbono.
- A queima é por explosão, e por isso incompleta. Compostos iônicos são liberados infectando outras matérias, são duas valências meu amigo. Basta o Enxofre e temos a chuva ácida. Nesse passo a Terra vai se tornar numa segunda Vênus.
- O inferno de Dante. Mas no que vai ajudar um bar na Lua.
- Simples, vamos pegar emprestados os ônibus espaciais dos EUAs, isto os forçará a desenvolver os aviões orbitais, a não ser que peçam ajuda dos russos para traze-los de volta. Com esses aviões orbitais o custo por quilo no espaço vai abaixar de cinco mil dólares para cem dólares. Vai ser bem mais fácil ir ao espaço. Não lua não há nada mais para ser explorado, mas a partir do momento que tivermos uma base auto-suficiente lá eles terão motivos para visitá-la. Quem sabe resolvam ir a Marte. Talvez este novo ímpeto mude a visão entediada da humanidade e a faça abandonar esta caminhada decadente para a autodestruição. Quanto a nós, montaremos colônias, viveremos mais sobre uma gravidade menor que a da terra, e, seremos lucrativos recebendo cardíacos milionários que queiram viver mais. No princípio seremos uma base pequena auto-suficiente com o projeto Marte também "emprestado" da Nasa.
- Certo, mas isto não me convence.
- Que sejamos capazes de ir à Lua? Sabes que próximo ao pólo existe um poço com água congelada, possivelmente proveniente de um choque com um cometa? Existe tecnologia disponível, temos os contatos.
- Não é isso Ulisses, eu não acredito que consigas falar com a Tereza.

 

Parte 3 de 5

 

Alexei respira com dificuldade, está segurando uma estrutura metálica com uma das mãos enquanto o pé se apoia no casco da ISS. Dentro do traje espacial executar serviços no vácuo não é fácil.
Vladimir se engancha na escada do casco e pede para Alexei aproximar a estrutura de 10 metros.
- Eu não consigo encaixar, é muito pesado.
- Não é peso camarada, é massa.
- Que seja, me ajuda aqui, temos que mostrar para os americanos que ainda somos melhores.
Com ajuda de Vladimir encaixa o trilho, procura o parafuso no bolso com chapa magnética. Ajuste perfeito, pensa como seria feliz se todas os encaixes fossem assim: - A chave elétrica Alexei.
Alexei procura na bolsa, ainda ofegante pelo esforço. Não encontra, olha em volta e percebe que a chave se distância no espaço.
- Ela se soltou, vou alcança-la. - O astronauta russo pula da estação impulsionado o corpo para a chave. -Peguei.
- Alexei, seu burro, não prendeste teu cabo!
- Estou me distanciando, tens como me buscar sem chamar a atenção dos americanos?
- Mais fácil ainda, dentro de 10 minutos o nosso cargueiro com combustivel e alimentos cruzará por ti. Vou contactar teu cunhado para ele resgatá-lo. Os americanos pensarão que estamos treinando ou brincando.
- Estou de costa para a Estação. Como posso me virar sem ponto de apoio.
- Perto de teu registro de gás tem um mangueira de 5 mm acoplada, solte-a e conseguirás propulsão de giro. É pouco, mas o suficiente.
Alexei tenta encontrar a mangueira tateando, mas com as luvas grossas não consegue, usa o relógio como espelho, encontra a mangueira. Procura em sua bolsa um pequeno alicate, desajeitado consegue tira a mangueira, com o pouco de gás que sai seu corpo inicia um giro muito lento, prende a mangueira no traje e se deixa rotacionar seu corpo, assim por vezes vê a Estação Espacial, a Terra, a Lua e o cargueiro em trânsito.
- Alexei falei com teu cunhado, ele brinca comigo, diz que não pode dar carona para ti, pois está indo para a lua.
- Ele é brincalhão, explica para ele que estou a deriva.
- Ele disse que se quizer uma carona terás que ir junto no ônibus espacial que vem atrás. pois ele está na mesma órbita, mas irá à lua junto.
- Mas o lançamento do ônibus americano só vai ser na semana que vem.
- Avise isto para aquele ponto no espaço, acho que consigo uma identificação visual dentro de alguns instantes. Consegues ver daí Alexei, está mais perto.
- Espera, estou a rotacionar muito lentamente. Agora estou vendo, não é um, são dois. O que está acontecendo?
- Muda teu canal que teu cunhado quer falar contigo.
Um cargueiro russo, duas naves americanas, Alexei não entendia o que significa aquele evendo, mudou o canal e ouviu a voz animada de seu cunhado: - Alexei, tens duas opções, esperar um cowboy espertinho te resgatar dentro de duas horas ou ir montar um bar na Lua, o que escolhes?
Não querendo estragar a brincadeira de seu amigo intimo, Alexei responde em tom de gozação:
- A Natasha vai estar junto?
- Claro que vai, e a filha da Tereskova.
O astronauta riu muito da brincadeira, e meio a gargalhada conseguiu dizer que prefiria ser resgatado pela Natasha ou nada feito.
- Mas ALexei, vou ter que acionar os propulsores para mundança de órbita e isto vai me obrigar a recalcular a janela. Tudo bem cunhado, o que não faço por ti.
Somente depois de resgatado é que compreendeu que seria o primeiro cliente do Lunabar.

    copyright wilton pacheco 2003