Artigo de Barbosa Lima Sobrinho

publicado no Jornal do Brasil

Domingo, 5 de março de 2000


 

    Maravilhas ilusórias

    Recentemente, o atual presidente da República fez uma apaixonada louvação do investimento direto estrangeiro. Há pouco tempo o alvo da adoração era o capital especulativo, que remuneravam a 40% ao ano mas que fugiu na primeira ocasião. Nessa fuga o Brasil perdeu 40 bilhões de dólares de reservas e disseram que a culpa era da crise da Ásia, depois da Rússia, ficando na prateleira, como uma próxima desculpa, a alta no preço do petróleo. Os que acreditavam nas virtudes desse capital volátil silenciaram seus discursos ou, pelo menos, deixou-se de lado tanta apologia desse tipo de capital.

     Agora o atual governo dirige seus elogios e apologias ao investimento direto estrangeiro, ou seja, o capital que vem para investir, geralmente na compra de empresas brasileiras já instaladas. Pequena parte se dirige a criar novas empresas, mas a grande maioria procura as privatizações, que oferecem perspectivas muito mais atraentes, inclusive pelo imediatismo do retorno do investimento e também pela sua expressão, que chega a alcançar 25% ao ano. Isso representa valores bem mais altos do que os juros conseguidos no mercado financeiro de empréstimos. É um negócio tão atraente que em certos setores, como no da distribuição de energia elétrica, por exemplo, podem ser compradas empresas brasileiras sem necessidade de trazer dólares, uma vez que o BNDES abre seus cofres generosamente, com juros inferiores aos lucros que virão dessas mesmas empresas. E, acrescente-se nesse caso, lucros seguros, uma vez que a última conta que o consumidor deixará de pagar será certamente a da energia elétrica.

     Por esses motivos, os investimentos externos têm aumentado significativamente. No início da década de 90 o Brasil recebia (ou doava?) menos de 1 bilhão de dólares por ano em investimentos estrangeiros diretos. No ano passado foram mais de 30 bilhões de dólares, segundo o Banco Central. Assim não é de espantar, como conclui a consultoria A. T. Kearney, que o Brasil ocupe a quarta colocação em termos de atratividade de investimentos internacionais, atrás apenas dos Estados Unidos, da Inglaterra e da China (Exame, 23.02.00).

     Essa é a última moda dos arautos do capital internacional, inclusive com a adesão explícita do próprio presidente da República. Uma moda que de tempos em tempos ataca o Brasil, como nas décadas de 20, de 50 e que por alguns anos parece maravilhar economistas e dirigentes desprecavidos. A lógica para derrubar esse castelo de cartas é simples. Se o dinheiro não vem (o BNDES está aí para isso), se a tecnologia não é nova nem agregadora, qual a vantagem para o país?

     O que está acontecendo, na verdade, é uma espécie de crescente comprometimento futuro com remessas de lucros que tendem a se multiplicar. Um dos principais assessores do PFL em matéria econômica, Paulo Rabelo de Castro, acaba de escrever um ensaio sobre as conseqüências da internacionalização do parque produtivo brasileiro. Entre outras coisas, escreve ele que "nosso objetivo é procurar demonstrar por que estamos numa rota insustentável de absorção dos recursos externos e, em particular, por que a utilização mais agressiva do investimento direto estrangeiro como fonte de financiamento não é a resposta para superar esse impasse". Em seguida vai direto à ferida, afirmando: "O aumento do Passivo Externo Líquido em relação ao PIB e às exportações do país corresponde a uma sinalização de compromissos crescente de remessas futuras (de lucros) em relação à capacidade de servi-las. Tal relação vem crescendo aceleradamente após o Plano Real. A intensificação do fluxo de investimento estrangeiro direto é produto do déficit fiscal, responsabilizando-se, portanto, integralmente a má gestão dos negócios públicos pelos crescentes índices de desnacionalização da economia brasileira." A seguir, diz em forma de projeção provável, e que acho mais realista, que esse processo "pressionaria negativamente a conta corrente, ao passo que a remessa de dividendos passaria dos quase 8 bilhões de hoje para mais de 50 bilhões de dólares em 2010".

