VÍDEOS      MURAIS    LANÇAMENTOS LITERÁRIOS      FOTOS     FESTAS    OFICINAS    TEATROS    PINTURA          Espaço físico e virtual           Envolvendo a comunidade           Teatro Infantil      Oficinas de Fotografia          Oficinas de Teatro        Fanzines        Festival de Bandas          Valorização do indivíduo através de sua formação      Desenvolvimento de Projetos         Música       Teatro        Multimídia        Poesia         Literatura         Artes Plásticas         Espaço Cultural

 

atualizado 25/12/2004

 

Índice

 

 

Psicosuicídas

     Ícaro está preste a saltar o precipício. Lá, lá no fundo, bem no fundo, talvez haja um rio, um lago.
     Uma sombra chega ao seu lado, ele se vira assustado e logo fala:      - Não tente me impedir.
     A sombra sorri: - Não te preocupes, também vou saltar.
     O rapaz olha o relógio.
     - Por que estás preocupado com a hora? Deixaste alguma coisa incompleta?
    - Não, marquei a hora que saltaria para não falhar.
     - Ainda tens tempo?
     - Não farei nada além de olhar o relógio até chegar o momento – pelo olhar perdido da moça, Ícaro percebe que ela quer conversar e por isso ele conclui: - Mas isso não exige atenção.      Quer conversar sobre algo?!
     - Podemos conversar sobre lingüística?
     - Hã?!
     - Sim???
     - Hã, bem, é... podemos, que curso você faz?
     - Letras.
     Ícaro ri e explica: - Isso significa que você sabe bem mais do que eu.
     - Não sei não, estou no 1o semestre, tenho apenas uns 55 dias de aula, só. O professor me pediu uma relação entre Saussure e Chomsky.
     O rapaz olha o relógio e ela insiste:
     - Vai dar tempo, ou sabe alguma coisa que possa me ajudar?
     - Uma professora de Santa Catarina negava essa relação.
     A sombra do Amor ficou decepcionada, abaixou os olhos e como se lembrasse de algo disse para o Ícaro: - Saussure trabalhou com a tese behavorista da aquisição de linguagem certo? Enquanto Chomsky atribuía essa capacidade á biologia...
     - Não creio nisso. – Reflete Ícaro à beira do precipício.
     - Bem, Saussure enfatiza os "sons" e Chomsky a sintaxe????? É isso????? "Minha cabeça “tá” misturando tudo acho". – Ela completa soltando um riso nervoso
     - Acho que sim, mas temos que lembrar de algum texto que comprove o que tu colocas. Em um livro que li e que foi editado em 1969 fala que o modelo do circuito da fala de Saussure é uma antecipação sobre que será o objeto da psicolingüística, ou seja, os processos envolvidos na produção e recepção das mensagens. A teoria do signo e sua definição de língua e de fonema demonstram a base mentalista de suas concepções, o fonema é uma entidade negativa, opositiva e relativa.
     A Sombra se assusta com o novo ânimo de Ícaro:
     - Eu não entendi a idéia de signo que deve ser materializada na resposta.
      - Eu também não entendi, signo... mas acho que ele queria dizer é que os fonemas em suas diferenças representam uma mensagem independente do significado. Como “bang”... “sssstop”... “frreee”... “livrreee”.
     - Eu sei...
     Percebe que o b explode em nossa boca enquanto “free” é contínuo?
     - Eu não sou burra. – Ela ri novamente nervosa - mas tem algo faltando para que possa compreender melhor, será que você me entende??
      Ícaro não responde, sorri e olha para ela.
     - Sim?! - Insiste ela.
     - Eu sei que não és burra, neste pouco tempo que te conheci já chamaste a minha atenção e admiração.
     É mania minha de desmembrar algo que explico.
     - Obrigada. vamos tentar entender.
