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Ícaro está preste a saltar o precipício. Lá, lá no fundo, bem no
fundo, talvez haja um rio, um lago.
Uma sombra chega ao seu lado, ele se vira
assustado e logo fala: - Não tente me
impedir.
A sombra sorri: - Não te preocupes, também vou
saltar.
O rapaz olha o relógio.
- Por que estás preocupado com a hora? Deixaste
alguma coisa incompleta?
- Não, marquei a hora que saltaria para não falhar.
- Ainda tens tempo?
- Não farei nada além de olhar o relógio até
chegar o momento – pelo olhar perdido da moça, Ícaro percebe que ela
quer conversar e por isso ele conclui: - Mas isso não exige atenção.
Quer conversar sobre algo?!
- Podemos conversar sobre lingüística?
- Hã?!
- Sim???
- Hã, bem, é... podemos, que curso você faz?
- Letras.
Ícaro ri e explica: - Isso significa que você
sabe bem mais do que eu.
- Não sei não, estou no 1o semestre, tenho
apenas uns 55 dias de aula, só. O professor me pediu uma relação entre
Saussure e Chomsky.
O rapaz olha o relógio e ela insiste:
- Vai dar tempo, ou sabe alguma coisa que possa
me ajudar?
- Uma professora de Santa Catarina negava essa
relação.
A sombra do Amor ficou decepcionada, abaixou os
olhos e como se lembrasse de algo disse para o Ícaro: - Saussure
trabalhou com a tese behavorista da aquisição de linguagem certo?
Enquanto Chomsky atribuía essa capacidade á biologia...
- Não creio nisso. – Reflete Ícaro à beira
do precipício.
- Bem, Saussure enfatiza os "sons" e
Chomsky a sintaxe????? É isso????? "Minha cabeça “tá”
misturando tudo acho". – Ela completa soltando um riso nervoso
- Acho que sim, mas temos que lembrar de algum
texto que comprove o que tu colocas. Em um livro que li e que foi editado
em 1969 fala que o modelo do circuito da fala de Saussure é uma antecipação
sobre que será o objeto da psicolingüística, ou seja, os processos
envolvidos na produção e recepção das mensagens. A teoria do signo e
sua definição de língua e de fonema demonstram a base mentalista de
suas concepções, o fonema é uma entidade negativa, opositiva e
relativa.
A Sombra se assusta com o novo ânimo de Ícaro:
- Eu não entendi a idéia de signo que deve ser
materializada na resposta.
- Eu também não entendi, signo... mas
acho que ele queria dizer é que os fonemas em suas diferenças
representam uma mensagem independente do significado. Como
“bang”... “sssstop”... “frreee”... “livrreee”.
- Eu sei...
Percebe que o b explode em nossa boca enquanto
“free” é contínuo?
- Eu não sou burra. – Ela ri novamente nervosa
- mas tem algo faltando para que possa compreender melhor, será que você
me entende??
Ícaro não responde, sorri e olha para
ela.
- Sim?! - Insiste ela.
- Eu sei que não és burra, neste pouco tempo
que te conheci já chamaste a minha atenção e admiração.
É mania minha de desmembrar algo que explico.
- Obrigada. vamos tentar entender.
- Bom, vamos pensar que Saussure entendia que na
linguagem os fonemas e sua emissão tinham um significado paralelo. Não
vamos levar em conta o timbre, isso é, que as palavras que tem som r são
agressivas, ele não levava em conta o timbre por que seu material de
apoio era a literatura dos clássicos e quando lemos não sabemos o timbre
que o escritor colocou.
A sombra sorri e não para de olhar nos olhos de
Ícaro.
- Você está entendendo?
- Sim.
- Conhece música?
- Sim
- Certo, uma pergunta é expressa com as notas lá,
lá, sol e um dó longo.
- A idéia de aquisição da linguagem de
Saussure teria muitas semelhanças com a de Skinner?
Ícaro fica pensando no que a Sombra do Amor
queria dizer com isso. A relação entra as notas, tentando voltar a
alguma coisa, então dá uma resposta genérica:
- Assim como teria as de Chomsky, ou seja,
poucas.
- Ah.
- Saussure não desenvolveu um estudo de aquisição
da linguagem. Skinner comparou a aprendizagem da língua como a aquisição
da habilidade de andar, beber água, decorrentes de estímulos
comportamentais como reforço-estímulo-resposta. Chomsky rejeita a teoria
comportamentalista sugerindo que a linguagem é obtida através de
mecanismos genéticos. Oposta à idéia que haveria uma sucessão e
contingência de mecanismos estímulos-resposta-esforço que condicionam o
indivíduo, Chomsky descreve um conjunto de regras e princípios básicos
inatos na criança, possuidora de mecanismos ou dispositivos inatos que
possibilitariam o surgimento externo dessa linguagem interna.
- Ele pensa que o componente sonoro é mais importante
e deve
prevalecer sobre a sintática por exemplo, certo? Isso eu já sabia!
- Bloomfield estava muito próximo de Saussure e
de Skinner – Quando Ícaro fala isso abre os braços expandindo a
proximidade, isto o desequilibra.
Ela o segura:
- Espere, não vá, eu “tô” voando.
- Não voe, até agora você sabe que Saussure
estudava os clássicos, com atenção nos fonemas.
- Sim, mas “tá” muito superficial,
entende...isso “naum” me dá base para argumentação...
- São muito importantes as biografias, pois você
diz algo e prova com as palavras de algum autor.
- Eu sei, eu sei...