     Afinal, até por esse estudo de um membro do PFL, onde está a vantagem do investimento direto estrangeiro? Como se explica a louvação do atual presidente que, por sinal, é apoiado por esse mesmo partido político? Parece-me que temos de ir e voltar sempre aos mesmos pontos. Veja-se a década de 20 ou 50, quando se vivia a louvar as maravilhas do capital estrangeiro. Será que teremos de chegar ao ponto de desvalorizar progressivamente o real apenas para fazer face ao pagamento crescente desses dividendos? Como pode o atual presidente entrar nessa moda e, ao mesmo tempo, proclamar-se principal defensor do real valorizado?

     Mas, embora ingrata, a verdade é que estamos repetindo história, já sendo até possível prever o horizonte sombrio da volta da inflação, para fazer face à necessidade crescente de comprar dólares para atender a uma remessa de lucros cada vez mais volumosa. Por incompetência - não há outro termo -, seremos obrigados a reviver passados inglórios até que algum dia no futuro se acorde desse pesadelo e nos convençamos todos, de vez, que não é possível o crescimento sustentável com poupança alheia. E, se temos um mercado interno dos maiores do mundo, cobiçado por tantos, será exclusivamente nele que poderemos encontrar a solução para um país e um povo já exaustos de tantos modismos ilusórios.
     

     Uma grande farsa

    Artigo de Barbosa Lima Sobrinho

    Jornal do Brasil, 09 de janeiro de 2000

         Parece que viraram rotina no Brasil os sucessivos aumentos de tarifas das  concessionárias de serviços públicos, hoje privatizados. Deixa a impressão de que  existe uma espécie de concorrência para se ver qual empresa ou qual setor aumenta  mais os seus preços. E, como se trata de monopólio privado, o consumidor  encontra-se impotente para protestar contra aumentos inexplicáveis, que chegam para  atormentar ainda mais sua vida, numa fase em que o que unicamente não aumenta é o seu salário, arrochado há quatro ou cinco anos.

         Os defensores dessa política de privatizações tentaram vender a idéia de melhoria de  serviços e barateamento das tarifas. E vem a Cerj, como bom exemplo negativo, e inicia  um processo gradativo de apagões e, como prêmio, recebe mais um aumento de tarifas,  da ordem de 8,58%. E o que faz tal agência reguladora (Aneel) que teria a função de que viesse acontecer exatamente o contrário? Apenas fornece alguns dados sobre os  apagões e diz considerar a Cerj como a pior concessionária da região Sudeste...     Apenas isso.

         Revi a lei 9.427 da criação dessa agência Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica),  datada de 1996, e encontrei um verdadeiro entulho de letras mortas. O que serve  também para comprovar a avidez e irresponsabilidade que caracterizam essa política de    privatizações. Até na sua redação, sente-se a sofreguidão, uma espécie de quase  agonia de privatizar a qualquer custo, mais uma vez se provando que a pressa é     inimiga da perfeição. Fui às demais leis de criação dessas agências reguladoras, como  a da Anatel (telecomunicações), ANP (petróleo) etc. e encontrei o mesmo espírito de  avidez, pressa e irresponsabilidade. Não são serviços aptos para regular coisa alguma,   mas apenas organismos do governo que parecem criados para iludir a opinião pública,   quando não para inventar cabides de emprego para os amigos do governo. Figurantes     inúteis de uma grande farsa.

         Vale repetir que o novo presidente da Argentina já detectou a ineficácia desses  organismos, sobretudo quando tentaram enfrentar a força das concessionárias que,  com a privatização, são empresas organizadas sob a forma de trustes e holdings, sem  qualquer outro objetivo que não seja o de adoração do lucro. Esperar que uma  empresa dessas venha a ter algum sentido de interesse público é desconhecer as  regras básicas do mercado. Achar que agências reguladoras venham a ter algum  controle sobre essas concessionárias é no mínimo ingenuidade, se não for por  interesse em advogar lucros para o capitalismo internacional.