     - Bom, vamos pensar que Saussure entendia que na linguagem os fonemas e sua emissão tinham um significado paralelo. Não vamos levar em conta o timbre, isso é, que as palavras que tem som r são agressivas, ele não levava em conta o timbre por que seu material de apoio era a literatura dos clássicos e quando lemos não sabemos o timbre que o escritor colocou.
     A sombra sorri e não para de olhar nos olhos de Ícaro.
     - Você está entendendo?
     - Sim.
     - Conhece música?
     - Sim
     - Certo, uma pergunta é expressa com as notas lá, lá, sol e um dó longo.
     - A idéia de aquisição da linguagem de Saussure teria muitas semelhanças com a de Skinner?
     Ícaro fica pensando no que a Sombra do Amor queria dizer com isso. A relação entra as notas, tentando voltar a alguma coisa, então dá uma resposta genérica:
     - Assim como teria as de Chomsky, ou seja, poucas.
     - Ah.
     - Saussure não desenvolveu um estudo de aquisição da linguagem. Skinner comparou a aprendizagem da língua como a aquisição da habilidade de andar, beber água, decorrentes de estímulos comportamentais como reforço-estímulo-resposta. Chomsky rejeita a teoria comportamentalista sugerindo que a linguagem é obtida através de mecanismos genéticos. Oposta à idéia que haveria uma sucessão e contingência de mecanismos estímulos-resposta-esforço que condicionam o indivíduo, Chomsky descreve um conjunto de regras e princípios básicos inatos na criança, possuidora de mecanismos ou dispositivos inatos que possibilitariam o surgimento externo dessa linguagem interna.
    - Ele pensa que o componente sonoro é mais importante e deve
prevalecer sobre a sintática por exemplo, certo? Isso eu já sabia!
     - Bloomfield estava muito próximo de Saussure e de Skinner – Quando Ícaro fala isso abre os braços expandindo a proximidade, isto o desequilibra.
     Ela o segura:
     - Espere, não vá, eu “tô” voando.
     - Não voe, até agora você sabe que Saussure estudava os clássicos, com atenção nos fonemas.
     - Sim, mas “tá” muito superficial, entende...isso “naum” me dá base para argumentação...
     - São muito importantes as biografias, pois você diz algo e prova com as palavras de algum autor.
     - Eu sei, eu sei...
     - Eu quero lhe dizer que a relação está na identidade fonética, mas para isso quero lhe passar material.
     - Sim, o professor quer que façamos e expliquemos o que ele ainda naum explicou, no que você puder me ajudar...
     - Trabalho escolar? Não ias pular neste precipício?
     - Não sei, às vezes parece a saída mais fácil.
     - Eu entendo, é na verdade um método preguiçoso.
     - O suicídio?
     - Não, passar um trabalho sem explicar o que vais procurar, parece que o professor não domina o tema, e deixa todo o trabalho para a turma... conheço um professor de lingüística que é muito inteligente, mas que não sabe nada de psicolingüística, pois não é a área que estuda.
     - Eu não posso fazer um paralelo entre estas duas teorias porque eu não conheço as duas!!! Por isso “tou” voando!
     - Ah... pensava que conhecia... bom, eu gosto muito do inatismo... Li os estudos de Sassure que seus alunos anotaram na coleção dos pensadores.
     - Sim – Ela sorri novamente para Ícaro. - Pena que não tenha muito material sobre Saussure
     - Nos pensadores, tem Saussure, foi lá que eu o li.
     - O professor quer que enfatize a questão da sintaxe X fonologia
     - Bom, vamos lá, já ouviu falar de consciência metalingüística?
     - Não
     Ícaro está impaciente, olha o relógio: - Lembre-se que Saussure é sintaxe mais fonologia.
     - Como vou lembrar do que não aprendi ainda!!! Puxa vida, tenho que me inteirar destas teorias, você tem algo que
possa ler?