- Eu quero lhe dizer que a relação está na
identidade fonética, mas para isso quero lhe passar material.
- Sim, o professor quer que façamos e
expliquemos o que ele ainda naum explicou, no que você puder me ajudar...
- Trabalho escolar? Não ias pular neste precipício?
- Não sei, às vezes parece a saída mais fácil.
- Eu entendo, é na verdade um método preguiçoso.
- O suicídio?
- Não, passar um trabalho sem explicar o que
vais procurar, parece que o professor não domina o tema, e deixa todo o
trabalho para a turma... conheço um professor de lingüística que é
muito inteligente, mas que não sabe nada de psicolingüística, pois não
é a área que estuda.
- Eu não posso fazer um paralelo entre estas
duas teorias porque eu não conheço as duas!!! Por isso “tou” voando!
- Ah... pensava que conhecia... bom, eu gosto
muito do inatismo... Li os estudos de Sassure que seus alunos anotaram na
coleção dos pensadores.
- Sim – Ela sorri novamente para Ícaro. - Pena
que não tenha muito material sobre Saussure
- Nos pensadores, tem Saussure, foi lá que eu o
li.
- O professor quer que enfatize a questão da
sintaxe X fonologia
- Bom, vamos lá, já ouviu falar de consciência
metalingüística?
- Não
Ícaro está impaciente, olha o relógio: -
Lembre-se que Saussure é sintaxe mais fonologia.
- Como vou lembrar do que não aprendi ainda!!!
Puxa vida, tenho que me inteirar destas teorias, você tem algo que
possa ler?
- Bom, consciência metalingüística, eu devo
ter algum texto sobre isso que te ajudaria, e é exatamente Saussure... -
Ícaro resmunga para si: - droga, estou atrasado.
- Como?!
- Lembrasse que eu disse que Saussure dava aula
de literatura clássica? E que seu enfoque era fonética? Vamos começar
do princípio.
- Sim, e aí? Como ele enfocava a fonética em
relação á sintaxe?
- Sabe o que é sintaxe?
- Sei sim. – Ela sorri amarelo: - Inclusive uma
frase pode estar bem sintaticamente e mal semanticamente
- Certo, então sabe que o objetivo da sintaxe é
tentar compreender a estruturação da língua.
- Sim...sujeito, objeto, predicativos, etc
...certo?? A relação entre estes termos numa frase...
- Antes de Saussure a análise estrutural era
feita somente dessa forma.
- E com ele?
- Veja essa frase: Ícaro achou o olhar triste.
- Humm… - Ela percebe que o suicida não tira
os olhos dos seus.
- Se fizer uma analise estrutural dessa frase o
que obtém? Qual o objeto, o sujeito e o predicado? O Ícaro achou a olhar
tristemente? O Ícaro achou que o olhar era
triste?
- Bah, ainda não entramos nisso, tenho apenas
conhecimentos do colégio nesta área.
- Estamos vendo no ponto de vista sintático,
e não do contexto.
Ela ri e ele também. Então ela concorda:
- Sim, não da semântica.
- Certo, mas para a compreensão do texto, a
analise sintática não é o suficiente. Você vê sujeito, predicado e
objeto e as coisas ficam confusas. Para um estudo da literatura clássica
falta algo.
- Sim.
- Aí que Saussure estuda a língua e a fala.
Vamos rever os conceitos. Lingüística é sintaxe da linguagem humana.
Psicolingüística está além desta descrição. Língua se refere ao
conhecimento, é abstrato. Já a fala é uso, é concreto. Isso justifica
porque acontece o estudo de sintaxe mais a fonologia em Saussure? Você
entende que o inicio da psicolingüística se deve à ligação entre a
fala e a língua?
- Sim entendo.
- Bom, se os escritores faziam suas frases para
serem compreendidas as escreviam com emoção e razão.
- Sim.
- Não quero dizer que com isso estavam
conscientes do efeito da fonética.
- Mas que tinha uma consciência... sim... a idéia
seria que Saussure valoriza muito fonética e a fala
e Chomsky a língua e a sintática?????????? Ou algo assim???
- Bom, perdi o horário do suicídio.
Falando isto Ícaro se afasta do precipício, seguido de perto da Sombra
do Amor.
- Por que está me seguindo, não ia pular?
- Não agora que estou motivada para terminar o
trabalho. Desculpe ter atrapalhado seus planos.
- Não se preocupe, para me atrapalhar não
preciso de ajuda. Tenho um talento especial para isso. Bom, Chomsky estava
mais arraigado ao fenômeno biológico da consciência.
- Sim, sim, mas então como vou estabelecer este
paralelo?
Ícaro não responde e olha para ela enquanto caminha.
- O paralelo está na fonética embutida nos clássicos
e nos sons que a criança domina já ao nascer
- Está, acho que é metalinguagem ou algo assim.
- Certo
- Consciência metalingüística. Essa é a
consciência interna... mas consciência interna e externa só foi
desenvolvida depois por Vigotsky e Piaget. Lembra disso? Vigotsky dedica o
sétimo capítulo de seu livro às respostas que encontrou para a questão
das relações entre as idéias e a expressão verbal. Disto eu tenho
certeza que seu professor não sabe, rs. Bom essa consciência interna
escrita como consciência metalingüística que encontramos em Chomsky
como um conhecimento inato.
- Certo, e a relação seria?
-
Não vou ter dar tudo de graça, certo?
Ícaro
e a Sombra do Amor caminham no silêncio da noite
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