         Nos Estados Unidos ainda se encontra gente que confunda monopólio público, a  cargo do Estado, com monopólio privado, organizado sob a forma de trustes e  holdings. Mas as finalidades são tão diferentes que provocaram até a criação de  normas especiais, como a lei Sherman e a lei Cayton, como forma de tentar se controlar  os monopólios privados (os públicos, não), para se atender melhor o interesse da coletividade. Tanto lá, e mais aqui, os monopólios privados são o campo ideal de ação  para os crimes de colarinho branco, com essas empresas sem concorrência buscando  lucros ilimitados, agravando os problemas de desigualdade de rendas. A questão é tão séria, bastando para se ter uma idéia a comprovação do número de debates, campanhas, pronunciamentos, seminários, estudos que precederam a criação dessas  leis nos Estados Unidos, envolvendo sempre o Poder Legislativo.

         No Brasil, lembrando muito o estilo do ex-ministro Sérgio Mota, o sistema nos foi   imposto de cima para baixo. Não interessava que o Legislativo brasileiro se aprofundasse na questão. Mais importante era a pressa, o açodamento com a  implantação de normas que, como na Argentina, estão demonstrando total inutilidade.
         Algumas dessas agências procuram e fazem propaganda nos jornais e televisões,  deixando-nos a impressão de que anunciam sem ter o que vender. Para que esses anúncios? Estarão esperando que a opinião pública venha a engolir tais engodos?

         Já em 1994 eu assinalava que o regime das concessões nunca deu certo no Brasil,  onde as concessionárias só se moviam para atender a serviços da maior urgência à custa da elevação de tarifas, colocando sempre em segundo ou último lugar o  interesse público. As fiscalizações (como agora) não chegavam a funcionar. Os que seriam os fiscais ou se amoldavam aos interesses dos concessionários ou, quando independentes no cumprimento de seu dever, acabavam destituídos de suas funções ou totalmente desautorizados pelas decisões dos governantes.

         Lendo as notícias de aumento de tarifas, vendo na televisão propaganda enganosa e  sem finalidade explícita, acho que a opinião pública mais se irrita e mais exigirá uma  postura mais efetiva do Poder Legislativo. Se este se omitiu ou pouco participou na  criação desse sistema de concessões, ainda há tempo para uma revisão de toda essa  política conduzida pelo Executivo a toque de caixa, de forma irresponsável. A opinião  pública está ganhando corpo e força no Brasil. Não seria de admirar que venham a    surgir campanhas populares a favor de uma participação maior do nosso Poder  Legislativo. O tamanho do rombo que nos trouxe essa política de privatizações não  pode ficar impune. Se isso acontecer, a história nos condenará à classificação de  população passiva, incapaz de lutar por seus interesses e de conquistar o respeito das  gerações futuras. Por tudo isso, é urgente e vital que o Legislativo assuma o seu papel  histórico e comece logo criando uma CPI para as privatizações.
     

    Barbosa Lima Sobrinho

    Efeitos da globalização no cidadão comum


    Artigo do Jornalista Carlos Chagas

    Nada melhor do que imagens comparativas. No passado, elas se chamavam parábolas. Fazem a gente entender as coisas. Já pensava assim, dois mil anos atrás, um rebelde cabeludo disposto a mudar o mundo.

    Um cidadão comum da classe média, funcionário público, depois de muito esforço conseguiu comprar sua casinha no subúrbio, com um pequeno jardim na frente, um quintal atrás, três quartos, uma sala com sofá e cristaleira bem arrumada, cozinha e banheiro. Tinha um fusca velho, mais para levar a mulher ao supermercado e os filhos para passear aos domingos do que para ir trabalhar todos os dias, o que fazia de metrô.