     - Bom, consciência metalingüística, eu devo ter algum texto sobre isso que te ajudaria, e é exatamente Saussure... - Ícaro resmunga para si: - droga, estou atrasado.
     - Como?!
     - Lembrasse que eu disse que Saussure dava aula de literatura clássica? E que seu enfoque era fonética? Vamos começar do princípio.
     - Sim, e aí? Como ele enfocava a fonética em relação á sintaxe?
     - Sabe o que é sintaxe?
     - Sei sim. – Ela sorri amarelo: - Inclusive uma frase pode estar bem sintaticamente e mal semanticamente
     - Certo, então sabe que o objetivo da sintaxe é tentar compreender a estruturação da língua.
     - Sim...sujeito, objeto, predicativos, etc ...certo?? A relação entre estes termos numa frase...
     - Antes de Saussure a análise estrutural era feita somente dessa forma.
     - E com ele?
     - Veja essa frase: Ícaro achou o olhar triste.
     - Humm… - Ela percebe que o suicida não tira os olhos dos seus.
     - Se fizer uma analise estrutural dessa frase o que obtém? Qual o objeto, o sujeito e o predicado? O Ícaro achou a olhar tristemente?      O Ícaro achou que o olhar era triste?
     - Bah, ainda não entramos nisso, tenho apenas conhecimentos do colégio nesta área.
      - Estamos vendo no ponto de vista sintático, e não do contexto.
     Ela ri e ele também. Então ela concorda:
     - Sim, não da semântica.
     - Certo, mas para a compreensão do texto, a analise sintática não é o suficiente. Você vê sujeito, predicado e objeto e as coisas ficam confusas. Para um estudo da literatura clássica falta algo.
     - Sim.
     - Aí que Saussure estuda a língua e a fala. Vamos rever os conceitos. Lingüística é sintaxe da linguagem humana. Psicolingüística está além desta descrição. Língua se refere ao conhecimento, é abstrato. Já a fala é uso, é concreto. Isso justifica porque acontece o estudo de sintaxe mais a fonologia em Saussure? Você entende que o inicio da psicolingüística se deve à ligação entre a fala e a língua?
     - Sim entendo.
     - Bom, se os escritores faziam suas frases para serem compreendidas as escreviam com emoção e razão.
     - Sim.
      - Não quero dizer que com isso estavam conscientes do efeito da fonética.
     - Mas que tinha uma consciência... sim... a idéia seria que Saussure valoriza muito fonética e a fala
e Chomsky a língua e a sintática?????????? Ou algo assim???
     - Bom, perdi o horário do suicídio.
Falando isto Ícaro se afasta do precipício, seguido de perto da Sombra do Amor.
     - Por que está me seguindo, não ia pular?
     - Não agora que estou motivada para terminar o trabalho. Desculpe ter atrapalhado seus planos.
     - Não se preocupe, para me atrapalhar não preciso de ajuda. Tenho um talento especial para isso. Bom, Chomsky estava mais arraigado ao fenômeno biológico da consciência.
     - Sim, sim, mas então como vou estabelecer este paralelo?
Ícaro não responde e olha para ela enquanto caminha.
     - O paralelo está na fonética embutida nos clássicos e nos sons que a criança domina já ao nascer
     - Está, acho que é metalinguagem ou algo assim.
     - Certo
     - Consciência metalingüística. Essa é a consciência interna... mas consciência interna e externa só foi desenvolvida depois por Vigotsky e Piaget. Lembra disso? Vigotsky dedica o sétimo capítulo de seu livro às respostas que encontrou para a questão das relações entre as idéias e a expressão verbal. Disto eu tenho certeza que seu professor não sabe, rs. Bom essa consciência interna escrita como consciência metalingüística que encontramos em Chomsky como um conhecimento inato.

      - Certo, e a relação seria?

     -  Não vou ter dar tudo de graça, certo?

     Ícaro e a Sombra do Amor caminham no silêncio da noite

    copyright wilton pacheco 2003