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André meteu-se no corredor que ia
desembocar na passarela do inferno, queimado, coberto de fuligens e
mangueiras grossas. Ia pesado, com as placas de computador a tiracolo, e
muitas mangueiras finas, de ar, líquido e fios diversos que balançavam
em seu traje hermético.
Calculava seu peso, à distância da parede
com seus extintores para não se enroscar. Tornara-se piloto espacial por
falta de opção. Tentou lembrar de outra vida que havia deixado, na
grande ilha, sem preocupação, que não deixava marca como faziam outros
animais.
André ia decidido, sentindo o cheiro de
queimado misturado aos de produtos de limpeza. Pensando que diferença dos
astronautas do passado. Que seguiam até a rampa de lançamento como algo
glorioso.
A passarela é comprida e escura, com
sinais de fragilidade, talvez não agüentasse mais este lançamento, ou
permanece estável por mais uma década sem chuva. Mas não diminuiu o
passo, com os olhos fixos na porta impermeável, continuou sua caminhada
solitária até o Torpedo I com a carga preciosa de hidrogênio e oxigênio.
Desembaraçou-se dos canos e entrou na cabine de três tripulantes,
enganchou os ombros no assento e prendeu as coxas com os macetes de
segurança. Aumentou a ventilação. Sempre o medo de explodir na partida.
Abriu as proteções das chaves e ligou em
seqüência como já fizera centenas de vezes. No exterior o combustível
percorria as grossas mangueiras com pressões assustadoras enchendo os
tanques de combustível preliminares, neste momento não existe retorno, não
há como esvaziar os tanques, e se não liberar os compostos para a câmara
de combustão ocorre ruptura térmica dos tanques preliminares. Eles não
estão preparados para manter os compostos nas temperaturas congelastes
necessárias por muito tempo.
André sabia disso, por isso abortar não
seria um procedimento aceitável naquele momento. Quando os tanques deram
como completos, ele acionou a última chave que liberaria os combustíveis
dos tanques para a união exotérmica.
Sentiu o soco da explosão controlada
seguida da força de impulsão. Várias chaves colocadas em filas, um
manche e outros diversos "led's" que deveriam estar ligados a
diversos sensores espalhados pelo foguete. Mas um led acendeu. André
afundado em sua cadeira, sentindo o peso na cadeira tentou ler do que se
referia aquele alerta. Mas estava apagado de tantos esbarros das luvas de
pilotos de tempos antigos. Poderia significar vazamento de algum tanque.
André não pensou mais, abriu a tampa da chave que nunca tinha usado em
sua vida, e puxou a alavanca que ejetaria a cabine para longe do foguete.
Talvez aquele alerta fosse de vazamento de
ar, ou de um curto, ou resolveu ligar por capricho, enquanto pela janela
de sua pequena cabine de três lugares via o foguete em que estava seguir
o curso previsto, desejou entrar em um estado de inconsciência para não
se defrontar com o erro de ter largado o cargueiro espacial em pleno lançamento.
Sufocou-se em sua impotência e cólera ao ver que o velho Torpedo
continuava imponente e infalível. Mas a raiva já se tornara tão grande,
que ali, em sua cabine de salvamento, recuperou a sua força e abriu o
painel de controle remoto enquanto ainda havia tempo. Então apertou o botão
de autodestruição, fechou calmamente o painel enquanto via a companheira
se transformar em um turbilhão de chamas e fumaça.
Alguns minutos antes agira por instinto,
suava frio e tremia de medo. Mas agora seguia seu curso para o solo,
amparado por pára-quedas, pensando como esconder seu crime. Tratou de
esquecer que errara, e a dizer a si mesmo que o que aconteceu foi um
acidente. É o que diria, foi um acidente, e repetia para si mesmo: -
Acidente é acidente.
Olhou o relevo de sombras que se moviam em
círculos, e antes de tocar o solo estava mais calmo lembrando sua ficha
de trabalho perfeita, sem erros ou acidentes.
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