    No futuro aumentaria a casa, construindo um quartinho nos fundos para a filha mais velha prestes a casar. Foi quando tudo mudou. A televisão só falava numa tal de globalização, que começava na internacionalização das comunicações, nas meteóricas aplicações de capital e no paraíso que seria a vida de todos.

    O nosso cidadão entusiasmou-se e pediu inscrição no clube globalizante. Valeria a pena tentar beneficiar-se daquelas vantagens a que, diziam os comentaristas econômicos, todos teriam acesso irreversível. Não demorou muito e recebeu a visita de corretores da "Globalização Sociedade Anônima", entre parabéns, tapinhas na barriga e votos de prosperidade permanente.

    Primeiro, é claro, ele deveria inserir-se no novo contexto: precisaria cumprir algumas exigências para logo depois tornar-se dono de uma Mercedes, trocar a casinha por um palacete, viver de rendas, passear pela Europa duas vezes por ano. Sem titubear, assinou montes de contratos e ficou aguardando.

    No dia seguinte apareceram alguns gringos que, sem a menor cerimônia, apoderaram-se do quintal e lá começaram a erigir um hotel, proibindo-o de ultrapassar a porta da cozinha. Exigiram que vendesse o computador, os aparelhos de televisão e de som e até jogo de copos de cristal, presente de casamento de uma tia rica. O necessário era fazer capital. Do dinheiro da venda não viu um centavo, aceitando ainda que deveria pagar juros sobre a aplicação, até que ela começasse a render.

    Passaram a usar a cozinha, depois a sala, dois quartos e o banheiro. Não tinham muita educação, gritavam e obrigavam a mulher a fazer café e preparar-lhes as refeições. Depois de uma semana proibiram a família de também utilizar aquelas dependências. A globalização impunha a internacionalização, mas só para eles, que detinham seu controle.

    Um deles, mais ousado, passou a morar no quarto da filha mais velha, a noiva, com ela dentro. Os pimpolhos deixaram o colégio particular, pois era necessário fazer caixa, sacrificar-se, ainda que por enquanto só para pagar os serviços da dívida.

    E desgraçaram-lhe a vida

    Os meninos foram mandados para a esquina mais próxima, com flanelinhas nas mãos, obrigados a trazer a receita apurada, que ia direto para os cofres globalizantes. O diabo é que nem podiam freqüentar a escola pública ali na pracinha: ela estava abandonada, uma exigência imposta ao subúrbio inteiro, que também aderira ao modelo.

    Estudar, só para quem pudesse pagar, e eles ainda não podiam, naquele período de esforço para integrar-se à Nova Ordem. O Mercedes não aparecia mas o fusca sumiu, também empenhado na operação.

    Impossibilitado de ir trabalhar, sem dinheiro, tendo perdido o emprego público por conta da extinção do metrô, declarado antieconômico, passou a receber gêneros alimentícios dos gringos. Perdeu o jardim, onde instalaram vasta parafernália para pesquisar petróleo.

    Um mês depois os corretores apresentaram as contas: se não encontrasse recursos para continuar pagando os juros e participando dos investimentos já feitos, perderia o que havia aplicado e teria de abandonar a casa. Restava ao cidadão, para continuar sócio do hotel e do poço, assinar contratos, tornando-se escravo-proprietário da "Globalização Sociedade Anônima".

    A empresa adquiria o direito de enviá-lo para trabalhos forçados onde bem entendesse, encarregado de lavar ruas, limpar latrinas e empurrar carroças. Foi quando ele parou para pensar, reuniu-se com os vizinhos, todos na mesma situação, e concluíram: estavam na miséria. Na manhã seguinte esperaram a chegada dos gringos, enfiaram todos num buraco de prospecção de petróleo e taparam com terra. Estava encerrado o ciclo da globalização. Só que teriam de recomeçar, reconquistando tudo o que tinham perdido.

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